sábado, 23 de fevereiro de 2013

Nicolau e o umbigo


          Esta semana o Google celebrou, com um desenho na página de abertura, os quinhentos e quarenta anos do nascimento de Mikolaj Kopernik, ocorrido em 19 de fevereiro de 1473 em Torun, no norte da Polônia. Eu mesmo sou filho de poloneses, mas a língua nativa de meus pais é tão complicada que nela só aprendi a falar um par de frases pitorescas e inúteis e sequer consigo achar, no computador, um jeito de botar o acento agudo em cima do “n” no nome da cidade, que se pronuncia Torúnhe (com “e” mudo...).
          Digressões à parte, Nicolau Copérnico – na grafia em língua portuguesa - foi, acreditem, matemático, jurista, médico, artista, poeta, diplomata e economista. Falava e escrevia em cinco línguas. Viveu setenta anos, já em si um feito para sua época. E, ao contrário deste humilde amador que, confortavelmente instalado no telhado, mete-se a dar palpite torto sobre tudo e qualquer coisa, ele de fato conhecia todos aqueles assuntos. Era o que se costuma chamar de polímata, ou de “homem do Renascimento”. Mas, na boca do povo, ficou famoso como astrônomo.
          O cidadão era da pá virada. Apesar de forte ligação com o clero, Nicolau cismou que havia algo errado com a visão prevalente na época, de que a Terra era o centro do Universo e tudo o que se via no céu girava em torno dela. Essa idéia, proveniente de Aristóteles e Ptolomeu, entre outros, era ponto pacífico para a Igreja Católica. Copérnico escapou de um auto da fé porque se manteve a uma distância prudente da Península Ibérica e, por trinta anos, relutou em expor para mais do que meia dúzia de amigos sua convicção de que o centro do Universo era o Sol. Apenas no ano de sua morte, um de seus ex-alunos levou a público o livro De revolutionibus orbium coelestium (Sobre as revoluções das esferas celestes), no qual o mestre explicava sua tese. Uma espertíssima dedicatória ao papa Julio III livrou a cara do discípulo e a obra chegou a ser reproduzida em cerca de quinhentos exemplares, outro feito para a época.
           Eventualmente e, entre outras coisas, à custa da impiedosa perseguição do Santo Ofício a Galileu Galilei, a idéia de que a Terra é o centro do Universo (geocentrismo) foi abandonada. O heliocentrismo – do grego helios para “sol” – foi, com o tempo, também revisto e reduzido à demonstração, por métodos científicos rigorosos, de que a Terra e outros planetas de fato giram em torno do Sol. Porém, nosso astro-rei é apenas uma das estrelas da Via Láctea, a qual é uma das centenas de bilhões de galáxias do Universo; e mais, só a Via Láctea já contém centenas de bilhões de estrelas. Ou seja, o Sol é tão somente o centro de um conjuntinho muito mixuruca de corpos celestes, uma coisinha à toa perante a vastidão do cosmo.
          Neste exato momento a estimada leitora, ansiosa, pergunta “Mas, afinal, o que está no centro do Universo?”. Aí a porca torce o rabo. A astrofísica moderna tem uma resposta desconcertante: não existe um “centro”. E a explicação para isso é baseada na demonstração feita em meados da década de 1920, pelo cosmólogo Edwin Hubble, de que todas as galáxias se afastam umas das outras de forma compatível com a contínua expansão do Universo. Esta observação é um dos pilares da hipótese do Big Bang e implica que não é possível determinar um centro fixo para o Universo. Com isso, descem pelo ralo tanto o geocentrismo quanto o heliocentrismo. Se o leitor tiver curiosidade, há um filminho simpático feito pelo Jet Propulsion Laboratory da Caltech, no qual o cientista Varoujan Gorjian ilustra a expansão cósmica de forma bem simples (*).
          Porém, se há uma lei universal que atropela todas as outras é que a porca pode torcer o rabo para um lado ou para o outro, né? Pois, nesses tempos em que tudo é acessível ao toque dos dedos, muita gente vem repetindo a mesma pergunta a qualquer interlocutor que porventura esteja ligado na Internet. Então, vez por outra aparece uma resposta como “o centro do Universo é a Terra porque, visto daqui, parece que todos os corpos celestes estão se afastando de nós...”. Um astrofísico diria que, de fato, em qualquer ponto de observação parece que apenas o resto do Universo está se afastando; mas, na verdade, o ponto de observação está igualmente se afastando dos demais e não está mais onde estava no instante anterior, porque o que está se expandindo não são os objetos e sim o espaço propriamente dito! Complicou? Veja o filme do Doutor Gorjian (*), ele explica direitinho.
          Seja como for, os inúmeros astrofísicos que acompanham fielmente este blog manifestariam, se quisessem, divergências quanto às teorias prevalentes no seu campo de pesquisa. E bastaria um deles se irritar para demonstrar cabalmente que o abaixo-assinado tem um entendimento muito superficial desta coisa toda. Antes que aconteça, chegou a hora de partir para a segunda metade do título desta crônica, se é que os caríssimos leitores ainda ligam para isso. Não porque ao falar do Universo qualquer coisa pode ser ipso facto incluída. E sim porque, frequentemente, as coisas percebidas de um determinado ponto de vista parecem diferentes do que realmente são.
          Pois vejam que, ao pensar na extraordinária contribuição do cientista polonês, fui assaltado por visões, lembranças e presságios protagonizados pelos mais variados indivíduos para quem tudo na vida gira, perenemente, em torno de cada um deles. São homens e mulheres de todas as idades, profissões e credos, os quais acreditam fervorosamente que tudo que existe foi por eles criado, ou lá está para servi-los; que todos os outros lhes devem atenção ou admiração, ou ambas; que todas as coisas lhes pertencem, ou lhes são devidas; que suas opiniões são sempre as corretas; e outras interpretações, pra lá de egocêntricas, do seu entorno. Esses indivíduos revivem a ilusão de que o Universo é só aquilo que enxergam a olho nu, ou que simplesmente querem ver. Há que comprendê-los, pois até mesmo grandes gênios da humanidade, como o próprio Nicolau, também acharam em algum momento que o todo é apenas aquilo que seus olhos viam. Pode-se perdoá-los, pois a cosmologia admite que, de um único ponto de vista, qualquer um pode facilmente se enganar quanto à posição ou o movimento das coisas. Mas, convenhamos, é muito chato conviver com essa gente pretensiosa, incapaz de admitir que, assim como o Universo da Astrofísica, mesmo o modesto universozinho de cada um, definitivamente, não gira em torno do seu próprio umbigo.


Rafael Linden


domingo, 17 de fevereiro de 2013

O buquê


          Deu nos jornais do Rio de Janeiro. Na sexta-feira, oito de fevereiro, ao meio dia, o prefeito do município entregou ao Rei Momo as chaves da cidade, inaugurando o carnaval de 2013. No fim da tarde, em uma rua pacata do bairro de Marechal Hermes, uma mulher de meia-idade foi assassinada com cinco tiros por um homem que bateu à sua porta com um buquê de flores.
          O que tem uma coisa a ver com a outra? Talvez nada, admito. Mas, em meio à bandalheira ética que assola a pátria amada, não consigo apagar a idéia de que a presença ostensiva do poder público no carnaval é apenas mais uma oportunidade de usar pirotecnia para disfarçar a esculhambação em que se transformou nossa política. Assim como as flores suburbanas esconderam a arma de fogo, quase todo dia somos brindados com um buquê sob o qual se esconde uma maracutaia criminosa.
          Deixemos, porém, a política de lado pois um crime de morte premeditado já é desgraça suficiente, não só para a vítima, sua família e amigos, mas para qualquer um que valorize a vida. Ainda por cima, ao atrair a vítima com as flores o assassino usou de um requinte de crueldade que deveria acrescentar ainda mais tempo à sua pena, se é que um dia ele virá a ser identificado, preso e condenado. Mais uma semelhança com, bem, vocês entendem.
          Flores exercem um fascínio particular sobre as pessoas. Antecedendo de muito a era dos buquês românticos, há indícios de arranjos florais em vasos egípcios datados de vinte e cinco séculos antes da era cristã. Na Europa, desde o século XVI deixaram de ser usadas exclusivamente em poções medicinais ou na culinária e começaram a ser empregadas na decoração do trajeto de procissões religiosas, em igrejas, palácios e residências. Pouco depois, passaram a fazer parte de funerais e casamentos e, no século XVII, tornaram-se adornos pessoais. Por aí se vê que, quando Scott McKenzie cantou San Francisco (be sure to wear flowers in your hair), no Festival de Monterrey em 1967, reviveu uma tradição de mais de trezentos anos. E a canção tornou-se um hino dos hippies que migraram para a California no final dos anos sessenta, bem como dos jovens que participaram da Primavera de Praga.
          Conta-se que, a partir do século XVIII, as flores passaram a ser usadas como presentes, quando o rei Carlos Ii da Suécia trouxe da Pérsia o costume de lhes atribuir signficados particulares, a chamada “linguagem das flores” que se tornou um hábito na Inglaterra vitoriana do século XIX. Cada uma e, dentre as da mesma espécie, cada cor tem um significado, embora haja controvérsias em alguns casos. Portanto, se o estimado leitor quiser enviar flores para alguém, deve consultar as tabelas de significado, pois a destinatária pode ser versada em floriografia e uma rosa vermelha, uma tulipa ou uma orquídea talvez venham a ser mal interpretadas.
          Nota-se ainda nos jornais ou nas páginas de notícias que deram destaque ao crime, a omissão de que flores havia no arranjo. O noticiário especula sobre um romance mal resolvido e quem sabe o buquê simbolizasse uma despedida macabra. Mas também é possível que o assassino simplesmente soubesse, ou apenas imaginasse, quão irresistível seria um buquê para a infeliz vítima. Seja como for, a omissão é bem-vinda. É triste pensar que as flores do buquê da sexta-feira de carnaval pudessem, a partir daí, ser identificadas com um significado tão trágico.

Rafael Linden

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Sempre haverá uma Inglaterra


          Coisas que só acontecem na Grã-Bretanha me lembram uma seção da revista The New Yorker, chamada “There’ll always be an England” (Sempre haverá uma Inglaterra). Os textos, em geral, fazem pilhéria com esquisitices dos britânicos garimpadas em jornais provincianos. É uma saudável gozação dos ianques para com os antigos colonizadores, a começar pelo título, copiado de uma canção patriótica inglesa. Porém, outras coisas que se passam na velha ilha são emblemáticas. A descoberta do esqueleto do rei Ricardo III é uma delas.
          Uma das primeiras peças do dramaturgo William Shakespeare trata deste monarca. O personagem está entre as mais marcantes representações da maldade na história do teatro. Tanto que a primeira versão da peça, publicada em 1597, teve o título “A tragédia do Rei Ricardo terceiro, contendo os planos traiçoeiros contra seu irmão Clarence, o assassinato de seus inocentes sobrinhos, sua usurpação tirânica [do trono inglês], a trajetória completa de sua detestável vida e merecidíssima morte”. Isso sim, é título bacana para uma biografia.
          Para completar o sumário, basta acrescentar que um dos sobrinhos mencionados era o herdeiro legítimo do trono que, junto com o irmãozinho menor, era tutelado pelo tio. As crianças foram encarceradas na Torre de Londres e, de repente, sumiram. O tio é o principal suspeito destas mortes e, uma vez proclamado rei da Inglaterra, teria continuado a praticar toda sorte de crueldades, inclusive assassinar a própria esposa para casar com uma sobrinha. Como dizia minha mãe, Ricardo III era “mau que nem um pica-pau”. Não bastasse tudo aquilo, ainda seria corcunda e manco. Esse paradigma da maldade foi revivido também no cinema, através da interpretação de Lawrence Olivier, em 1955, e de Ian McKellen em 1995, além de um documentário de Al Pacino em 1996. Porém...
          Pois é, porém...sempre haverá uma Inglaterra, onde existe uma Sociedade com milhares de filiados do mundo inteiro, destinada exclusivamente a defender a memória de Ricardo III. Não estranhe, caro leitor, pois a agremiação tem lá suas razões para questionar a pecha de criminoso cruel atribuída ao monarca. Neste caso o aforismo “a História é escrita pelos vencedores” se aplica como uma luva. Ricardo III reinou por apenas dois anos até ser morto em 1485, no campo de batalha, por seu inimigo Henry Tudor, o qual inaugurou a dinastia que leva seu sobrenome ao ser designado o rei Henrique VII. Daí em diante, restava no século XVI pouca oportunidade para contestar a versão oficial dos Tudor. Entre os sobreviventes dos massacres que aconteceram na Inglaterra por décadas a fio na segunda metade do século XV, não sobrou quase nenhum amigo de Ricardo III. E, cem anos depois, quando Shakespeare escreveu sua peça, ainda reinava a última representante da linhagem dos Tudor, Elizabeth I, aliás magistralmente interpretada por Cate Blanchett num filme de 1998.
          E é aí que entra o esqueleto. Há poucos dias foi confirmado, por exames de DNA, que são de Ricardo III os restos mortais encontrados debaixo de um estacionamento municipal próximo à catedral de Leicester. Perdoem a interrupção mas devo advertir, aos que quiserem ler esse texto em voz alta, que o nome da cidade se pronuncia “Lésstâh”, uma das armadilhas dos britânicos contra quem se atreve a aprender sua língua. A descoberta é memorável e premia, entre outros, a obstinação da cineasta Philipa Langley, participante da Sociedade Ricardo III, que vem lutando há tempos pelo resgate da verdadeira história deste rei. Mas, acima de tudo, representa a coroação do trabalho extraordinário de uma equipe de especialistas em arqueologia, bioarqueologia, genética, história e genealogia da Universidade de Leicester, liderados pelo arqueólogo Richard Buckley.
          Os cientistas conseguiram não apenas encontrar e recuperar os restos mortais, como identificar uma família da décima-sétima geração de descendentes de Anne de York, irmã de Ricardo III. Isso permitiu a comparação do DNA mitocondrial, que passa continuamente das mulheres para seus filhos. A sorte ajudou, pois a única mulher entre os três descendentes vivos não tem filhos e a linhagem ricardiana de DNA mitocondrial será extinta quando ela morrer.
          Com a confirmação, o debate sobre o caráter do rei ganhou fôlego e a rede CNN divulgou as opiniões contraditórias do presidente da Sociedade Ricardo III, o médico Phil Stone, e do historiador Dan Jones. O Dr. Stone defende que, embora o rei não tenha sido santo, também não foi culpado por muitas das crueldades a ele atribuídas, como o assassinato dos sobrinhos e da mulher. Por seu turno, Jones reconhece que há um certo exagero nos crimes atribuídos ao monarca e até na descrição de suas deformidades, já que o esqueleto encontrado revelou pouco mais do que uma forte escoliose. Também reconhece que ele se esforçou para promover justiça social, estabilizar as finanças e conter a desordem pública. No entanto, Jones reafirma a usurpação do trono e outras barbaridades cometidas durante o reinado. A polêmica não se resolverá tão cedo, mas a descoberta dos restos mortais vai estimular a revisão da história, mesmo que o vilão não seja, afinal, reabilitado.
          Mas, e depois dele? Aqui o problema é inverso, já que depois dos vinte e quatro anos de reinado de Henrique VII, a dinastia dos Tudor ainda se manteve no poder por quase um século e, naturalmente, escreveu sua história. Consta que, nos primeiros anos, Henrique VII restaurou a estabilidade política na Grã-Bretanha, para o que contribuiu seu esperto casamento com Elizabeth de York, a tal sobrinha que Ricardo III queria abiscoitar. O matrimônio uniu as duas mais fortes dinastias da época e, assim, extinguiu a oposição. No entanto, consta também que, no decorrer do seu reinado, a Inglaterra foi tomada por uma roubalheira sinistra, que só terminou com a morte de Henrique VII e, durante a qual, a corte se apropriou indevidamente da riqueza de boa parte da população da Inglaterra. Ou seja, crueldades as há de todo tipo e feitio e talvez venha a ser necessário, eventualmente, criar uma Sociedade para defender a memória de Henrique VII também.
          Eu ia terminar com alguma piadinha, mas, relendo o que escrevi acima, me parece que esta crônica, de certa forma, se resume à esperança de que, agora, a Grã-Bretanha terá motivação e talvez novos subsídios para reavaliar um período conturbado de sua história. Na época, os feitos e os desmandos de seus monarcas se embaralharam em versões de vencedores e vencidos, alianças de ocasião e esmagamentos mútuos de dinastias derrotadas, tudo temperado pela dificuldade de separar o mal verdadeiro da demonização oportunista dos inimigos. E, cá pra nós, não resisto ao apelo da frase ampliada “sempre haverá uma Inglaterra...em algum lugar”, que me ocorre quando, ao reler o texto, sou invadido pela estranha sensação de que, não fosse pelo sotaque, estaria eu a ler notícias locais.

Rafael Linden

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Folhetim

          Leda bateu com força a porta atrás de si e escorregou lentamente até dobrar-se em ângulo reto, pousando nas primeiras lágrimas que antecederam o choro sentido.
          Quinze anos antes, no vilarejo natal, o velório de seu pai fora tumultuado pela chegada de uma moça, em prantos. “Que será de meu filho, agora?”.
          A mãe de Leda expulsou a recém-chegada, aos gritos. “Então é você, sua vagabunda! É você o serão, o acidente no sítio, o carro enguiçado, o imposto de renda, o fiscal inesperado! É você o jantar intocado, a meia cama vazia, o café da manhã solitário! Sua cachorra! Saia já daqui com esse menino imundo de mentiras, de traições!”. Empurrada porta afora a outra, humilhada, murmurava “Fui tão traída quando ela, tão traída quanto”.
          Dias depois se abriu o testamento do pai, deixando metade dos bens para cada viúva. Essas não se olharam, mas os meios-irmãos se remexiam, curiosos. O menininho Ernesto sorria enlevado, Leda quase queria pegá-lo no colo. Num canto do cartório, duas funcionárias fofocavam sobre o dia em que flagraram a mãe de Leda saindo furtiva, no meio da tarde, da casa do tabelião. Sem querer, elevaram as vozes justo o suficiente para a adolescente ouvir.
          Era vergonha demais para cidade tão pequena. Descobrindo-se um personagem de novela, Leda resolveu que não tinha ninguém e foi-se para a capital. Esperta, logo se empregou no comércio, completou a escola noturna e passou no vestibular para Letras. Conquistou prestígio e, de quebra, o coração de um colega com quem se casou dois anos depois da formatura, numa capela repleta de amigos. Sem família, ou assim lhe pareceu.
          No fundo da igreja, um jovem acompanhou o casamento ao lado de uma quarentona viçosa e elegante. Ao contrário dos múltiplos grupinhos, reencontros, apertos de mão, abraços e beijos, saudades e alegrias que cortavam o ar da recepção, Ernesto e a mãe aproximaram-se discretamente da noiva. Ofereceram seus votos de felicidades pelo casamento e condolências pela morte da mãe de Leda, que fora comunicada por carta do tabelião, meses antes.
          Comovidos, trocaram números de telefone e prometeram manter contato. Daí em diante ligavam apenas nos aniversários e no Natal. Era tanto a fazer na capital, vida intensa demais. Não havia tempo. Nem assunto. Eram estranhos, ainda que parentes. Mas os telefonemas, ano após ano, tiravam o peso do antigo drama.
          Leda tornara-se escritora de sucesso. Crônicas semanais no principal jornal da cidade e dois romances festejados. Curara as feridas da adolescência e retomara a fé no amor, que sentia tão forte em si e no esposo, e que permeava todos os seus escritos.
          Ela parou de chorar. Desencostou da porta, levantou-se do chão, pegou o telefone com raiva e ligou para o meio-irmão. “Ernesto, sua mãe está comendo meu marido”.


Rafael Linden