sábado, 28 de dezembro de 2013

Carícia de mulher e paz nos estádios

          Queiramos ou não, um dos assuntos do momento é o pau que come solto nas arquibancadas da pátria amada. Para esclarecer de antemão, falamos de futebol. Apesar de briga entre torcidas organizadas não ser nenhuma novidade, a transmissão ao vivo e em cores da pancadaria que abrilhantou um sonolento jogo entre o Atlético Paranaense e o Vasco da Gama, realizado em Joinville no início de dezembro, causou comoção nacional e preocupa as autoridades esportivas. Pensando bem, isso não quer dizer nada, porque “autoridade preocupada” é o que não falta por aí sem consequência alguma, como demonstra a infalível repetição de nossas tragédias pluviais.
          No entanto, como estamos a menos de seis meses da próxima Copa do Mundo, as tais autoridades subitamente se deram conta de que torcidas organizadas às vezes se organizam mesmo é para torcer o pescoço dos outros. E tome entrevista coletiva, pronunciamento e mesa redonda com farto cardápio de indignações, interpretações sociológicas, culturais, políticas e psiquiátricas, apelos dramáticos e garantias de policiamento, identificação, proibição, cadeia e tudo o mais que, até parece, jamais nos ocorreu.
          Então, para não ficar de fora deste caloroso e, provavelmente, inócuo debate, vosso cronista predileto vem a público oferecer sua inestimável contribuição. Diretamente das cabines de imprensa, já instaladas no telhado para cobertura dos palpitantes eventos esportivos de que a nação será orgulhosa anfitriã, explicaremos a causa e informaremos a solução definitiva para a violência nos estádios, cujos protagonistas quase sempre são truculentos homens feitos que deviam ter ao menos um pingo de juízo.
          Em poucas palavras, a causa é falta de mulher e a solução é carinho feminino. E aí vai um pouco de Ciência por trás dessa inequívoca conclusão. Como se fosse de encomenda, esta semana foi publicado na revista científica Nature Neuroscience um artigo muito interessante sobre agressividade. Os autores do trabalho são Quan Yuan, Yuanquan Song, Chung-Hui Yang, Lily Yeh Jan e Yuh Nung Jan, os quais, é óbvio, são todos cientistas da…Universidade da California em San Francisco. Os chefes da equipe, o casal Lily e Yuh Jan, pesquisam há quarenta anos o desenvolvimento e a plasticidade do sistema nervoso, usando como modelo de estudo a mosquinha da banana – que atende pelo nome de Drosófila. Desta forma descobriram uma infinidade de características genéticas e funcionais que foram, ao longo dos anos, redescobertas ou comprovadas em outras espécies animais, inclusive em humanos.
          Não sei se o Doutor Yuh é vascaíno, mas o fato é que o grupo de pesquisa resolveu, agora, estudar a agressividade, um comportamento universal e importante para a sobrevivência individual e a organização social de grupos de animais, desde a aranha d’água – aquele bichinho que caminha na superfície de poças, também chamado de “inseto-Jesus” – até nós todos, inclusive o simpático casal que ora nos lê na tela do computador de rostinho colado e curiosidade aguçada. Ora, direis, mosquinha agressiva? Pois assim se espanta quem nunca viu dois machos de Drosófila a trocar socos e pontapés para resolver quem pega a fêmea que esvoaça faceira, fazendo visage e passando rasteira. E, entre outras características da mosquinha que a tornam um modelo riquíssimo para pesquisa genética, há métodos consagrados para quantificar vários de seus comportamentos. Ou seja, um observador treinado é capaz de dar notas para a agressividade e verificar se algum evento consegue diminui-la ou aumenta-la mais ou menos do que outro evento.
          Para começar, não foi surpresa que dois machos mostram-se mais agressivos um com o outro quando estão na presença de uma fêmea do que na ausência desta. Quando eles estão sós há escaramuças para definir territórios ou hierarquia, mas na presença de fêmeas há um fortíssimo componente de agressividade de causa sexual. Porém, o mais interessante foi o que aconteceu quando os pesquisadores deixaram machos em contato com fêmeas por 24 horas, antes de colocá-los na presença de outro macho e de outra fêmea. Os felizardos ficaram muito menos agressivos do que os que tinham passado o dia anterior solitários. E mais, os pesquisadores mostraram que essa diminuição da agressividade era provocada por substâncias que funcionam como atratores sexuais – chamados feromônios – que passam das fêmeas para os machos através de contato físico entre o casal de mosquinhas, não necessariamente durante a cópula e sim durante as “preliminares”. Sim, minha senhora, até mosquinha de banana pratica preliminares, pode contar para seu marido porque é mais ou menos assim mesmo. Ou seja, carícia de mosca fêmea diminui a agressividade do seu respectivo macho.
          O estudo é muito mais amplo, pois os cientistas fizeram ainda diversos experimentos genéticos, bioquímicos e funcionais até desvendar boa parte dos mecanismos envolvidos nesse efeito do contato físico entre machos e fêmeas. Mas não vou cansá-los com detalhes. Apenas ressaltamos que este trabalho mostra claramente o que fazer para diminuir a violência nas arquibancadas. Basta que namoradas, esposas, amantes ou quaisquer outras mulheres na vida dos torcedores fanáticos os acariciem antes que os mesmos partam para os estádios. Afinal, não foi à toa que, há novecentos anos, o poeta Omar Khayyam escreveu – ou a ele se atribui - ”os sábios não te ensinaram coisa alguma, mas a carícia dos longos cílios de uma mulher poderá revelar-te a felicidade”. As mosquinhas aprenderam. Há uma chance, embora remota, de que o cérebro dos trogloditas que protagonizam espetáculos dantescos como aquele de Joinville seja ao menos tão sofisticado quanto o de uma Drosófila, para que consigam aprender também. Se é que, em pleno século XXI, ainda há fêmeas dispostas a acariciar machos daquela espécie.

Rafael Linden



sábado, 21 de dezembro de 2013

Como ficar bem na foto

          Há poucos dias, cinco Presidentes do Brasil embarcaram para participar do funeral de Nelson Mandela na África do Sul, todos no mesmo avião oficial. Tratemo-los todos assim, como Presidentes. Quem o foi, quem o é, em que circunstâncias ou ocasiões e para que fins não nos interessa pois, como é de conhecimento geral, este cronista não desperdiça seu precioso tempo a escrever comentários sobre a política nacional. Já nos basta aturá-la.
          Pilhérias à parte, a tal viagem rendeu diversas fotografias grupais, entre as quais uma que, segundo o jornal, foi postada por um dos Presidentes numa rede social. Nessa imagem estão não apenas os cinco, exibindo seus mais amplos sorrisos, mas também um cidadão de sobrenome Mosca. O que se há de fazer, tem sempre mosca voando em torno dos doces poderes. Mas os bravos leitores que até aqui chegaram não devem se desesperar, porque o assunto em pauta não contempla ideologias, discursos, decretos, intrigas, hipocrisias, disse-me-disse ou coisas que tais. Trata-se, tão somente, de ficar bem na foto.
          Não é de se admirar que tantos escritos deste blog misturem coisas desconexas pois, volta e meia, a vida nos oferece gratuitamente tais oportunidades. Vejam que, há poucas semanas, a prestigiosa revista científica Psychological Science publicou um trabalho de uma estudante de doutorado e de seu orientador na Universidade da California, em San Diego, os quais testaram empiricamente se pessoas em grupo parecem mais atraentes do que individualmente. E não só mostraram que isso é verdade, mas sugeriram explicações interessantes.
          Não fique chocada, cara leitora, o fato é que, para o bem ou para o mal, seu rostinho encantador parece ainda mais atraente na foto de família do que se for recortado e mostrado sozinho. E como foi que os pesquisadores demonstraram isso? Eles recrutaram dezenas de estudantes, de ambos os sexos, e lhes apresentaram uma bateria de testes nos quais os voluntários tinham que dar uma “nota” para rostos femininos ou masculinos, apresentados em grupos ou individualmente. A nota deveria ser tanto maior quanto mais atraente parecesse o rosto. Os resultados da avaliação de centenas de faces mostraram que, em geral, as notas para cada rosto eram maiores quando estavam em meio a outros do que quando o rosto era apresentado sozinho.
          A interpretação dos autores foi baseada em demonstrações anteriores de que a percepção de cada objeto apresentado num conjunto é distorcida no sentido da média de todos os objetos do conjunto. Ou seja, quando se olha um rosto numa foto tendemos a acha-lo parecido com um rosto “médio” dentre todos os demais na foto. E, curiosamente, uma “média” dos atributos fisionômicos das faces em uma foto é avaliada como mais atraente do que cada uma das faces. Poupe-me de insultos, caro leitor, a culpa não é minha, foram os experimentos que mostraram isso. A coisa é tão forte que os voluntários deram notas mais altas a rostos nas fotos coletivas mesmo quando as imagens foram alteradas por meios eletrônicos de forma a deixar as faces borradas! Ou seja, nem mesmo tirando a nitidez dos traços fisionômicos desapareceu a preferência pelos rostos nas fotos coletivas.
          Há, como sempre, questões não respondidas no artigo científico e os próprios pesquisadores lá reconheceram que nem todas as suas hipóteses foram comprovadas. Porém, a demonstração de que rostos são melhor avaliados em fotos coletivas do que individuais foi muito robusta. Talvez uma explicação simples seja de que, ao ver um conjunto de faces, tendemos a ignorar detalhes pouco atraentes.
          Voltando aos Presidentes trata-se, convenhamos, de fisionomias que a esta altura da vida já não fazem lá muito sucesso no campo da boniteza. Por isso, é melhor ser fotografado sempre na companhia de outras pessoas. E ao contrário do que poderia parecer, se a média dos atributos é o que conta, de preferência com gente bem bonita. E na falta de gente bonita serve até mosca, desde que mais jovem, como parece ter sido o caso da tal foto postada nas redes sociais.
          Mas isso os marqueteiros já sabiam, nem que fosse por intuição ou experiência. E para evitar malediscências encerro por aqui, antes que alguém resolva repetir o trabalho dos cientistas americanos examinando comparativamente a estética e a fotogenia dos cinco Presidentes, em conjunto ou isolados, e daí divulgue conclusões que venham a ter sérias consequências para a política nacional.

Rafael Linden



sábado, 30 de novembro de 2013

Caca de dinossauro

          Há uns trinta anos passei uma temporada como pesquisador visitante na Purdue University, no meio-oeste dos EUA. É uma das grandes universidades americanas e, na época, uma de suas áreas de pesquisa mais fortes era a de Ciências Agrárias. Aproveitando os equipamentos e a tecnologia disponíveis nos ricos laboratórios e nas fazendas experimentais, lá estavam muitos cientistas e técnicos brasileiros, a maioria da Embrapa. Fiz amizade com vários, entre os quais o Augusto, um mineiro grandalhão, bonachão e sempre bem-humorado. Ele era aluno de doutorado em Zootecnia e voltaria ao Brasil depois de defender sua tese. Para isso, entre outras coisas, coletava amostras de fezes bovinas para analisar efeitos de diferentes regimes alimentares sobre o melhoramento do gado.
          Não, gentil senhora, o cronista não sucumbiu à escatologia, fique tranquila. Pois, entre outras histórias da família, Augusto gostava de contar que seu avô, já bem idoso, ao saber a quantas andava o neto predileto lá pelas bandas da América do Norte observou “tantos anos de estudo naquela lonjura pra cavucar bosta de vaca? Podia fazer isso aqui mesmo no interior de Minas, ora essa!”. Apesar da decepção do velhinho, o fato é que se trata de um nobilíssimo objeto de pesquisa científica. E o caro leitor pensava que algo ser uma caca era apenas uma desqualificação do “algo”. Todos sabemos, é claro, que verminoses e outras doenças, algumas muito mais graves, são diagnosticadas através do velho e prosaico exame de fezes. Mas não se resume a isso o charme dos restos de refeições, sejam essas as mais sofisticadas Saint-Jacques et ravioles à la truffe d'Alba do Tour d’Argent em Paris, ou os impiedosos croquetes do bar do Seu Agostinho, lá na velha Faculdade de Medicina da Praia Vermelha. Pelo contrário, o interesse pela malfadada bosta recua até o tempo dos dinossauros.
          Esta semana a revista Scientific Reports publicou um artigo de uma equipe  liderada pelo geobiólogo argentino Lucas Fiorelli, demonstrando que não apenas mamíferos, mas gigantescos herbívoros pré-históricos defecavam em áreas restritas, e isso mais de duzentos milhões de anos antes do que se pensava. O assunto ganhou notoriedade na imprensa mundial, em geral apresentado como a descoberta do banheiro coletivo mais antigo do mundo. Mas, como foi a pesquisa e o que significa para a Ciência, o cotidiano, o cronista e seus leitores? Afinal, é para isso que serve este blog.
          Os cientistas encontraram, em oito locais diferentes no noroeste da Argentina, um número enorme de peças chamada coprólitos, que são nada mais nada menos do que pedras compostas por fezes, nesse caso endurecidas por cinzas vulcânicas, que preservam tudo o que está no seu interior, como cadáveres de microorganismos, restos de vegetação e outros materiais ingeridos na alimentação do bicho produtor daquelas fezes. Quando se trata de um carnívoro encontra-se, em geral, fragmentos de ossos. A análise cuidadosa destes coprólitos, sua composição, quantidade, distribuição e tamanho das peças individuais, bem como a identificação de ossadas de animais encontradas nas proximidades, aliados a conhecimentos geológicos e muitos outros dados permitem entender aspectos da evolução de ecossistemas na região estudada, bem como inferir quais foram os produtores, seus hábitos alimentares e sociais.
          Sabe-se que várias espécies de mamíferos selvagens, principalmente grandes herbívoros, costumam defecar em áreas restritas - conhecidas como latrinas comunitárias -, não o fazendo na maior parte de seus territórios. Isto tem vantagens visto que ajuda na prevenção de reinfestação por parasitas, na defesa contra predadores e, presume-se, também na reprodução e comunicação entre os animais. Mas esses "aposentos" são muito raros em registros fósseis: os mais antigos eram datadas de menos de 3 milhões de anos atrás e correspondem a carnívoros. Os pesquisadores argentinos descobriram grande concentração de coprólitos em cada sítio e a análise do material indica que veio de animais vegetarianos de grande porte – provavelmente dinodontossauros de até três toneladas de peso - e com comportamento gregário, isto é, que vivem em bando. E, mais importante, mostraram que latrinas comunitárias existiam, para certas espécies animais, há mais de duzentos e vinte milhões de anos.
          Nesta área de pesquisa, a datação de alguma característica tão mais antiga do que se pensava é uma descoberta importante. Não é, portanto, de se estranhar a publicidade que ganhou, embora a tentação de escrever qualquer coisa sobre “o banheiro mais antigo do mundo” deva ser irresistível para um reporter ou editor de jornal. Mas, como de hábito, um cronista destrambelhado não resiste à tentação de dizer alguma coisa inoportuna. Pois lá vai.
          Para começar não é novidade nenhuma, mas não custa ressaltar que animais vegetarianos com três toneladas de peso de certa forma absolvem os gordinhos que gostam de visitar uma boa churrascaria de vez em quando, não é mesmo? E para terminar, cá para nós, a reiterada demonstração de que animais exibem, instintivamente, a capacidade de fazer suas necessidades em lugares restritos e devidamente designados para isso, agora acrescida de bicharocos que viveram há tanto tempo, condena definitivamente humanos presumivelmente normais, bem barbeados e vestindo roupinhas de grife que, conscientemente, insistem em – sejamos finos e educados - despejar seus resíduos orgânicos de comida ou bebida pelas ruas e becos, coisa que nem os dinodontossauros faziam com sua caca há mais de duzentos milhões de anos.

Rafael Linden


sábado, 23 de novembro de 2013

Nada mais que a verdade*

          Já estamos, os três, no bar há umas cinco caipirinhas. Cada um. Começo a flutuar no vapor do álcool e desembarco num silêncio contemplativo. Eles, não. Quanto mais bebem, mais falam. Agora, discutem vigorosamente alguma coisa que ele ouviu dizer e ela não acreditou. Não lembro o que era.

          - O Eugênio é de confiança. Se foi ele que disse, pode ter certeza de que é verdade.
          - Sua confiança nele é comovente. Mas o que é a verdade?
          - Como assim?
          - Eu perguntei: o que é a verdade?
          - Ué...é aquilo que...existe, que você pode provar, ora!
          - O Eugênio provou isso aí que ele contou?
          - Isso não, mas...
          - Então, como você sabe que é verdade?
          - Porque eu confio nele. Conheço o cara desde o ginásio. Ele nunca mentiu.
          - Isso não me convence. O problema é a natureza da verdade.

          Pronto. Agora é que a vaca vai para o brejo. Quando ela engrena na metafísica, o primo se desgoverna. Vai ser divertido. Pena que eu não consiga articular uma boa piada sobre o Eugênio no momento certo, depois de tanta caipirinha. Os dois terão que se digladiar sem mim.

          - Você bebeu? Quer dizer, eu sei que você bebeu. Você... você... pombas, sua maluca, que diabo é isso de natureza? Verdade é verdade!
          - Não, primo. Por exemplo, os niilistas não aceitam a existência de uma verdade, para eles é sempre um ponto de vista escolhido por um sujeito e a verdade de um não é a do outro...
          - Eu não estou discutindo Filosofia, estou apenas dizendo a você que o Eugênio não mente. Se ele disse que aconteceu, é porque aconteceu!
          - Só porque você diz que o Eugênio não mente, não é motivo suficiente para que eu acredite que é verdade.

          O primo dá os primeiros sinais de impaciência, está ficando vermelho, tamborila na mesa, começa a bufar, isso ainda vai dar bode.

          - Essa mania de debater qualquer besteira em profundidade ainda vai levar você pro manicômio. Não dá para esquecer um pouco a sua pós-graduação na PUC e lembrar que está num botequim?
          - Minhas angústias, minhas crenças e minhas certezas não mudam durante a viagem de ônibus.
          - Ah, é? Então, você não admite mudar de idéia quando se depara com outras pessoas, outras realidades, outros momentos? Nasceu sabendo tudo e antes da primeira comunhão já tinha decidido no que acreditaria na vida inteira? E vem com esse papo de que - como é mesmo - niilistas não reconhecem a existência da verdade?
          - Não foi isso que eu disse, pelo contrário, eu mudo de opinião quando há argumentos convincentes. E eu não fiz primeira comunhão, porque não acredito em Deus, nem em religião, sou agnóstica, você sabe muito bem disso. Voltando ao assunto, aquilo em que se acredita não é, necessariamente, verdade.
          - Mas não foi você que, semana passada, disse exatamente aqui nesse bar, que...como era mesmo? Ah, que os cartesianos consideram a certeza como a premissa necessária e suficiente da verdade? Putz, eu tinha esquecido que uma vez nós já gastamos um tempão discutindo isso...
          - Já discutimos sim, mas certeza e convicção não são a mesma coisa. Eu tenho convicções e elas mudam quando ouço argumentos persuasivos, mas certeza é outra coisa e...o que é, de fato, a verdade?

          Ainda bem que eu estou mudo. Ela acabou de perguntar o que, na verdade, é a verdade. Vai dar um nó na discussão. A propósito, que fim levou o Eugênio?

          - Ah, garota, tem juízo! Se o Eugênio contou a sério, pra mim é verdade.
          - Mas, primo, pensa bem, o que é hoje pode deixar de ser amanhã.
          - Besteira! Se deixa de ser é porque não era, ora!
          - Veja, antigamente as mulheres se conformavam com um papel subalterno na sociedade porque acreditavam numa suposta superioridade dos homens. Naquele tempo, isso era aceito como verdadeiro. Com o tempo, o bom senso, a luta das sufragistas e os movimentos feministas, deixou de ser aceito, pelo menos no Ocidente. Hoje em dia, mesmo os recalcitrantes, que ainda acreditam em superioridade masculina, não conseguem mais sustentar o argumento de que isso seja verdade.
          - É porque não era antes também, pô!
          - É claro, mas havia uma convicção generalizada de que era!
          - Isso não tem nada a ver com a história que o Eugênio contou, guria!
          - Tem sim, porque você quer me convencer que a história que ele contou é verdadeira simplesmente porque você acredita nele. Seu argumento é a sua convicção, não tem sequer o peso das provas científicas que sustentam o que se considera verdade no mundo físico.
          - O que se considera?! Você vai relativizar o conhecimento científico também?
          - Claro que vou, os dogmas da Ciência são frequentemente desfeitos pelo advento de novas técnicas e métodos. Para problemas complexos, o conceito de prova irrefutável é meio nebuloso. E os cientistas, muitas vezes, mudam radicalmente suas conclusões. Que dirá nossas meras convicções.
          - Daqui a pouco você vai querer me convencer de que a verdade é sempre provisória.
          - O que eu quero dizer é isso mesmo, que a verdade é provisória e, a qualquer momento, passível de contradição.
          - E a mentira?
          - A mentira, quando é percebida, deixa de existir.

          Opa, intervalo. Depois da mentira deixar de existir ao ser percebida e da verdade ser, por natureza, contraditória, a indignação do primo se transformou em estupefação e ele emudeceu. E agora? Estará na hora de romper meu silêncio, lembrá-los de que também estou aqui e dizer “Tá tudo muito bom, mas está ficando tarde e amanhã...” – parece que não, ele entornou o resto da sexta caipirinha, pediu outra e voltou ao assunto.

          - Acho que não vamos chegar a um acordo.
          - Nós dois, certamente não. E você, o que acha, Eugênio?


Rafael Linden

* Este texto foi premiado em 3o lugar na categoria contos no Concurso Literário "Affonso Romano de Sant'Anna" da Câmara Municipal de Nova Friburgo, RJ, em novembro de 2013.

sábado, 9 de novembro de 2013

Mulher fatal e criativa


          Um dos ícones do cinema da década de 1940 foi Hedy Lamarr. Muito embora reconhecendo e apreciando os encantos da gentil leitora que tanto nos honra com sua presença constante neste blog, com todo o respeito, há de se convir que Hedy Lamarr era um pedaço de mau caminho. Mas a razão de sua presença nesta crônica é que hoje, dia de Santo Orestes da Capadócia, se comemora o aniversário da atriz.
          Ela nasceu Hedwig Eva Maria Kiesler, em 1914 na Austria, e só adotou o famoso nome artístico depois de emigrar para os EUA em 1937. Isso para escapar do nazismo, então em ascensão, e de um marido controlador que, ainda por cima, simpatizava com as doutrinas nacional-socialistas.
          A jovem Hedwig foi símbolo sexual muito antes de Marilyn, Brigitte, Angelina ou da musa do Professor Arquelau. Com apenas vinte anos de idade estrelou um filme chamado Ekstase, dirigido pelo cineasta tcheco Gustav Machatý. Na película a moça apareceu nua, correndo num bosque e simulando um orgasmo à beira de um lago. Pornochanchada brasileira dos anos setenta perde de goleada para os intrépidos cineastas europeus, que faziam misérias quarenta anos antes. Aliás, conta-se que a Alemanha Hitlerista proibiu a exibição do filme porque a atriz era judia, enquanto nos Estados Unidos foi vetado porque era erótico.
          Na América, o maior sucesso de Hedy, que já era Hedy, foi o papel de Dalila no épico bíblico dirigido por Cecil B. DeMille em 1949. Ela contracenou com Vitor Mature - o Sansão, é claro. Nesse filme Hedy usou e abusou do charme e do veneno da mulher austríaca e entrou para o rol das femmes fatales do cinema.
          E de que serve a verborragia desperdiçada com essa senhora, que morreu em 2000, se aqui mesmo o cinema brasileiro não carece de mulher fatal correndo pelada, esmerando-se em estripulias dentro e fora d'água e simulando orgasmos coloridos e acrobáticos? Além da efeméride – feliz aniversário, Hedy! - há uma razão muito mais curiosa. Como se não bastasse atriz e símbolo sexual, a moçoila também foi...inventora. Não, madame, não me refiro a alguma historieta que ela possa ter contado para enganar os seis trouxas com quem casou – um de cada vez. Nem à explicação para, já na década de 1960, ser detida por furto de laxantes e colírios em uma farmácia na Flórida. Muito menos aos embustes protagonizados por elevadas autoridades de republiquetas por aí e por aqui afora porque, como sabem todos, neste sagrado espaço não se pratica o violento esporte do colunismo político. Hedy Lamarr foi inventora mesmo, com patente e tudo.
          Não é que a moça, em plena segunda guerra mundial, saiu-se com a idéia de um sistema seguro de controle de torpedos, baseado em mudanças frequentes do canal de comunicação entre o aparelho emissor e o receptor, com o emprego de um rolo de papel perfurado semelhante às partituras das pianolas mecânicas? Conta-se que ela teve esta idéia ao brincar de repetir melodias em escalas variadas junto com o compositor francês George Antheil, autor da trilha sonora do filme Ballet mécanique produzido em 1923 pelo pintor, escultor e cineasta Fernand Léger, um dos expoentes do cubismo e do dadaísmo. A brincadeira teria inspirado a idéia das trocas de frequência dos sinais porque, reza a lenda, o tal marido controlador de quem ela fugiu na década de 1930 era fabricante de armas e, de conversa em conversa, Hedy teria percebido a facilidade de bloquear sinais para o lançamento de mísseis emitidos em uma única frequência.
          A idéia foi patenteada em 1942, mas só resultou na produção de equipamentos multicanal vinte anos depois. E, assim mesmo, o feito tecnológico passou quase despercebido porque a estrela tinha usado seu nome de batismo no documento da invenção. Até que, apenas três anos antes de morrer, Hedy Lamarr recebeu um prêmio da Electronic Frontier Foundation, uma entidade de direitos civis que, entre outras missões, combate abusos de patentes. Para se ter uma idéia da relevância da criação de Lamarr e Antheil, ela é uma das que serviu de base para o desenvolvimento de telefonia celular e de comunicação wireless.
          Taí, atriz famosa e inventora de uma tecnologia importante. Nada mau para uma guria que começou a carreira pelada no bosque. Portanto, da próxima vez que o prezado leitor se deparar com alguma rapariga às carreiras vestida como veio ao mundo, na tela do cinema, pense que pode se tratar da criadora da suprema tecnologia do futuro, seja ela qual for. Quem sabe um decodificador de ondas cerebrais desencontradas acoplado a um banco de dados históricos que permita descobrir a ligação cósmica entre Hedy Lamarr e Santo Orestes da Capadócia.

Rafael Linden


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Os eus e as futuras gerações


          Durma-se com um título desses. Mas esperem e verão.
          Comecemos pela antiga crença de que o boletim meteorológico não era confiável. Hoje em dia, os métodos e instrumentos usados para previsão do tempo avançaram tanto que é muito grande a probabilidade de acerto para o dia seguinte e subsequentes. Eu, pelo menos, dificilmente me arrependo de carregar ou não um guarda-chuva conforme a localização dos risquinhos oblíquos no mapa do jornal ou da TV.
          Mais polêmica é a previsão de longo prazo, é claro. Essa, mesmo com todo o avanço da Ciência, por definição só se confirma…a longo prazo. Porém, todos nós carregamos uma parcela de culpa pelas contribuições involuntárias ao aquecimento global e pelos danos causados ao meio ambiente por materiais de decomposição lenta. Em minha defesa, há tempos fui condecorado pelo porteiro do prédio onde moro com a observação de que, desde que me mudei para cá há quase 13 anos, meu apartamento foi pioneiro na separação sistemática dos lixos orgânico e reciclável, coisa que hoje é rotina entre os vizinhos. A falsa modéstia nos impele a dizer que se trata de contribuição modesta que não custa nada.
          E, assim, chegamos ao busílis. Onde? Busílis, caro leitor, o xis da questão ou, para simplificar, o assunto desta crônica: o custo de salvar o planeta ameaçado pelas emissões descontroladas de carbono, pelo uso excessivo e descarte irresponsável de materiais resistentes à degradação e outros desatinos fartamente denunciados por ambientalistas e meio ambientalistas. Sim, sim, sabemos todos que proteger a Terra não tem preço, que as futuras gerações sofrerão se não houver mudanças drásticas de atitude, e outros argumentos contrários ao comportamento abominável desta malfadada espécie animal que, desgraçadamente, dominou as outras ou assim pensa. Mas o assunto é outro. É o custo propriamente dito, porque há um preço a pagar para evitar a tragédia ambiental que se anuncia. E porque este custo tem impacto na efetivação de medidas necessárias para a salvação de Gaia.
          Mas, afinal, do que se trata, pergunta o leitor apressadinho prestes a trocar este manancial ímpar de informação e cultura por outra bobagem equivalente. O cronista, por acaso, é a favor do aquecimento global? Tá louco, sô! Aqui no Rio de Janeiro o calor já é demais, não precisamos de nem mais dois graus de temperatura. Trata-se, isso sim, de um artigo científico publicado na prestigiosa revista Nature Climate Change por uma equipe internacional de pesquisadores, os quais testaram empiricamente o quanto o comportamento de um grupo é influenciado pelo tempo previsto entre a cooperação e a recompensa por atingir um objetivo comum. Ou seja, o que acontece com a disposição de alguém participar de um esforço coletivo quando a recompensa vai demorar. Entre os psicólogos isso tem nome: gratificação retardada. E tem tudo a ver com a contribuição do bicho homem para as mudanças climáticas.
          Os pesquisadores recrutaram quase duzentos voluntários, todos estudantes da Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Os jovens foram dividos em grupos de 6 e receberam a informação de que no dia do experimento não se comunicariam, mas teriam de tomar decisões cooperativas com consequências futuras. Cada estudante recebeu 40 euros e, em cada uma de dez rodadas, tinha de investir zero, dois ou quatro euros em uma “conta do clima” destinada a pagar um anúncio em favor da proteção contra mudanças climáticas. O investimento era anônimo, mas o valor investido era do conhecimento de todos. Se, ao final das dez rodadas, a conta acumulasse pelo menos cento e vinte euros - em média vinte euros por estudante -, cada um deles teria direito a um bonus além do que restava de seus quarenta euros originais. Se o alvo não fosse atingido, a probabilidade de receber o bonus era de somente dez por cento. Foram testadas 3 condições e em cada uma os participantes sabiam, no caso de atingirem a meta, qual seria o bonus e quando seria pago: (1) a quantia de 45 euros paga em dinheiro no dia seguinte ao experimento; (2) a mesma quantia paga sete semanas após o experimento; ou (3) a mesma quantia não seria paga aos estudantes, e sim investida no plantio de árvores capazes de sequestrar carbono, por conseguinte beneficiando as futuras gerações. Em qualquer caso, o que cada um tinha deixado de investir ficava para si.
          Como os estudantes sabiam de antemão qual seria a recompensa por atingir a meta, tinham toda a informação necessária para decidir se arriscariam ou não seu dinheiro pingando investimentos. Sabem qual foi o resultado? Na condição (1) sete de dez grupos atingiram a meta de investimento; na condição (2) quatro de onze grupos atingiram a meta; na condição (3) nenhum – nenhum! – dos onze grupos atingiu a meta dos cento e vinte euros. Ou seja, quando havia uma recompensa pessoal, mesmo que retardada em até sete semanas, parte dos estudantes se engajou no esforço coletivo. Já quando a recompensa era para as gerações subsequentes, neca de pitibiriba. Nenhum dos grupos foi levado a cooperar para atingir uma meta ambiental de longo prazo que não beneficia os “eus” e sim os “outros” no futuro. E isso na Alemanha, onde o movimento ambientalista é um dos mais importantes da Europa.
          A interpretação dos autores foi de que, no caso do benefício restrito às futuras gerações, o impulso individual para economizar os 40 euros originais, investindo pouco ou nada, foi forte demais para acomodar a generosidade esperada dos jovens com vistas a combater o efeito estufa associado ao desflorestamento. Cônscios dos resultados pífios obtidos até hoje à custa de conferências festivas e acordos ineficazes, os autores sugeriram que negociações internacionais para um esforço global pelo clima do planeta terão pouca chance de êxito enquanto os únicos benefícios de curto prazo para cada país se limitarem a deixar de gastar dinheiro. Tudo indica ser preciso recompensa ou punição imediata.
          O leitor resmungão esbraveja do lado de lá porque trata-se de uma sugestão muito ampla para um estudo experimental limitado. É possível, mas os resultados são compatíveis com o senso comum sobre a natureza humana. Convenhamos, a generosidade do Homo sapiens está longe de ser a regra. Note-se que o trabalho foi liderado pela insuspeita pesquisadora Jennifer Jacquet, professora do Departamento de Estudos Ambientais da New York University, conhecida por seu trabalho sobre os dilemas da cooperação aplicada à conservação de recursos marinhos e às mudanças climáticas. Trata-se, ao que consta, de uma cientista respeitada e ativista ambiental, cujo alerta sobre a perspectiva real de sucesso dos esforços atuais para evitar as mudanças climáticas parecem dignos de atenção.
          Afinal, se jovens estudantes de uma das mais importantes universidades alemãs se comportam desta forma, o que esperar dos dignitários de países com interesses divergentes ou conflitantes? O estudo ressalta a fragilidade da aposta na gratificação retardada. Em outras palavras, o problema é que, como dizem os cínicos, a longo prazo estaremos todos mortos.

Rafael Linden


sábado, 19 de outubro de 2013

Ora, pipocas


          Pouca gente resiste à tradição de comer pipoca no cinema. Quando não é a dita cuja é amendoim, balinha, chiclete, pão de queijo ou, não duvido, frango assado. Mas, se é no cinema tudo se enquadra na categoria pipoca. Em geral é consumida no começo da sessão, durante os comerciais e dura pouco depois do início do filme, exceto quando o pacote é jumbo. Ainda assim, ninguém percebe a seriedade da velha e boa pipoca. Por conseguinte, preparem-se para os quinze minutos de fama deste indispensável item da culinária universal.
          Que o digam os nativos do sudoeste dos Estados Unidos e do México, que já a consumiam em tempos pré-históricos. Alguém da tribo descobriu que, ao aquecer certas variedades de milho, os grãos explodem numa polpa fofinha, branca ou amarelada. Isso acontece porque nestas variedades a superfície é impermeável ao vapor formado a partir da umidade interna do grão. Eventualmente a pressão do vapor quente arrebenta a casca e...pop!. Já os tipos que se come na espiga não explodem. Ou seja, como se diz por aí, nem todo milho vira pipoca. Como, minha senhora? Ninguém diz isso? Então digamo-lo a partir de já.
          Engana-se quem pensa que acabou a Ciência. Esta semana o jornal noticiou que pipoca no cinema deixa o espectador imune à propaganda. Apreciemos a ironia, já que a propaganda é a alma do negócio inclusive para o pipoqueiro. Pensem no homem de jaleco e barrete brancos, empurrando o carrinho enquanto canta “olha a pipóóóóóca...é fresquiiiiiinha...tem a doce e também a salgadiiiiiinha...”. Na outra ponta do mundo dos negócios, nos Estados Unidos – onde mais? - há uma organização chamada Popcorn Board, ou “Comissão da Pipoca”, que gasta um milhão de dólares por ano para difundir o produto, atrair consumidores e expandir mercado externo para a produção de milho. Num quadro desses, quem diria que a guloseima atrapalha a propaganda?
          Pois foi isso que um trabalho científico demonstrou. Saibam todos que existe uma revista científica chamada Journal of Consumer Psychology, ou seja “Revista de Psicologia do Consumidor”. Nela são publicados estudos sérios, bem fundamentados e avaliados por especialistas, acerca do comportamento de consumidores. E foi lá que cientistas do Departamento de Psicologia da Universidade de Wuerzburg, na Alemanha, publicaram o trabalho intitulado “Pipoca no cinema: interferência oral sabota os efeitos da propaganda”.
          É senso comum que a mera exposição de um produto induz atitudes positivas em relação à marca. Este efeito é baseado no treinamento da chamada pronúncia subvocal. O que é isso? Toda vez que uma palavra nova é encontrada, há uma tendência do espectador simular a pronúncia da palavra, mesmo sem emitir som com a própria boca. Quando um nome de marca aparece reiteradamente, o sujeito repete a simulação e vai se familiarizando com o produto, queira ou não. Os psicólogos já sabiam que esse treinamento progressivo, do que eles chamam de fluência oral-motora, vai aumentando a sensação positiva em relação àquela palavra, o que explica o sucesso da publicidade repetitiva.
          Os cientistas alemães resolveram, então, testar se o consumo de pipoca interfere no treinamento da fluência oral-motora a ponto de prejudicar a propaganda que aparece no início das sessões de cinema. Antes de abandonar o blog resmungando, lembre-se o caro leitor de que o assunto está longe de ser uma frescura irrelevante, pois envolve somas astronômicas em vendas.
          Os pesquisadores compararam dois grupos de calouras da Universidade, as quais foram convidadas para uma sessão de cinema. Na entrada do auditório, um dos grupos recebeu pipoca, o outro grupo recebeu um cubinho de açúcar, que derrete logo na boca embora também forneça calorias. Todos assistiram a uma sessão que começou com anúncios de uma marca de loção ou de uma fundação assistencial que solicita doações, mostrados na tela antes do filme propriamente dito. Os nomes de marca eram todos em outra língua que não o alemão, para evitar familiaridade antecipada. Uma semana depois as estudantes, que ignoravam totalmente os objetivos do estudo, receberam, cada uma, quatro euros e foram instruidas a usar dois euros para comprar uma dentre seis marcas de loção e doar o resto do dinheiro para uma dentre seis entidades assistenciais, de livre escolha.
          O resultado foi que as calouras do cubo de açúcar escolheram, em sua maioria, a marca anunciada na sessão de cinema, enquanto as da pipoca não apresentaram preferência por qualquer marca. Os resultados foram atribuídos à interferência oral motora. Em outras palavras, mastigar pipoca durante um comercial anula o efeito da publicidade. Poderia haver outras explicações, mas os autores cuidaram de acrescentar vários controles adicionais, como um grupo que mascou chiclete, bem como outras medidas destinadas a descartar interpretações alternativas.
          E ainda fizeram mais um experimento, no qual investigaram a chamada “atividade eletrodérmica”, aquela mesma coisa que é medida no “detetor de mentiras” ou “teste do polígrafo” nos filmes policiais, e que mostra uma reação emocional do indivíduo quando reconhece algo que está procurando esconder. No caso da publicidade, o importante é que a mesma coisa acontece quando alguém reconhece um produto familiar, mas não quando vê um produto desconhecido. Os voluntários que comeram o cubo de açúcar mostraram, e os da pipoca não, sinais de reconhecer a marca propagandeada, tal como no primeiro experimento.
          Essa coisa toda, é claro, importa especialmente para profissionais de publicidade, já que os leitores deste blog daqui para a frente saberão se defender da propaganda indesejada com o uso criterioso da pipoca. Mas dá o que pensar em outras esferas. Imagino, por exemplo, haver entre professores consenso de que estudantes não devem comer ou mascar chiclete em sala de aula. Além da proverbial “falta de educação”, quanto deste consenso se deve à percepção de que a interferência oral motora prejudica objetivamente o aprendizado? E pipoca no comício, ajuda ou atrapalha o candidato? Será que o telecurso deve ser apresentado no horário do café da manhã? E por hoje chega, pois já vejo os leitores se dispersando em busca de pipoca, o que vai seguramente prejudicar o sucesso desta crônica.

Rafael Linden

       

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cobras e olhos negros


          Uma das razões pelas quais este cronista evita mergulhar fundo no próprio subconsciente é que bem sabemos da nossa mania de conjuminar assuntos desconexos. Sabe-se lá o que diria o velho Sigismundo ao topar com tal desvio. Portanto, queiram os ilustríssimos leitores, por caridade, perdoar o título acima e, com todo o respeito, conjuminemos.
          Cada um elege o assunto que lhe apraz. Então, esta semana escolhemos como a mais palpitante a descoberta, feita pelo Ibama junto com a Polícia Federal, de que uma jibóia valiosíssima foi vendida pela ex-administradora de um zoológico de Niterói a um criador de serpentes norte-americano, que a contrabandeou pela fronteira de Roraima com a Guiana e levou-a para os Estados Unidos. Levou a cobra, bem entendido. A cobra réptil, melhor entendido ainda.
          Acontece que esse bicho é raríssimo - ao que parece é a primeira cobra portadora da condição genética chamada leucismo, na qual partes ou até o corpo inteiro de um animal são brancos devido a falta de pigmentação. Não é o mesmo que o albinismo, pois nesse a cor dos olhos é vermelha. No caso em questão, trata-se de uma cobra com corpinho todo branco e olhos negros. Não, minha senhora, o cronista não tem leucismo, apenas não toma muito sol, entre outras coisas porque passa muito tempo escrevendo besteiras nesse blog.
          Consta que, quando o tal zoológico foi fechado, a administradora levou a cobra para casa e, tempos depois, declarou que o animal tinha morrido. Mas os federais encontraram fotografias da senhora, toda sorridente, com o marido e mais o contrabandista americano. E, ao vasculhar as redes sociais, acharam fotos da cobra com o gringo. Há rumores de que filhotes desta jibóia branca tem sido vendidos por uma boa grana, o que levou ao cálculo de que a mãe de todas as cobras vale coisa de um milhão de dólares.
          Não nos tocaria tanto esta história, não fosse ela mais um exemplo de assalto ao patrimônio genético que acontece aos montes do Oiapoque ao Chuí. E, não bastasse a espionagem, o Obama teve sorte de, por poucos dias, escapar de ser enquadrado em pirataria também. Sosseguem, porém, pois não será hoje que descambaremos para o colunismo político, já mais do que saturado em todas as mídias. Conforme reza a tradição deste espaço democrático onde eu mando sozinho, divaguemos outrossim sobre os dois componentes da insólita notícia.
          Em primeiro lugar, a pele branca com olhos negros nos remete ao último filme da carreira da maravilhosa atriz italiana Silvana Mangano. Aliás, passei décadas a pronunciar seu sobrenome “Man-gâ-no”. Eu e todo mundo por aqui, acho. Pois hoje estava eu tão-somente apreciando as imagens de um video falado em italiano no Youtube, quando descobri que na terra de Michelangelo e Berlusconi diz-se “Mân-gano”, com acento na primeira sílaba. Este blog é pura cultura, não é mesmo? Mas voltando ao assunto, a obra de 1987, dirigida pelo cineasta russo Nikita Mikhalkov, era Oci ciornie, ou seja “Olhos negros” e Silvana interpretava uma aristocrata chamada Elisa. A trama envolvia a paixão que seu marido, um bon vivant interpretado por - quem mais? - Marcello Mastroiani, nutria pela personagem da então jovem atriz russa Yelena Safonova, de quem o homem de meia idade se enamorou ao conhece-la num spa. Preciso ver esse filme, dizem que é ótimo.
          E de cobra, o que mais se pode dizer? Já não basta a negociata? Pois tomem ciência de outra história que envolve um americano e uma cobra. Há poucos meses estive em uma simpática birosca chamada Tippi Teas em El Paso, no Texas. É uma casa de chás de propriedade de um casal de remanescentes da era hippie. Pois eu soube que há tempos o marido comprou uma cobra lá mesmo nos EUA. E, sabendo que seu novo animalzinho de estimação era originário do México, não é que o cara levou consigo a cobra numa viagem de avião ao país vizinho para que, segundo ele, a bichinha conhecesse a terra natal?
          Só que na volta a cobra, que viajava enrolada no corpo do cidadão, deu de botar a cabeça para fora da camisa dele e o vizinho de poltrona, ao perceber do que se tratava, começou a berrar como todo bom primata. O resultado foi um tempão perdido em explicações junto às autoridades americanas até que, pasmem, o cidadão conseguiu levar a criatura de volta para o Texas onde, presumo, os três, marido, mulher e cobra, vivem felizes.
          Só mesmo o dono de um estabelecimento que vende uma centena de variedades de chás em folhas, algumas das quais meio suspeitas, bem como roupas que parecem sobras dos figurinos da peça Hair, consegue se tornar personagem de uma história dessas que, devo no entanto admitir, é mais inocente do que a saga da jibóia com leucismo. Afinal, que raio de obsessão estranha tem esses americanos com cobras, né?

Rafael Linden


sábado, 5 de outubro de 2013

O ônibus


          Carlito não tira os olhos da garota sentada do outro lado do corredor. Que vontade de beijar aquela boquinha carnuda, de um jeito bem suave, uma, duas, dez vezes com todo o carinho. Mas é interrompido quando o celular dela toca e aqueles lábios incríveis se perdem numa torrente de meu amor, já estou chegando e o inevitável te adoro, que lhe apaga mais uma esperança ocasional.

          Dona Ernestina sofre com o desconforto dos bancos surrados, com o sacolejo nos buracos da estrada e maldiz a arrogância do genro milionário que se limita a visitar o interior duas vezes por ano. Páscoa e Natal. E ele acha muito. O resto do tempo, ela que se arranje para ver os netos. Tem uma linha de ônibus, não tem? Claro que sim, meu bem, e a mamãe pode ficar no quarto de hóspedes de frente para o mar, aproveitando o sol e a companhia das crianças. Bem sabe que a gentileza da filha é pretexto para que o casalzinho possa ir ao cinema, ao teatro, jantar fora com os amigos, cadê que ficam contentes com a visita. E ainda por cima, o velho não a acompanha nas viagens à capital, fica em casa aborrecido, queixa-se da comida de pensão, quer a mulher sempre lá. Só para cozinhar. Afeto que é bom, nada.

          No entanto, Ernestina diverte-se com os olhares insistentes que o jovem do outro lado lança em direção à guria na poltrona da frente, linda mesmo, uma pintura. O encantamento dele é o mesmo do rapazote que, envergonhado, há mais de quarenta anos, a convidou para dançar quase no fim do baile de sábado à noite na Associação Comercial. Lá é de lei se fazer difícil e ela cumpriu o ritual de boa moça. Deu-lhe um trabalhão e assim conseguiu o tipo de homem que queria. Casou na igreja local, toda enfeitada, no branco da pureza e sete meses depois deu à luz a filha prematura que, apesar disso, nasceu tão grande e forte quanto qualquer outra. Reprime a ironia e pensa – será que esses dois vão repetir minha sina? Fecha os olhos para recordar e, justo quando imagina o que teria levado sua paixão a murchar e afinal se dissolver, desperta com a campainha do celular e se entristece com o desfecho de ambas as histórias.

          A rotina de Ana Rosa se arrasta em agonia. Pega sem vontade aquele ônibus a cada duas semanas, para passar dois ou tres dias com o namorado. Esse, o primeiro, o único, objeto de uma ilusão de amor eterno que se acabou em poucos meses e a acorrentou antes às convenções do que aos sentimentos. Aos pais e irmãos comunica supostas viagens de trabalho. Aos vizinhos parece um pouco  rechonchuda, vai ver é comida de lanchonete ou então, né? Resta-lhe a cureta mágica para raspar a vergonha. O celular toca, como a pancada do teatro, sinalizando o primeiro ato. Atende como previsto no roteiro. Assim que desliga faz o cálculo das perdas e ganhos e resolve que a única alternativa ao desespero é um novo guarda-roupa.


Rafael Linden


sábado, 28 de setembro de 2013

Que bonito é...


          Se a frase aí de cima lembra uma bola de couro “alçando voo para pousar suavemente no fundo das redes”, então o leitor já passou dos quarenta anos e, se não gosta mais, já gostou de futebol. Ou não? Então explico. O título da crônica é o que muitos achavam ser, mas não é, o nome do samba que tocava nas sessões de cinema antes da atração principal, embalando um documentário em preto e branco que contava a história do mais recente clássico jogado no Maracanã. O locutor, com a voz solene e impostada da época, era Luis Jatobá, mais tarde Cid Moreira. A música, interpretada por Waldir Calmon e seu conjunto, foi composta em 1956 por Luis Bandeira e se chama “Na cadência do samba”, o mesmo nome de uma composição de 1962 de autoria de Paulo Gesta e Ataulfo Alves. Já as imagens, é claro, eram do Canal 100, o cinejornal criado em 1959 por Carlinhos Niemeyer, produtor cinematográfico, flamenguista e membro fundador do Clube dos Cafajestes. E primo do grande arquiteto Oscar Niemeyer.
          E para quem chegava no início da sessão a fim de não perder os closes do drible do Garrincha, do passe do Gerson, do toque sutil do Pelé, da rainha da Inglaterra na Tribuna de Honra ou, o melhor de tudo, da cara dos torcedores escolhidos a dedo entre os mais feios, gaiatos ou furiosos, a boa notícia é que a ESPN anuncia a volta do Canal 100. A vinheta é meio misteriosa, mas presumo que passarão a exibir a coleção de filmes do acervo, que chegam a setenta mil minutos de imagens segundo reza a página oficial criada por Alexandre Niemeyer, filho de Carlinhos. Isso tudo, no entanto, compreende todas as edições do cinejornal inteiro. Este começava com os eventos da semana, os quais iam da inauguração de Brasilia à eleição da miss Brasil, dos comícios do Lacerda aos bailes de carnaval do hotel Copacabana Palace, lançamentos de filmes, livros e foguetes. Mas o noticiário político, cultural e mundano, que o historiador Paulo Roberto Maia considerou condizente com o projeto de propaganda política da ditadura militar, servia apenas como prelúdio para a parte final. A mais aguardada. A do futebol.
          A teleobjetiva do cinegrafista Francisco Torturra, tricolor convicto e cunhado de Nelson Rodrigues, que dele dizia ser sua lente mais inteligente do que o olho humano, trazia imagens espetaculares do campo e hilariantes das arquibancadas e da geral do Maracanã. Nesta última, cujos ingressos eram os mais baratos, se encontravam os tipos mais engraçados ou curiosos, torcedores fanáticos que gastavam seus últimos caraminguás para se aproximar dos seus ídolos e, se possível, ao final do jogo pular o fosso e comemorar no gramado a conquista do campeonato carioca ou, simplesmente, uma vitória sobre o Madureira na terceira rodada. Valia tudo por uma felicidadezinha no domingo.
          Infelizmente o Canal 100 foi assassinado em 1986 por um decreto do governo federal que, no ano anterior, proibira a propaganda comercial em cinejornais, o que inviabilizou a produção. Uma pena. Mas se a ESPN fizer um bom trabalho, quem nunca viu o Canal 100 talvez se pergunte por que hoje em dia não se faz mais reportagens esportivas como aquelas. E quem viu naqueles documentários as imagens de jogos antológicos, como o Brasil x Paraguai de 1969, que botou cento e oitenta mil torcedores (este que vos fala, inclusive) no Maraca, vai estranhar que atualmente se ache ótimo quando uma final de campeonato brasileiro é assistida in loco por meros setenta mil torcedores.
          Tá bom, prevenção de acidentes. Concordo plenamente. Mas desconfio que se o estádio tivesse cento e oitenta mil lugares, todos sentadinhos em plena segurança, nem assim iria lotar. Creio que o Canal 100 era um dos grandes motivos pelos quais o carioca tinha vontade de ir ao Maracanã. Afinal, quem sabe se depois da reportagem sobre o baile do Copa e, com todo o respeito, das pernocas da miss Brasil, não seria você, caro leitor, a exibir as bochechas, em preto e branco, gritando “goláááááçooo!”, “falta!!”, “juiz ladrão!!!”. Ou então, declamando um daqueles palavrões épicos que apareciam por inteiro, em câmera lenta, na boca de arquibaldos e geraldinos sempre que o intrépido árbitro Armando Marques, certo ou errado, marcava um pênalti contra o Flamengo.

Rafael Linden