quinta-feira, 30 de maio de 2013

Vozes


          A voz humana é um instrumento extraordinário de comunicação. E não apenas por transmitir a linguagem. Sabemos todos que o mesmo texto dito por duas pessoas, ou pelo mesmo indivíduo com entonações distintas, pode ser interpretado de modo diverso, ou mesmo antagônico.
          O significado e o efeito de uma frase dependem da voz humana, tanto no que se refere à anatomia das vias aéreas, cordas vocais e outros componentes do aparelho fonador (ou vocal), quanto à intenção, humor, envolvimento e saúde física e mental de quem articula as palavras e nelas incute tons e emoções pessoais e íntimos. No entanto, a ênfase na palavra escrita como veículo da linguagem, que resultou da expansão da literatura e da alfabetização na maior parte do mundo, parece ter diminuido o reconhecimento do valor da voz humana como fator crucial na comunicação nas línguas ocidentais.
          Este é o tema de um livro da jornalista e escritora inglesa Anne Karpf, intitulado The human voice: The story of a remarkable talent (A voz humana: história de um talento notável). Infelizmente não encontrei indícios de tradução do livro para a língua portuguesa. Mas, acreditem meus caros leitores que se trata de uma espécie de manifesto a favor de maior valorização dos aspectos vocais da comunicação verbal. Ou seja, mais atenção à infinidade de nuances que a voz de quem fala adiciona ao que está sendo dito, muitas vezes independente das próprias palavras.
          Há, é claro, quem valorize a voz acima de todas as coisas. Por exemplo, assim como jogadores de futebol fazem seguro das pernas, algumas beldades tropicais o fazem das respectivas nádegas e o vocalista da banda Kiss fez da própria língua, certos cantores fazem seguro de suas vozes. Chegou-se ao ponto de um novato americano, revelado num desses programas modernos de calouros que não tem nem a metade da graça com que Ary Barroso costumava espinafrar os desafinados, ter conseguido segurar sua voz no valor de cerca de cinquenta milhões de dólares, quase dez vezes mais do que cantores consagrados como Rod Stewart ou Bruce Springsteen. Já os fonoaudiólogos comemoram anualmente o Dia Mundial da Voz, destinado a alertar a população sobre os cuidados necessários para preservá-la. Porém, Anne Karpf chama atenção de que, em geral, a voz humana é relegada a um plano secundário quando se discute a linguagem, a ponto de faltar até uma classificação consensual de tipos distintos de voz.
          E lá vem de novo aquele impaciente e iracundo leitor, a resmungar: por que estou perdendo meu tempo lendo isso? Porque foi noticiado que o jornalista e museólogo Luiz Ernesto Kawall doou para o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo sua coleção de gravações de discursos, entrevistas, debates e interpretações de personalidades da História, da Política, da Ciência e das Artes, entre outros. Kawall foi um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e seu acervo contém milhares de registros de vozes humanas, além de cantos de pássaros e efeitos sonoros. O conjunto inclui raridades como gravações de Santos Dumont, Ruy Barbosa e outros, inclusive a canção “Luar do Sertão” interpretada por ninguém menos do que Marlene Dietrich! Este material compunha um Museu da Voz, que o jornalista manteve, por muitos anos, aberto ao público em sua própria residência. Agora, aos 83 anos de idade, Kawall resolveu doar tudo para a USP, de modo a preservar e organizar o acervo para que seja digitalizado e colocado à disposição de um público mais amplo.
          Não que meus estimados leitores se interessem pelo que este humilde cronista acha ou deixa de achar, mas a idéía de ouvir discursos, idéias ou músicas antigas na voz de quem as criou me parece muito mais fascinante do que as múltiplas reproduções e interpretações que outros dão às criações do gênio humano. Poemas de Manuel Bandeira na voz do próprio soam mais autênticos do que até mesmo na interpretação de um grande ator, como o falecido Paulo Autran. E as descobertas de um cientista, quando apresentadas pelo próprio, sempre soam diferentes e, em geral, mais vibrantes do que descrições secundárias explicadas por outros.
          Imaginem, então, se achassem por aí alguma gravação de Machado de Assis lendo as Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou Flaubert descrevendo o adultério de Madame Bovary, ou ainda Shakespeare mostrando ao vivo, para um ator de sua época, uma das cenas de Hamlet? Eu entraria na fila e  pagaria ingresso para ouvir. E vocês?

Rafael Linden


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tornados e estatísticas


          Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas a população de Moore, no estado americano de Oklahoma, perdeu a fé nesse ditado popular. Na tarde de 20 de maio de 2013, um tornado arrasou uma extensa área da cidade, deixando pelo menos 24 mortos e destruindo mais de duas mil casas, duas escolas e boa parte do hospital local. O tornado caiu praticamente no mesmo lugar de outro que, em 1999, causara 11 mortes e destruira centenas de casas, além de outras mortes e danos severos em cidades vizinhas.
          Um tornado, ou ciclone, é um funil de ar giratório que ocupa o espaço entre uma nuvem e o solo, com ventos que podem atingir velocidades de até quinhentos quilômetros por hora. Forma-se nas nuvens e fica visível quando toca o chão e levanta poeira e destroços. Sua força é medida numa escala que vai de zero a cinco, dependendo da velocidade dos ventos e, principalmente, dos danos resultantes. Nos dois casos, em 1999 e 2013, os tornados que cairam sobre Moore foram classificados como EF-5, o grau máximo.
          Uma extensa faixa do território dos Estados Unidos, que vai do nordeste do Texas ao oeste da Georgia e do golfo do México até o extremo norte do país, é chamada de “alameda dos tornados”. Nesta região ocorrem ciclones com frequência muito maior do que em qualquer outro lugar dos EUA, causados pelo encontro de massas de ar frio e seco vindas do Canadá com outras de ar quente e úmido vindas do golfo, sem grandes obstáculos como montanhas altas, que não existem na “alameda”. Estima-se que ali ocorram cerca de três quartos de todos os ciclones na Terra, principalmente na primavera. Mas tornados também acontecem em outros países, incluindo boa parte da Europa, o sul da Ásia, a China, Austrália, Filipinas, África do Sul e, perto daqui, o leste da Argentina, Uruguai e o extremo sul do Brasil. Dentre os mais destrutivos da história, Bangladesh registra cerca da metade.
          Todas estas informações técnicas são muito educativas, mas a população de Moore não apenas está em choque pelas vítimas e pela destruição, mas deve estar se perguntando por que uma tragédia desta magnitude se repetiu ali mesmo num intervalo de apenas quatorze anos. Afinal, tornados EF-5 são raríssimos, menos de um a cada mil, porque dependem da incomum coincidência de vários fatores ligados às correntes de ar, umidade, condições do tempo ao longo de grandes distâncias e, ainda, da topografia e da concentração urbana na região onde o ciclone toca o solo. É minúscula a chance desse conjunto de coincidências, que amplificam o poder destrutivo dos ciclones, se dar exatamente no mesmo lugar. Moore tem cerca de cinquenta mil habitantes e ocupa menos de cinquenta e sete quilômetros quadrados, enquanto Oklahoma tem área três mil vezes maior. Mesmo considerando que é o estado com maior frequência de ciclones de grau alto, ainda assim Moore, que fica coladinha à capital do estado chamada Oklahoma City, detém agora uma fatia desproporcional das tragédias deste tipo.
          Por que essa malfadada predileção pela pacata Moore? É plausível que, com base nas séries históricas de massas de ar, temperaturas, tempestades e outros fenômenos naturais, bem como através de novas pesquisas de campo, os cientistas venham a concluir que as condições meteorológicas fazem do entorno de Moore um local mais propício ainda do que o resto de Oklahoma à formação de tornados destrutivos. Por outro lado, não faltará quem atribua as agruras da cidade a desígnios sobrenaturais, a uma retribuição tardia pelas antigas crueldades de algum habitante malévolo, ou a alguma outra causa esdrúxula. Meus fiéis leitores sabem qual seria minha escolha entre essas explicações, mas a crônica não é sobre isso, e sim sobre probabilidades, para não usar o nome – falem baixo para não atrair o bicho - es-ta-tís-ti-ca.
          A improvável repetição da tragédia de Moore lembrou-me um livro extraordinário. Trata-se de “O andar do bêbado”, de Leonard Mlodinov, publicado no Brasil pela Zahar, e em Portugal pela editora Bizâncio sob o título “O passeio do bêbado”. Neste livro, que ostenta o subtítulo “Como o acaso determina nossas vidas” o físico Mlodinov, que já escrevera outros livros de divulgação científica, explica para leigos a teoria das probabilidades e desmistifica a estatística. Entre outras coisas, comenta a dificuldade que tanta gente tem de aceitar a aleatoriedade de certos eventos os quais, por vezes, parecem regidos por uma relação causa-efeito simples. No caso de Moore a questão é aceitar ou não que, às vezes, catástrofes naturais podem se repetir no mesmo lugar por mero acaso.
          Senão, vejamos. A região em torno de Oklahoma City foi atingida por cerca de cem tornados nos últimos cem anos, cinco dos quais atingiram Moore. Pela raridade dos tornados EF-5, depois do terrível ciclone de 1999 certamente a maioria da população da cidade acreditou que não veria algo assim outra vez. Pois aconteceu. E, agora, muitos devem estar seguros de que logo os cientistas conseguirão explicar a razão pela qual a chance de um ciclone atingir o grau EF-5 naqueles parcos sessenta quilômetros quadrados é muito maior do que em qualquer outro lugar. Deixando de lado explicações sobrenaturais, é óbvio que basta mais estudo e equipamentos mais sofisticados para chegar, inevitavelmente, a esta conclusão, certo? Errado.
          Na verdade pode ser, mas apesar de todo o carinho que o abaixo-assinado nutre pelo determinismo nas ciências naturais, é perfeitamente plausível que a repetição da história de Moore seja obra do acaso, ou melhor, de uma nova, porém casual, conjunção de múltiplas coincidências improváveis. Em outras palavras, qualquer cidadão, cientista ou não, estará em pleno gozo de suas faculdades mentais se admitir que, mesmo levando em conta possíveis efeitos de mudanças climáticas recentes, a chance desta tragédia ter ocorrido pela segunda vez em tão pouco tempo era tão pequena quanto, em 1999, de acontecer pela primeira vez. E continua a mesma, ou seja, pode acontecer de novo na próxima primavera, sem ferir as leis da estatística.
          Acreditem, um acaso não nos exime de outro igual e um raio dificilmente cai, mas pode cair duas vezes no mesmíssimo lugar. De modo geral, embora o velho barbudo tivesse boas razões para dizer que a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa, em se tratando de catástrofes naturais a repetição pode ser uniformemente trágica. Se a gentil leitora não acredita, leia o livro do Mlodinov. Na pior das hipóteses não vai se convencer, mas é diversão garantida. A menos, é claro, que a mera menção da palavra estatística lhe seja suficiente para provocar uma crise alérgica.

Rafael Linden


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Lena e o fado


          Lena, Leninha, que pena, peninha, feia, feinha, tão tola, tolinha...e ela disparava atrás de mim, chorando com raiva. Dobrávamos a esquina de nossas ruas, à toda em louca perseguição. Uma vez atirou-me a boneca com tamanha força e tão pouca pontaria que quebrou a vidraça da varanda da velha vizinha. Eu adorava contar essa história na esquina e dobrava-me em gargalhadas ao cantarolar, esganiçado, Lena, Leninha, a vidraça da varanda da velha vizinha. Eu dez, onze, doze, ela sete, oito, nove, varanda vidraça, velha vizinha, Lena, Leninha...
          Quando foi mesmo? Quinze anos depois, que então ainda se dizia três lustros. Lena, Leninha, linda, lindinha, deixou a boneca e caiu nos meus braços como só se fazia antigamente. A velha vizinha dizia que ódio de criança só podia tornar-se paixão, e que já o era quando quebraram a vidraça de sua varanda. Quando quebraram, vidraça varanda, velha vizinha, e Lena ria a mais não poder de meus versos de pé quebrado, que eram só aliterações, memória e devaneio.
          Poesias rabiscadas em guardanapos de papel ganharam melodias arrancadas do fundo do peito, canções que eu sonhava fossem flechas certeiras no coração de Lena. E ela, enlevada, fazia que sim e nem precisava, eu sentia que o amor crescia a cada verso, a cada canção, a cada dia em que mais se curvava a velha vizinha, enquanto eu e Leninha nos agigantávamos de paixão e desejo.
          Torno-me compositor conhecido e, ato contínuo, meu peito sangra. Ela, que nunca enxergara outro, encontra novo amor e o que se estilhaça desta vez é meu coração. Fico de fora da vida de Lena, Leninha, que desfila alegre, cantarolando minhas melodias nos braços de outro. Exibe-se feliz, como se outra felicidade houvesse que não a nossa, que dividimos por dois e multiplicamos por muito mais, num quando que insiste em ficar no passado.
          Deixo de dobrar a esquina. Queimo por dentro em ciúmes, em saudades, em luto sentido, varro desordenadamente as cinzas secas da paixão que dura desde menino, espalho restos calcinados que me envolvem como poeira soprada pelo vento. A cada noite em claro, meu pensamento volta um dia, menos um dia, sempre para trás, na direção de Lena, Leninha, que pena, peninha, feia, feinha, não mais. Tão tolo, tolinho sou eu, desolado percebo.
          Encerro-me por semanas a fio, a tentar destruir a memória de cada lustro de outrora, desperdiço minha energia, procuro inutilmente a saída, a estrada à frente que me levará para longe do abismo do passado que quero esquecer. E, assim como compus para construir a paixão, componho para desconstruí-la. Mas falta-me inspiração e tudo que consigo é reproduzir no papel o plágio rasgado de um fado com o qual, ao ouvir pela primeira vez, desgostei-me porque não me era dado entender o quanto carece esquecer quando a lembrança insiste em nos aprisionar.
          A estrofe que roubo e finjo compor diz “saudades são fé perdida, são folhas mortas ao vento, e eu piso sem um lamento na tua rua ao passar”. Não é, não será minha essa estrofe, mas torna-se, de súbito, a chave que abre a janela. E o caminho se descortina no verso seguinte “e ainda que me custe a vida, não há-de ver-me chorar”.
          Lena, que pena. A vidraça opaca se quebra em canção. Encontro, afinal, minha estrada.

Rafael Linden