sábado, 28 de setembro de 2013

Que bonito é...


          Se a frase aí de cima lembra uma bola de couro “alçando voo para pousar suavemente no fundo das redes”, então o leitor já passou dos quarenta anos e, se não gosta mais, já gostou de futebol. Ou não? Então explico. O título da crônica é o que muitos achavam ser, mas não é, o nome do samba que tocava nas sessões de cinema antes da atração principal, embalando um documentário em preto e branco que contava a história do mais recente clássico jogado no Maracanã. O locutor, com a voz solene e impostada da época, era Luis Jatobá, mais tarde Cid Moreira. A música, interpretada por Waldir Calmon e seu conjunto, foi composta em 1956 por Luis Bandeira e se chama “Na cadência do samba”, o mesmo nome de uma composição de 1962 de autoria de Paulo Gesta e Ataulfo Alves. Já as imagens, é claro, eram do Canal 100, o cinejornal criado em 1959 por Carlinhos Niemeyer, produtor cinematográfico, flamenguista e membro fundador do Clube dos Cafajestes. E primo do grande arquiteto Oscar Niemeyer.
          E para quem chegava no início da sessão a fim de não perder os closes do drible do Garrincha, do passe do Gerson, do toque sutil do Pelé, da rainha da Inglaterra na Tribuna de Honra ou, o melhor de tudo, da cara dos torcedores escolhidos a dedo entre os mais feios, gaiatos ou furiosos, a boa notícia é que a ESPN anuncia a volta do Canal 100. A vinheta é meio misteriosa, mas presumo que passarão a exibir a coleção de filmes do acervo, que chegam a setenta mil minutos de imagens segundo reza a página oficial criada por Alexandre Niemeyer, filho de Carlinhos. Isso tudo, no entanto, compreende todas as edições do cinejornal inteiro. Este começava com os eventos da semana, os quais iam da inauguração de Brasilia à eleição da miss Brasil, dos comícios do Lacerda aos bailes de carnaval do hotel Copacabana Palace, lançamentos de filmes, livros e foguetes. Mas o noticiário político, cultural e mundano, que o historiador Paulo Roberto Maia considerou condizente com o projeto de propaganda política da ditadura militar, servia apenas como prelúdio para a parte final. A mais aguardada. A do futebol.
          A teleobjetiva do cinegrafista Francisco Torturra, tricolor convicto e cunhado de Nelson Rodrigues, que dele dizia ser sua lente mais inteligente do que o olho humano, trazia imagens espetaculares do campo e hilariantes das arquibancadas e da geral do Maracanã. Nesta última, cujos ingressos eram os mais baratos, se encontravam os tipos mais engraçados ou curiosos, torcedores fanáticos que gastavam seus últimos caraminguás para se aproximar dos seus ídolos e, se possível, ao final do jogo pular o fosso e comemorar no gramado a conquista do campeonato carioca ou, simplesmente, uma vitória sobre o Madureira na terceira rodada. Valia tudo por uma felicidadezinha no domingo.
          Infelizmente o Canal 100 foi assassinado em 1986 por um decreto do governo federal que, no ano anterior, proibira a propaganda comercial em cinejornais, o que inviabilizou a produção. Uma pena. Mas se a ESPN fizer um bom trabalho, quem nunca viu o Canal 100 talvez se pergunte por que hoje em dia não se faz mais reportagens esportivas como aquelas. E quem viu naqueles documentários as imagens de jogos antológicos, como o Brasil x Paraguai de 1969, que botou cento e oitenta mil torcedores (este que vos fala, inclusive) no Maraca, vai estranhar que atualmente se ache ótimo quando uma final de campeonato brasileiro é assistida in loco por meros setenta mil torcedores.
          Tá bom, prevenção de acidentes. Concordo plenamente. Mas desconfio que se o estádio tivesse cento e oitenta mil lugares, todos sentadinhos em plena segurança, nem assim iria lotar. Creio que o Canal 100 era um dos grandes motivos pelos quais o carioca tinha vontade de ir ao Maracanã. Afinal, quem sabe se depois da reportagem sobre o baile do Copa e, com todo o respeito, das pernocas da miss Brasil, não seria você, caro leitor, a exibir as bochechas, em preto e branco, gritando “goláááááçooo!”, “falta!!”, “juiz ladrão!!!”. Ou então, declamando um daqueles palavrões épicos que apareciam por inteiro, em câmera lenta, na boca de arquibaldos e geraldinos sempre que o intrépido árbitro Armando Marques, certo ou errado, marcava um pênalti contra o Flamengo.

Rafael Linden


sábado, 21 de setembro de 2013

Descartáveis


          Não tenho ninguém, não saio de casa e tudo que me resta se acumula ao meu redor, como moldura de uma vida vazia.
          Você não me conheceu antes. Eu era a jóia mais rara, de beleza luminosa, encanto irresistível. Era a alma da festa, o brilho nos olhos dos outros, a noite de sonho dos homens que me viram e me amaram intensamente. Eu os fazia acreditar que me possuiam enquanto os guiava a meu bel-prazer, usufruía do que tinham a oferecer e os descartava como objetos usados, no lixo dos amantes exaustos e inúteis, antes de me lançar de novo, revigorada e ainda mais bela, ao centro de todas as atenções.
          Esse poder durou toda uma juventude e, de súbito, ambos acabaram. As festas prosseguiram, os homens não deixaram de cobiçar a mais linda de todas as que frequentavam os salões, a bela da vez não deixou de brilhar. Fui eu que deixei de fazer parte deste mundo que tanto me servira. Daquela que era vista, tornei-me a que via, a que era levada ao bel-prazer alheio, a que, quando muito, era usada e desprezada no lixo das amantes exaustas e inúteis.
          Eu não tinha vida interior longe dos salões iluminados, dos olhos cobiçosos, do centro das atenções. Estar lá fora, assim, deixou de ter sentido. Encerrei-me num mundo de recordações cada vez mais amargas, acordando pela manhã com um fio de esperança que logo se esvaía ao olhar ao meu redor, ao perceber o novo dia, ao sentir o tempo que passara e o nada que me restara.
          A herança acumulada dos homens que, outrora, me cobriram de jóias e engordaram minha conta bancária, serviu para sustentar minha nova existência, solitária e carente, sitiada por paredes e ligada ao mundo apenas pela televisão, pela internet. E pela janela, de onde eu olhava, desolada, para a rua onde andei descalça, embriagada, sempre na companhia de um tolo que escolhera, naquela noite, para me alegrar e amparar. A mesma rua onde agora todos passam, onde tudo passa diante de mim.
          Benditas as janelas que me deixam ver o mundo, incógnita, bendita a chance de entulhar a casa com tudo o que me apetece a cada momento, sem ter que exibir nas ruas minha estampa decaída, uma sombra infeliz da juventude perdida. Bendita a chance de usufruir de tudo e descartar as sobras, as embalagens, os trastes usados. Bendita a chance de manter o mundo à minha volta para não esquecer que, um dia, eu o fazia do lado de fora deste apartamento.
          Assim, por muitos anos ensaiei uma honrosa decadência, consolando-me com a proximidade de tudo que era meu e dos restos do que possuíra, da forma como tive o que quis em tempos que já se foram.
          Entretanto, quando menos esperava, surpreendi-me ao ser obrigada a me desfazer do meu mundo, das posses e das sobras que juntara em minha casa para preencher o vazio de minha existência. Tudo o que eu tinha desapareceu, embalado em sacos plásticos negros e lúgubres empilhados na frente do prédio, onde eu ainda pude vê-los por vários dias protegidos pela nevasca que paralisara minha cidade.
          Passei aqueles dias à janela, por horas a fio contemplando a lenta agonia de minha memória, recolhida por ordem da saúde pública, arrancada de mim, assim como minha juventude fora de mim arrancada pelo tempo. Minha vida empacotada, que aguardava remoção.
          E foi da janela que testemunhei o vôo solitário de um homem, desesperado como eu, de seu apartamento no oitavo andar até pousar com estardalhaço sobre o meu lixo, de onde populares apressados o tiraram, ferido no corpo e na alma; o primeiro dolorido, porém a salvo; a segunda, tal como a minha, estraçalhada e condenada ao vazio.


sábado, 14 de setembro de 2013

Um príncipe agradecido


          O telefone toca.
          - Casa Branca, em que posso ajudar?
          - Chama o Barack, é urgente.
          - Quem gostaria? (em inglês deve ser “Who would like it?”).
          - É Michelle, rápido que eu estou com uma pessoa no outro telefone e preciso dar uma resposta imediata.
          - Desculpe, senhora, mas este é o celular privativo da família. Eu só posso transferir ligações de...
          - É a Michelle Obama, O-ba-ma, entendeu, sua abestada? (não sei exatamente qual é o equivalente a “abestada” no idioma de Shakespeare)
***
          Esse tipo de coisa, naturalmente, ocorre a toda hora. Por exemplo, deu no jornal que o Príncipe Andrew, quinto na lista de sucessão ao trono da Grã-Bretanha, foi confundido com um intruso e abordado por agentes da Scotland Yard nos jardins do Palácio Real.
          - Ei, você aí, os documentos.
          - Quem, eu?
          - Você sim, engraçadinho, os documentos na mão, agora!
          - Deixei em casa.
          - Tu tá querendo levar um tabefe, ô mau elemento? Identifique-se!
          - Eu sou o Príncipe Andrew. (na língua de Harry Potter “I am Prince Andrew”)
          - Que Prince o cacete! Então canta aí “Chuva ácida”!
          - Ô Almeida, não é ácida, é púrpura. A canção se chama “Purple rain”.
          - Ih, Sargento, é mesmo, eu misturo essas coisas desde que o Al Gore passou por aqui. Canta aí, marginal, canta!
          - Cavalheiros, eu não sou cantor, sou o Príncipe Andrew, Duque de York, filho da Rainha Elizabeth.
          - Chiii, Almeida, o cara se parece com o príncipe.
          - Caraca! (em inglês “Cahrêica”). É mesmo, Sargento! Alteza, pelamordideus, me desculpe, é esse maldito sol na cabeça e, além do mais, anteontem um salafrário escalou o muro do palácio e quase entrou aqui, deu um trabalhão, ele gritava que queria pedir um emprego de pajem, nunca se sabe de onde vem as ameaças, né, Sua Alteza Re... Principal... Ducal... quer dizer...
          - Cala a boca, Almeida. Meu caro príncipe, queira perdoar nossa atitude desrespeitosa. Vossa Alteza receberá imediatamente um pedido oficial de desculpas da Scotland Yard.
          - Tudo bem, Sargento, já que é assim você se incomodaria de pedir ao Almeida para tirar o cano desta pistola da minha orelha e largar o meu pesoço para que eu consiga me levantar da grama? Assim, deitado de bruços, está me dando câimbra.
          Dias depois, segundo o jornal inglês The Guardian, o príncipe se disse “agradecido” pelas desculpas da polícia e acrescentou que eles têm um trabalho muito difícil. De fato, convenhamos que reconhecer um dos filhos da Rainha da Inglaterra nos jardins do Palácio de Buckingham não é nada fácil, mesmo para um agente encarregado da segurança da família real.
          Depois essa gente impaciente ainda reclama das telefonistas que, ciosas de seu difícil trabalho, sempre perguntam “Quem gostaria?” quando atendem alguém. Imaginem se um maluco qualquer, desses que se dizem príncipes da Inglaterra, consegue falar com o sub-secretário do assessor do vice-chefe do Serviço de Assistência ao Cliente de uma firma que vende aspiradores de pó pela Internet, transação essa de incalculável importância estratégica e envolta em tamanho sigilo que nem a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos consegue penetrar com seus poderosíssimos computadores espiões.
          Como diria o príncipe, muito agradecido por sinal, o preço da liberdade é a eterna vigilância.


Rafael Linden


sábado, 7 de setembro de 2013

Nada como um erro depois do outro


          - Chico, capricha na azeitona! Você lembra de mim, né? Minha família morava aqui por perto, antes do meu pai se dar bem. Pois é, meu chapa, até que enfim o velho se convenceu de que eu não nasci pra colégio. Me botou na firma e agora eu tô no pregão todo dia. Beca bacana e o escambau. Faz nem um ano e já comprei aquele Karmann Ghia zerinho, vermelhaço, parado aí em frente.
          Ouço esta bazófia na padaria do bairro modesto onde moro com meus pais. Na parte da frente do estabelecimento há uma fileira de banquetas de fórmica ao longo de um balcão. É o que há de melhor por ali, em matéria de lanchonete. O rapaz tem uns vinte anos de idade. Veste um terno elegante, gravata italiana e exibe um ar de dono do pedaço. Está sentado lá na outra ponta e conta a história do carro novo para o arremedo de mestre cuca que, invisível dentro da cozinha, esbanja seus modestos dotes culinários empilhando fatias diversas dentro de pão francês e espremendo frutas. De pé entre o balcão e a cozinha o Manoel, um atendente, olha para ontem. Não está interessado no assunto e se desloca preguiçosamente na minha direção.
          - Vai querer o que, garoto?
          Em uniforme de escola pública, boto minha pasta de couro sintético na cadeira vazia ao lado, peço um sanduíche e um refresco e, disfarçadamente, acompanho a conversa. Lá de dentro, Chico se espanta.
          - Nem um ano e já comprou carango?
          - É isso mesmo, bolsa de valores é tiro e queda. Vou ganhar uma grana legal.
***
          Chego da faculdade e paro na padaria. Tiro a mochila das costas e logo reconheço o dono do Karmann Ghia, de terno e gravata, mas com rugas precoces no rosto. Peço um lanche e, sem olhar para os lados, ouço calado as novidades.
          - Entrei pelo cano, Chico. Perdi uma nota preta com as ações daquela siderúrgica de merda e, agora, o velho me tirou do pregão e me enfiou atrás de uma escrivaninha. Podes crer, vou sair pra outra corretora.
          - Mas seu pai não vai ficar chateado?
          - Já era. Se eu ficar batucando em máquina de escrever a vida toda, vou morrer durango. Eu quero mais é morar numa cobertura na beira da praia, andar de Mercedes e me encher de mulher boazuda.
          - Ué, e a noiva? Vai casar ou não vai?
          - Sei não. Posso arrumar coisa melhor. Tô fazendo a cabeça da filha do dono da outra corretora, sacou?
***
          Chove muito, justo no dia que escolhi para visitar meus pais. Resolvi dar uma volta pelas redondezas e tenho de pular uma poça d’água enorme por causa de um fusca velho parado em frente à lanchonete. Solto um palavrão e entro, todo molhado. Afrouxo a gravata, tiro o paletó e enxugo o rosto com o lenço. Faz tempo que não ando por aqui e pergunto ao balconista:
          - Tudo bem com você, Manoel? E o Chico? Ainda trabalha aqui?
          Nem bem termino a frase ouço o Chico, de dentro da cozinha, perguntar para alguém em voz alta.
          - Que foi que o advogado disse?
          O homem na outra ponta do balcão ainda é o mesmo, mas perdeu a arrogância de outrora. O terno está amarrotado, a gravata manchada, o rosto tem um ar cansado.
          - A barra pesou. Ele vai pegar uns cinco anos por causa daquele bode com as ações.
          - E você?
          - Tá maus, tô procurando outro emprego. Mas logo, logo me acerto.
          - E as crianças?
          - Vão pra escola pública. Minha mulher tá me enchendo o saco por causa disso. Não se conforma que o pai acabou com a fortuna da família e vai em cana, enquanto o maridão aqui não tem mais como manter aquele conforto.
***
Deixei minha filha na casa dos avós depois da aula de ballet. Lembro da lanchonete. Faz bem uns cinco anos que não volto lá.
          - Dotô, há quanto tempo!
          - Pois é, Manoel, pede pra mim um misto quente, daqueles de antigamente, e um suco.
          Do outro lado da parede, soa a voz do Chico:
          - Já ouvi, deixa comigo! Mas como foi que ela descobriu?
          - Ela quem? Descobriu o que?
          - Desculpe, eu perguntei para outra pessoa.
          Só então reparo no sujeito mal-ajambrado, encolhido na outra ponta do balcão e tomando uma cachaça. É apenas uma sombra daquele rapazote que se via fadado ao sucesso e à fortuna. Foi ele quem respondeu, com uma voz rouca, arrastada e muito mais fraca do que da primeira vez que o vi.
          - Voltou mais cedo da viagem e me pegou no flagra.
          - E aí?
          - O que você acha? Saiu de mala e cuia, levou as crianças e, no dia seguinte, o advogado me ligou.
          - Deu no que?
          - Pensão, meu camarada. Pensão. Vai quase tudo que eu ganho na firma. E eu não consigo ser promovido desde que entrei. Vendi o fusca e tô contando as moedas pra fechar o mês.
***
          Hoje, minha filha teve prova na faculdade e não pode levar meu filho temporão para visitar os avós. Fui eu mesmo e bateu, de novo, saudade do bairro onde passei minha infância. Saí pelas redondezas e entrei na padaria, já bem decadente. O Manoel, grisalho e curvado por décadas de balcão, nem me reconheceu. Depois de refrescar-lhe a memória, pedi o mesmo lanche de sempre. Afrouxei a gravata e, sem me dar conta da coincidência, retomei o hábito de ouvir a conversa do cidadão que estava, como sempre, na outra ponta do balcão, o ex-dono do reluzente Karmann Ghia. Já faz um tempão que não se fabrica mais esse automóvel, só sobrou meia dúzia na mão de colecionadores. Será que o dele ainda existe?
          - Pois é, Chico. Ontem, eu queimei meu filme de novo. Reclamei de mau jeito que não era promovido, falei umas besteiras e aquele mala do patrão me disse que eu já estava na firma há muito tempo sem progredir, que não tinha procurado me qualificar e que eles não precisavam mais dos meus serviços. Tô na rua de novo.
          - E agora?
          - Sei lá. Tá difícil.
          Fez-se silêncio. O outrora esfuziante dono do carango toma, com parcimônia, uma pinga barata. Chico prepara meu lanche. Com a idade, está muito mais lento - esse sanduíche vai demorar a sair pela janelinha da cozinha. Manoel, como sempre, olha para ontem. Eu disfarço, mas fico atento esperando a retomada da conversa. Até que ouço, lá da outra ponta do balcão.
          - Sabe, que coisa incrível, eu venho aqui há mais de trinta anos e você tá sempre escondido aí dentro. Eu nunca te vi!
          E o Chico, resignado, resmunga baixinho.
          - Era só ele se olhar no espelho.