sábado, 19 de outubro de 2013

Ora, pipocas


          Pouca gente resiste à tradição de comer pipoca no cinema. Quando não é a dita cuja é amendoim, balinha, chiclete, pão de queijo ou, não duvido, frango assado. Mas, se é no cinema tudo se enquadra na categoria pipoca. Em geral é consumida no começo da sessão, durante os comerciais e dura pouco depois do início do filme, exceto quando o pacote é jumbo. Ainda assim, ninguém percebe a seriedade da velha e boa pipoca. Por conseguinte, preparem-se para os quinze minutos de fama deste indispensável item da culinária universal.
          Que o digam os nativos do sudoeste dos Estados Unidos e do México, que já a consumiam em tempos pré-históricos. Alguém da tribo descobriu que, ao aquecer certas variedades de milho, os grãos explodem numa polpa fofinha, branca ou amarelada. Isso acontece porque nestas variedades a superfície é impermeável ao vapor formado a partir da umidade interna do grão. Eventualmente a pressão do vapor quente arrebenta a casca e...pop!. Já os tipos que se come na espiga não explodem. Ou seja, como se diz por aí, nem todo milho vira pipoca. Como, minha senhora? Ninguém diz isso? Então digamo-lo a partir de já.
          Engana-se quem pensa que acabou a Ciência. Esta semana o jornal noticiou que pipoca no cinema deixa o espectador imune à propaganda. Apreciemos a ironia, já que a propaganda é a alma do negócio inclusive para o pipoqueiro. Pensem no homem de jaleco e barrete brancos, empurrando o carrinho enquanto canta “olha a pipóóóóóca...é fresquiiiiiinha...tem a doce e também a salgadiiiiiinha...”. Na outra ponta do mundo dos negócios, nos Estados Unidos – onde mais? - há uma organização chamada Popcorn Board, ou “Comissão da Pipoca”, que gasta um milhão de dólares por ano para difundir o produto, atrair consumidores e expandir mercado externo para a produção de milho. Num quadro desses, quem diria que a guloseima atrapalha a propaganda?
          Pois foi isso que um trabalho científico demonstrou. Saibam todos que existe uma revista científica chamada Journal of Consumer Psychology, ou seja “Revista de Psicologia do Consumidor”. Nela são publicados estudos sérios, bem fundamentados e avaliados por especialistas, acerca do comportamento de consumidores. E foi lá que cientistas do Departamento de Psicologia da Universidade de Wuerzburg, na Alemanha, publicaram o trabalho intitulado “Pipoca no cinema: interferência oral sabota os efeitos da propaganda”.
          É senso comum que a mera exposição de um produto induz atitudes positivas em relação à marca. Este efeito é baseado no treinamento da chamada pronúncia subvocal. O que é isso? Toda vez que uma palavra nova é encontrada, há uma tendência do espectador simular a pronúncia da palavra, mesmo sem emitir som com a própria boca. Quando um nome de marca aparece reiteradamente, o sujeito repete a simulação e vai se familiarizando com o produto, queira ou não. Os psicólogos já sabiam que esse treinamento progressivo, do que eles chamam de fluência oral-motora, vai aumentando a sensação positiva em relação àquela palavra, o que explica o sucesso da publicidade repetitiva.
          Os cientistas alemães resolveram, então, testar se o consumo de pipoca interfere no treinamento da fluência oral-motora a ponto de prejudicar a propaganda que aparece no início das sessões de cinema. Antes de abandonar o blog resmungando, lembre-se o caro leitor de que o assunto está longe de ser uma frescura irrelevante, pois envolve somas astronômicas em vendas.
          Os pesquisadores compararam dois grupos de calouras da Universidade, as quais foram convidadas para uma sessão de cinema. Na entrada do auditório, um dos grupos recebeu pipoca, o outro grupo recebeu um cubinho de açúcar, que derrete logo na boca embora também forneça calorias. Todos assistiram a uma sessão que começou com anúncios de uma marca de loção ou de uma fundação assistencial que solicita doações, mostrados na tela antes do filme propriamente dito. Os nomes de marca eram todos em outra língua que não o alemão, para evitar familiaridade antecipada. Uma semana depois as estudantes, que ignoravam totalmente os objetivos do estudo, receberam, cada uma, quatro euros e foram instruidas a usar dois euros para comprar uma dentre seis marcas de loção e doar o resto do dinheiro para uma dentre seis entidades assistenciais, de livre escolha.
          O resultado foi que as calouras do cubo de açúcar escolheram, em sua maioria, a marca anunciada na sessão de cinema, enquanto as da pipoca não apresentaram preferência por qualquer marca. Os resultados foram atribuídos à interferência oral motora. Em outras palavras, mastigar pipoca durante um comercial anula o efeito da publicidade. Poderia haver outras explicações, mas os autores cuidaram de acrescentar vários controles adicionais, como um grupo que mascou chiclete, bem como outras medidas destinadas a descartar interpretações alternativas.
          E ainda fizeram mais um experimento, no qual investigaram a chamada “atividade eletrodérmica”, aquela mesma coisa que é medida no “detetor de mentiras” ou “teste do polígrafo” nos filmes policiais, e que mostra uma reação emocional do indivíduo quando reconhece algo que está procurando esconder. No caso da publicidade, o importante é que a mesma coisa acontece quando alguém reconhece um produto familiar, mas não quando vê um produto desconhecido. Os voluntários que comeram o cubo de açúcar mostraram, e os da pipoca não, sinais de reconhecer a marca propagandeada, tal como no primeiro experimento.
          Essa coisa toda, é claro, importa especialmente para profissionais de publicidade, já que os leitores deste blog daqui para a frente saberão se defender da propaganda indesejada com o uso criterioso da pipoca. Mas dá o que pensar em outras esferas. Imagino, por exemplo, haver entre professores consenso de que estudantes não devem comer ou mascar chiclete em sala de aula. Além da proverbial “falta de educação”, quanto deste consenso se deve à percepção de que a interferência oral motora prejudica objetivamente o aprendizado? E pipoca no comício, ajuda ou atrapalha o candidato? Será que o telecurso deve ser apresentado no horário do café da manhã? E por hoje chega, pois já vejo os leitores se dispersando em busca de pipoca, o que vai seguramente prejudicar o sucesso desta crônica.

Rafael Linden

       

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cobras e olhos negros


          Uma das razões pelas quais este cronista evita mergulhar fundo no próprio subconsciente é que bem sabemos da nossa mania de conjuminar assuntos desconexos. Sabe-se lá o que diria o velho Sigismundo ao topar com tal desvio. Portanto, queiram os ilustríssimos leitores, por caridade, perdoar o título acima e, com todo o respeito, conjuminemos.
          Cada um elege o assunto que lhe apraz. Então, esta semana escolhemos como a mais palpitante a descoberta, feita pelo Ibama junto com a Polícia Federal, de que uma jibóia valiosíssima foi vendida pela ex-administradora de um zoológico de Niterói a um criador de serpentes norte-americano, que a contrabandeou pela fronteira de Roraima com a Guiana e levou-a para os Estados Unidos. Levou a cobra, bem entendido. A cobra réptil, melhor entendido ainda.
          Acontece que esse bicho é raríssimo - ao que parece é a primeira cobra portadora da condição genética chamada leucismo, na qual partes ou até o corpo inteiro de um animal são brancos devido a falta de pigmentação. Não é o mesmo que o albinismo, pois nesse a cor dos olhos é vermelha. No caso em questão, trata-se de uma cobra com corpinho todo branco e olhos negros. Não, minha senhora, o cronista não tem leucismo, apenas não toma muito sol, entre outras coisas porque passa muito tempo escrevendo besteiras nesse blog.
          Consta que, quando o tal zoológico foi fechado, a administradora levou a cobra para casa e, tempos depois, declarou que o animal tinha morrido. Mas os federais encontraram fotografias da senhora, toda sorridente, com o marido e mais o contrabandista americano. E, ao vasculhar as redes sociais, acharam fotos da cobra com o gringo. Há rumores de que filhotes desta jibóia branca tem sido vendidos por uma boa grana, o que levou ao cálculo de que a mãe de todas as cobras vale coisa de um milhão de dólares.
          Não nos tocaria tanto esta história, não fosse ela mais um exemplo de assalto ao patrimônio genético que acontece aos montes do Oiapoque ao Chuí. E, não bastasse a espionagem, o Obama teve sorte de, por poucos dias, escapar de ser enquadrado em pirataria também. Sosseguem, porém, pois não será hoje que descambaremos para o colunismo político, já mais do que saturado em todas as mídias. Conforme reza a tradição deste espaço democrático onde eu mando sozinho, divaguemos outrossim sobre os dois componentes da insólita notícia.
          Em primeiro lugar, a pele branca com olhos negros nos remete ao último filme da carreira da maravilhosa atriz italiana Silvana Mangano. Aliás, passei décadas a pronunciar seu sobrenome “Man-gâ-no”. Eu e todo mundo por aqui, acho. Pois hoje estava eu tão-somente apreciando as imagens de um video falado em italiano no Youtube, quando descobri que na terra de Michelangelo e Berlusconi diz-se “Mân-gano”, com acento na primeira sílaba. Este blog é pura cultura, não é mesmo? Mas voltando ao assunto, a obra de 1987, dirigida pelo cineasta russo Nikita Mikhalkov, era Oci ciornie, ou seja “Olhos negros” e Silvana interpretava uma aristocrata chamada Elisa. A trama envolvia a paixão que seu marido, um bon vivant interpretado por - quem mais? - Marcello Mastroiani, nutria pela personagem da então jovem atriz russa Yelena Safonova, de quem o homem de meia idade se enamorou ao conhece-la num spa. Preciso ver esse filme, dizem que é ótimo.
          E de cobra, o que mais se pode dizer? Já não basta a negociata? Pois tomem ciência de outra história que envolve um americano e uma cobra. Há poucos meses estive em uma simpática birosca chamada Tippi Teas em El Paso, no Texas. É uma casa de chás de propriedade de um casal de remanescentes da era hippie. Pois eu soube que há tempos o marido comprou uma cobra lá mesmo nos EUA. E, sabendo que seu novo animalzinho de estimação era originário do México, não é que o cara levou consigo a cobra numa viagem de avião ao país vizinho para que, segundo ele, a bichinha conhecesse a terra natal?
          Só que na volta a cobra, que viajava enrolada no corpo do cidadão, deu de botar a cabeça para fora da camisa dele e o vizinho de poltrona, ao perceber do que se tratava, começou a berrar como todo bom primata. O resultado foi um tempão perdido em explicações junto às autoridades americanas até que, pasmem, o cidadão conseguiu levar a criatura de volta para o Texas onde, presumo, os três, marido, mulher e cobra, vivem felizes.
          Só mesmo o dono de um estabelecimento que vende uma centena de variedades de chás em folhas, algumas das quais meio suspeitas, bem como roupas que parecem sobras dos figurinos da peça Hair, consegue se tornar personagem de uma história dessas que, devo no entanto admitir, é mais inocente do que a saga da jibóia com leucismo. Afinal, que raio de obsessão estranha tem esses americanos com cobras, né?

Rafael Linden


sábado, 5 de outubro de 2013

O ônibus


          Carlito não tira os olhos da garota sentada do outro lado do corredor. Que vontade de beijar aquela boquinha carnuda, de um jeito bem suave, uma, duas, dez vezes com todo o carinho. Mas é interrompido quando o celular dela toca e aqueles lábios incríveis se perdem numa torrente de meu amor, já estou chegando e o inevitável te adoro, que lhe apaga mais uma esperança ocasional.

          Dona Ernestina sofre com o desconforto dos bancos surrados, com o sacolejo nos buracos da estrada e maldiz a arrogância do genro milionário que se limita a visitar o interior duas vezes por ano. Páscoa e Natal. E ele acha muito. O resto do tempo, ela que se arranje para ver os netos. Tem uma linha de ônibus, não tem? Claro que sim, meu bem, e a mamãe pode ficar no quarto de hóspedes de frente para o mar, aproveitando o sol e a companhia das crianças. Bem sabe que a gentileza da filha é pretexto para que o casalzinho possa ir ao cinema, ao teatro, jantar fora com os amigos, cadê que ficam contentes com a visita. E ainda por cima, o velho não a acompanha nas viagens à capital, fica em casa aborrecido, queixa-se da comida de pensão, quer a mulher sempre lá. Só para cozinhar. Afeto que é bom, nada.

          No entanto, Ernestina diverte-se com os olhares insistentes que o jovem do outro lado lança em direção à guria na poltrona da frente, linda mesmo, uma pintura. O encantamento dele é o mesmo do rapazote que, envergonhado, há mais de quarenta anos, a convidou para dançar quase no fim do baile de sábado à noite na Associação Comercial. Lá é de lei se fazer difícil e ela cumpriu o ritual de boa moça. Deu-lhe um trabalhão e assim conseguiu o tipo de homem que queria. Casou na igreja local, toda enfeitada, no branco da pureza e sete meses depois deu à luz a filha prematura que, apesar disso, nasceu tão grande e forte quanto qualquer outra. Reprime a ironia e pensa – será que esses dois vão repetir minha sina? Fecha os olhos para recordar e, justo quando imagina o que teria levado sua paixão a murchar e afinal se dissolver, desperta com a campainha do celular e se entristece com o desfecho de ambas as histórias.

          A rotina de Ana Rosa se arrasta em agonia. Pega sem vontade aquele ônibus a cada duas semanas, para passar dois ou tres dias com o namorado. Esse, o primeiro, o único, objeto de uma ilusão de amor eterno que se acabou em poucos meses e a acorrentou antes às convenções do que aos sentimentos. Aos pais e irmãos comunica supostas viagens de trabalho. Aos vizinhos parece um pouco  rechonchuda, vai ver é comida de lanchonete ou então, né? Resta-lhe a cureta mágica para raspar a vergonha. O celular toca, como a pancada do teatro, sinalizando o primeiro ato. Atende como previsto no roteiro. Assim que desliga faz o cálculo das perdas e ganhos e resolve que a única alternativa ao desespero é um novo guarda-roupa.


Rafael Linden