sábado, 27 de julho de 2013

O advento da desextinção


          O que faria o leitor, caso desse de cara com um mamute vivo ao dobrar uma esquina? A pergunta parece, mas não é absurda. E sequer a premissa é inverossímil. Pois aí vem a desextinção.
          Lorota, explode o rabugento. Dou-lhe uma rasteira e quebro-lhe a cara, pontifica o valentão referindo-se, assim espero, ao mamute. Milagre, diz o devoto. Ora, ressuscitar Lázaro depois de quatro dias foi moleza, eu queria ver é se o cara estivesse morto há milênios, retruca o paleontólogo ateu, enquanto pensa “será que aquele dente que acharam em Rondônia era mesmo de mamute?”. Disso tudo, seguramente a valentia não vai bastar para encarar um bicharoco de cinco metros de altura, sete toneladas de peso e presas com mais de três metros.
          Façamos uma pausa para celebrar um duplo aniversário cultural. Faz trinta anos que Michael Crichton, falecido em 2008, escreveu um roteiro que acabou por se transformar no filme Jurassic Park (Parque dos dinossauros). A primeira versão era apenas sobre a clonagem de um pterodáctilo a partir de DNA fóssil, feita por um estudante. O texto foi reescrito inúmeras vezes e afinal transformou-se em livro, até que Steven Spielberg comprou os direitos e a Universal Studios produziu a película, que estreou há exatos vinte anos.
          Efeitos especiais inovadores, animais aterrorizantes, uma trama de espionagem corporativa e trilha sonora espetacular. Nesse turbilhão cinematográfico, poucos espectadores se importaram se aquela pletora de répteis pré-históricos poderia, de fato, ser mantida num parque temático construído pelo personagem John Hammond em uma ilhota a duzentos quilômetros da Costa Rica. Menos gente ainda deve lembrar que os bichos teriam sido clonados a partir de DNA encontrado em insetos pré-históricos, que se alimentavam do sangue dos dinossauros e acabaram preservados em âmbar. É notável que esse detalhe tenha sido introduzido no argumento do filme, pois a primeira vez que DNA foi recuperado de âmbar foi em 1992, já durante as filmagens. Naquela época, a reprodução de um animal extinto, ainda mais deste jeito, era ficção científica. Não mais.
          E deixou de ser ficção porque já é hora de celebrar o décimo aniversário da primeira desextinção da História. Pois, no dia 30 de julho de 2003 nasceu um filhote de uma espécie que fora extinta três anos antes, o íbex-dos-Pirineus, fruto do trabalho de uma equipe de pesquisadores europeus liderados pelos espanhóis José Folch e Alberto Fernández-Arias.
          Este íbex é um tipo de cabrito montês, que vivia na cordilheira fronteiriça entre Espanha e França e foi dizimado por caçadores no século XIX. A partir de 1900, foram preservados cerca de cem animais num parque em Aragón. No ano 2000, morreu o último exemplar da espécie, uma fêmea chamada Célia. Um ano antes, os cientistas do Centro de Pesquisa Agroalimentar de Aragón tinham recolhido, da orelha desta fêmea, algumas células que foram cultivadas em laboratório e congeladas para preservação. Quando Célia morreu, a espécie foi declarada oficialmente extinta, mas os espanhóis resolveram que não. Recorreram a uma técnica chamada transferência nuclear somática, inventada em 1951 na Filadélfia e usada, entre outros, por cientistas britânicos em 1996 para clonar a famosa ovelha Dolly, que frequentou os noticiários por cerca de sete anos.
          Os pesquisadores aragoneses descongelaram células da Célia e transferiram os núcleos isolados destas células para óvulos provenientes de cabritos comuns, cujo núcleo tinha sido removido. Os ovos reconstituidos, com os novos núcleos contendo o material genético de Célia formaram embriões, os quais foram implantados no útero de fêmeas de cabrito comum. De todas as tentativas, apenas três funcionaram e duas das fêmeas abortaram no meio da gravidez. Porém, uma chegou a termo e o feto nasceu de uma cesariana, com dois quilos e meio de peso, aparência normal, coração batendo, olhos abertos e movimentando as patas. Infelizmente, o cabritinho viveu apenas por sete minutos após o parto, por causa de uma malformação nos pulmões. Ainda assim, este experimento provou que é possível reproduzir um animal a partir de uma espécie extinta.
          Os leitores versados em coisas biológicas, a esta altura, já acionam as redes sociais para organizar uma manifestação, na qual bloquearão o trânsito do centro da cidade portando faixas e cartazes com os dizeres “o genoma era da Célia, mas o óvulo era de cabrito comum, então o recém-nascido não era exatamente um íbex-dos-Pirineus”, causando quase tanta estupefação quanto algumas faixas e cartazes que se viu nas últimas semanas. E estarão cobertos de razão, por causa da hibridez e da epigenética. Mas, caro leitor, esqueçamos por enquanto essas duas complicações e convenhamos que dar vida ao patrimônio genético de uma espécie extinta, que há pouco se dava por definitivamente perdida, já é um grande passo, não? Minha faixa na passeata diria “acho que sim”.
          Então, contamos trinta anos do roteiro inicial de Crichton, vinte anos de Jurassic Park e dez anos da primeira “ressurreição” de um animal extinto. E que fim levou o mamute lá de cima? Pois saiba a ilustre leitora que trata-se de outro candidato a desextinção. Estima-se que esses primos do elefante moderno tenham desaparecido há uns dez ou doze mil anos. Eles viviam em regiões geladas e foi lá que os últimos membros da espécie morreram. Alguns territórios que abrigavam mamutes aqueceram bastante, mas outros permanecem até hoje gélidos a ponto de tornar plausível que restos mortais desses monstros pré-históricos ainda contenham células intactas. De fato, cada vez mais restos mortais de mamutes vem sendo revelados à medida que se escava a mistura de gelo, terra e rochas permanentemente congeladas – chamada permafrost - no norte da Sibéria. As enormes presas são muito procuradas, pois tem um alto valor de venda para oficinas de escultura em marfim na China. No entanto, o que interessa aqui são restos congelados de tecidos moles, que podem conter células intactas. Essas, em tese, poderiam ser cuidadosamente descongeladas, assim como se faz nos bancos de sangue, e o DNA do mamute isolado para reprodução.
          Infelizmente, ainda não se encontrou material útil e nenhum de nossos antepassados pré-históricos cuidou de congelar células da orelha do último mamute vivo – onde essa gente estava com a cabeça? Então a coisa vai ser mais difícil ainda do que no caso do cabrito. Mas isso não desanima o geneticista japonês Akira Iritani, que está há tempos à cata de células intactas de mamute para tentar produzir um filhote pela mesma técnica que os espanhóis usaram para o bebê íbex, porém usando uma elefanta como mãe de aluguel. É claro que não será de imediato, mas a desextinção já ultrapassou a etapa da chamada prova de conceito, que consiste em obter um resultado prático que demonstre a viabilidade de uma idéia. Daqui para a frente, o limite parece ser apenas o tempo necessário para aperfeiçoar as tecnologias de reprodução a partir do eventual achado de DNA fóssil. Nem que seja necessário sintetizar artificialmente o DNA inteiro do bicho. Pode levar muito tempo, mas tecnicamente já é possível.
          Por outro lado, nem todos gostam da idéia. Alguns acham que a desextinção desvia a atenção do ritmo acelerado da extinção de espécies, a qual em grande parte é por culpa de um animal predador, descuidado e egoísta…o ser humano. Outros, mais comedidos, ponderam que a extinção de muitas espécies se deu pela deterioração do seu ambiente. Assim, para reintroduzi-las com sucesso seria necessário reconstruir o habitat adequado para sua sobrevivência. Pois, por incrível que pareça, há um projeto em andamento no nordeste da Sibéria onde, há vinte e cinco anos, o cientista russo Sergey Zimov criou uma reserva de cento e cinquenta quilômetros quadrados, na qual vem paulatinamente introduzindo herbívoros e reconstituindo a vegetação das estepes da Idade do Gelo, em busca de um ambiente onde, eventualmente, possam viver os mamutes desextintos. 
          Acho prudente encerrar por aqui, pelo menos enquanto o Papa estiver visitando a cidade do Rio de Janeiro, para evitar polêmica sobre a idéia – que não é minha, saibam todos - de desextinguir o homem de Neanderthal. Mas, quem achava que Michael Crichton era maluco não perde por esperar. Basta lembrar que, em menos de setenta anos, a humanidade progrediu do pioneirismo de Santos Dumont ao passeio de Neil Armstrong na Lua. Ou que, em pouco mais de uma década, o custo e o tempo necessário para sequenciar o genoma humano completo cairam de cem milhões de dólares e treze anos de trabalho para cerca de mil dólares e um dia de trabalho.
          Admito que aqui no Brasil nenhum mamute resistiria ao calor, mas se o prezado leitor for ao Canadá, à Escandinávia ou à Sibéria, convém levar um spray de pimenta anti-mamute, porque nunca se sabe quando um deles pode escapar da ilha onde o intrépido John Hammond, a esta altura, já deve ter clonado pelo menos um.

Rafael Linden


sábado, 20 de julho de 2013

Mil e uma utilidades de um programa social


          Pois é, minha gente. Toda semana, ou quase, eu faço um esforço, ainda que prazeroso, para amenizar com literatura as agruras da vida diária de meus fiéis leitores e, se possível, alegrá-los com um ou outro rompante de humor. Mas, apesar do capricho com que escrevo este blog, sou forçado a admitir que, amiúde, basta uma simples notícia de jornal, redigida com apuradas técnicas jornalísticas, incluindo a objetividade, a precisão e a economia de texto, para demonstrar que a vida, definitivamente, é muito mais engraçada do que a arte.
          Vejam as senhoras e os senhores que estava eu, placidamente, passando os olhos na edição online d’o Globo, um importante jornal carioca, quando vi uma chamada de capa que acendeu a frase “isso dá uma crônica”. Essas palavras, aprendi em oficinas na Estação das Letras, constituem a senha para a criação de um dos textos em relação aos quais vosmecês, as mais pacientes e tolerantes criaturas do planeta, costumam poupar o autor de insultos, muito obrigado.
          Porém, ao abrir o link daquela notícia e le-la por inteiro, convenci-me de que este humilde cronista jamais conseguirá produzir um texto de tal natureza, tão reminiscente do Festival de Besteiras que Assola o País, a impagável obra de Sergio Porto, na pele de Stanislaw Ponte Preta. Por conseguinte, peço-lhes perdão por recorrer ao suor alheio, numa semana particularmente cansativa e cheia de outros deveres a cumprir, e reproduzo abaixo, ipsis litteris, o que foi publicado no jornal. Acreditem, se o cotidiano assim prosseguir, em breve a crônica bem-humorada tornar-se-á supérflua.

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Homem tenta pagar prostituta na Bahia com cartão do Bolsa família
Agência A Tarde
SALVADOR – A Delegacia de Polícia de Itapetinga, a 316 km da capital baiana, está investigando um caso de uso incomum do cartão do Bolsa Família. Um homem, identificado apenas pelo pré-nome de “João”, teria tentado pagar os serviços de uma prostituta e o motel em que pretendia realizar o programa sexual com o cartão do principal programa social do governo. A confusão começou quando a prostituta tentou cobrar adiantado os R$ 50 do programa. “João” percebeu que estava sem dinheiro, e perguntou se ela não aceitaria o pagamento através do cartão do Bolsa Família.
          A mulher se recusou e, devido à discussão, uma radiopatrulha da PM foi chamada ao local. Para pagar a entrada no quarto do motel, o homem teria deixado o aparelho de som do seu carro. Os policiais militares contaram que “João” se irritou com o escândalo e reclamou da situação nos seguintes termos:
          — Itapetinga tá atrasada mesmo, nem as p... aceitam cartão!.
          O delegado Roberto Júnior, titular da delegacia de Itapetinga, informou que o caso foi registrado na delegacia como um “termo circunstancial” de um cliente que não pagou o motel. Segundo ele, a utilização do cartão do Bolsa Família ainda está sendo investigado.
          — O problema é que os policiais não retiveram o cartão, pois aí eu só liberaria na presença da titular — disse.
          Pelas regras do programa, a titular do cartão é, preferencialmente, a mulher da casa. O delegado explicou que se ficar comprovado o uso indevido, o cartão pode ser cancelado.
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          Melhor que isso, só mesmo o comentário enviado por um leitor: “O povo tem que comer”...


Rafael Linden


sexta-feira, 12 de julho de 2013

O dicionário do diabo


          Neste ano da graça de 2013, mais precisamente em 26 de dezembro, fará cem anos desde que o jornalista e escritor norte-americano Ambrose Bierce desapareceu. Isso mesmo, sumiu, evaporou, escafedeu-se. Já ouço aquele leitor ranzinza a resmungar “lá vem mais uma daquelas inutilidades”. Não é de bom tom um cronista bem-educado sequer pensar em sugerir ao rabugento o mesmo destino do ianque. Au contraire. O escritor tem o dever de, humildemente, pedir à sua platéia, inclusive aos raríssimos ranhetas, que continuem a ler, pois algo de útil poderá aparecer. Portanto, assim o fazemos, humilde que somos.
          Mas quem era o tal Ambrose, antes de desaparecer? Assinou diversas colunas em jornais da California e, além disso, escreveu principalmente contos. O mais famoso foi publicado em 1890 com o título “Um acontecimento na ponte de Owl Creek” e tornou-se um clássico dentre histórias curtas inspiradas na guerra civil norte-americana, da qual o então jovem Bierce participou como militar do lado da União. Uma adaptação deste texto tornou-se um dos últimos episódios da série de TV “Além da Imaginação”.
          Entretanto, Ambrose Bierce ficou famoso mesmo com a obra publicada em 1906 sob o título “O livro das palavras de um cínico” e, em 1911, rebatizada como “Dicionário do diabo”. Esta é uma pretensa “obra de referência”, na qual o autor “definiu” palavras e expressões com fina ironia, subvertendo o significado de dezenas e dezenas de verbetes com seu humor ácido e crítico. Consta que ele começou a escrever os tópicos satíricos em 1875 e alguns dos mais antigos vem sendo redescobertos e acrescentados a novas edições do livro. Uma tradução para a língua portuguesa foi publicada em Lisboa, pela Editora Tinta da China. Outra no Brasil, pela Mercado Aberto, de Porto Alegre. Millor Fernandes ensaiou um similar nacional com 20 verbetes, sob o título “Dicionário Irrefletido”, em sua coluna na revista Veja de 30 de janeiro de 2008, mas ficou nisso.
          No dicionário do diabo há definições deliciosas como, por exemplo: “Intimidade, s.f. Relação a que  são providencialmente arrastados os tolos para destruirem-se mutuamente”; “Homem, s.m. Um animal tão absorto no êxtase contemplativo do que acredita ser, que não dá sequer uma olhada no que indubitavelmente poderia vir a ser”; “Nepotismo, s.m. Prática que consiste em designar sua avó para um cargo público pelo bem do partido”; “Paciência, s.f. Forma menor de desespero, disfarçada em virtude”; “Perseverança, s.f. Virtude inferior através da qual a mediocridade alcança um sucesso sem glória”; “Política, s.f. Conflito de interesses fantasiado em luta de princípios”; “Reflexão, s.f. Processo mental pelo qual obtemos uma visão nítida do passado, estando aptos a evitar perigos pelos quais não passaremos novamente”; “Santo, s.m. Pecador morto, revisto e editado”. E muitas outras.
          Curiosamente, há mais de trinta anos anos deparei-me, pela primeira vez, com uma destas “definições” numa nota de rodapé de um capítulo de livro escrito pelo cientista britânico Lawrence Weiskrantz, que foi chefe do departamento no qual fiz meu pós-doutorado em Oxford. Larry, como todos o chamavam, era um notável especialista em percepção e memória e tinha excelente humor que, frequentemente, inseria em suas palestras e publicações. Foi numa dessas que, a título de blague, para ilustrar a dificuldade de planejar experimentos rigorosos e objetivos na área de cognição, lembrou a definição da mente humana, uma de minhas prediletas no dicionário do diabo. O verbete se traduz mais ou menos assim: “Mente, s.f. Misterioso tipo de substância secretada pelo cérebro. Sua principal atividade consiste no esforço em determinar sua própria natureza, tentativa esta que tem sido infrutífera devido ao fato de não dispor de outro instrumento para se conhecer além de si própria”. Cá pra nós, até colegas que se dedicam à pesquisa em cognição e comportamento humano hão de convir que Ambrose Bierce tinha um talento excepcional para a sátira.
          O que terá acontecido com o escritor depois que, em 26 de dezembro de 1913, enviou a um amigo sua última carta, cuja autenticidade é, aliás, contestada? Dali em diante, nunca se soube de seu paradeiro, em que pese uma enxurrada de explicações e testemunhos inverossímeis. Na ocasião, Ambrose tinha 71 anos de idade e estava, ao que tudo indica, nas imediações de Ciudad Juárez, na fronteira do México com os Estados Unidos. Supostamente acompanhava como observador as tropas rebeldes de Pancho Villa, que lutavam na provínicia de Chihuahua em plena Revolução Mexicana. Há uma ironia perversa na história de que um ex-militar, com larga experiência em situações belicosas, simplesmente sumiu quando, presumivelmente, se dedicava a procurar subsídios para relatar o andamento de operações de guerra.
          Por outro lado, considerando as idas e vindas da Revolução Mexicana, com suas múltiplas lealdades de ocasião, alianças políticas e militares estabelecidas e rompidas em curto espaço de tempo, as quais logo se transformavam em ódio feroz, bem como eventos tortuosos que desafiam a compreensão deste humilde cronista, resta a possibilidade de que Bierce tenha resolvido desaparecer por conta própria, desapontado pela incapacidade de incluir no seu dicionário um verbete bem-humorado correspondente aos acontecimentos daquele sangrento e confuso episódio da história do México.

Rafael Linden


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Como explicar o medo


          Há alguns anos, um jovem garçom chamado Connor Lawless limpava mesas numa lanchonete de Bristol, na Inglaterra, quando encontrou um bilhete escrito em um guardanapo de papel. Dizia, apenas “I am not afraid of tomorrow”, que se pode traduzir como “eu não tenho medo do amanhã”.
         Tempos depois o rapaz, que hoje em dia cursa uma universidade e pretende tornar-se escritor, divulgou a foto do guardanapo na Internet, dizendo não saber se quem escreveu aquilo o fez para si, ou para os que eventualmente encontrassem o bilhete. Seja como for, quem deixou a mensagem não a assinou nem, que eu saiba, se apresentou como autor até agora.
          A estimada leitora, por acaso, tem medo do amanhã? E aquele leitor rabugento, que sempre reclama do diversionismo do cronista? Tem? Com o inestimável auxílio do sempiterno Google, descobri que pelo menos um compositor gospel garante, em letra e música, que não tem. Mas eu não acredito. A emoção que conhecemos pelo nome de medo é um conjunto de reações comportamentais e biológicas de defesa contra ameaças e exerce um importante papel evolutivo. Muitas destas respostas são inatas e precedem ou prescindem da conscientização do perigo.
          O medo é muito mais complexo do que se imagina. Controvérsias sobre este assunto são muitas e, às vezes, contundentes. E não é à toa pois, por exemplo, o psiquiatra Isaac Marks, experiente no tratamento de pacientes com ansiedade e fobias, lembra que, na língua inglesa, há mais de trinta palavras para descrever variantes de medo ou ansiedade.
          O cientista Ralph Adolphs, da Caltech, sumariou na revista científica Current Biology pesquisas de laboratório, incluindo estudos de atividade cerebral em voluntários saudáveis e pacientes neurológicos, mostrando que diferentes tipos de medo estão associados a atividade em regiões distintas do sistema nervoso central. Seus mecanismos funcionais são, porém, muito conservados evolutivamente e, no cérebro de mamíferos, parecem sempre envolver as amígdalas. Não, madame, não são as amígdalas palatinas, que foram removidas de sua garganta quando a senhora era criança, através de uma pequena cirurgia seguida de muito sorvete. Estas amígdalas de que falo são partes do cérebro, que ficam mais ou menos na altura das suas orelhas, só que por dentro do crânio e bem profundas. Pacientes neurológicos com lesões nesta região cerebral, estes sim, perdem o medo, como aconteceu com uma senhora portadora da chamada doença de Urbach–Wiethe, que resultou na degeneração das amígdalas dos dois lados do cérebro. Esta paciente sequer é capaz de reconhecer o medo estampado na face de outras pessoas, quando as vê ao vivo ou em fotografias.
          Entretanto, o que mais nos interessa nesta crônica é um artigo publicado na revista Trends in Cognitive Sciences, pelo neurocientista Joseph LeDoux, da New York University. LeDoux é um especialista de alto nível em memória e emoção, especialmente no estudo do medo. Ele chama atenção sobre uma certa confusão no emprego da palavra “fear” (medo) para descrever tanto as respostas de defesa induzidas por ameaças, quanto o sentimento consciente a elas associado. E não se trata de mero preciosismo acadêmico, pois não são a mesma coisa. Embora em pessoas saudáveis as respostas automáticas e a conscientização do perigo ocorram em conjunto, há mecanismos distintos e partes diferentes do cérebro envolvidas nestes dois aspectos do medo.
          Quem escreveu o tal bilhete na lanchonete parece confiante de que não tem nada a temer do amanhã. Mas o futuro é o desconhecido e, convenhamos, ignorar o medo do desconhecido não passa de fanfarrice. Ou, talvez, o autor da frase não soubesse que, além das respostas inatas, não só humanos mas também animais como ratos e camundongos aprendem reações de defesa contra suas próprias adversidades, ou incorporam comportamentos defensivos através de interações sociais com seus respectivos grupos. Algumas destas respostas podem permanecer desconhecidas pelo resto da vida, por não se repetirem as ameaças, ou por escaparem de nossa consciência mesmo quando em plena atividade subliminar. Então, frente a ameaças, reações comportamentais e biológicas de medo são inevitáveis, embora nem sempre se manifestem conscientemente.
          Ao contrário do que muitos pensam, medo não é motivo de vergonha para ninguém. É um legado da evolução e um instrumento de defesa. Pode até, em certos casos, se contrapor à ousadia do ser humano, prejudicando sua criatividade ou impedindo o progresso. Mas a coragem necessária para ousar não se confunde com uma presumível ausência de medo. Dela, talvez o melhor que se pode pensar é atribuído a Mark Twain, o qual teria dito que coragem é a resistência ou o domínio do medo. Este sempre estará presente. A biologia é implacável.

Rafael Linden