sábado, 29 de junho de 2013

As olimpíadas do Ademarzinho


          O pequeno Ademar adora esportes. Mas, tirando jogo de bola e briga de soco, não tem a menor idéia do que se trata. Ainda assim, nas férias plantou-se diante da TV, controle remoto na mão, para acompanhar os “Jogos Límpidos”.
          - Ô menino, são jogos olímpicos.
          - Eu sei, jogos límpidos. É porque não vale dópe, nem roubalheira.
          - Não, garoto. São olímpicos, entendeu? “Ô”límpicos. Ou Olimpíadas.
          - Ah, tá. É inglês, né?
          Satisfeito por ter aprendido uma língua estrangeira, cravou os olhos no judô. Quando o atleta da Noruega deu uma banda num guatemalteco, o Ademarzinho exultou.
          - Aí, noruégua! Acabou com o cara!
          - Não acabou ainda, foi só um yuko.
          - Os golpes são Yoki, Casaca e Pimpão, né?
          - Os nomes são esquisitos, mas o que você quis dizer é Yuko, Waza-ari e Ippon. Isso aí são os pontos. Ganha quem fizer mais deles, ou então quem derrubar o adversário de costas, que vale um ippon, como se fosse um nocaute.
          - Esses caras são frouxos, se fosse eu dava logo um chute na orelha.
          - Não vale no judô.
          - Mas no uéficê vale. Eu gosto mais.
          Ele muda de canal e começa a acompanhar a ginástica artística.
          - Que negócio é esse de homem dançando?
          - São os exercícios de solo, Ademar. Presta atenção nos saltos mortais. Não é qualquer um que faz isso, não.
          - Não entendi porque o chinês ganhou.
          - Os juízes deram nota mais alta para ele.
          - Nota? Por que, tem professora? E pra que juiz? É um de cada vez, ninguém faz falta no outro, não tem impedimento nem...o que é isso?
          O garoto mudou de canal sem querer e entrou na semifinal da ginástica rítmica.
          - Essas louras misturam bambolê com bola de borracha e ficam jogando pro alto. Parecem focas de circo. Não gostei, não, vou mudar de canal. Caraca, elas estão se afogando!
          - Não, Ademarzinho, olha lá. Elas voltaram de novo, é nado sincronizado.
          - Se é pra ficar em cima d’água, pra que elas afundam de cabeça pra baixo?!
          E por aí foi, o menino desesperado, procurando em todos os canais algum jogo de bola ou briga de soco. Passou pelo polo aquático (tá calor? tem que ser na piscina?), pela prova de sprint no ciclismo (o japonês que estava na frente ficou andando devagarinho e olhando feito besta pro outro, perdeu), pelo halterofilismo (vivem me dizendo pra estudar senão vou ter de carregar saco de cimento, e esses brutamontes fazem isso porque querem...), arco e flecha (se botassem um índio aí ganhava de todo mundo). Só se invocou mesmo com o badminton.
          - Uns homens do tamanho do meu pai, brincando de tamborete. Essa porcaria não tem graça nenhuma. Eu quero ver o Mengão.
          E daqui a dois anos tem as Olimpíadas de inverno. Não posso perder o comentário do Ademarzinho na hora em que aparecer o curling.

Rafael Linden


12 comentários:

  1. Rafael, meu amigo, texto divertido, engraçado. Gostei muito. Abs
    Carlos Olguin Naschpitz

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  2. Olá Rafael.
    Ótimo texto, já publiquei no Teia.
    Até mais

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  3. Fabrício Santana1 de julho de 2013 20:48

    Sensacional o texto... meus sinceros parabéns ao autor! Uma arte 'indenominável'!!!!

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  4. Rafael, o texto tem humor e os diálogos são vivos. Gostei. Abraços, Maria Lucia Wurm.

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  5. O Ademarzinho podia ver a esgrima. Tem um aplicativo que deixa as espadas iguais ao sabre de luz...

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  6. O Ademarzinho podia ver a esgrima. Tem um aplicativo que deixa as espadas iguais ao sabre de luz...

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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