sábado, 28 de abril de 2012

Como explicar lindos olhos

          “Mesmo assim, nunca poderei explicar os lindos olhos de uma bela mulher”. Assim concluiu sua conferência, aqui em Montevidéu, um brilhante cientista que, entre outras coisas, descobriu o gene que dispara o desenvolvimento dos olhos nos embriões de todos os animais, inclusive nosotros. Essa descoberta lhe permitiu formular uma hipótese unificada para a evolução dos olhos, um dos problemas que mais desafiaram Darwin na Origem das espécies*. Voltemos ao que interessa: como explicar lindos olhos?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Como encantar uma sereia

            Diz a lenda que até navios vão a pique quando o canto da sereia desatina o marujo. Sei lá, pelo que essas estórias revelam deve valer a pena. Triste é atravessar oceanos a granel e não ouvir ninguém cantar. Pior ainda é quando tudo que se escuta é ladainha de gaivotas famintas. Mas deve haver um jeito de encantar uma sereia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Autorretrato aos 60 anos*

          Nasceu em Botafogo, no sexto aniversário da bomba atômica de Hiroshima. Foi direto para São Cristóvão e, antes de 6 meses, já tinha voltado. Viveu tanto a vida na zona sul, que só achou o resto da cidade quando inventaram o GPS. Sempre jogou bola. Muito mal. Sempre se apaixonou pela meninas da vizinhança. Debalde.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O espalhamento da desordem*

          Há pouco mais de três anos o país assistiu pela TV, chocado, a cenas que mostraram voluntários e militares roubando donativos enviados às vítimas de chuvas torrenciais no Sul. Combinando justa indignação com razões bem fundamentadas, cientistas sociais e cidadãos comuns comentaram, naquela época, que a corrupção reinante no meio político brasileiro, aliada a um desgaste histórico de vínculos sociais, à prevalência do malfadado desejo de levar vantagem em tudo e à sensação de impunidade generalizada explicariam eventos como aquele.
          Patifarias de todos os tipos e tamanhos, em todos os setores da República, continuam a ocorrer e dominar as páginas dos veículos de comunicação. Apesar de não ser cientista social, uma leitura casual que fiz, na mesma semana do roubo dos donativos em Santa Catarina em 2008, chamou minha atenção e motivou um comentário enviado a uma publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)*. Lamentavelmente, continuo a crer que algo precisa ser acrescentado ao debate sobre as razões que alimentam a degradação ética, a corrupção e a impunidade que nos assolam e, por esta razão, reproduzo a seguir o restante do texto original. 

A banda*

            Aliás, era um conjunto. No final dos anos sessenta, banda tocava em coreto no interior. Um grupo de jovens cabeludos, empunhando guitarras, baixo elétrico e bateria era um con-jun-to. E como rock’n’roll, na época, era coisa “da década anterior”, tratava-se de um conjunto de iê-iê-iê.
            Três de Botafogo, vizinhos no Jardim Montevidéo, uma vila na Rua Real Grandeza bem em frente à Miranda Valverde, a cem metros de uma transversal onde morava (ai...) a Maria Helena. Eu era uma besta mesmo, ela era uns dez anos mais velha que eu, só saía comigo para tomar conta da Verinha, a irmã mais nova que namorava o Nêga, meu melhor amigo. Mas isso foi depois, em 1967 não tinha Maria Helena. Tinha o conjunto.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um cômodo

A sala de estar era o retrato da família. Com velas sempre acesas, antigos candelabros iluminavam a escadaria. Nos cantos armaduras medievais, nas paredes um machado, uma placa de madeira crivada de facas, um par de floretes, um bacamarte e máscaras rituais.

Dois sentidos

            Era uma deusa perdida em um carnaval improvável. A forma esguia, a fala graciosa, a pele macia. Os olhos coloridos de um castanho inédito. Um tom de voz grave, rouco, sensual, ao falar de si e do mundo.

Para que escrevo?

Para um cientista e professor, escrever é obrigatório. Minha especialidade requer a redação de projetos e a publicação de descobertas, interpretações de fenômenos naturais, inovações técnicas, comentários críticos, textos didáticos ou de divulgação. Nesta seara, a criatividade se exerce no laboratório de pesquisa, mas o texto é obrigatoriamente factual, objetivo e restrito pelo formalismo de métodos, resultados e contextualização, solidamente baseados em fatos e precedentes. A escrita científica não admite licença poética, invenção ou devaneio. Mas não renuncio à fantasia. 

Para sempre Montenegro

A musa passava em frente ao Veloso, na esquina da Montenegro com a Prudente de Morais e “Olha que coisa mais linda...”. Foi lá que Vinicius escreveu “Garota de Ipanema” na melodia de Tom. Eu então era criança, só ouvi dizer. Anos depois, era de lei encerrar o sábado naquele botequim. Eu, o Juca e o Sergio “Negão”, abreviado “Nêga”, quando não havia politicamente correto, só correto.
            Juca, o desenhista, era boa pinta. Um dia botou a cabeça para fora do meu Fusca e, com fé no bigode, alvejou a menina mais bonita na calçada da praia de Ipanema: “Ei, gatinha, vou lhe contar uma história linda igual a você...”. Ignorado, queixou-se: “Puxa, nem me deu bola. Orgulhosa...”. E como, ainda assim, não capturasse os olhos da presa, completou com admirável finesse: “Vai cair do orgulho e...dar com os córneos no chão!”. Hora de acelerar e sumir na direção do Arpoador: “Porra, Juca, vai ser grosso assim no inferno!”.

Árvore solitária

            Em março de 2011, um terremoto e um tsunami devastaram o nordeste do Japão, seguidos pelo vazamento de água contaminada de uma usina nuclear, que tornou inabitável uma parte da área afetada. Os eventos deixaram marcas profundas que comoveram o mundo. A destruição, o desespero dos desalojados e as consequências para o país foram reavivados no primeiro aniversário da tragédia.
            Uma imagem, amplamente divulgada pela mídia, marcou uma das cerimônias que lembraram o episódio. Na cidade de Rikuzentakata, dezenas de pessoas se reuniram em frente a um único pinheiro, que restou vivo em meio à vastidão da terra arrasada. A árvore tornara-se um símbolo de sobrevivência, da reação digna do povo japonês e da luta pela recuperação do país.
            Aquele pinheiro reforçou minha convicção de que sempre se pode achar um ponto de apoio em face das desventuras, maiores ou menores, individuais ou coletivas, recentes ou antigas e, quem sabe, as anunciadas. Lembrei-me de ter encontrado um destes fulcros em Berlim.

Chama o Guimarães!

            “Chama o Guimarães!!”, dizia um dos “Eduardos”, quando entrava em uma sala onde havia alguma algazarra. Ou quando dava tudo errado em um dos laboratórios que dividia com o outro “Eduardo”. “Os Eduardos”, como eram conhecidos no Instituto de Biofísica, eram os Professores Eduardo Oswaldo Cruz e Carlos Eduardo Rocha Miranda, neurobiologistas, o último dos quais foi meu orientador da iniciação científica ao doutorado. A “algazarra” era o bate-papo em voz alta, entremeado com gargalhadas, que vez por outra disparava na sala dos estudantes, ou onde quer que houvesse mais de um de nós, todos na faixa dos 18 aos 25 anos de idade, o último quartil da adolescência segundo alguns. E o “Guimarães”...era o Magalhães.
            O Magalhães era, desde sempre, porteiro da Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha. Estava sempre lá quando chegávamos para as aulas - “Bom dia, “Seu” Magalhães!”, “Bom dia, meu filho” - e lá ficava durante todo o horário do expediente regular. Quem não ficava no prédio ao final das aulas sempre o encontrava na saída: “Até amanhã, Seu Magalhães!”, “Até amanhã, meu filho”.
            Mas isso só passava a acontecer depois do vexame inicial a que eram submetidos os calouros. Ignorantes, ingênuos, embasbacados com a nobreza e imponência do prédio, ansiosos por nos integrar àquele ambiente que cobiçáramos tanto até a aprovação no vestibular, éramos presa fácil da cara-de-pau dos veteranos.
            “Calooooouro! Presta atenção! Aquele senhor do outro lado do pátio é o Diretor da Faculdade! É o Professor Magalhães! Muito respeito com ele, viu?!”. E, enquanto os veteranos se afastavam prendendo o riso, lá íamos nós cumprimentar o Magalhães com a devida deferência: “Bom dia, Doutor Magalhães”. Durava um ou dois dias, no máximo, até que alguma alma piedosa nos avisasse do logro e passase a ser “Seu” Magalhães. Mas só mudava o pronome de tratamento, pois era uma época em que, malgrado a rebeldia generalizada, quase obrigatória, ainda se respeitava os mais velhos.
            E o trote sempre funcionava, pois ninguém duvidaria que o Magalhães pudesse ser o Diretor da Faculdade. Baixinho, a cabeleira branca cuidadosamente penteada, óculos de aro fino, estava sempre de terno e gravata, empinado e garboso. Quando se vê uma fotografia daquele tempo, em que Magalhães divide a cena com professores da Faculdade ele é, invariavelmente, o mais elegante. O que mais tinha cara, jeito e fatiota de Diretor. Exceto por Clementino Fraga Filho, José Lopes Pontes, que de fato o foram, e mais um ou outro em dias bons. E, se Diretor não era, fazia as vezes de bedel, chamando atenção quando nos comportávamos perto dele como os adolescentes que éramos.
            E o “Guimarães”? Eduardo contava que, desde seu tempo de estudante ali mesmo na Praia Vermelha, o Magalhães se enfurecia quando, por pura molecagem, alguém o chamava de Guimarães. Não sei como, algum dos estudantes descobrira essa idiossincrasia, a história se espalhou e cristalizou no folclore da Faculdade. Era, diziam, o método mais eficaz, talvez o único, para tirar o Magalhães do sério.
            Havia, portanto, a variante do trote em que um veterano convencia um calouro de que ali estava o Diretor da Faculdade, o Professor Guimarães. Ao primeiro “Bom dia, Doutor Guimarães”, lá se ia a pose e ecoava pelo saguão, corredores e adjacências, o brado retumbante: “Guimarães é a p%$#@ que o p#@riu!!!!!”...

Rafael Linden

Aguiar e o Shazam

           Na Praia Vermelha, um prédio de 1918 abrigava a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Nos imponentes anfiteatros ouvia-se pefeitamente a voz dos professores, quiséssemos ou não, de qualquer das fileiras geralmente lotadas com mais de trezentos alunos. Por volta de mil novecentos e setenta, um claustro arborizado servia, entre as aulas, de moldura para infindáveis reuniões, conspirações e resistência à ditadura militar. Além, naturalmente, de flertes e conquistas, que a esquerda, ora essa, não era de ferro...
            Faltava pouco para a mudança da Faculdade para a Ilha do Fundão, o que explicava um certo desleixo com a manutenção do velho prédio. Os auditórios, salas de aulas práticas e laboratórios decaíam a olhos vistos. As instalações elétricas eram um escândalo. Debaixo de uma escada um ventilador, ligado o dia todo, refrescava um quadro de força literalmente em brasa. Os bancos da Pracinha Vermelha, como era conhecido o centro do jardim interno, estavam quebrados e mal aguentavam os numerosos alunos que ali se aglomeravam nos convescotes diários.
            A administração desdenhava do edifício, premida pela crônica falta de recursos agravada pela iminência do abandono final. Um homem, porém, tinha a missão de cuidar daquele prédio quando as portas se fechavam: Aguiar, o caseiro. Moreno, baixinho, sempre com a barba por fazer encimada por óculos de fundo de garrafa, todos os dias abria, de manhã cedo, e fechava, no fim da tarde, o pesado portão da entrada lateral, que ficava de frente para o bandejão e por onde transitavam os frequentadores da Faculdade.
            Durante o dia Aguiar passeava pelos corredores, zelando pelo patrimônio, dando jeitinhos e quebrando galhos, em meio a conversas eventuais com a rapaziada. De noite, vez por outra a campainha o convocava a abrir o portão para saída ou entrada de algum cientista ou estudante que tinha o que fazer nos laboratórios de pesquisa, poucos então, situados no interior do prédio. Era meu caso, estagiário que era do Instituto de Biofísica e membro da turma do sereno de um projeto no qual minhas atividades começavam por volta das onze da noite e terminavam lá pelas seis da manhã. Durante algum tempo Aguiar abria e fechava o portão para mim. Depois, subi na vida e passei a integrar um seleto grupo que tinha a chave e, assim, podia entrar e sair livremente sem importunar o caseiro. Junto comigo, no turno da noite, trabalhava um argentino de nome aristocrático, Francisco Maria de Monastério, que cursava a pós-graduação. Para os íntimos era o Chico.
            Nosso último personagem era o Shazam: um vira-latas preto que fora salvo de um atropelamento pelos monitores de Técnica Operatória, os quais cuidaram dos ferimentos, consertaram-lhe mais ou menos a pata quebrada e arranjaram-lhe uma caixa de papelão onde convalesceu e voltou a fazer suas cachorrices, para orgulho dos aprendizes de cirurgião e gáudio dos calouros. Esperto, Shazam achou mais seguro ficar por ali mesmo em vez de arriscar-se em meio ao trânsito das adjacências. Aguiar, que alimentara o cão durante o pós-operatório, acabou por adotá-lo. Daí para a frente, aonde ia o Aguiar lá ia o Shazam, manquejando, alguns passos atrás, tal qual uma obediente esposa japonesa. O cão não era lá muito útil e ignoro o que faria frente a algum ladrão, mas completava o quadro. Raramente se incomodava quando algum conhecido, como eu mesmo, entrava no prédio tarde da noite. Aproximava-se, farejava a identidade do visitante, registrava a ocorrência nos miolos e voltava para a porta da moradia do Aguiar. Já com o Chico era diferente.
            Antes de minha chegada ao laboratório, o argentino já estava lá e trabalhava até altas horas. Conta-se que, certa noite, pouco depois de recuperar-se do atropelamento, Shazam deu de cara com o Chico num corredor deserto da Faculdade. Nacionalista convicto, o cão partiu para a briga disposto a vingar a última bordoada que o zagueiro portenho Labruña dera no Maurinho, ponta-direita da seleção canarinho na Copa Roca de 1957. E deu-se mal. Chico incorporou o truculento beque central rubro-negro Tomires e tascou-lhe um pontapé nos quartos, que atirou o cão a uma distância segura. Pênalti indiscutível, que só o juiz não viu.
            A partir deste dia, Shazam não podia farejar o Chico. Desandava a latir furiosamente e, por valentia ou imprudência, atacava de novo. O fato é que, invariavelmente, a trilha sonora da entrada do argentino no prédio da Praia Vermelha consistia de latidos, grunhidos e palavrões, esses últimos em castelhano, acompanhados de correrias grotescas e cenas lamentáveis de pugilato homem-cão. Eu preferia entrar sòzinho.
            Depois da terceira ou quarta vez, Aguiar desistiu de sair de casa em disparada, de pijama, para ver o que estava acontecendo. Resignou-se e, que se dane, deixou que Shazam e Chico resolvessem sua pendenga por eles mesmos.
            E assim era a rotina, ao menos uma noite por semana, no velho casarão da Praia Vermelha. Enquanto Universidades no primeiro mundo tinham uma brigada de segurança para proteger o patrimônio, nós tínhamos Aguiar e o Shazam.

Rafael  Linden

Rejuvenescer

            Especialistas concluiram que a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, é uns dez anos mais nova do que se pensava. A paisagem ao fundo do quadro teria sido baseada em desenhos feitos depois da data que era atribuída à pintura. É certo que o ano exato em que o gênio produziu sua obra mais famosa importa para a história da arte. E o que mais?

O jacaré


            Dizem que era lenda, mas sou testemunha. O jacaré que vivia no porão do velho prédio da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha, existiu.
            Não nasceu lá, é claro. Foi trazido do Pantanal, ainda filhote, pelo eminente cientista Aristides Leão para estudar seu cérebro. Seu, dele, jacaré. Isso foi no início dos anos 70, portanto não perguntem pela licença do IBAMA, que só foi fundado quase vinte anos depois. O fato é que o réptil escafedeu-se da jaula em que estava preso nas proximidades de seu laboratório. Seu, dele, Professor Leão. Jacareziou-se no porão do prédio e várias expedições de captura foram inúteis.
            Como sói acontecer, reinava o deboche. "Ei, quer dizer que o leão perdeu o jacaré? Chama o Jim das Selvas...". Quem acreditava tentava explicar: "Não é um jacarééééé, é um filhote, é de verdade, era para pesquisa, não, não mordeu ninguém, só sumiu, outro dia alguém deu com ele numa das entradas do porão e os dois fugiram assustados, cada qual para um lado, não, eu nunca vi, mas é o que se diz".
            Até que, um dia, um técnico de laboratório que, além de habilidoso, era valente o bastante para encarar um jacaré, foi chamado por volta de meio dia: "- Raymundo, vem depressa que o bicho está lá fora pertinho do alojamento!!". E lá veio o intimorato Mestre Raymundo Bernardes, carregando um pedaço de pau, um saco de aniagem e dois capangas, um dos quais Roberto que, assim como o Mestre, era meu colega de laboratório no Instituto de Biofísica. O alojamento da Casa do Estudante ficava encostado no Morro da Urca, atrás da Faculdade e separado desta por uma ruazinha estreita na qual alguns carros ficavam estacionados. Era visível de dentro do bar do “Seu” Agostinho, onde arriscávamos diàriamente nossa saúde engolindo os artefatos fumegantes e irreconhecíveis perpetrados na cozinha do boteco. E lá estava eu almoçando quando a comitiva passou garbosamente por dentro do pé-sujo, entre os olhares irônicos da rapaziada, e saiu pela porta dos fundos rumo ao jacaré.
            Foi um frisson. Espremiam-se todos na porta do bar para assistir à caçada. Não se via nada, porque o alojamento ficava uns cinco metros acima do térreo da Faculdade e tinha um jardim avarandado na frente, que tapava o lugar onde fora visto o jacaré. Raymundo e sua tropa sumiram ali e alguns mais corajosos aproximaram-se um pouquinho para ver, mas naquele dia a estudantada súbitamente passou a crer e, prudentemente, a temer o jacaré. E já se dizia que o bicho estava enorme, mais de dois metros, tinha que chamar a polícia, não a polícia não, que eles iam sentar a porrada era na gente mesmo, como de costume na época.
            Depois de uns vinte minutos nossos heróis reapareceram no topo do avarandado, segurando o saco de aniagem com a fera dentro. A galera continuava ansiosa porém, aos poucos, percebeu que o jacaré, em todo o tempo que passou sumido, continuava um jacarezinho. Mas, seja como for, cheio de dentes. Quer dizer, tudo isso imaginado, pois só restava, a nós covardes que ficamos a uma distância segura, advinhar o bicho ensacado, firmemente imobilizado por seus captores. Outra força de expressão, pois quem segurava no duro era o Mestre Raymundo. Os outros dois faziam figuração, pálidos e contidos apenas pela expectativa de que a mulherada estivesse a suspirar cá embaixo.
            De repente, deu-se a rabanada. O jacaré, num último esforço em busca da liberdade, chacoalhou o rabo, ou o que parecia se-lo por baixo da aniagem, uma só vez. Mas foi o bastante para meu intrépido amigo Roberto levar o maior susto de sua vida e, adiós muchachos, saltar do avarandado por cima de um fusca, aterrissando - sabe-se lá de que jeito - incólume no asfalto da ruazinha. Foi delirantemente aplaudido pela platéia, que perdeu o jacaré mas ganhou outro assunto. Roberto, um dos líderes estudantis da Faculdade, era muito popular e respeitado por seu ativismo no tempo da ditadura. Infelizmente, o susto arranhou um pouco seu prestígio. Mestre Raymundo, às gargalhadas, continuou segurando o jacaré, sem ajuda de ninguém.
            E assim terminou a história do jacaré do Professor Aristides. Pensando bem, não sei que fim levou o bicho depois deste episódio rocambolesco. Eu mesmo nunca o vi em pessoa, mas presenciei a rabanada do saco de aniagem e sua consequência e, por isso, dou fé e registro como verídica esta coisa toda.

Rafael Linden

As águas calmas da Urca

            Na minha infância, todo fim de semana de verão incluia um par de horas na pequena praia em meia-lua, em frente ao antigo Cassino da Urca que, então, já sediava a TV Tupi. Mar quase sem ondas e, naquela época, raros banhistas numa faixa de areia limpa, que me parecia imensa com seus parcos cem metros. Meu pai era bom nadador e chegara minha vez de aprender.
Antes das oito já estávamos na água. A brandura do sol poupava nossas peles claríssimas. Ele mostrava, eu imitava. Logo consegui acompanhá-lo em ousadas aventuras, na verdade limitadas a minúsculas incursões mar adentro.
De volta à areia, mordicando o infalível picolé, tinha meus olhos fixos na Baía da Guanabara. Imaginava navios robustos, portos acolhedores em terras estranhas. Eu me via timoneiro, singrando mares revoltos e desembarcando vitorioso em lugares exóticos, um mundo inteiro à minha espera. Quem teria coragem de desiludir um menino em êxtase, explicando que a cidadela ao longe era apenas o Morro da Viúva, do outro lado da Enseada de Botafogo?

Adoniran

           Ele entrava no botequim cantando sua versão do Trem das Onze: "- Quás, quás, quás, dá um traguinho dum, duru-dum-dum!". Daí o apelido, pois o nome ninguém sabia. Às onze da manhã, já mal se equilibrava num colchão de ar que flutuava ali pela Rua Real Grandeza. Quando faltava, a esposa do Almirante perguntava ao jornaleiro: "- Ô Jarbas, cadê Adoniran? Faz dois dias que sumiu, aconteceu alguma coisa?". "- Não esquenta, Dona Leontina, ele é de ferro. Cachaça não enferruja, né? Ha, ha!". Dia seguinte, lá estava o Adoniran, trôpego, tirando o chapéu imundo para as senhoras. Era patrimônio do bairro, sustentado pela generosidade pública.
            As beatas tinham-lhe horror, mas só oficialmente. Rezavam por ele na Matriz, até porque o bebum lhes era útil. "- Viu, meu filho, se você desobedecer seus pais e não estudar, vai acabar feito o Senhor Adoniran!". Tratamento respeitoso para um ícone do desvio, exemplo bem a calhar para educar a filharada. Mal sabiam.