sábado, 10 de agosto de 2013

Múmia paralítica!


          Recentemente a TV Globo ressuscitou o “Professor de Mitologia Aquiles Arquelau”, personagem criado, há mais de 30 anos, pelo comediante Agildo Ribeiro com base em seu antigo professor de teatro Paschoal Carlos Magno. O personagem é acompanhado por um fiel escudeiro, interpretado pelo ator Pedro Farah, que permanece o tempo todo de pé ao lado do professor, sem mover um músculo exceto quando toca uma campainha a cada vez que o mestre se excede em suas perorações. Não vi o quadro novo, mas antigamente o personagem tinha fixação na atriz Bruna Lombardi e sempre acabava por incluí-la em suas considerações, mobilizando a intervenção do parceiro. Na terceira ou quarta interrupção, Arquelau perdia a paciência e esbravejava com o auxiliar chamando-o, a título de insulto, de “múmia paralítica!”.
          Por que lembrar disso? Ora, caro leitor, o cronista pode ser um poço de humildade, mas sempre tem uma excelente razão para fazer o que faz. Ou pensa que tem. Desta vez acontece que, na semana passada, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, uma das unidades da UFRJ, foi palco do Congresso Internacional de Estudos de Múmias, o evento mais importante desta área de pesquisa, que se realiza a cada dois anos em diversos países. Foi a primeira vez no Brasil. Neste evento se discute processos de mumificação de humanos e animais, identificação de vestígios de doenças, traumatismos, agentes infecciosos, poluentes e até mesmo cuidados cosméticos utilizados há milênios por civilizações hoje extintas. Estes estudos, feitos por equipes multidisciplinares internacionais, revelam dados importantes para compreender a História das civilizações, a evolução dos costumes, dos rituais e da Medicina, tanto em seus aspectos universais quanto locais. Por exemplo, das múmias preservadas no Museu Nacional, além de exemplares de origem egípcia, várias são oriundas de países vizinhos da América Latina e três foram encontradas no Brasil.
          Por aí afora não faltam curiosidades sobre múmias. São personagens de filmes de terror, que costumam fazer muito mais sucesso popular do que notícias de achados arqueológicos espetaculares. Algumas histórias reais competem com a ficção, como no caso das cabeças de Lampião, Maria Bonita e Corisco, que foram mumificadas e expostas no Museu Nina Rodrigues, na Bahia, durante muito tempo até que, a pedido das famílias, foram enterradas. Debate-se até hoje se faz ou não sentido desenterrá-las para estudo científico. Em outras paragens, há o caso da múmia chamada Tothmea, que se encontra exposta desde 1995 no Museu Egípcio e Rosacruz de Curitiba. Antes de imigrar para o Paraná, esta múmia alternou, a partir do século XIX, exibições em pelo menos três museus nos Estados Unidos com longos períodos esquecida em porões. Conta-se que, por volta de 1918, quando Tothmea estava em exibição no museu da cidadezinha de Round Lake, adolescentes costumavam raptá-la e levá-la a passeio pela cidade em uma carruagem.
          No entanto, ilude-se a querida leitora se pensa que o talento cômico de Agildo Ribeiro e Pedro Farah tem exclusividade na criação e difusão do humor sobre múmias aqui nas terras em que Peri beijou Ceci. Pois, há muitos anos, ouvi uma historinha que, se non è vero, è ben trovato. Diz-se por aí que, certa vez, o Museu Britânico enviou uma múmia para o nosso Museu Nacional, talvez por empréstimo para alguma exposição, ou quem sabe como doação definitiva. Em qualquer caso, a múmia, tal como qualquer outra “mercadoria”, teria de passar pela Alfândega para entrar no país. Problema nenhum, diziam os entendidos no assunto. Em primeiro lugar, os ingleses deveriam, é claro, preencher uma pilha de documentos timbrados, assinados pelas autoridades competentes, com firmas reconhecidas por notários públicos. Isso feito, a múmia seria recebida de braços abertos, bastando que viesse acompanhada da devida documentação e de algum responsável pois, infelizmente, a criatura não se locomovia sozinha nem podia ser acomodada em uma cadeira de rodas. Só isso.
          Ledo engano. Na chegada à Alfândega do Rio de Janeiro, o funcionário destacado para conferir a importação, imbuído de espírito público e zelo profissional, coçou a cabeça e, de imediato, convocou os colegas e a chefia para uma conferência que se estendeu por um tempão, durante o qual travou-se um acalorado debate sobre a classificação fiscal da mercadoria, detalhe indispensável para o correto preenchimento da papelada de liberação. Enquanto isso, o especialista responsável pelo transporte jazia a um canto, suando frio, a pensar na possibilidade de que a entrada no país da múmia, então paralisada, fosse negada e ele ainda tivesse de comprar duas passagens de volta para Londres, a fim de devolver o objeto recusado.
          Mas a providência, como de hábito, salvou a situação. Subitamente, um dos fiscais teve uma epifania e, pouco depois, entregou ao atônito arqueólogo o documento de liberação da múmia, devidamente classificada na categoria...conservas.

Rafael Linden


20 comentários:

  1. Desfecho formidável!!! Não haveria classificação melhor!kkk

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    1. Há que tirar o chapéu para a burocracia criativa...
      :-)

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  2. Muito bom Rafael, no caso das múmias "vivas", consulte os anatomistas para saber como fazer...

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    1. Sem dúvida. Prazer em ve-lo neste blog!
      Grande abraço,
      Rafael

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  3. Muito bom, Rafael. É sempre um prazer vir aqui quase que semanalmente quando me deparo com um link que me traz aqui... Sempre com uma incrível sapiência e conhecimento que não cabe em si... Sensacional!

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    1. Muito obrigado, Carlos Alberto. Volte sempre.
      R

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  4. Delícia! Que final! O pior é que acaba se acreditando que isto possa ser verdade!
    [x] Doris

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    1. Uma conhecida nossa garante que é verdade!
      :-)
      bjs
      R

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  5. Múmia em Curitiba... vou ver! hushushsu

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    1. Depois conte-nos como vai Tothmea...

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    2. Ótima a crônica da múmia e sua classificação, adorei! Acredito piamente no ocorrido, mas a sua narrativa acrescentou o glamour necessário ao deleite de seus leitores.
      Uma colega fliPina,
      Isa

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    3. Uau, glamour, adorei. Obrigado, Isa. Até a próxima FliP!
      Bjs
      R

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  6. Quando eu vi mumias pela primeira vez, no museu britânico, lembro de ter ficado parada um tempo fazendo um exercício mental, imaginando o processo de todo aquele preparo em busca da eternização da matéria, com tanta riqueza de detalhes.... mas jamais passou pela minha cabeça que o que estava a minha frente era uma conserva humana :))) o que você faz é retumbante Rafael! Merci!!!! Bises

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    1. Pois é, mas aqui na Aduana múmia e pêssego em calda estão na mesma categoria...
      bjs
      :-)

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  7. Muito engraçado desfecho da história, hilária a solução policial. Parabéns, Rafael.

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  8. Sorte a Inspeção não pedir o prazo de validade da conserva...

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