sábado, 30 de junho de 2012

Lembra do Gerê?


- Êa, Seu Amadeu, há quanto tempo, vai de que?
- Cheguei de viagem, Baiano. Bota aí uma barriguda. Você lembra do Gerê?
- Lembro sim, o da boina vermelha, queimava o dente, subia na mesa e fazia discurso. Vinha com ele uns tribufus, vestidas como se não tivessem mãe, t’sconjuro, com aquelas batas de chita, tudo da Faculdade ali da esquina.
- Esse mesmo.
- Cum’era o troço dele, que capitalista era tudo uns porco, que só era barão quem roubava o poletra...
- Proletariado, Baiano. Era isso sim, ele estava enfiado na revolução até a raiz dos cabelos, porque isso tudo ia se acabar, seu Edgar...
- Ô, Seu Amadeu, eu sou o Baiano, Edgar é o patrão! E o senhor nem bebeu ainda!
- Não, rapaz, era uma peça do Oduval...deixa pra lá. Lembra que um dia ele sumiu? Pois foi pro Araguaia, queria botar os camponeses no poder, acabar com os capitalistas. Os ricos iam todos ser fuzilados ou, então, iam trabalhar na roça, que nem na China, não tinha essa de advogado, engenheiro. E todo mundo ia ficar feliz, porque iam acabar com o dinheiro, todos iam trabalhar igual e receber do governo tudo que precisassem, ninguém ia viver do trabalho de outro, porque o dinheiro era o pai de todos os males do Brasil, e o escambau.
- Taí, o Seu Edgar bem que podia dividir o batente comigo, em vez de passar o dia chaleirando a cozinheira. Ele é casado, o pilantra! Mas, e depois, que fim levou o Gerê?
- Pois então, estava eu lá no Pará, a trabalho, e quem me aparece na TV, de terno elegante, gravata italiana, bigode aparado e Rolex no pulso, fumando charuto e negando tudo o que dizem dele, porque ele não roubou nada da prefeitura, que é intriga da oposição, que o imposto de renda prova que ele é honesto? Quem? O Gerê, Baiano! O Gerê!
- Ôxe! Cumé que aquele molambento, que só tinha duas camisas quando saiu daqui, virou terno, gravata e charuto?
- Aí mostraram ele indo embora no banco de trás dum Mercedes novinho, com chofer de boné, bolinando duas louras boazudas cheias de jóias de ouro, de cegar de tanto brilho. E o reporter terminou dizendo que o, veja só, Co-men-da-dor Antonio Geremário ia responder a um processo, mas que, com a fortuna que tinha, dificilmente seria condenado.
- Vigessantíssima, logo ele, que gritava que tinha que acabar com os ricos, que era tudo ladrão, que o dinheiro não valia nada, só fazia as desgraças de todo mundo e num trazia felicidade!
- Pra você ver, Baiano. Agora traz.


Rafael Linden


quarta-feira, 27 de junho de 2012

O cronista

          Ainda estou atordoado. Se bem que já faz dois anos que Jango foi derrubado, e quase uma semana desde que cheguei ao sítio do tio de um amigo, que concordou em me abrigar enquanto metade de minha turma da faculdade é perseguida pelos órgãos de segurança. E agora?

sábado, 23 de junho de 2012

Meu terreninho na Lua


          Eu sou do tempo em que se dizia “Fulano vive no mundo da Lua!”, quando o referido cidadão era um sonhador, um distraído ou um maluco. Mudaram os tempos? Estará mais perto de se realizar o sonho de colonizar a Lua e, com isso, enfrentar a temida inviabilização da Terra?

sábado, 16 de junho de 2012

Sig, O Pasquim...e eu com isso?


          Morreu o jornalista e escritor Ivan Lessa, criador dos textos que acompanhavam o ratinho branco “Sig”, desenhado pelo cartunista Jaguar. O roedor debutou nos quadrinhos Chopnics, encarapitado no ombro do personagem BD (o “Capitão Ipanema”), alter ego de Hugo “Bidê” Leão de Castro, ator, humorista e um dos fundadores da Banda de Ipanema. O nome completo do Sig era...Sigmund Freud, é claro.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Concerto para oboé e mágoa


Resta o som plangente de um oboé, a me envolver na melodia triste do século XIX. Mas, de que serve a música dos mortos quando só tu brilhavas, viva e pulsante?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Cada beijo


          Tem coisa melhor? Vá lá, depende. Mas é bom demais, né? Tá bom, depende também. Então, ficamos assim: cada beijo é um beijo. Há melhores, piores, mais gostosos ou menos, mais bonitos ou até grotescos, famosos ou anônimos, sinceros ou falsos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Metacrônica da incerteza

          Fui instigado por uma colega(1) a comentar, em um parágrafo, uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna. Ora essa, como se eu conseguisse me conter em um parágrafo ao ler um poeta e cronista de tamanha estatura...