domingo, 27 de janeiro de 2013

Como explicar as avós


          Muitos mistérios da evolução humana ainda não foram resolvidos. Em boa parte porque não testemunhamos os acontecimentos propriamente ditos, ocorridos ao longo de milênios. Além disso, não se pode testar hipóteses como faríamos em outros campos das ciências, modificando condições de modo controlado em laboratório e examinando os efeitos. Porém, aprende-se muito sobre o assunto a partir de inferências e modelos.
          Na Smithsonian Magazine de outubro de 2012, o reporter Joseph Stromberg comentou um novo estudo da antropóloga Kristen Hawkes, da Universidade de Utah, sobre a chamada grandmother hypothesis (“a hipótese da avó”). Esta teoria procura explicar por que existe menopausa na espécie humana. Enquanto as fêmeas da maioria dos animais, incluindo outros primatas, em geral envelhecem e morrem quando ainda apresentam capacidade reprodutiva, as mulheres podem viver mais da metade do total de suas vidas após a menopausa. E muito bem, diga-se de passagem. Então, que vantagem evolutiva terá a menopausa oferecido à espécie humana, para continuar existindo?
          Hawkes vem, há mais de quinze anos, argumentando que uma boa razão para a menopausa na meia idade é o valor evolutivo das avós. Não quaisquer avós, mas principalmente as que não mais procriam. Estas, segundo a pesquisadora, contribuiram decisivamente para o sucesso evolutivo e para a longevidade da espécie humana. E por que? De forma bem simplificada, o argumento começa com a constatação de que, por serem os infantes humanos dependentes de suas cuidadoras para a sobrevivência durante um período relativamente longo após o nascimento, cada novo filho diminui a chance de sobrevivência dos anteriores, pois a mãe se ocupa demais cuidando e alimentando o recém-nascido. Isso, é claro, sem contar babás, mamadeiras, indústrias alimentícias especializadas, como aconteceu na maior parte da evolução até agora.
          E é aí que entram as avós. Em geral, estas já passaram pela menopausa e, portanto, estão livres, leves, soltas e...disponíveis para ajudar a alimentar e cuidar dos netos mais velhos. Com isso aumentam as chances de sobrevivência dos infantes e, ao mesmo tempo, o efeito positivo do período pós-menopausa favorece também a fixação de maior longevidade como característica de nossa espécie. É essa a idéia geral.
          A esta altura creio que já preciso lidar, não apenas com inúmeras avós a vociferar contra minha audácia em botar idéia de jerico nas suas filhas grávidas – como se fosse necessário alguém sugerir, por escrito, aqueles pedidos dengosos de “mãe, você pode ficar com o Juquinha hoje, heeeiiin? -– mas, pior, com uma turba de maridos enfurecidos, bradando que ajudam, trocam fraldas, acordam no meio da noite, seguram incontáveis mamadeiras, levam o bebê para a creche... Tá certo, sois todos heróis, mas sossegai e lembrai-vos de que não estou aqui para queimar o vosso filme. É tão somente uma conversa amena sobre evolução da espécie.
          Outros cientistas reclamam que a hipótese da avó tem pontos fracos, mas não pretendo, nem teria competência para tal, analisar o assunto em profundidade. Afinal, para que uma idéia assim seja aceita, ainda falta muito trabalho e, vocês leram lá em cima, não dá para usar métodos experimentais como se faz para verificar se um medicamento funciona do jeito que se pensa. Em vista disso, para testar a relação entre menopausa, as avós e a longevidade de uma espécie, Hawkes recorreu à simulação em computador, com a colaboração de um matemático especializado em problemas biológicos.
          Eles partiram de um modelo teórico das características de um primata que vive cerca de 40 anos, como os chimpanzés. Neste modelo adicionaram, a apenas um por cento da população, uma predisposição genética para vida mais longa e ocorrência de menopausa. E rodaram a simulação no computador por uma série de gerações equivalentes a um período de sessenta mil anos. O resultado foi que o primata passou a “viver” várias décadas após a época prevista para a menopausa e, eventualmente, mais de quarenta por cento das fêmeas adultas da população tornaram-se avós. Em outras palavras, a introdução da menopausa, aos poucos, acrescentou simultaneamente as avós e a longevidade pós-menopausa, o que é compatível com a teoria de Hawkes.
          Não é uma prova definitiva e aguarda-se os próximos lances dos críticos da teoria. Mas parece fazer sentido, não? Seja como for, há agora mais elementos para se tentar entender por que diabos, logo na nossa espécie, foi acontecer a menopausa, de que tantas mulheres – e muitos maridos – se queixam pelas mais variadas e convincentes razões fisiológicas e psicológicas.
          Quanto às avós, perdoem-me os pais e mães, mas se elas realmente são responsáveis por aumentar a longevidade da espécie humana, fica mais difícil negar-lhes o sagrado direito de, como escreveu Rachel de Queiroz, amar o neto com extravagância...oferecer-lhe a sedução do romance e do imprevisto...não ralhar nunca... deixá-lo recusar a sopa e comer croquetes...deixá-lo derramar água no gato e - acima de tudo - dar-lhe sua incondicional cumplicidade...
          Mas, e os avôs? Servem para que, além de babar pelos netos por escrito feito o Veríssimo e o Zuenir Ventura?

Rafael Linden


sábado, 19 de janeiro de 2013

Umberto e o erro


          O Umberto aí de cima é o escritor, linguista e filósofo italiano Umberto Eco. Entre muitas outras coisas, ele escreveu – vejam vocês - que “um título deve confundir as idéias e não orientá-las”, ao comentar a escolha de “O nome da rosa” para denominar seu livro de 1980, que se tornou um best-seller mundial. Então, se os leitores estão atrapalhados a culpa não é minha. Peço-vos apenas que confiem neste vosso criado. Se tudo correr bem, um tronco unirá os pés à cabeça.
          A riquíssima narrativa do romance “O nome da rosa” gira em torno de uma série de crimes misteriosos, relacionados à guarda de livros de acesso proibido numa abadia na Itália do século XIV. Como pano de fundo, Eco explora o conflito entre o universal e o particular que, na Filosofia, suscita intenso debate sobre o real significado dos nomes das coisas. Neste contexto o autor acrescentou, como justificativa do título, o argumento de que “a rosa é uma figura simbólica, tão densa de significados ao ponto de já quase não ter mais nenhum”. O romance tem ainda, ao final, a hipógrafe em Latim Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus”, que se traduz mais ou menos em “a rosa de outrora permanece como nome, restam-nos meros nomes”. Quem não leu esse livro não sabe o que está perdendo.
          Pois não é que até mesmo um mestre do quilate de Umberto Eco escorrega ocasionalmente? Ironicamente, ao adotar no final de seu livro o texto “Stat rosa pristina...”, Eco reproduziu uma transcrição errônea de um poema do século XII chamado De Contemptu Mundi (Desprezo pelo Mundo), do monge Bernard de Cluny. O verso original era “Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus”, referindo-se não à rosa, mas a Roma em um contexto que trata explicitamente de personagens históricos romanos.
          Sim, senhora, é claro que isso não tira nem um pouquinho do mérito do livro, nem do Umberto. Muito menos do título, a rosa cabe perfeitamente. Não, não sou daqueles que implica com gente famosa à toa. Muito pelo contrário. Se a senhora fizer o favor de me deixar continuar, verá que a crônica é elogiosa. Então, como eu ia dizendo antes de ser rudemente interrompido...
          Esta historinha poderia ficar para sempre como mera ilustração de que mesmo mentes privilegiadas erram de vez em quando. Mas há algo melhor do que isso. O fato é que Umberto registrou publicamente o reconhecimento do engano em sua palestra da série das “Conferências Tanner sobre valores humanos”, na Universidade de Cambridge em 1990. Em lugar de apresentar desculpas esfarrapadas, responsabilizar quem sabe um secretário ou assistente distraído, negar peremptóriamente um fato concreto, esconde-lo em meio a um turbilhão de outros assuntos ou, simplesmente, omitir-se na expectativa de que sua estatura dissolvesse o desagradável tropeço na magnitude de sua obra, Eco reconheceu o erro. Eu quase escrevi “humildemente”, mas não tenho a menor idéia da humildade ou arrogância que caracteriza o comportamento habitual daquele escritor. E isso não importa.
          Assumir a responsabilidade e as consequências do próprio erro. Aí está. Talvez o ato supremo de grandeza intelectual.

Rafael Linden

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Cobra voadora e outros bichos


          Há alguns anos foi exibido o filme de ação “Serpentes a bordo”, dirigido por um ex-dublê de Hollywood chamado David Ellis, que faleceu há poucos dias. Esse filme serve de prelúdio para nossa crônica de hoje. De antemão advirto que até eu, que jamais pagaria para ver um troço com um título desses, descobri na Internet o que acontece até o final. Mas prometo não estragar o programa de quem ainda planeja assisti-lo.
          O filme conta a história de um incidente num avião, no qual um agente to FBI levava, para depor em um tribunal de Los Angeles, a única testemunha de um crime cometido por um mafioso. Sabendo da viagem e do depoimento, o criminoso dá um jeito de enfiar na aeronave um container contendo quinhentas cobras venenosas, equipado com um temporizador de abertura. No meio do voo as cobras são liberadas para atacar os passageiros, tripulantes e pilotos, a fim de derrubar o avião. E por aí vai.  Este filme, curiosamente, rendeu ao seu ator principal, Samuel L. Jackson, um prêmio na Alemanha que tem o inusitado nome de “Bambi”, ofertado a profissionais de entretenimento pela excelência de suas atividades. Mas, convenhamos, conseguirão os prezados leitores reprimir uma risadinha malévola ao associar Samuel L. Jackson de “Febre na selva” e “Pulp fiction” a um prêmio chamado...”Bambi”?!
          Seja como for, a crônica de hoje não é sobre as cobras do filme, que viajaram no compartimento de carga, e sim sobre uma cobra solitária que fez sua primeira e única viagem aérea do lado de fora de um avião. Pois acreditem que, há poucos dias, os passageiros de um turbo-hélice Bombardier Q400 da empresa australiana Qantas, que faz a rota da Australia para a Nova Guiné, testemunharam, fotografaram e filmaram com seus celulares a saga de uma píton de três metros de comprimento que, sabe-se lá por que cargas d’água, pendurou-se na asa do avião antes da decolagem e acabou sendo carregada por oitocentos quilômetros até chegar, morta é claro, ao aeroporto de destino.
          A píton, que não é venenosa e subjuga suas presas com um afetuoso abraço que comprime e esmaga as vítimas, talvez sofresse de inveja patológica e, por isso, aproveitou a única oportunidade que encontrou de voar tal como as chamadas “cobras voadoras” propriamente ditas, as quais existem no sudeste da Ásia. Essas cobras sobem ao topo de galhos de árvores bem altos e de lá se atiram de forma a chegar a outras árvores ou ao solo. Na verdade também não voam, mas planam no ar graças a sua capacidade de, digamos, “encolher a barriga”, produzindo um efeito aerodinâmico semelhante a um daqueles discos de plástico conhecidos como frisbees, que já foram muito populares nas praias do Rio de Janeiro. Ou então, a pobre píton australiana estava apaixonada por outra que morava na Nova Guiné. A paixão leva qualquer animal a fazer coisas do arco da velha, né?...
          Mas, em matéria de bichos voadores esquisitos, meu predileto ainda é o boi voador. Aquele que foi imortalizado em uma marchinha carnavalesca do Chico Buarque, com a letra “quem foi, quem foi, que falou do boi voador...”, escrita para a peça “Calabar, o elogio da traição”. Pois saibam que a peça e a música completam quarenta anos em 2013. Assim conseguimos, embora a duras penas, encaixar a ocorrência da cobra voadora em nosso salutar hábito de comemorar aniversários culturais. Ufa!
          A marchinha do Chico foi inspirada na história real do boi voador, que se passou em plena Recife no século XVII, na época do domínio holandês. Consta que o conde Mauricio de Nassau, Governador, Almirante e Capitão-General das propriedades da Companhia das Índias Ocidentais no Nordeste do Brasil, andava meio desacreditado por sua promessa de construir uma ponte sobre o rio Capibaribe. O povo dizia que era mais fácil um boi voar do que o conde construir a ponte. Pois Nassau não só conclui a ponte como, no dia da inauguração, armou uma espetacular farsa, fazendo com que um boneco de couro estofado com palha, no formato de um boi, parecesse voar do alto de uma construção no jardim palaciano, quando na verdade era movido por um conjunto de cordas e roldanas manipuladas por marinheiros holandeses. O anúncio prévio de que o mauricinho dos países baixos faria um boi voar atraiu uma multidão para a ponte, cuja travessia implicava o pagamento de pedágio, o que produziu uma renda suficiente para cobrir prejuízos do conde com a construção.
          Por aí se vê que vem de longa data essa desagradável sensação de que insignes governantes, de locais que não convém identificar, ocasionalmente pareçam produzir bois de palha em lugar dos verdadeiros ruminantes, só para o povo ver de longe. Seria, então, apenas mais um de nossos notórios delírios imaginar que o prefeito da pacata cidade de Cairns, no nordeste da Austrália, de onde saiu o voo no qual a desgraçada píton pegou carona, teria armado esta triste história do ofídio voador? Aqui pra nós, como as autoridades australianas ainda não descobriram de que jeito o bicho foi parar na asa do avião, não se pode descartar esta hipótese. Se foi assim, pelo menos o alcaide poderia ter feito a caridade de mandar pendurar uma cobra empalhada, como cá fez o Conde de Nassau.

Rafael Linden


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lantejoulas


          Diz-se que a crônica é uma narrativa sobre o cotidiano. Assim espera-se, em geral, que a crônica de Natal seja seguida por outra de Ano Novo. É aí que mora o perigo. Pois, nessa época do ano, quando o cronista não está jiboiando nalgum hotel-fazenda, quase sempre está mofando na fila do supermercado ou esfalfando-se ao assar o peru e produzir a farofa, a uma temperatura ambiente que prova ser o aquecimento global um fenômeno concentrado em sua diminuta cozinha.
          Nestas circunstâncias torna-se difícil achar assuntos de Ano Novo que não resoluções a descumprir, Reveillon na praia, conflitos familiares explosivos à mesa farta ou a traquinagem do Zequinha, que arrancou a coxa da ave e bateu com ela na cabeça do irmãozinho menor. Para fugir do lugar comum e, assim, escapar do desdém dos escassos leitores que já curaram a ressaca e conseguem enxergar estas mal-traçadas linhas, aí vai a crônica de Ano Novo sobre...lantejoulas.
          É outra daquelas em que o embatucado cronista lança mão do último número da revista eletrônica do Smithsonian Institute e, a duras penas, eventualmente desemboca no cotidiano. Portanto, armai-vos de vossa proverbial paciência e, como se costuma dizer no início das sessões solenes da Academia Francesa, vamulá!
          Desta vez refiro-me a um artigo de Emily Spivack, editora de história da moda da Smithsonian. Ela narra brevemente a saga das lantejoulas a partir da descoberta da tumba de Tutancamon, na qual se encontrou um monte de disquinhos de ouro costurados nas vestimentas reais. Isso indicaria, segunda Spivack, que a invenção das lantejoulas teria sido, no mínimo, por volta do décimo quarto século antes de Cristo. No entanto, leio em outras fontes que lantejoulas de ouro foram também encontradas em escavações no Vale do Indo, no Paquistão, e datadas de cerca de vinte e cinco séculos antes da Era Cristã. Portanto, tais acessórios parecem ser ainda mais antigos do que pensa a jornalista.
          Spivack comenta que lantejoulas de ouro costuradas nas roupas poderiam ter vários significados: no caso das vestimentas do faraó, preparação para um outra vida; ou então uma forma de ostentar status e riqueza, um meio de manter preciosidades junto de si para evitar roubo ou, ainda, a confiança no brilho do metal precioso para afastar maus espíritos. Seja qual for o propósito das numerosas lantejoulas de Tutancamon, esses singelos disquinhos brilhantes, com um furinho no meio, acabaram por celebrizar-se como ornamentos de roupas. Talvez por prever tal sucesso, Leonardo da Vinci - ele mesmo - projetou uma máquina de fabricar lantejoulas, que consta de um de seus históricos desenhos no Codex Atlanticus, mantido na Veneranda Biblioteca Ambrosiana de Milão. Ninguém sabe se a engenhoca funcionaria, porque nunca foi construída. Mas é reconfortante imaginar que o grande Leonardo também se dava a uma fuleiragem de vez em quando...
          A articulista prossegue comentando o advento do uso decorativo das lantejoulas e, en passant, menciona o nome do empreendedor Herbert Lieberman, que fez fortuna nos Estados Unidos desenvolvendo progressivamente novos métodos de fabricação das pecinhas, incluindo o uso de gelatina em folha antes da segunda guerra mundial, bem como uma parceria temporária com a companhia Eastman Kodak para emprego de folhas de acetato, até chegar ao processo atual de fabricação em vinil.
          Como sói acontecer com a moda, ultimamente observa-se um retorno febril de paetês e lantejoulas como ornamento de roupas. Mas, para começo de conversa, navegando pela Internet cheguei ao site de uma agência de modelos, a qual ensina que paetê é uma lantejoula simplesinha, enquanto lantejoula é...paetê mais decoradinho. Vejam que maravilha! Já a onipresente Wikipedia reza que um tecido bordado com lantejoulas é...paetê (do francês pailleté). E por que essa transcendental polêmica intrigou o cronista? Porque, na minha infância, costumáva-se assistir pela televisão aos concursos de fantasias do carnaval, onde figuras antológicas como, por exemplo, o museólogo Clóvis Bornay, o figurinista Evandro de Castro Lima e a vedete Wilza Carla pontificavam nas categorias luxo ou originalidade com suas intrincadas vestimentas ricas em plumas e...paetês. E eu que, quando criança, achava que os tais paetês das fantasias de “luxo” eram pedras preciosas, aprendi mais uma nesta altura da vida.
          Mas, que diabo tem isso a ver com o Ano Novo, pergunta a gentil leitora à beira da exasperação. É que, na esteira do revival dos acessórios carnavalescos, o que mais aparece por aí é conselho para as madames capricharem nas lantejoulas em seus vestidos de festa, a começar pelo Reveillon, no qual acredita-se ser de bom tom brilhar intensamente. Lantejoula no vestido, lantejoula no sapato, lantejoula na bolsa, em todo lugar. Essa febre parece ter começado no ano passado e agora estende-se à decoração do próprio local da festa. Estamos em plena era da lantejoula que, a continuar assim, acabará por superar a crise financeira mundial como definidor da década.
          Mas há algo mais a ver com o Ano Novo. Roberto Rodrigues, em uma oficina na Estação das Letras, ensina que a crônica deve, sempre que possível, incluir alguma reflexão sobre aspectos sociais, psicológicos ou filosóficos da condição humana. Então, aí vão dois. Primeiro, concordo com Emily Spivack ser uma pena que o processo de fabricação de lantejoulas com gelatina não tenha sobrevivido. Pois, como lembra a estilista inglesa Christa Weil, “a ausência de lantejoulas conta histórias”, referindo-se a uma passagem de um livro que descreve marcas de mãos humanas impressas em vestidos de baile antigos, na forma de uma falha na cobertura das lantejoulas. Christa comenta que dificilmente se encontra modo mais romântico de arruinar um vestido. Já o descarado cronista abaixo-assinado, pensando no que costuma rolar em tantos Reveillons por aí, fica a imaginar os lugares onde se encontraria falhas na cobertura de lantejoulas de gelatina em vestidos contemporâneos.
          Por fim, ocorre-me que lantejoulas coloridas podem ser pregadas em qualquer pano barato e promover a ostentação de um falso luxo, tal como nos carnavais de outrora. Vistas de longe, lantejoulas metafóricas facilmente brilham na imagem de coisas e gentes que, no fundo, não passam de pano barato. Destarte, é preciso atenção aos ornamentos, nesta época de Ano Novo e a qualquer tempo em que tanta gente planeja, promete, jura e, com frequência, jamais cumpre grandes desígnios que se transformam afinal em pequenezas, as quais não passam da superfície e desaparecem facilmente ao toque das mãos mornas de quem quer que se aproxime.
          Portanto, Feliz Ano Novo!

Rafael Linden