sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

As neves do Rio de Janeiro


          Na manhã do dia 25 de dezembro de 2012, flocos branco finos cairam do céu sobre vários bairros do Centro e da Zona Sul do Rio de Janeiro. Dias depois, a Secretaria do Meio Ambiente, o Centro de Operações, o Corpo de Bombeiros, o Comando da Aeronáutica e os meteorologistas ainda não tinham conseguido explicar o fenômeno, nem identificar a composição da fuligem branca. Então, na placidez do telhado do qual tudo vejo e no qual tudo entendo, ofereço-vos a explicação definitiva do misterioso evento. É simples: no dia de Natal nevou sobre a classe média da Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O último a sair


          Há poucos dias completou quarenta anos desde que o astronauta norte-americano Eugene “Gene” Cernan subiu de volta a escadinha do módulo lunar da missão Apollo 17 e tornou-se o último ser humano a pisar no solo da Lua. Que se saiba...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Aves do paraíso


          A revista National Geographic de dezembro trouxe uma reportagem assinada por Mel White e, para começo de conversa, deixem-me esclarecer que não se trata do televangelista de biografia muito peculiar, porém irrelevante para nossa crônica, que aparece preferencialmente na pesquisa deste nome no Google ou na Wikipedia. O Mel White que nos interessa aqui é um escritor que já publicou vários livros sobre parques nacionais norte-americanos e, principalmente, sobre pássaros do mundo inteiro.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Realidade aumentada


          O jornalista Will Oremus publicou, na revista eletrônica Slate, um comentário sobre novas engenhocas para realidade aumentada. Este termo é usado para designar um sistema que integra a observação de pessoas, objetos e cenários do mundo real com a visualização simultânea de informações virtuais, desde textos e gráficos a desenhos animados (por exemplo, “Uma cilada para Roger Rabbit”) ou seres fictícios de diversas formas e cores (como “Avatar”).

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Como explicar a lágrima


          Nada melhor do que uma boa controvérsia, né? Então, comecemos pelo samba “Não tenho lágrimas”, de Max Bulhões, composto em 1937. É aquele que foi gravado até pelo Nat King Cole com um baita sotaque, e diz ” Quero chorar, não tenho lágrimas, que me rolem na face pra me socorrer...”. Segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, há dúvidas se o co-autor da canção foi de fato Milton de Oliveira, como consta oficialmente, ou se parte da obra foi vendida por Wilson Batista a Milton, que só figura na parceria porque era um mestre da auto-promoção e conseguiu a gravação pela RCA Victor. Mas o assunto aqui não é o samba inteiro, e sim um de seus mais belos versos, que diz “A lágrima sentida é o retrato de uma dor”.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Voltar a Paris*


          Por duas décadas remoeu a lembrança do romance intenso, embora breve, que o acaso lhe oferecera ao viajar para se aperfeiçoar na nova profissão. Foi logo após diplomar-se em Praga, sua cidade natal. Tinha, então, vinte e dois anos, receava o choque com a cultura norte-americana, mas achou que ficaria confortável em Nova Orleans. Parecia-lhe um balneário francês à beira do Golfo do México. Sua tranquilidade acabou no terceiro dia, quando Sônia, uma bela e insinuante carioca, dez anos mais velha que ele, invadiu-lhe a vida como uma flecha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Terra à vista


          Esta semana o blog foi salvo, mais uma vez, pela revista eletrônica do Smithsonian Institute. Não porque não houvesse assunto em pencas por aí, mas porque quase tudo era triste demais para uma crônica leve. Felizmente, achei um jeito de deixar os infortúnios para os sisudos. Escrevo, pois, sobre a aparente descoberta de um novo planeta com características semelhantes às da Terra e, possívelmente, habitável.

sábado, 3 de novembro de 2012

Vampiros contemporâneos


          Não sou fã de histórias de vampiros. Porém, como já devem ter notado meus raros leitores, aprecio coisas as mais diversas e não pude ignorar o texto de Jimmy Stamp, há poucos dias, em seu blog Designer decoded na revista eletrônica do Smithsonian Institute. Jimmy é arquiteto e designer e escreve, em geral, sobre assuntos relativos a desenho industrial e iconografia. Desta vez ele comentou a origem da vestimenta característica do Conde Drácula. Mais uma vez, peço-lhes paciência. Não parece, mas o assunto é interessante. Leiam até o final e creio que alguma coisa há de lhes agradar.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Como explicar a Lua


          Dentre tantas perguntas que desafiam o engenho e a arte dos cientistas há a questão do surgimento da Lua. Não do seu nascimento diário no horizonte ao por do sol, cuja explicação se aprende na escola, mas sim, de como ela surgiu em algum momento da longa história do Universo. Admito que dificilmente um casal de namorados, em sã consciência, perguntaria tal coisa durante um passeio ao luar. Pois, acreditem, a resposta pode ser mais poética do que se pensa.

sábado, 20 de outubro de 2012

Camundongos cantores


          Faz tempo os biólogos estudam os mecanismos do canto nas aves. Por exemplo, o cientista Fernando Nottebohm, um argentino radicado em Nova Iorque e professor da Universidade Rockefeller fez, há muitos anos, descobertas notáveis sobre a relação entre o aprendizado do canto de pássaros e os circuitos cerebrais, bem como sobre o papel da geração de novas células nervosas em animais maduros. Mas pássaro cantar não é novidade. Já camundongo cantar é outra história.

sábado, 13 de outubro de 2012

Poucas palavras, outra vez


          Há algum tempo escrevi, aqui no telhado, um texto (Poucas palavras*), sobre um “microconto” apócrifo, de apenas seis palavras, atribuído a Ernst Hemingway. Declarei minha admiração por quem, em texto tão curto, consegue provocar uma história distinta na cabeça de cada leitor.

sábado, 6 de outubro de 2012

Mistérios da Gioconda


          Há uma expectativa de que, finalmente, tenha sido encontrado o esqueleto da mulher que serviu de modelo a Leonardo da Vinci para pintar a Mona Lisa. Como cientista, faço votos de que o trabalho dos arqueólogos italianos seja bem sucedido. Mas, honestamente, não estou lá muito feliz com isso.

sábado, 29 de setembro de 2012

Cabines automáticas


          O jornal britânico The Guardian relatou que foi instalado um templo automático na Universidade de Manchester, na Inglaterra, dentro de uma cabine que, anteriormente, servia para tirar fotografias para documentos. Agora, em vez de escolher o formato três por quatro ou o tamanho passaporte, ajeitar o cabelo, olhar em frente e apertar o botão, a gentil leitora poderá entrar, sentar-se numa daquelas desconfortabilíssimas cadeiras que, em geral, se acha nestes cubículos e, numa tela sensível a toque, escolher uma prece para ouvir dentre trezentas orações gravadas em sessenta e cinco línguas. A geringonça ganhou o nome de Pray-o-mat, algo assim como “Rezamático”.

sábado, 22 de setembro de 2012

Lembra?


          Uma tirinha do cartum Doonesbury, criado por Garry Trudeau, mostra dois estudantes universitários conversando. Um deles pergunta: “Você lembra daquele dia em que nós tiramos a roupa e passamos correndo, aos berros, pela cafeteria dos professores?”. O outro responde: “Nós nunca fizemos isso!”. E o primeiro retruca: “Um dia nós vamos achar que fizemos...”.

sábado, 15 de setembro de 2012

O prato do dia


          Uma gripe me deixou de molho em casa. Justo no dia da faxineira. Acabou meu sossego e ainda vou ter de aturar uma estranha. Nunca vi a cara da moça, que chegou há menos de um mês do interior. Foi minha mulher que entrevistou, decidiu e contratou. E, logo hoje, Adriana saiu mais cedo para o trabalho, antes da Felismina chegar.

sábado, 8 de setembro de 2012

Incomodada ficava sua neta


          Há tempos, um anúncio de absorvente íntimo, criado pela agência Lage Magy para enfatizar a modernidade do produto, popularizou o bordão “Incomodada ficava sua avó”. Pois, a revista eletrônica do Smithsonian Institute publicou um comentário da jornalista Helen Fields sobre estudos científicos que comprovam vantagens do envelhecimento. E não é que os pesquisadores estão, cada vez mais, demonstrando empiricamente que isso existe?!...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O cachorro e a roupa lavada

          Sabe aquela historinha da criança que perguntou à mãe por que, em vez de ter um trabalhão para dar banho no cãozinho e ainda levar uma chuva de respingos, não botava o bicho na máquina de lavar? Pois, cientistas do Instituto Tecnológico da Georgia, nos EUA, filmaram com câmeras de alta velocidade vários bichos peludos, incluindo cinco raças diferentes de cachorros e concluiram que esses animais, assim como camundongos ou ursos, são capazes de se livrar de setenta por cento da água em uma fração de segundo, com aquelas sacudidelas que eles dão quando encharcados.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A parábola do nono filho

          Gildásio tinha um telescópio meio troncho, mas não tirava os olhos do céu. Ficava concentrado no espaço sideral, desde a hora em que a Estrela Dalva aparecia até Etelvina soltar os cachorros. “Homem, larga esta porcaria e vem deitar, diabo dos infernos!”. Sabe-se lá de que jeito tiveram nove filhos, contando só os que vingaram.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O sorriso da Tara

          Não é nada do que você está pensando. A Tara do título não começa com letra maiúscula por alguma perversão do locutor que vos fala, É o nome de uma pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade do Kansas, que estuda emoções, estresse e...sorrisos.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

As cores do Imperador

          Há alguns anos passei por cirurgias para catarata, que é a perda de transparência do cristalino (a lente interna do olho), a qual ocorre com o avançar da idade ou, precocemente, em rapazolas como eu...Meus cristalinos opacos foram substituidos por lentes artificiais. Depois das cirurgias, a sensação mais marcante é a vivacidade das cores. As folhas da mangueira, em frente à minha varanda, nunca pareceram tão verdes. Mas, o que tem isso a ver com o imperador do título?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sete minutos

          Está programado para a madrugada de seis de agosto próximo, às duas e meia no horário de Brasilia, o pouso do laboratório científico Curiosity na superfície de Marte, dando início a uma nova etapa da exploração deste planeta. O laboratório é um veículo de seis rodas com numerosos instrumentos para coletar, analisar e enviar informações sobre amostras de material do planeta vermelho. Um dos principais objetivos desta missão é confirmar, ou ao menos reforçar, os indícios de existência de água por lá e, como se sabe, água em outro planeta é sempre motivo de comemoração e especulação, sem falar na proliferação de historietas de marcianos e abduções interplanetárias...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Fora daqui!

          Foi o que uma galáxia disse para um buraco negro. Foi isso que li no jornal. Ou quase isso. O fato é que cientistas detectaram indícios de que um buraco negro está sendo expulso de uma galáxia. Não se assuste. Relaxe e tenha um pouquinho de paciência. Até eu, que não entendo bulhufas de Astrofísica, consigo explicar.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Uma calcinha

          Há alguns anos, a pesquisadora Beatrix Nutz, da Universidade de Innsbruck descobriu, em meio a outros itens de vestuário emparedados no segundo andar de um castelo no Tirol, uma calcinha que veio a ser datada de 1480. Diz-se que a atribuição de tal data foi objeto de feroz polêmica, que só foi resolvida, há poucos meses, com o emprego de alta tecnologia. Então, na falta de coisa melhor, aqui vai uma modesta contribuição à história dos eventos que culminaram no insólito achado do que, atualmente, se festeja como o mais antigo exemplar daquele importante apetrecho de moda íntima feminina.

sábado, 14 de julho de 2012

Os Beatles de cada um

          Os puristas dirão que os Quarry Men já existiam em 1957, que em 1960 já tinham sido Johnny and the Moondogs, Beatals, Silver Beetles, depois Silver Beatles, que no mesmo ano perderam o prateado e tornaram-se Beatles, e que em 1961 já tinham gravado faixas exclusivas entremeadas com acompanhamentos no disco Tony Sheridan and the beat brothers. Mas, com seus cabelos de cuia, quatro garotos ingleses só viraram os Beatles mesmo com a contratação pelo produtor George Martin (o "quinto Beatle"), a consolidação de Ringo Starr como baterista e o lançamento do compacto Love me do, tudo isso entre 6 de junho e 5 de outubro de 1962. Portanto, com  vossa licença, neste ano da graça de 2012 eu comemoro o cinquentenário dos Beatles. Quem quiser que conte outra.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Zoilos! Tremei!

          “Zoilos! Tremei! - Posteridade! És minha.” Talvez Peter Higgs, o cientista britânico que previu a existência do que alguns insistem em chamar de “partícula de Deus”, estivesse a murmurar este verso no dia 4 de julho de 2012. Naquela manhã ele assistiu, na sede da Organização Européia de Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra, à apresentação de fortes indícios experimentais da existência do “boson de Higgs”, a partícula elementar prevista por um conceito de Física formulado por ele há quase meio século.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

No meio do caminho tinha um gambá

          Ainda criança, decidi. Seria médico. Mas, no meio do caminho tinha um gambá. E eu virei um neurocientista.

sábado, 30 de junho de 2012

Lembra do Gerê?


- Êa, Seu Amadeu, há quanto tempo, vai de que?
- Cheguei de viagem, Baiano. Bota aí uma barriguda. Você lembra do Gerê?
- Lembro sim, o da boina vermelha, queimava o dente, subia na mesa e fazia discurso. Vinha com ele uns tribufus, vestidas como se não tivessem mãe, t’sconjuro, com aquelas batas de chita, tudo da Faculdade ali da esquina.
- Esse mesmo.
- Cum’era o troço dele, que capitalista era tudo uns porco, que só era barão quem roubava o poletra...
- Proletariado, Baiano. Era isso sim, ele estava enfiado na revolução até a raiz dos cabelos, porque isso tudo ia se acabar, seu Edgar...
- Ô, Seu Amadeu, eu sou o Baiano, Edgar é o patrão! E o senhor nem bebeu ainda!
- Não, rapaz, era uma peça do Oduval...deixa pra lá. Lembra que um dia ele sumiu? Pois foi pro Araguaia, queria botar os camponeses no poder, acabar com os capitalistas. Os ricos iam todos ser fuzilados ou, então, iam trabalhar na roça, que nem na China, não tinha essa de advogado, engenheiro. E todo mundo ia ficar feliz, porque iam acabar com o dinheiro, todos iam trabalhar igual e receber do governo tudo que precisassem, ninguém ia viver do trabalho de outro, porque o dinheiro era o pai de todos os males do Brasil, e o escambau.
- Taí, o Seu Edgar bem que podia dividir o batente comigo, em vez de passar o dia chaleirando a cozinheira. Ele é casado, o pilantra! Mas, e depois, que fim levou o Gerê?
- Pois então, estava eu lá no Pará, a trabalho, e quem me aparece na TV, de terno elegante, gravata italiana, bigode aparado e Rolex no pulso, fumando charuto e negando tudo o que dizem dele, porque ele não roubou nada da prefeitura, que é intriga da oposição, que o imposto de renda prova que ele é honesto? Quem? O Gerê, Baiano! O Gerê!
- Ôxe! Cumé que aquele molambento, que só tinha duas camisas quando saiu daqui, virou terno, gravata e charuto?
- Aí mostraram ele indo embora no banco de trás dum Mercedes novinho, com chofer de boné, bolinando duas louras boazudas cheias de jóias de ouro, de cegar de tanto brilho. E o reporter terminou dizendo que o, veja só, Co-men-da-dor Antonio Geremário ia responder a um processo, mas que, com a fortuna que tinha, dificilmente seria condenado.
- Vigessantíssima, logo ele, que gritava que tinha que acabar com os ricos, que era tudo ladrão, que o dinheiro não valia nada, só fazia as desgraças de todo mundo e num trazia felicidade!
- Pra você ver, Baiano. Agora traz.


Rafael Linden


quarta-feira, 27 de junho de 2012

O cronista

          Ainda estou atordoado. Se bem que já faz dois anos que Jango foi derrubado, e quase uma semana desde que cheguei ao sítio do tio de um amigo, que concordou em me abrigar enquanto metade de minha turma da faculdade é perseguida pelos órgãos de segurança. E agora?

sábado, 23 de junho de 2012

Meu terreninho na Lua


          Eu sou do tempo em que se dizia “Fulano vive no mundo da Lua!”, quando o referido cidadão era um sonhador, um distraído ou um maluco. Mudaram os tempos? Estará mais perto de se realizar o sonho de colonizar a Lua e, com isso, enfrentar a temida inviabilização da Terra?

sábado, 16 de junho de 2012

Sig, O Pasquim...e eu com isso?


          Morreu o jornalista e escritor Ivan Lessa, criador dos textos que acompanhavam o ratinho branco “Sig”, desenhado pelo cartunista Jaguar. O roedor debutou nos quadrinhos Chopnics, encarapitado no ombro do personagem BD (o “Capitão Ipanema”), alter ego de Hugo “Bidê” Leão de Castro, ator, humorista e um dos fundadores da Banda de Ipanema. O nome completo do Sig era...Sigmund Freud, é claro.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Concerto para oboé e mágoa


Resta o som plangente de um oboé, a me envolver na melodia triste do século XIX. Mas, de que serve a música dos mortos quando só tu brilhavas, viva e pulsante?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cada beijo


          Tem coisa melhor? Vá lá, depende. Mas é bom demais, né? Tá bom, depende também. Então, ficamos assim: cada beijo é um beijo. Há melhores, piores, mais gostosos ou menos, mais bonitos ou até grotescos, famosos ou anônimos, sinceros ou falsos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Metacrônica da incerteza

          Fui instigado por uma colega(1) a comentar, em um parágrafo, uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna. Ora essa, como se eu conseguisse me conter em um parágrafo ao ler um poeta e cronista de tamanha estatura...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Deslizador de canalhas

          Desta vez, a revista eletrônica do Smithsonian Institute publicou um artigo sobre uma recente invenção de cientistas do Instituto Tecnológico de Massachusetts, o renomado MIT. Trata-se de uma substância denominada LiquiGlide, algo assim como “deslizador de líquidos”. Antes de desistir deste texto, leia de novo o título e, acredite, chegarei lá.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Poucas palavras

           “Vende-se. Sapatos de bebê. Nunca usados.”
          Atribui-se estas poucas palavras a Ernest Hemingway, mas sem comprovação da autoria.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Triunfo da arte “menor”

          E o Prêmio Camões de 2012 foi concedido a Dalton Trevisan. Nos seus vinte e quatro anos de existência, pela primeira vez este prêmio, que distingue escritores de lingua portuguesa, é dado a um contista. Antes dele só romancistas, poetas e críticos literários.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Centro do Rio de Janeiro

          Na Rua da Carioca encontrava-se os músicos do regional Época de Ouro, comprando cordas de aço na Guitarra de Prata. E o Cinema Íris, hoje de péssima fama, antigamente de mal mesmo só causava rinite alérgica.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O passeio de Afrodite

     Um dos grandes encantos da vida e da arte é o mito de Afrodite, a divindade grega do amor e da beleza, cuja versão romana é Venus. A deusa tem uma dimensão literalmente astronômica, por exemplo, no evento celeste conhecido como trânsito de Venus.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Maestro

     Há tempos, um famoso maestro* comentou que "reger é transmitir o impulso musical através do gesto", uma metáfora adequada para as consequências das atitudes de alguém com ascendência sobre outros.

domingo, 6 de maio de 2012

Pinguins e Mandelas

          A revista eletrônica do Smithsonian Institute publicou um artigo excelente sobre pinguins africanos*. Não mude de canal, prometo que vai ficar interessante.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Quatro décadas de esquina

            Há quarenta anos saiu o long play “Clube da esquina”. Puxa, faz tanto tempo assim? Faz sim, pare de lamentar que não se faz mais bolacha preta e só se ouve emepetrês, de resmungar que não dá para apreciar direito a pujança da voz do Milton ou a sutileza dos arranjos do Wagner Tiso sem a agulha diamante original do seu toca-discos Grundig, que custou uma nota e está parado há anos. A vida é curta e não se deve perder tempo reclamando que o próprio passa.

sábado, 28 de abril de 2012

Como explicar lindos olhos

          “Mesmo assim, nunca poderei explicar os lindos olhos de uma bela mulher”. Assim concluiu sua conferência, aqui em Montevidéu, um brilhante cientista que, entre outras coisas, descobriu o gene que dispara o desenvolvimento dos olhos nos embriões de todos os animais, inclusive nosotros. Essa descoberta lhe permitiu formular uma hipótese unificada para a evolução dos olhos, um dos problemas que mais desafiaram Darwin na Origem das espécies*. Voltemos ao que interessa: como explicar lindos olhos?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Como encantar uma sereia

            Diz a lenda que até navios vão a pique quando o canto da sereia desatina o marujo. Sei lá, pelo que essas estórias revelam deve valer a pena. Triste é atravessar oceanos a granel e não ouvir ninguém cantar. Pior ainda é quando tudo que se escuta é ladainha de gaivotas famintas. Mas deve haver um jeito de encantar uma sereia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Autorretrato aos 60 anos*

          Nasceu em Botafogo, no sexto aniversário da bomba atômica de Hiroshima. Foi direto para São Cristóvão e, antes de 6 meses, já tinha voltado. Viveu tanto a vida na zona sul, que só achou o resto da cidade quando inventaram o GPS. Sempre jogou bola. Muito mal. Sempre se apaixonou pela meninas da vizinhança. Debalde.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O espalhamento da desordem*

          Há pouco mais de três anos o país assistiu pela TV, chocado, a cenas que mostraram voluntários e militares roubando donativos enviados às vítimas de chuvas torrenciais no Sul. Combinando justa indignação com razões bem fundamentadas, cientistas sociais e cidadãos comuns comentaram, naquela época, que a corrupção reinante no meio político brasileiro, aliada a um desgaste histórico de vínculos sociais, à prevalência do malfadado desejo de levar vantagem em tudo e à sensação de impunidade generalizada explicariam eventos como aquele.
          Patifarias de todos os tipos e tamanhos, em todos os setores da República, continuam a ocorrer e dominar as páginas dos veículos de comunicação. Apesar de não ser cientista social, uma leitura casual que fiz, na mesma semana do roubo dos donativos em Santa Catarina em 2008, chamou minha atenção e motivou um comentário enviado a uma publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)*. Lamentavelmente, continuo a crer que algo precisa ser acrescentado ao debate sobre as razões que alimentam a degradação ética, a corrupção e a impunidade que nos assolam e, por esta razão, reproduzo a seguir o restante do texto original. 

A banda*

            Aliás, era um conjunto. No final dos anos sessenta, banda tocava em coreto no interior. Um grupo de jovens cabeludos, empunhando guitarras, baixo elétrico e bateria era um con-jun-to. E como rock’n’roll, na época, era coisa “da década anterior”, tratava-se de um conjunto de iê-iê-iê.
            Três de Botafogo, vizinhos no Jardim Montevidéo, uma vila na Rua Real Grandeza bem em frente à Miranda Valverde, a cem metros de uma transversal onde morava (ai...) a Maria Helena. Eu era uma besta mesmo, ela era uns dez anos mais velha que eu, só saía comigo para tomar conta da Verinha, a irmã mais nova que namorava o Nêga, meu melhor amigo. Mas isso foi depois, em 1967 não tinha Maria Helena. Tinha o conjunto.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um cômodo

A sala de estar era o retrato da família. Com velas sempre acesas, antigos candelabros iluminavam a escadaria. Nos cantos armaduras medievais, nas paredes um machado, uma placa de madeira crivada de facas, um par de floretes, um bacamarte e máscaras rituais.

Dois sentidos

            Era uma deusa perdida em um carnaval improvável. A forma esguia, a fala graciosa, a pele macia. Os olhos coloridos de um castanho inédito. Um tom de voz grave, rouco, sensual, ao falar de si e do mundo.

Para que escrevo?

Para um cientista e professor, escrever é obrigatório. Minha especialidade requer a redação de projetos e a publicação de descobertas, interpretações de fenômenos naturais, inovações técnicas, comentários críticos, textos didáticos ou de divulgação. Nesta seara, a criatividade se exerce no laboratório de pesquisa, mas o texto é obrigatoriamente factual, objetivo e restrito pelo formalismo de métodos, resultados e contextualização, solidamente baseados em fatos e precedentes. A escrita científica não admite licença poética, invenção ou devaneio. Mas não renuncio à fantasia. 

Para sempre Montenegro

A musa passava em frente ao Veloso, na esquina da Montenegro com a Prudente de Morais e “Olha que coisa mais linda...”. Foi lá que Vinicius escreveu “Garota de Ipanema” na melodia de Tom. Eu então era criança, só ouvi dizer. Anos depois, era de lei encerrar o sábado naquele botequim. Eu, o Juca e o Sergio “Negão”, abreviado “Nêga”, quando não havia politicamente correto, só correto.
            Juca, o desenhista, era boa pinta. Um dia botou a cabeça para fora do meu Fusca e, com fé no bigode, alvejou a menina mais bonita na calçada da praia de Ipanema: “Ei, gatinha, vou lhe contar uma história linda igual a você...”. Ignorado, queixou-se: “Puxa, nem me deu bola. Orgulhosa...”. E como, ainda assim, não capturasse os olhos da presa, completou com admirável finesse: “Vai cair do orgulho e...dar com os córneos no chão!”. Hora de acelerar e sumir na direção do Arpoador: “Porra, Juca, vai ser grosso assim no inferno!”.

Árvore solitária

            Em março de 2011, um terremoto e um tsunami devastaram o nordeste do Japão, seguidos pelo vazamento de água contaminada de uma usina nuclear, que tornou inabitável uma parte da área afetada. Os eventos deixaram marcas profundas que comoveram o mundo. A destruição, o desespero dos desalojados e as consequências para o país foram reavivados no primeiro aniversário da tragédia.
            Uma imagem, amplamente divulgada pela mídia, marcou uma das cerimônias que lembraram o episódio. Na cidade de Rikuzentakata, dezenas de pessoas se reuniram em frente a um único pinheiro, que restou vivo em meio à vastidão da terra arrasada. A árvore tornara-se um símbolo de sobrevivência, da reação digna do povo japonês e da luta pela recuperação do país.
            Aquele pinheiro reforçou minha convicção de que sempre se pode achar um ponto de apoio em face das desventuras, maiores ou menores, individuais ou coletivas, recentes ou antigas e, quem sabe, as anunciadas. Lembrei-me de ter encontrado um destes fulcros em Berlim.

Chama o Guimarães!

            “Chama o Guimarães!!”, dizia um dos “Eduardos”, quando entrava em uma sala onde havia alguma algazarra. Ou quando dava tudo errado em um dos laboratórios que dividia com o outro “Eduardo”. “Os Eduardos”, como eram conhecidos no Instituto de Biofísica, eram os Professores Eduardo Oswaldo Cruz e Carlos Eduardo Rocha Miranda, neurobiologistas, o último dos quais foi meu orientador da iniciação científica ao doutorado. A “algazarra” era o bate-papo em voz alta, entremeado com gargalhadas, que vez por outra disparava na sala dos estudantes, ou onde quer que houvesse mais de um de nós, todos na faixa dos 18 aos 25 anos de idade, o último quartil da adolescência segundo alguns. E o “Guimarães”...era o Magalhães.
            O Magalhães era, desde sempre, porteiro da Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha. Estava sempre lá quando chegávamos para as aulas - “Bom dia, “Seu” Magalhães!”, “Bom dia, meu filho” - e lá ficava durante todo o horário do expediente regular. Quem não ficava no prédio ao final das aulas sempre o encontrava na saída: “Até amanhã, Seu Magalhães!”, “Até amanhã, meu filho”.
            Mas isso só passava a acontecer depois do vexame inicial a que eram submetidos os calouros. Ignorantes, ingênuos, embasbacados com a nobreza e imponência do prédio, ansiosos por nos integrar àquele ambiente que cobiçáramos tanto até a aprovação no vestibular, éramos presa fácil da cara-de-pau dos veteranos.
            “Calooooouro! Presta atenção! Aquele senhor do outro lado do pátio é o Diretor da Faculdade! É o Professor Magalhães! Muito respeito com ele, viu?!”. E, enquanto os veteranos se afastavam prendendo o riso, lá íamos nós cumprimentar o Magalhães com a devida deferência: “Bom dia, Doutor Magalhães”. Durava um ou dois dias, no máximo, até que alguma alma piedosa nos avisasse do logro e passase a ser “Seu” Magalhães. Mas só mudava o pronome de tratamento, pois era uma época em que, malgrado a rebeldia generalizada, quase obrigatória, ainda se respeitava os mais velhos.
            E o trote sempre funcionava, pois ninguém duvidaria que o Magalhães pudesse ser o Diretor da Faculdade. Baixinho, a cabeleira branca cuidadosamente penteada, óculos de aro fino, estava sempre de terno e gravata, empinado e garboso. Quando se vê uma fotografia daquele tempo, em que Magalhães divide a cena com professores da Faculdade ele é, invariavelmente, o mais elegante. O que mais tinha cara, jeito e fatiota de Diretor. Exceto por Clementino Fraga Filho, José Lopes Pontes, que de fato o foram, e mais um ou outro em dias bons. E, se Diretor não era, fazia as vezes de bedel, chamando atenção quando nos comportávamos perto dele como os adolescentes que éramos.
            E o “Guimarães”? Eduardo contava que, desde seu tempo de estudante ali mesmo na Praia Vermelha, o Magalhães se enfurecia quando, por pura molecagem, alguém o chamava de Guimarães. Não sei como, algum dos estudantes descobrira essa idiossincrasia, a história se espalhou e cristalizou no folclore da Faculdade. Era, diziam, o método mais eficaz, talvez o único, para tirar o Magalhães do sério.
            Havia, portanto, a variante do trote em que um veterano convencia um calouro de que ali estava o Diretor da Faculdade, o Professor Guimarães. Ao primeiro “Bom dia, Doutor Guimarães”, lá se ia a pose e ecoava pelo saguão, corredores e adjacências, o brado retumbante: “Guimarães é a p%$#@ que o p#@riu!!!!!”...

Rafael Linden

Aguiar e o Shazam

           Na Praia Vermelha, um prédio de 1918 abrigava a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Nos imponentes anfiteatros ouvia-se pefeitamente a voz dos professores, quiséssemos ou não, de qualquer das fileiras geralmente lotadas com mais de trezentos alunos. Por volta de mil novecentos e setenta, um claustro arborizado servia, entre as aulas, de moldura para infindáveis reuniões, conspirações e resistência à ditadura militar. Além, naturalmente, de flertes e conquistas, que a esquerda, ora essa, não era de ferro...
            Faltava pouco para a mudança da Faculdade para a Ilha do Fundão, o que explicava um certo desleixo com a manutenção do velho prédio. Os auditórios, salas de aulas práticas e laboratórios decaíam a olhos vistos. As instalações elétricas eram um escândalo. Debaixo de uma escada um ventilador, ligado o dia todo, refrescava um quadro de força literalmente em brasa. Os bancos da Pracinha Vermelha, como era conhecido o centro do jardim interno, estavam quebrados e mal aguentavam os numerosos alunos que ali se aglomeravam nos convescotes diários.
            A administração desdenhava do edifício, premida pela crônica falta de recursos agravada pela iminência do abandono final. Um homem, porém, tinha a missão de cuidar daquele prédio quando as portas se fechavam: Aguiar, o caseiro. Moreno, baixinho, sempre com a barba por fazer encimada por óculos de fundo de garrafa, todos os dias abria, de manhã cedo, e fechava, no fim da tarde, o pesado portão da entrada lateral, que ficava de frente para o bandejão e por onde transitavam os frequentadores da Faculdade.
            Durante o dia Aguiar passeava pelos corredores, zelando pelo patrimônio, dando jeitinhos e quebrando galhos, em meio a conversas eventuais com a rapaziada. De noite, vez por outra a campainha o convocava a abrir o portão para saída ou entrada de algum cientista ou estudante que tinha o que fazer nos laboratórios de pesquisa, poucos então, situados no interior do prédio. Era meu caso, estagiário que era do Instituto de Biofísica e membro da turma do sereno de um projeto no qual minhas atividades começavam por volta das onze da noite e terminavam lá pelas seis da manhã. Durante algum tempo Aguiar abria e fechava o portão para mim. Depois, subi na vida e passei a integrar um seleto grupo que tinha a chave e, assim, podia entrar e sair livremente sem importunar o caseiro. Junto comigo, no turno da noite, trabalhava um argentino de nome aristocrático, Francisco Maria de Monastério, que cursava a pós-graduação. Para os íntimos era o Chico.
            Nosso último personagem era o Shazam: um vira-latas preto que fora salvo de um atropelamento pelos monitores de Técnica Operatória, os quais cuidaram dos ferimentos, consertaram-lhe mais ou menos a pata quebrada e arranjaram-lhe uma caixa de papelão onde convalesceu e voltou a fazer suas cachorrices, para orgulho dos aprendizes de cirurgião e gáudio dos calouros. Esperto, Shazam achou mais seguro ficar por ali mesmo em vez de arriscar-se em meio ao trânsito das adjacências. Aguiar, que alimentara o cão durante o pós-operatório, acabou por adotá-lo. Daí para a frente, aonde ia o Aguiar lá ia o Shazam, manquejando, alguns passos atrás, tal qual uma obediente esposa japonesa. O cão não era lá muito útil e ignoro o que faria frente a algum ladrão, mas completava o quadro. Raramente se incomodava quando algum conhecido, como eu mesmo, entrava no prédio tarde da noite. Aproximava-se, farejava a identidade do visitante, registrava a ocorrência nos miolos e voltava para a porta da moradia do Aguiar. Já com o Chico era diferente.
            Antes de minha chegada ao laboratório, o argentino já estava lá e trabalhava até altas horas. Conta-se que, certa noite, pouco depois de recuperar-se do atropelamento, Shazam deu de cara com o Chico num corredor deserto da Faculdade. Nacionalista convicto, o cão partiu para a briga disposto a vingar a última bordoada que o zagueiro portenho Labruña dera no Maurinho, ponta-direita da seleção canarinho na Copa Roca de 1957. E deu-se mal. Chico incorporou o truculento beque central rubro-negro Tomires e tascou-lhe um pontapé nos quartos, que atirou o cão a uma distância segura. Pênalti indiscutível, que só o juiz não viu.
            A partir deste dia, Shazam não podia farejar o Chico. Desandava a latir furiosamente e, por valentia ou imprudência, atacava de novo. O fato é que, invariavelmente, a trilha sonora da entrada do argentino no prédio da Praia Vermelha consistia de latidos, grunhidos e palavrões, esses últimos em castelhano, acompanhados de correrias grotescas e cenas lamentáveis de pugilato homem-cão. Eu preferia entrar sòzinho.
            Depois da terceira ou quarta vez, Aguiar desistiu de sair de casa em disparada, de pijama, para ver o que estava acontecendo. Resignou-se e, que se dane, deixou que Shazam e Chico resolvessem sua pendenga por eles mesmos.
            E assim era a rotina, ao menos uma noite por semana, no velho casarão da Praia Vermelha. Enquanto Universidades no primeiro mundo tinham uma brigada de segurança para proteger o patrimônio, nós tínhamos Aguiar e o Shazam.

Rafael  Linden

Rejuvenescer

            Especialistas concluiram que a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, é uns dez anos mais nova do que se pensava. A paisagem ao fundo do quadro teria sido baseada em desenhos feitos depois da data que era atribuída à pintura. É certo que o ano exato em que o gênio produziu sua obra mais famosa importa para a história da arte. E o que mais?

O jacaré


            Dizem que era lenda, mas sou testemunha. O jacaré que vivia no porão do velho prédio da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha, existiu.
            Não nasceu lá, é claro. Foi trazido do Pantanal, ainda filhote, pelo eminente cientista Aristides Leão para estudar seu cérebro. Seu, dele, jacaré. Isso foi no início dos anos 70, portanto não perguntem pela licença do IBAMA, que só foi fundado quase vinte anos depois. O fato é que o réptil escafedeu-se da jaula em que estava preso nas proximidades de seu laboratório. Seu, dele, Professor Leão. Jacareziou-se no porão do prédio e várias expedições de captura foram inúteis.
            Como sói acontecer, reinava o deboche. "Ei, quer dizer que o leão perdeu o jacaré? Chama o Jim das Selvas...". Quem acreditava tentava explicar: "Não é um jacarééééé, é um filhote, é de verdade, era para pesquisa, não, não mordeu ninguém, só sumiu, outro dia alguém deu com ele numa das entradas do porão e os dois fugiram assustados, cada qual para um lado, não, eu nunca vi, mas é o que se diz".
            Até que, um dia, um técnico de laboratório que, além de habilidoso, era valente o bastante para encarar um jacaré, foi chamado por volta de meio dia: "- Raymundo, vem depressa que o bicho está lá fora pertinho do alojamento!!". E lá veio o intimorato Mestre Raymundo Bernardes, carregando um pedaço de pau, um saco de aniagem e dois capangas, um dos quais Roberto que, assim como o Mestre, era meu colega de laboratório no Instituto de Biofísica. O alojamento da Casa do Estudante ficava encostado no Morro da Urca, atrás da Faculdade e separado desta por uma ruazinha estreita na qual alguns carros ficavam estacionados. Era visível de dentro do bar do “Seu” Agostinho, onde arriscávamos diàriamente nossa saúde engolindo os artefatos fumegantes e irreconhecíveis perpetrados na cozinha do boteco. E lá estava eu almoçando quando a comitiva passou garbosamente por dentro do pé-sujo, entre os olhares irônicos da rapaziada, e saiu pela porta dos fundos rumo ao jacaré.
            Foi um frisson. Espremiam-se todos na porta do bar para assistir à caçada. Não se via nada, porque o alojamento ficava uns cinco metros acima do térreo da Faculdade e tinha um jardim avarandado na frente, que tapava o lugar onde fora visto o jacaré. Raymundo e sua tropa sumiram ali e alguns mais corajosos aproximaram-se um pouquinho para ver, mas naquele dia a estudantada súbitamente passou a crer e, prudentemente, a temer o jacaré. E já se dizia que o bicho estava enorme, mais de dois metros, tinha que chamar a polícia, não a polícia não, que eles iam sentar a porrada era na gente mesmo, como de costume na época.
            Depois de uns vinte minutos nossos heróis reapareceram no topo do avarandado, segurando o saco de aniagem com a fera dentro. A galera continuava ansiosa porém, aos poucos, percebeu que o jacaré, em todo o tempo que passou sumido, continuava um jacarezinho. Mas, seja como for, cheio de dentes. Quer dizer, tudo isso imaginado, pois só restava, a nós covardes que ficamos a uma distância segura, advinhar o bicho ensacado, firmemente imobilizado por seus captores. Outra força de expressão, pois quem segurava no duro era o Mestre Raymundo. Os outros dois faziam figuração, pálidos e contidos apenas pela expectativa de que a mulherada estivesse a suspirar cá embaixo.
            De repente, deu-se a rabanada. O jacaré, num último esforço em busca da liberdade, chacoalhou o rabo, ou o que parecia se-lo por baixo da aniagem, uma só vez. Mas foi o bastante para meu intrépido amigo Roberto levar o maior susto de sua vida e, adiós muchachos, saltar do avarandado por cima de um fusca, aterrissando - sabe-se lá de que jeito - incólume no asfalto da ruazinha. Foi delirantemente aplaudido pela platéia, que perdeu o jacaré mas ganhou outro assunto. Roberto, um dos líderes estudantis da Faculdade, era muito popular e respeitado por seu ativismo no tempo da ditadura. Infelizmente, o susto arranhou um pouco seu prestígio. Mestre Raymundo, às gargalhadas, continuou segurando o jacaré, sem ajuda de ninguém.
            E assim terminou a história do jacaré do Professor Aristides. Pensando bem, não sei que fim levou o bicho depois deste episódio rocambolesco. Eu mesmo nunca o vi em pessoa, mas presenciei a rabanada do saco de aniagem e sua consequência e, por isso, dou fé e registro como verídica esta coisa toda.

Rafael Linden

As águas calmas da Urca

            Na minha infância, todo fim de semana de verão incluia um par de horas na pequena praia em meia-lua, em frente ao antigo Cassino da Urca que, então, já sediava a TV Tupi. Mar quase sem ondas e, naquela época, raros banhistas numa faixa de areia limpa, que me parecia imensa com seus parcos cem metros. Meu pai era bom nadador e chegara minha vez de aprender.
Antes das oito já estávamos na água. A brandura do sol poupava nossas peles claríssimas. Ele mostrava, eu imitava. Logo consegui acompanhá-lo em ousadas aventuras, na verdade limitadas a minúsculas incursões mar adentro.
De volta à areia, mordicando o infalível picolé, tinha meus olhos fixos na Baía da Guanabara. Imaginava navios robustos, portos acolhedores em terras estranhas. Eu me via timoneiro, singrando mares revoltos e desembarcando vitorioso em lugares exóticos, um mundo inteiro à minha espera. Quem teria coragem de desiludir um menino em êxtase, explicando que a cidadela ao longe era apenas o Morro da Viúva, do outro lado da Enseada de Botafogo?

Adoniran

           Ele entrava no botequim cantando sua versão do Trem das Onze: "- Quás, quás, quás, dá um traguinho dum, duru-dum-dum!". Daí o apelido, pois o nome ninguém sabia. Às onze da manhã, já mal se equilibrava num colchão de ar que flutuava ali pela Rua Real Grandeza. Quando faltava, a esposa do Almirante perguntava ao jornaleiro: "- Ô Jarbas, cadê Adoniran? Faz dois dias que sumiu, aconteceu alguma coisa?". "- Não esquenta, Dona Leontina, ele é de ferro. Cachaça não enferruja, né? Ha, ha!". Dia seguinte, lá estava o Adoniran, trôpego, tirando o chapéu imundo para as senhoras. Era patrimônio do bairro, sustentado pela generosidade pública.
            As beatas tinham-lhe horror, mas só oficialmente. Rezavam por ele na Matriz, até porque o bebum lhes era útil. "- Viu, meu filho, se você desobedecer seus pais e não estudar, vai acabar feito o Senhor Adoniran!". Tratamento respeitoso para um ícone do desvio, exemplo bem a calhar para educar a filharada. Mal sabiam.