sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ora (direis) beijar galinhas

          Ainda grogue do furdunço outrora conhecido como tríduo momesco, o qual de uns tempos para cá está mais para novena desvairada, retomamos a rotina com mais um item do cardápio de curiosidades deste planeta improvável. Não sem antes homenagear o poeta Olavo Bilac, que sobreviveu ao desprezo dos modernistas, por escrito ou declamado, entre outras nas formosas linhas do soneto XIII de seu livro Via Láctea - “Ora (direis) ouvir estrelas, certo perdeste o senso”. Pois, na esteira do finado Parnasianismo brasileiro, ainda é oportuno parodiar Bilac no título desta crônica. Afinal, em matéria de insensatez, comparado com beijar galinhas ouvir estrelas é pinto (queiram perdoar).
          A historinha não é delírio de vosso amado cronista, muito menos “feiquiníus”, pois não somos de botar chifre em cabeça de ave. Foi noticiada numa de nossas fontes prediletas de esquisitices, Atlas Obscura. Lá consta ter o insuspeito Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apurado que, dentre cerca de um milhão de notificações de gastroenterites causadas anualmente pela bactéria Salmonella naquele país, vem aumentando o número de casos atribuídos à criação de galinhas no quintal da própria casa. E, pasmem, cerca de um quinto dos doentes nesse último grupo tinham, recentemente, abraçado ou beijado suas galinhas. Uma verdadeira epidemia de amor.
          Antes que o leitor rabugento implique com a crônica por, nas palavras dele não nossas, “perder tempo com diarréia de gringo”, é bom lembrar que tal flagelo pode ocorrer com qualquer um e é mais comum do que se pensa. Os casos graves que levam as pessoas aos hospitais são uma minoria mas, ainda assim, constituem um problema sério. Por aqui as estatísticas do Ministério da Saúde registram números muito menores do que nos EUA, mas não se sabe exatamente como se compara entre os dois países a fração de casos de gastroenterites por Salmonella que não são notificados.
          Seja como for, este telhado não comporta aspectos epidemiológicos das doenças transmitidas por alimentos. O que nos deixa de boca aberta é esse negócio de beijar galinhas, expressão que, no nosso tempo que já vai longe, tinha outro sentido…interrompemos nossa transmissão por recomendação expressa de nosso departamento jurídico. Como íamos dizendo é recomendável que, por mais afeto que um criador de galinhas caseiras tenha para com suas aves, abstenha-se de beijá-las ou abraçá-las por conta do risco de ser infectado. Isso porque a Salmonella é comum nas fezes de galinácios que, ao contrário de nossa combalida espécie, são resistentes a doenças transmitidas por aquelas bactérias. Os microorganismos acabam se espalhando na poeira em torno das aves e ficam só esperando uma mão amiga para catapultá-las para um de nós. O CDC americano também recomenda abster-se da prática comum de dar pintinhos vivos de presente para crianças. É tão bonitinho, né? Mas acontece que pintos em geral tem mais chance ainda de carregar Salmonella nos seus corpinhos amarelinhos, que cabem aqui na minha mão, na minha mão.
          Então taí, gente boa. Não faremos deste espaço campo de batalha entre Parnasianos e Modernistas, mas deixaremos por hoje, para nossa imensa platéia, o conselho de abolir, junto às simpáticas e comestíveis aves, arroubos como o retumbante brado de Bilac - “E eu vos direi: amai para entendê-las!”. Ou pelo menos, se for irresistível, amai vossas galinhas vivas a uma certa distância.

Rafael Linden

          

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Pimenta na ópera dos outros não arde

          O ofício de cronista amador tem altos e baixos. Se por um lado frustra-nos a distância astronômica que nos separa de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e outros bambas do gênero, por outro a consciência de nossa desimportância permite escarafunchar qualquer porcaria que valha uma crônica. Afinal nenhum jornal, muito menos a Internet, nos paga pelo crime de lesa-literatura que cometemos regularmente. E, se ainda há quem acompanhou o texto até esta linha, já podemos nos dizer mais lidos do que muita gente por aí. Queiram então reclinar seus assentos e relaxar, pois o garimpo habitual rendeu um par de reportagens curiosas sobre um nobilíssimo gênero musical.
          Uma notícia veio do portal Atlas Obscura, que ofereceu acesso a pedacinhos da ópera “espacial” Rigel 9, composta pelo músico britânico David Bedford para um libretto escrito por uma autora norte-americana chamada Ursula Le Guin. O texto que acompanha as gravações de uns poucos compassos foi escrito poucos dias após o falecimento de Ursula, a qual, ali aprendemos, foi muito conceituada e premiada no campo da ficção científica e literatura fantástica. As amostras não nos animam a buscar a obra completa no serviço de música digital Spotify, já que em matéria de ópera limitamo-nos, em geral, a apreciar certas overtures e uma ou outra ária. É bem verdade que, há quase uma década, encantamo-nos com uma bela apresentação de Fausto, de Gounod e Berlioz, na Ópera Lírica de Chicago. Porém, no dia seguinte nos deu muito mais prazer o jazz tocado em um clube próximo ao hotel. Ainda assim nenhum cronista que se preze, mesmo um tanto operafóbico, consegue resistir à segunda notícia.
          Trata esta de uma ópera bufa do século XIX que atraiu multidões a teatros nos Estados Unidos. Composta por um certo George Chadwick para um libretto de Robert Barnet, a peça é intitulada “Tabasco: uma ópera burlesca” e versa sobre – isso mesmo – um molho inventado nos EUA, feito à base de pimenta, também vendido em supermercados aqui mesmo no Brasil. Ora vejam, em meio ao espectro operístico que vai do trágico de Madame Butterfly ao cômico do Barbeiro de Sevilha, não é de arrepiar dar de cara com uma ópera dedicada a um condimento? Pois tal assunto foi tratado com a maior seriedade pelo respeitável portal do Smithsonian Institute, entre outras razões por conta do trabalho insano de reconstituição da partitura pelo maestro Paul Mauffray.
          “Tabasco…” é ambientada em uma ilha próxima à costa mediterrânea da Tunísia, e conta a história de um Paxá enfurecido com um jantar insosso que lhe foi servido. Quando isso acontece, o potentado costuma punir seus cozinheiros decapitando-os a golpes de cimitarra. Instado a resolver o problema de uma vez por todas, um ministro salva-se à custa de um irlandês que finge ser um chef francês, capaz de produzir iguarias deliciosas temperadas com um elixir mágico. Esse último não passa do molho de pimenta da marca Tabasco. Este palpitante enredo é decorado com uma historinha de amor entre uma jovem escravizada para servir no harém do Paxá e um marinheiro que planeja salvá-la daquela humilhação e desposá-la. Fofo, não?
          Pois, com esse libretto que oscila entre o inusitado e o ridículo, não apenas a opereta fazia enorme sucesso por volta de 1894, quando foi composta, como a New Orleans Opera topou bancar o projeto do maestro Mauffray e apresentou quatro sessões de “Tabasco…” no final de janeiro de 2018. Com casa lotada e elogios dos críticos. Tenho dúvidas sobre a chance de outras companhias repetirem a façanha, já que Nova Orleans é mesmo uma cidade sui generis para os EUA, com seu caráter cosmopolita, tradições marcantes, comida picante e estilo próprio. Assim como muitas heroínas das óperas mais famosas, a cidade é sofrida, tendo sido em boa parte reconstruída depois da trágica passagem do furacão Katrina em 2005. A fábrica principal dos produtos Tabasco persiste até hoje no sul da Louisiana, a cerca de duzentos quilômetros de Nova Orleans, um lugar que parece mesmo perfeito para sediar a ressurreição de uma ópera bufa.
          Portanto, caros leitores, da próxima vez que resolverem temperar sua comida com um bom Tabasco, lembrem-se de que estão lubrificando prosaicas salsichas com a inspiração de uma ópera. Sugiro que, a título de homenagem, cantarolem ao menos o trechinho que aí vai, traduzido para o idioma de Camões e Zeca Pagodinho: “…comprem-me temperos, os preços estão baixos, canela de Zanzibar, aqui está a pimenta do Ceilão, pepinos e tomates frescos, cebolas de Bermuda…”. Acreditem, tudo isso consta de versos originais da música devidamente interpretada por sopranos, contraltos, tenores e baixos, vestidos a caráter e, é claro, compenetrados como em qualquer outra ópera.
          Numa hora dessas, imagino amantes do bel canto bufando de indignação pela ousadia do maestro Mauffray. Vislumbro faces desfiguradas e vermelhas como se tivessem subitamente ingerido um punhado das temíveis pimentas Dragon’s Breath. Não bastasse o que para muitos já é o insulto de uma ópera “espacial” dedicada a um planeta imaginário, ainda aparece um molho, encontrado em lanchonetes furrecas espalhadas por aí, elevado ao pedestal em que reina o sofrimento de Floria Tosca, Violetta Valéry ou Cio-Cio-San.


Rafael Linden

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Michelangelo vai às compras

          A semana começou com uma cerimônia de premiação de cinema e televisão nos Estados Unidos, cujo tom foi dado pela campanha internacional contra o assédio sexual e pelo empoderamento das mulheres em todos os níveis. De início deliciemo-nos com o termo “empoderamento”, com sorte criar-se-á alguma polêmica linguística entre nossos leitores. Pois há na internet quem garanta que a palavra, que traduz do inglês o substantivo empowerment, foi criada por Paulo Freire e está em dicionários badalados como o Aurélio e o Houaiss. Cá no telhado, lamentavelmente, não consta do Houaiss, nem do dicionário etimológico da língua portuguesa de Antonio Geraldo da Cunha, nem do vocabulário ortográfico do mesmo autor, todos editados mais de uma década após a morte do educador citado como inventor do neologismo. A palavra sequer dá as caras no portal do vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras! Mesmo assim, como um dia já escrevemos impunemente uma crônica sobre “espertofones”, fica o empoderado pelo não-empoderado e vamos em frente.
          Ainda antes que vosso amado cronista passe do introito ao busílis, advertimos que o longo e tenebroso primeiro parágrafo está lá para justificar nossa cautelosa atribuição ao leitor rabugento, e não à gentil leitora, de mil histórias sobre visitas ao supermercado, desde a importância de comparar preços - como está a carestia, né? -, até o encontro com alguma celebridade disfarçada com óculos escuros, peruca e outros adereços. A cautela nos foi aconselhada pelo departamento jurídico do blogue, por motivos óbvios. Só então revelamos que a presente obra prima da literatura mundial versa sobre lista de compras.
          Numa hora dessas, nos vem à mente um genial filme alemão - quase todo falado em inglês – de 1989, chamado “Rosalie vai às compras”. É uma hilariante sátira do consumismo, ambientada numa cidadezinha do interior de Arkansas, nos EUA, e magistralmente interpretada pelo elenco encabeçado pela atriz Marianne Sagerbrecht. Embora Rosalie, a personagem principal, tivesse compulsão por compras de todos os tipos, uma de suas manias era encher carrinhos de supermercado com iguarias variadas, tais como um bagre gigantesco ou uma cabeça de porco, além de montanhas de ingredientes destinados a prover sua numerosa família com refeições pantagruélicas, preparadas por um dos filhos que sonhava tornar-se um chef.
          Assim, pelos habituais caminhos tortos, finalmente honraremos o título da crônica. Na verdade nosso texto trata de um curto artigo encontrado num portal de reportagens não usuais, quando não francamente esdrúxulas, denominado Atlas Obscura. Lá, na categoria raridades, encontra-se a lista de compras de ninguém menos do que o toscano Michelangelo Buonarroti, uma das maiores figuras da história da arte universal, autor das esculturas de David e da Pietà, bem como da maravilhosa pintura do teto da Capela Sistina, entre muitas outras obras. Sim senhora, uma prosaica lista de compras, autêntica. E de um objeto criado por ninguém menos, naturalmente se espera nada menos. De fato, a lista vem decorada com desenhos feitos pelo artista, ilustrando os acepipes que, presume-se, teria ele mandado um servo analfabeto buscar no mercado da cidade. A lista com os desenhos foi rabiscada no verso de uma carta e sua sobrevivência é surpreendente, já que Michelangelo teria destruído ou mandado destruir quase todos os seus documentos provisórios, incluindo os esquemas originais de suas obras. Consta que o artista era um homem solitário, melancólico e de hábitos extremamente modestos. Sua propalada frugalidade, no entanto, não combina com a opulência do banquete que a lista de compras sugere, na qual se encontram os nomes e respectivos desenhos de pães, peixes, saladas, raviolis e vinhos em profusão. Coerente com a data da carta, o pacote compunha um belo cardápio de Páscoa, no melhor estilo da nobreza toscana da época.
          Pois é, galera, até mesmo um gênio das artes precisa comer de vez em quando. Não é à toa que, nessa estranha Renascença contemporânea que vem ressuscitando tantas coisas que achávamos devidamente enterradas no lixo da História, celebridade no supermercado é assunto sério nas redes sociais. Lá abundam flagrantes de “famosos” empurrando carrinhos, escolhendo frutas e legumes, examinando estantes de guloseimas e, nos intervalos, posando para selfies com funcionários do estabelecimento. A propósito, por que cargas d’água estivemos a polemizar com “empoderamento” e ainda não apareceu um Paulo Freire para traduzir selfie? Seja como for, uma rápida busca mostrou incontáveis instantâneos de membros de duplas sertanejas, suas ocasionais namoradas curvilíneas e sorridentes, atores atrozes e atrizes atópicas de cinema, teatro ou televisão, políticos do bem e do mal, e outros ícones das páginas de inutilidades jornalísticas. Uns se vestem como para uma ocasião de gala, outros ostentam roupas cuidadosamente desleixadas, as quais nossas avós sequer usariam para tirar o pó da mesinha de cabeceira. As fotos são acompanhadas de legendas palpitantes sobre o cardápio da casa do fulano, o segredo da maciez da cútis da sicraninha, a gracinha que ficou a beltrana dentro do carrinho empurrado por seu eterno amor, ou a simpatia cativante da celebridade que se mistura alegremente com os eufóricos circunstantes. Tem até página do fêice criada exclusivamente para emoldurar gente televisiva fazendo compras em um determinado estabelecimento. Nesse clima, será que a lista de compras de Michelangelo ainda tem alguma chance de bombar na rede?
            O tempora, o mores…


Rafael Linden


domingo, 24 de dezembro de 2017

A fúrcula do peru

          Às favas a modéstia! Faz bem à autoestima acreditar que, da gentil leitora ao leitor rabugento, nosso numerosíssimo fã-clube padecia de saudade do vosso cronista predileto. Perdoai-nos, queridíssima(o)s leitora(e)s, por quase um ano de afastamento, mergulhados que estivemos na azáfama que se tornou avassaladora neste malfadado 2017. Os mais afoitos se agitam na cadeira, demandando explicações e escusas. Debalde. Vamos ao que interessa.
          Sim, senhora, o assunto é aquele mesmo lá de cima. E, malgrado a desconfiança de que este que vos escreve perdeu definitivamente a compostura, mais uma vez não é nada daquilo que vocês estão pensando. Estamos em plena semana Natalina e o peru no caso é a ave. Já a fúrcula, que leva o Juquinha às gargalhadas, nada mais é do que o “ossinho do peito, ou da sorte”, formado pela fusão das duas clavículas, a qual, ao fim do tradicional banquete serve de pretexto para uma batalha épica. Dois contendores puxam, cada um para um lado, as hastes da forquilha devidamente despida de qualquer resto de saborosa carne. Quando o osso se parte, a família entusiasmada proclama vencedor quem fica com o pedaço maior, tido como símbolo de boa sorte. A Internet, impiedosa, acrescenta a nosso inesgotável cabedal de cultura inútil a preciosa informação de que, além das aves, também exibiam fúrculas os dinossauros terópodes, que incluiam os temidos Tyranossauros. Taí, eu gostaria de ver dois cidadãos batalhando para ver quem fica com o pedaço maior da fúrcula de um Tyranossauro, depois de uma lauta refeição.
          Não deixa de ser irônico que a palavra “fúrcula” seja o diminutivo de furca, que em Latim significa forca. Essa última dificilmente se quebrava quando algum incauto se via condenado a balouçar ao vento pendurado por uma corda no pescoço. Vai ver a rapaziada achou que quebrar a fúrcula é um gesto simbólico, capaz de nos livrar de enforcamentos físicos ou metafóricos. Faz sentido. Provavelmente não é verdade. Afinal, pouca coisa que existe atualmente por aí faz sentido, e vice-versa.
          Nesta altura, a simpática leitora boceja e se pergunta por que razão teria dado uma olhadinha neste texto que, aparentemente, não vai a lugar algum. Assim, para aliviar o sofrimento dos fidelíssimos frequentadores deste espaço que, doravante, ressurgirá com a incomparável elegância de sempre, daremos fim a esta crônica, cujo único objetivo foi servir de pretexto para falar de peru e desejar, a todos e todas que tiveram paciência suficiente para chegar até aqui, um Feliz Natal.
          Daqui do telhado, promessa é dívida. Voltaremos em breve!


Rafael Linden

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O bistrô dos arqueólogos

          Depois do desvario gastronômico das festas de Natal e da virada, não há nada melhor para começar o novo ano do que uma boa crônica sobre…como disse, minha senhora? “Boa” seria um milagre natalino? Tá bem, vá lá, uma crônica. Como de hábito a motivação vem do noticiário, temperada com uma pitada do nosso delírio indispensável para diluir a fieira de tragédias do cotidiano. Isto posto, é hora de falar de batatas.
          Por que não tomates, pergunta o rabugento. Pois falemos destes também. A gentil leitora pondera que uma manteiguinha por cima cairia bem com a batata assada, mas é rudemente interrompida pelo rabugento que, por sua vez, não dispensa um gratinado com queijo ralado no topo dos tubérculos. O marombeiro acrescenta que gosta mesmo é de muita proteína e pergunta se não vai junto um filé mal passado ou um belo peixe frito. Por fim manifesta-se o Juquinha, de olho na sobremesa que, é claro, há de ter chocolate. Menu completo, calam-se todos à espera do convite para jantar. Nada feito. Trata-se de Ciência. Coisa mais fora de moda, comentam certos políticos às gargalhadas, a ponto de sufocar com as baforadas de seus caríssimos charutos Gurkha Black Dragon ou afogar-se em legítimo uísque escocês, poucos minutos depois de gualdripar a verba pública para aplicá-la generosamente no bem-estar daqueles com quem compartilham a privada.
          Arre égua, está difícil bem-humorar sem digressionar. Não obstante, fá-lo-emos – oba, mesóclise! - pois esse blogue é para relaxar mesmo. Dizíamos, então, que era hora de batatas, mas acedemos às súplicas de nossos fiéis leitores e acrescentamos outros ingredientes, já que há uma fartura de descobertas arqueológicas de comida velha. Velha mesmo, fora da validade, bem mais do que aquele leite em pó que a senhora quase levou do supermercado, mas descobriu a tempo e passou uma descompostura no gerente. Muito velha mesmo, milênios além da validade, que tal?
          Arqueólogos cansados de desenterrar ruínas, efígies, armas e ossadas andam, com toda a razão, celebrando descobertas intrigantes sobre a alimentação de nossos antepassados. Às vezes trata-se de fezes petrificadas, como no badalado caso do palácio de um bispo dinamarquês do século XVII. Outras vezes a sorte lhes sorri e acham alimentos intactos. Agorinha mesmo foi noticiado que pesquisadores da Universidade da Pensilvania encontraram, na Argentina, dois exemplares de tomatillos, um primo do tomate. Diz a notícia que esses frutos são mais parecidos com cerejas do que com tomates, e que o gosto não é dos melhores, mas já dá uma satisfação ao rabugento. Só tem um detalhezinho, a datação dos tomatillos fossilizados foi estimada em mais de cinquenta milhões de anos. É possível que tenham passado da validade. Caso contrário, podem ser usados para fazer uma saladinha com dúzias de tipos distintos de frutos, legumes e grãos encontrados, junto com restos de ossos de animais e artefatos variados, por um grupo de cientistas de quatro Universidades israelenses. O achado foi em um sítio arqueológico de quase oitocentos mil anos de idade, localizado no vale do Rio Jordão, numa região que foi usada como corredor para a dispersão dos ancestrais dos humanos modernos a partir da África. Essa descoberta está fazendo sucesso, pois desafia a idéia de que naquela época a dieta era quase exclusivamente à base de proteina de origem animal. De fato, indícios do consumo de carnes são muito mais fáceis de encontrar do que das guarnições, já que ao longo de milhares de anos restos de ossos são, em geral, melhor preservados do que resíduos de vegetais e não fazem justiça à variedade de acompanhamentos das refeições de antanho.
          Voltando às batatas, pesquisadores canadenses descobriram, na região da Colúmbia Britânica, uma estrutura de pedras organizadas de modo a delimitar um espaço contendo mais de três mil exemplares de um tipo de batata, chamada wapato – pronuncia-se “uápatuu”. A wapato é o tubérculo da raiz de uma planta com folhas em formato de ponta de seta, que cresce e floresce em locais pantanosos e costuma servir de alimento para patos, daí seu outro nome duck potato. É nativa do noroeste das Américas, e foi também naturalizada em muitos países da Europa, mas em alguns é considerada uma praga. E o que há de interessante nisso se, só no Peru, existem três mil e oitocentas variedades de batatas? É que o tal sítio arqueológico tem quase quatro mil anos e, embora haja relatos documentados de jardins muito mais antigos no Egito, o “parquinho das batatas” é celebrado como a mais antiga estrutura artificial encontrada em uma escavação, que parece verdadeiramente destinada à produção de um alimento. A construção do cercadinho foi feita com pedras de formato regular, muitas das quais aparentemente moldadas a fogo, e contém pontas de lanças que podem ter sido usadas para cavucar o fundo de forma a soltar os tubérculos, que é o jeito de fazer flutuarem as wapato. Isso é um sinal claro de que o jardinzinho pantanoso foi propositalmente destinado à alimentação humana. Para os interessados, no Youtube há vídeos nos quais exímios naturebas mostram como colher wapato e garantem que a batatinha é comestível quando devidamente assada.
          De quebra, podemos acrescentar um aglomerado de manteiga maior do que uma bola de basquete, desenterrado de um pântano na Irlanda, e cuja idade foi estimada em dois mil anos. As reportagens dizem que a tal manteiga ainda seria comestível, porém de nossa parte não há a menor intenção de experimentar a iguaria. Ainda assim enriquece o menu, assim como os restos de queijo torrrado identificados no fundo de um pote com três mil anos de idade, que foi encontrado na península da Jutlândia, em território da Dinamarca.
          Juntando tudo isso já dá para preparar uma batatas gratinadas no forno de pedra de mil e seiscentos anos de idade, que o arqueólogio Bob Dawe encontrou em 1990 na encosta de um morro na provínicia de Alberta, no Canadá. Recentemente o trambolho foi cuidadosamente transportado para o Museu de Alberta para ser examinado, e Dawe acha que lá dentro há uma refeição completa, que estaria assando quando foi abandonada às pressas, quiçá porque algum invasor botou o cozinheiro para correr. O cientista crê que pode haver nesse forno um belo bife de bisão, o qual cairia bem com batatas gratinadas e uma saladinha. Já para os que não comem carne vermelha, sempre se pode fritar naquela manteiga irlandesa os restos de peixes de água doce que pesquisadores de Universidades britânicas encontraram em potinhos desenterrados de um sítio arqueológico com mais de seis mil anos de idade. Essa descoberta também foi considerada muito importante, por indicar que mesmo quando nossos ancestrais sairam do estágio de caçadores-coletores para inaugurar a agricultura e a pecuária, não deixaram de pescar seus peixinhos.
          E assim, o menu do bistrô está quase completo, com exceção da sobremesa do Juquinha. Mas o guri ficará feliz em saber que, diferente da idéia de que antes da invasão espanhola o cacau era usado na América Central apenas para preparar bebidas, cientistas do Instituto Nacional de Antropologia e História do México encontraram na península de Yucatán traços de cacau em um prato de dois mil e quinhentos anos de idade, o que sugere o uso antiquíssimo de um “molho de chocolate” numa refeição sólida. Coisa essa que faz parte da culinária mexicana até hoje, com seus moles poblanos que acompanham carnes variadas. Daqui ouvimos o garoto reclamar que isso não tem nada a ver com a torta de chocolate da vovó ou o brownie da titia, mas foi o que se pode arranjar. Quem sabe em breve não será descoberta, em algum sítio arqueológico nos Alpes ou esquecida num canto de um depósito do Laténium de Neuchâtel, uma barra inteira do melhor chocolate suíço com mais de dois mil anos de idade, esperando apenas ser catalogada por um cientista guloso.
          Bon apétit.


Rafael Linden