sexta-feira, 26 de abril de 2013

Fragmentos de um certo diário


          Há poucos dias, o editor de um grande jornal italiano recebeu, pelo correio, um envelope sem remetente contendo um bilhete cujo texto foi montado com letras recortadas de revistas, acompanhado de três folhas de papel recompostas dos fragmentos encontrados numa lata de lixo em um subúrbio de Roma. Os fragmentos foram colados com fita adesiva e quem os encontrou escreveu no bilhete que resolvera enviá-los depois de um período de intensa meditação e sofridas orações, durante o qual desistiu de guardar para si, ou pior, vender por um bom dinheiro aquela raridade, por considerar que assim cometeria um pecado imperdoável.
          Trata-se do que parecem ser as últimas entradas de um diário cujo autor é uma celebridade recentemente aposentada. Em vista do enorme interesse que estas poucas linhas podem despertar, o editor do jornal decidiu enviar uma cópia ao abaixo-assinado, para que a divulgasse, naturalmente movido pela enorme audiência que este modestíssimo blog vem conquistando junto às massas. E não digo isso apenas por se tratar de assunto oriundo da Itália.
          Transcrevo abaixo o texto do diário. Abstenho-me de anexar o bilhete em respeito ao anonimato do remetente original.

Castel Gandolfo, 11 de março de 2013
          A chaminé já está no lugar.
          Acordei com uma sensação estranha. Um misto de angústia e expectativa. Creio que, por mais certo que esteja de minha decisão, jamais me abandonará a sombra da dúvida. Mas, era preciso. Mais que isso, era imprescindível. Doía-me na alma a aura de corrupção. Cada um dos desvios individuais, cada uma das denúncias, vazamentos, provas, cada nova estatística das perdas para outras denominações, todos os dias uma voz me soprava a urgência de reagir.
          No mundo de hoje, não vingam atitudes discretas, ainda que eficazes. Por mais que a decisão me tenha atormentado, não me arrependo de ter oferecido a renúncia como ruptura da teia de hipocrisia e das lutas intestinas. Gregório aceitou a renúncia para unificar a Igreja. Rezo para que minha renúncia nos sirva assim como há seis séculos. Espero que o branco da fumaça alvissareira nos traga de volta a paz.

Castel Gandolfo, 12 de março de 2013         
          Preta.
          Padre Georg deu-me a notícia. Ainda bem, a primeira rodada é uma verdadeira Falò delle vanità. Conforta-me, também, que os cardeais não tenham tanta facilidade para encontrar-me um substituto. Perdoa-me, Senhor, até eu cedo à vaidade neste diário, refúgio de minha razão.
          Os jornais abusaram da especulação, como sempre. Não creio que qualquer dos nomes da preferência dos jornalistas tenha chance real de agregar o conclave. Daqui, contemplando o lago Albano, esforço-me para orar por um próximo Pontífice anônimo e para esquecer minhas preferências. É inútil. Nem toda a força de minha fé é suficiente para abafar os ecos da política.

Castel Gandolfo, 13 de março de 2013
          Branca.
          Desta vez, quando Padre Georg chegou para me informar, eu fitava o Mediterrâneo. Buscava ao longe distinguir Gibraltar, para estender meu olhar ao Oceano Atlântico. Pensava que, ainda que o conseguisse e meus pobres e cansados olhos humanos pudessem enxergar a distâncias infinitas, meu olhar mal tocaria o extremo norte da Colômbia. Ainda assim, meu pensamento estava com a América do Sul.
          Conheço bem Bergoglio. Guardo para mim e para Vós minha impressão, não me cabe expressá-la, muito menos divulgá-la, sequer em meu próprio diário. Rezo por ele e por todo nós.
          Não sei se voltarei a escrever aqui.

Rafael Linden


sábado, 13 de abril de 2013

Um microscópio, um livro e duas laranjas


          Meus numerosos leitores, e não tenho dedos que cheguem para contá-los, já se acostumaram com os títulos escalafobéticos que vez por outra assolam este modesto blog. E haja paciência para descobrir a intenção do cronista ao encabeçar seu mais recente delírio com tal disparate. Mesmo assim lá vai uma historinha que, eventualmente, explica o próprio título.
          Como sabem alguns, acreditam outros e duvidam muitos, o abaixo-assinado é, de profissão, cientista. E, por isso, escrevo estas linhas no avião de volta de Israel, onde participei de um simpósio no Instituto Weizmann de Ciência (usemos a sigla WIS, pela qual é mais conhecido por aí). São impressões de viagem, mas não vou aborrece-los mais que o necessário com minúcias, muito menos com a fieira de fotografias que as máquinas digitais oferecem sem culpa ou risco de extravio na loja de revelação.
          O simpósio é da série WIS-Brasil, a qual reúne cientistas de lá e de instituições brasileiras. O tema, desta vez, foi sinalização celular. Daqui fomos sete cientistas, sendo três mulheres e, do total, apenas três judeus. Tudo politicamente correto, para quem quer saber e quem não está nem aí.
          O WIS é um dos centros de pesquisa mais respeitados do planeta. Cientistas israelenses podem participar das competições por apoio financeiro oferecido pela Comunidade Européia - ou no que havia antes do continente se meter na atual enrrascada. Mas, dizia eu, uma evidência de que o WIS está entre as melhores instituições científicas é que Israel lidera o ranking dos ganhadores de financiamento europeu e o WIS leva a maior parte.
          O instituto fica no que se pode chamar de “campus dos sonhos de um professor da UFRJ”. Não porque minha egrégia alma mater, na mui pitoresca e aprazível ilha do Fundão, não seja uma maravilha arquitetônica, urbanística, ecológica, florestal e funcional, longe de mim semelhante isso…Mas porque, vejam só, o WIS é totalmente arborizado,  com espécies do mundo inteiro plantadas ao longo de suas ruas; os prédios são alcançáveis a pé de qualquer ponto do instituto e estão em excelente estado de conservação - não só os que acabaram de ser construídos, mas até o prédio no qual o químico Chaim Weizmann fundou, em 1934, o Instituto Daniel Sieff de Pesquisas, mais tarde rebatizado com seu nome; tem mosquito, mas não tem dengue! Pela área que ocupa, sua população é limitada a duas mil e quinhentas pessoas, das quais cerca de 300 cientistas senior, 250 técnicos, uns 1.200 estudantes de pós-graduação e pós-doutores e aproximadamente 800 profissionais de apoio.
          Chaim Weizmann era cidadão inglês e um dos líderes do sionismo, a doutrina do retorno dos judeus à região que hoje contém o Estado de Israel. Com talento para inovação, Weizmann inventou um método para obter acetona de bactérias, muito apreciado pelos seus compatriotas à época da primeira guerra mundial. Diz-se que a importância desta contribuição biotecnológica ao esforço de guerra foi a principal razão da chamada Declaração de Balfour, pela qual em 1917 a Inglaterra reservou, para os judeus, parte do protetorado que conquistariam dos turcos naquele conflito. Esta, pelo menos é a versão que ouvi de um cientista do próprio WIS. Foi a partir daí que se desenrolaram os fatos políticos que culminaram, em 1948, na fundação do Estado de Israel. E agora, muita atenção, pois não só o cronista que vos escreve não discutirá neste blog a política do Oriente Médio, como não abrigará tal debate, usando para isto seus poderes ditatorias sob o argumento plenamente democrático de que o blog é meu e ninguém tasca.
          Excluída a política, prossigamos com só mais alguns fatos e um mínimo de literatura. Chaim Weizmann acabou por se tornar o primeiro Presidente de Israel. Note-se que, no regime parlamentarista lá vigente, poderoso mesmo é o Primeiro-Ministro, enquanto a Presidência tem funções mais cerimoniais do que executivas. Mas o importante é que, enquanto a maior parte dos colonos judeus se instalou no campo e partiu para a agricultura, Weizmann tinha se decidido pela Ciência. Para isso, recrutou outros cientistas de vários lugares, inclusive de Israel.
E, assim, lá foram parar os irmãos Aharon e Ephraim Katzir. Aharon era especialista em química de polímeros, e Weizmann mandou construir para ele um novo prédio. E Ephraim, um biofísico, também acabou por ganhar para sua especialidade um prédio. Os três prédios estão lá, de pé, em excelente estado de conservação e em pleno uso, agora por outros departamentos do WIS. Aharon, tragicamente, foi morto em um atentado terrorista no Aeroporto de Tel Aviv. Ephraim, porém, foi eleito Presidente de Israel assim como Weizmann, ou seja, dois de um total de nove até agora. Por alguma razão lá eles apreciam muito os seus cientistas.
          E daí, pergunta o mesmo leitor de sempre, exasperado porque o cronista não chega onde devia chegar, isto é, no significado do título, do título, do tí-tu-lo! Novamente peço vênia, mas nesse caso justifico-me por estar em pleno voo, sem nada mais para fazer de útil, tá? Ainda assim, a “deixa” de que o título precisava era aquela mesmo. Dizia eu, os israelenses se orgulham dos seus cientistas que, há quase oitenta anos, se esforçam por produzir conhecimento e inovação lá mesmo.
          E, embora possa parecer outra coisa, esta crônica trata de orgulho. E foi inspirada no fato do WIS ficar em Rehovot, uma cidade no centro do país, a cerca de meia hora da ultramoderna Tel-Aviv, uma hora da milenar Jerusalém e quatro horas do extremo sul de Israel. Isso de carro, porque o país inteiro é do tamanho de Sergipe. Rehovot tem pouco mais de 100 mil habitantes, entre os quais uns 30 mil imigrantes. Desses, mais da metade veio da antiga União Soviética, o que explica os vários canais de TV a cabo em russo ou com legendas em alfabeto cirílico. A cidade abriga a Faculdade de Agricultura, Alimentos e Meio Ambiente da Universidade de Jerusalém e o Parque Tecnológico Tamar e sua principal avenida é ladeada por laranjeiras.
Há algumas décadas, era para participar da colheita das laranjas nos kibutzim (comunidades agrícolas) que muitos jovens judeus iam, pela primeira vez, a Israel. Os cítricos ainda são importantes na agricultura israelense apesar de, nos últimos anos, terem perdido o mercado internacional para a Espanha. Diga-se de passagem, a logomarca do WIS é uma laranjeira.
Rehovot se orgulha de ser, ao mesmo tempo, um polo irradiador de ciência, de educação e cultura e…de frutas cítricas. E, por essa razão, seu emblema tem os desenhos de um microscópio, um livro e duas laranjas. Alguns de vocês podem achar que perderam seu tempo lendo isso, mas eu considero admirável gente que desenha um emblema desses, de tanto que se orgulha de, numa região inóspita e vivendo há décadas em permanente estado de guerra, produzir uma parte significativa da melhor Ciência do planeta, venerar a educação, preservar e ampliar a cultura e ainda arrancar daquele solo aquelas laranjas e muitos outros produtos agrícolas que só muito suor e muito amor à natureza conseguem extrair das vizinhanças de dois desertos legítimos, com camelos, beduínos, tempestades de areia e talvez menos água do que choveu no Rio de Janeiro no mes passado.
Tomara que, algum dia, aqui no Brasil os motivos mais importantes de nosso orgulho nacional sejam semelhantes aos da cidade de Rehovot, a ponto de, mesmo que só em pensamento, tornarem-se o nosso emblema.

Rafael Linden