sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O comprador


          Berenice acorda ansiosa. Hoje vem o interessado em comprar seu Uno Mille 2002. Para qualquer outro, um dia comum. Não para ela que, há tempos, conheceu o diagnóstico. O psiquiatra foi solícito, falou muito, transtorno de ansiedade, fobia social, recomendou uma psicoterapeuta e escreveu a receita para uns comprimidos. Ela lembra que saiu do consultório aliviada por não precisar mais conversar com um estranho que, ainda por cima, examinava suas atitudes e interrogava suas intimidades.
          Comprou o carro há anos, com muito sacrifício, apenas para não ter a companhia diária dos passageiros do metrô. Mora na porta de uma estação e trabalha em frente a outra, mas desperdiça um dinheirão em estacionamento no centro da cidade. Agora, depois de dois enguiços, quer se desfazer do automóvel para evitar o mecânico. Depois comprará um novo. Programa o anúncio para sair no dia da terapia semanal. Quer vender o carro enquanto os efeitos da sessão ainda estão frescos em sua mente. Não dá certo. Um tal de Arnaldo liga, mas só pode vir no dia seguinte. Sem alternativa, Berenice marca para as dez da manhã.
          Ainda está escuro e ela já de pé, preocupada em se arrumar bem. O que ele vai pensar se eu aparecer desleixada? Além disso, uma boa maquiagem disfarça o inevitável rubor que toma sua face ao falar com um desconhecido. No café da manhã, nota o leve tremor na mão. Já estou ficando nervosa, pensa. Toma maracujina. Gosto estranho na boca, melhor escovar bem os dentes de novo, será que o hálito está ruim? Testa com a mão em concha. Relaxa em um banho demorado, perfuma-se discretamente e logo se arrepende. Não quer chamar atenção. É melhor que o Arnaldo olhe o carro na garagem, informe a decisão pelo interfone e deixe o cheque com o porteiro. Juvenal é esperto, vai saber se o cheque é legítimo.
          Porém, cisma que ninguém compra carro usado de uma mulher sem ver a dona. Não, não quero que ele fique me encarando. Quem sabe o Juvenal diz que o carro é dele, vende e pronto? Não dá. Tenho de assinar o certificado de propriedade e só posso fazer isso depois da venda, ai meu Deus! As mãos frias. Decide desfazer o negócio, pelo menos o mecânico ela já conhece. Um dia, quem sabe com bastante terapia e remédio, conseguirá ir à oficina sem pânico. Procura no bloquinho de anotações perto do telefone e lá está, em letra de forma: Arnaldo. Uno. Amanhã às 10 horas. Burra, burra! Nem para pedir o telefone dele! Um estranho vem à minha casa e eu não posso cancelar!.
          Quinze para as dez e sente cólicas. Eu não devia ter feito isso, e agora? Já sei, peço ao Juvenal para dizer que eu viajei de repente e só volto daqui a uma semana. Aí, se o sujeito ligar de novo eu digo que o carro foi vendido, ou que desisti, ou...
          Pelo interfone ela ouve a voz preguiçosa do porteiro: Dona Berenice, o Seu Arnaldo já viu o carro na garagem e está subindo.
          A campainha toca.

Rafael Linden


domingo, 25 de agosto de 2013

Um amor mediterrâneo


          Vim para retomá-la. Cinco anos sem uma carta sequer. Mas, na despedida, eu disse “adieu” e você me corrigiu: “Pas adieu. Au revoir”.
          Deixo a bagagem na casa alugada, a mesma. Subo a colina no parque onde nos conhecemos. As trilhas arborizadas, a vista do mar e do telhado das casinhas, que serpenteiam nas ruas antigas, são de fato o cenário perfeito para um encontro casual. Sento-me no banco em que você estava quando riu de mim, o clássico turista atrapalhado com a câmera, a mochila, a sacola de presentes, o sanduíche e a garrafa de Evian. Desejo que, agora mesmo, você apareça e dê de cara comigo.
          Tolice. Já me basta a sorte daquele dia. Folheio o catálogo para surpreende-la com minha voz ao telefone. Talvez você tenha alguém, ou nem me queira rever depois de tanto tempo. Encontro seu número, ligo e voilá - é assim que se fala? -, a voz cristalina diz alô e me enche de expectativa e medo. Apenas balbucio meu nome.
          É um alívio ouvir a resposta. Você fala depressa, muito. Mal consigo interrompe-la para lembrar que não entendo quase nada de francês - uma das poucas frases que aprendi a dizer corretamente, ao menos para poder pedir informações na rua. Você acha graça e isso é bom. Foi assim da primeira vez.
          Agora bem devagar, me ajuda ao traduzir algumas palavras para o inglês e pergunta onde estou. Quase não acredita que consegui novamente alugar a casa de esquina, na cidade velha, tão romântica e acolhedora. Num impulso peço-lhe que venha. Mal termino a frase fecho os olhos, com receio da resposta. Mas você me diz que espere até o fim da tarde.
          Abro uma garrafa de vinho, encho uma taça e sento-me no topo da escada que dá para a rua estreita. Bebo de olhos fechados, em antecipação, como se beijasse sua boca. Logo ouço o barulho da corrente, a trepidação de uma bicicleta no chão de pedras redondas. Quero muito que seja você. Ainda não. Um jovem desconhecido surge da curva da esquina e pedala apressado em frente à casa.
          Passa-me pela cabeça a idéia maluca de que algum dia vi uma fotografia deste jovem, nesta mesma esquina. Deve ser apenas minha ânsia de reconhecer uma bicicleta familiar. Sei que será a próxima, que você a deixará cair na calçada do outro lado da rua e subirá correndo a escada. Tudo vai dar certo.


Rafael Linden




sábado, 17 de agosto de 2013

Pequeno catálogo de torpezas


O grito
          “Corno!” O som ecoa pela igreja, bem na hora da troca de alianças. O pai do noivo, desarvorado, começa a gritar com a mulher: “Foi isso que você ensinou para ele? A ser corno? Igual a mim?!”
          O padre eleva a voz, mas o grito se repete: “corno!!”. Amigos do noivo retiram à força o homem, que continua a berrar: “agora é a tua vez de ser corno!! é a tua vez!!!”
          A platéia confabula: “…é o ex-noivo…não se conforma em perde-la…por que está às gargalhadas?…não parou de rir nem quando levou aquele soco na boca...”.
          O noivo chora convulsivamente: “o que foi que eu fiz? troquei de lugar com ele!”. A noiva, impávida, passa-lhe as mãos de leve pelos cabelos e pede calmamente: “pode continuar a cerimônia, reverendo”...

Uma nova manhã
          O jornal escorrega-lhe pela perna até pousar ao pé da cadeira. O homem contempla em silêncio a silhueta indistinta da mulher. Esta lhe dá as costas e seu olhar se perde no exterior emoldurado pelas pesadas cortinas da sala de estar. Em seu rosto, a luz do sol atinge uma única lágrima, que brilha congelada como se a humilhação tivesse perdido o ímpeto da véspera.

Fim de caso
          Trinta anos de um casamento perfeito. Ele, promotor público, prestes a ascender a um cargo importante. Ela, advogada da maior financeira da capital. Dois filhos maravilhosos. Salários astronômicos. E, um dia, o telefonema dando conta de que sua esposa está presa junto com os grandes estelionatários que ele vinha perseguindo há anos.
          Estão todos na sala, aguardando o juiz. Ele se levanta, calmo, dirige-se ao banco dos réus e descarrega o revolver sobre a mulher. Surpreende-se com a própria indiferença.

Negociação
          O Barriga foi o último a chegar, como sempre. Norival e Jamanta já tinham pedido a cerveja e a calabresa. O garçom deixou mais um copo na mesa e retirou-se rapidamente, trocando olhares significativos com o dono do bar. Ainda se lembravam da última vez e, caso contrário, lá estavam os buracos na pilastra como registro da pressa e da má pontaria. Fregueses de boa memória pagaram as contas e sumiram dali.
          O dono aboletou-se atrás de um barril de chope, à guisa de escudo. O garçom foi para a porta da rua, olhou as luzes das três favelas que cercavam o botequim, suspirou, fez o sinal da cruz e pensou na namorada.
          Depois de meia garrafa e duas fatias de amenidades, começou a conferência.         

Rafael Linden


sábado, 10 de agosto de 2013

Múmia paralítica!


          Recentemente a TV Globo ressuscitou o “Professor de Mitologia Aquiles Arquelau”, personagem criado, há mais de 30 anos, pelo comediante Agildo Ribeiro com base em seu antigo professor de teatro Paschoal Carlos Magno. O personagem é acompanhado por um fiel escudeiro, interpretado pelo ator Pedro Farah, que permanece o tempo todo de pé ao lado do professor, sem mover um músculo exceto quando toca uma campainha a cada vez que o mestre se excede em suas perorações. Não vi o quadro novo, mas antigamente o personagem tinha fixação na atriz Bruna Lombardi e sempre acabava por incluí-la em suas considerações, mobilizando a intervenção do parceiro. Na terceira ou quarta interrupção, Arquelau perdia a paciência e esbravejava com o auxiliar chamando-o, a título de insulto, de “múmia paralítica!”.
          Por que lembrar disso? Ora, caro leitor, o cronista pode ser um poço de humildade, mas sempre tem uma excelente razão para fazer o que faz. Ou pensa que tem. Desta vez acontece que, na semana passada, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, uma das unidades da UFRJ, foi palco do Congresso Internacional de Estudos de Múmias, o evento mais importante desta área de pesquisa, que se realiza a cada dois anos em diversos países. Foi a primeira vez no Brasil. Neste evento se discute processos de mumificação de humanos e animais, identificação de vestígios de doenças, traumatismos, agentes infecciosos, poluentes e até mesmo cuidados cosméticos utilizados há milênios por civilizações hoje extintas. Estes estudos, feitos por equipes multidisciplinares internacionais, revelam dados importantes para compreender a História das civilizações, a evolução dos costumes, dos rituais e da Medicina, tanto em seus aspectos universais quanto locais. Por exemplo, das múmias preservadas no Museu Nacional, além de exemplares de origem egípcia, várias são oriundas de países vizinhos da América Latina e três foram encontradas no Brasil.
          Por aí afora não faltam curiosidades sobre múmias. São personagens de filmes de terror, que costumam fazer muito mais sucesso popular do que notícias de achados arqueológicos espetaculares. Algumas histórias reais competem com a ficção, como no caso das cabeças de Lampião, Maria Bonita e Corisco, que foram mumificadas e expostas no Museu Nina Rodrigues, na Bahia, durante muito tempo até que, a pedido das famílias, foram enterradas. Debate-se até hoje se faz ou não sentido desenterrá-las para estudo científico. Em outras paragens, há o caso da múmia chamada Tothmea, que se encontra exposta desde 1995 no Museu Egípcio e Rosacruz de Curitiba. Antes de imigrar para o Paraná, esta múmia alternou, a partir do século XIX, exibições em pelo menos três museus nos Estados Unidos com longos períodos esquecida em porões. Conta-se que, por volta de 1918, quando Tothmea estava em exibição no museu da cidadezinha de Round Lake, adolescentes costumavam raptá-la e levá-la a passeio pela cidade em uma carruagem.
          No entanto, ilude-se a querida leitora se pensa que o talento cômico de Agildo Ribeiro e Pedro Farah tem exclusividade na criação e difusão do humor sobre múmias aqui nas terras em que Peri beijou Ceci. Pois, há muitos anos, ouvi uma historinha que, se non è vero, è ben trovato. Diz-se por aí que, certa vez, o Museu Britânico enviou uma múmia para o nosso Museu Nacional, talvez por empréstimo para alguma exposição, ou quem sabe como doação definitiva. Em qualquer caso, a múmia, tal como qualquer outra “mercadoria”, teria de passar pela Alfândega para entrar no país. Problema nenhum, diziam os entendidos no assunto. Em primeiro lugar, os ingleses deveriam, é claro, preencher uma pilha de documentos timbrados, assinados pelas autoridades competentes, com firmas reconhecidas por notários públicos. Isso feito, a múmia seria recebida de braços abertos, bastando que viesse acompanhada da devida documentação e de algum responsável pois, infelizmente, a criatura não se locomovia sozinha nem podia ser acomodada em uma cadeira de rodas. Só isso.
          Ledo engano. Na chegada à Alfândega do Rio de Janeiro, o funcionário destacado para conferir a importação, imbuído de espírito público e zelo profissional, coçou a cabeça e, de imediato, convocou os colegas e a chefia para uma conferência que se estendeu por um tempão, durante o qual travou-se um acalorado debate sobre a classificação fiscal da mercadoria, detalhe indispensável para o correto preenchimento da papelada de liberação. Enquanto isso, o especialista responsável pelo transporte jazia a um canto, suando frio, a pensar na possibilidade de que a entrada no país da múmia, então paralisada, fosse negada e ele ainda tivesse de comprar duas passagens de volta para Londres, a fim de devolver o objeto recusado.
          Mas a providência, como de hábito, salvou a situação. Subitamente, um dos fiscais teve uma epifania e, pouco depois, entregou ao atônito arqueólogo o documento de liberação da múmia, devidamente classificada na categoria...conservas.

Rafael Linden


sábado, 3 de agosto de 2013

O centenário do poetinha


          Entre tantas coisas interessantes que andam acontecendo por aí, o dia dezenove de outubro deste agitado ano de 2013 marcará o centenário do nascimento de Vinicius de Moraes. Poeta, compositor, dramaturgo, jornalista e diplomata. E boêmio. E mulherengo inveterado. Mas, do muito que ele fez em vida, quando alguém grita “Vinicius!” no meio da rua, é da poesia que a gente se lembra. A não ser que o gritado seja algum malandro que, por via das dúvidas, saia em disparada para fugir da polícia.
          De tudo ao meu amor serei atento. Tati, Regina, Lila, Maria Lúcia, Nelita, Cristina, Gesse, Marta e Gilda que o digam, cada uma alvo de terna atenção por algum tempo. Isso contando apenas o que está registrado, fora sabe-se lá quem. Outro dia recebi uma mensagem de spam que dizia “se quiser aprender como conquistar todas as mulheres, visite a página do fulano de tal…”. A patroa não ia achar graça nenhuma, mas de qualquer jeito duvido que funcione. Fulano de tal não é o poetinha, que sabia das coisas.
          E com tal zelo, e sempre, e tanto. Sei lá quanta energia Vinicius realmente dedicava à diplomacia. Imagino sua impaciência durante o expediente no consulado, o enfado ao enfrentar cerimônias de terno e gravata, em meio a tanta gente chata, o pensamento longe dali, maquinando as estrofes que penetram nos corações românticos como uma britadeira. Versos que flutuam no ar por sua própria conta, ou animados pelas melodias de Tom, Baden, Toquinho, João, Chico ou Carlinhos.
          Que não seja imortal, posto que é chama. Nosso poeta resolveu, desde cedo, que viveria tudo e todas em cada vão momento. Fumou desbragadamente, bebeu todo o uísque que encontrou pela frente, amou com as forças que tinha, sempre, tanto. Dissolveu em álcool e tabaco a ameaça de envelhecer demais. Acabou por nos deixar antes do que devia, pois calculem o que cada ano a mais de sua vida significaria para a poesia, para a música popular, para as noites ao luar em acampamentos na sub-sede do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, ou em qualquer outro lugar, para as transcrições de poemas em cartões de envio de flores ou, sejamos mudernos, para os SMS românticos.
          Dizem por aí que não há bem que não se acabe. Nada mais falso. O bem que o poetinha nos fez não se acabou em junho de 1980 quando, de repente, o sangue parou de correr em suas veias. Não há como substituí-lo, nem como continuar sua obra. Mas o que ele escreveu, declamou e cantou, continuaremos lendo, ouvindo, cantando. Enquanto o sangue correr dentro de cada um de nós. Nada do que acontece ou ainda vai acontecer, por mais importante que seja, nos privará de reviver a emoção da primeira leitura, da primeira audição da obra de Vinicius de Moraes. Nem mesmo em face do maior encanto. Ele foi infinito enquanto durou. E vai durar infinitamente.

Rafael Linden