terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2015


sábado, 20 de dezembro de 2014

A dieta do verão e o aquecimento global


          Estamos a pouco dias do verão no Rio de Janeiro. Aproxima-se a estação da alegria, criançada em férias, muito sol, suor e cerveja estupidamente gelada, gente sarada com roupas exíguas, pele bronzeada, tatuagens fresquinhas, exibindo aquela saúde toda na praia, com o único e edificante propósito de entabular uma parceria para o fim da noite. Vez por outra, fazer o que, tropeça-se no rotundo tio Pelópidas, para nos lembrar que “corpo definido” tem definições mais amplas que se pode imaginar.
          Encontro a gentil leitora no meio termo que separa Pelópidas e sua esposa, igualmente robusta, do galã da novela e, ai ai, daquela formosura que trafega num biquini feito de, ao todo, doze centímetros de um único fio de fibra sintética. Eis que nossa fã incondicional se encontra em pânico. Pois não é que o verão bate à porta e ela ainda está três quilos acima do peso cientificamente indicado para si, de acordo com o último exemplar da revista Marie Claire? Ah, o horror! Para piorar as coisas, o recesso de Natal e Ano Novo, que poderia ser passado na academia de malhação, coincide - vejam que coincidência - com o Natal e o Ano Novo...
          Nestas datas festivas, cônscios de suas tradições eclesiásticas ou culturais, a galera se dedica apropriadamente a entupir o bucho de aves e presuntos, farofas, guloseimas, tudo isso regado a bebidas altamente calóricas. Agora danou-se. As amigas da nossa leitora vão se fartar de, na sua ausência, demonstrar o quanto a amam, às gargalhadas, saboreando as mais cruéis piadas sobre pneuzinhos e outros acessórios automobilísticos que costumam decorar as vizinhanças dos escassos biquinis. Urge uma dieta radical, acompanhada de abundantes orações a Santa Rosa de Lima, pedindo-lhe inspiração para, se possível, jejuar até meados de janeiro. E é neste exato momento que o leitor rabugento, tomado por um misto de desprezo pelas preocupações mundanas e curiosidade científica, pergunta: - E, se essa maluquice der certo, para onde vai a gordura perdida quando a leitora emagrece?
          Arrá! A frase que agora se lhe descortina aos olhos é o intervalo de poucos segundos que o cronista lhe oferece para que pense na resposta. Enquanto isso, informo que o respeitável periódico científico British Medical Journal publicou há poucos dias um interessante artigo dos australianos Ruben Meerman e Andrew Brown, com o título da pergunta que aquele chato fez ainda agorinha.
          Para começar, os pesquisadores fizeram uma enquete, perguntando isso a um grupo de médicos, nutricionistas e preparadores físicos – que nossa sofisticada platéía costuma chamar de personal trainers -. Dentre as várias opções, que incluiam as fezes, suor, urina, músculo e outras, a mais popular entre todos estes profissionais foi que a gordura perdida se transformava em energia ou calor.
          Os autores do trabalho apontaram para a improbabilidade desta resposta, que viola a chamada lei da conservação das massas, a qual é essencialmente respeitada no nível de reações químicas como as que acontecem no emagrecimento, baseadas na metabolização de triglicerídeos, uma classe de gorduras armazenadas nos chamados adipócitos. Então, apesar da teoria da relatividade oferecer o conceito de  transformação de massa em energia, o simples desaparecimento da gordura e aparecimento de calor não é convincente.
          Os cientistas estudaram as reações químicas e calcularam as quantidades dos derivados formados no emagrecimento. Chegaram a duas conclusões: primeiro, que a gordura perdida acaba, por força da oxidação dos triglicerídeos, se transformando em dióxido de carbono – o conhecido CO2 - e água, nas quantidades previstas pela lei da conservação das massas; e segundo, que esse CO2 que vem da gordura “queimada” é expelido pelos pulmões, na respiração, enquanto a água sai pelos caminhos habituais como o suor ou a urina. Ou seja, a gordura que a escultural leitora perdeu ontem, depois de duas horas na esteira e um monte de pulinhos, virou mero CO2.
          O rabugento se contorce de raiva, achando que o cronista, num arroubo de sandice, vai enveredar pela teoria de que quando alguém se exercita na Mata Atlântica não está se beneficiando do ar puro, e sim contribuindo com seu CO2 para a fotossíntese e, por isso, para a saúde das plantas. Longe de nós semelhante isso. E também não cairemos no pagode do cientista doido ao afirmar que mais do que o desmatamento, o escapamento dos automóveis, a poluição industrial ou a flatulência do gado, quem realmente está provocando o aquecimento global é o CO2 produzido pelos seres humanos que se esfalfam diariamente nas academias de ginástica. Também isso não faremos.
          Mas, não fossem a obrigações que nos afligem, seria divertido tomar os resultados quantitativos do trabalho dos australianos e testar a hipótese de que o calor insano que, estejam certos, vai fazer nos próximos meses na Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro recebe uma contribuição significativa do efeito estufa criado por uma infinidade de cariocas aflitos por, todos ao mesmo tempo, entrarem nas sungas e biquinis com as quais pretendem desfilar nas extensas e tristemente poluídas praias desta comarca, exibindo suas formas apolíneas recentemente ajustadas por horas a fio malhando desesperadamente. Quem sabe, né?

Rafael Linden


sábado, 13 de dezembro de 2014

O esqueleto no armário da coroa

          Não é nada disso, madame. Este blogue não publica histórias de terror. É apenas um chamariz adequado para a crônica de hoje, que trata de uma novidade meio desagradável para uma certa realeza. E a coroa do título, com todo o respeito, não é a gentil leitora, nem a vovó, nem a dona Mariquinhas do sexto andar. A coroa, no caso, é a britânica. E o tal esqueleto é, nada mais nada menos, do que a estarrecedora revelação de um adultério.
          Como disse, senhora? Hoje em dia revelação de adultério dificilmente é estarrecedora? Pois, pasme, trata-se de um chifre de setecentos anos. Mas só agora a Ciência traz a público a prova material de que um membro da linhagem da monarquia britânica era um bastardo, não apenas metafórico, mas genético mesmo.
          Há algum tempo foi descoberto um esqueleto enterrado debaixo de um estacionamento na cidade inglesa de Leicester, e identificado como pertencente ao rei Ricardo III. Este monarca reinou por apenas dois anos, de 1483 a 1485, durante os quais construiu uma fama diabólica, e foi morto em batalha por seu inimigo Henry Tudor, o qual com isso abiscoitou o trono. Quando da descoberta arqueológica, foi noticiado que os cientistas tinham confirmado a identidade de Ricardo III pelo exame do DNA extraído das mitocôndrias dos restos mortais, comparado ao DNA das mitocôdrias de uma descendente de Anne de York, irmã do rei Ricardo.
          Então, há poucos dias a revista Nature Communications publicou um artigo assinado por cientistas de vários países além dos pesquisadores da Universidade de Leicester, contendo a descrição do estudo feito com todo o DNA recuperado do esqueleto, a análise genética e os cálculos dos cientistas de que a chance daquele esqueleto não ser de Ricardo III é menor do que seis em um milhão. Ou seja, é praticamente impossível que a identificação seja falsa. Vosso amado cronista não é versado em Genética, mas tem um punhado de amigos gaúchos com os quais vem aos poucos aprendendo alguma coisa e adorou a leitura, principalmente pela forma como a pesquisa foi relacionada à genealogia da família real da Inglaterra.
          Na verdade, a história daquela ilha velha não é das mais edificantes, recheada de  fratricídios e outras tragédias movidas pela ânsia de poder típica da aristocracia. Mas ninguém que passe algum tempo por lá consegue ficar indiferente às curiosidades daquele povo excêntrico. E, ora vejam, nesse mesmo artigo a Genética, além de bater um recorde ao confirmar a identidade de uma pessoa que se encontrava desaparecida há 527 anos – nem os roteiristas de C.S.I. tinham até agora inventado uma história assim - , ainda nos brindou com a revelação de um adultério.
          Não, senhora, não é gozação. Aqui no telhado de fato mentimos um pouquinho, afinal esse blogue foi criado para escrever ficção. Mas hoje trata-se de pura verdade. A respeitável publicação científica resvalou para o estilo mundano da revista Caras e anunciou para o mundo que houve um bastardo na linhagem real descendente do monarca Eduardo III, que reinou no século XIV e é o trisavô de Ricardo III.
          Os cientistas se valeram de certas regras da Genética. Da mesma forma que a linhagem materna pode ser confirmada pelo exame do DNA das mitocôndrias, que são herdadas sempre da mãe, a linhagem paterna pode ser confirmada pelo exame de uma porção invariante do cromossomo Y, a qual passa sempre de pai para filho homem. Pois não é que, ao comparar as características do DNA de Ricardo III com o DNA correspondente de descendentes da família real, os pesquisadores descobriram que um desses descendentes tem o cromossomo Y diferente dos demais? Pela análise genealógica, os cientistas concluiram que essa alteração é consequência de um evento de falsa paternidade, ocorrido em algum momento ao longo das dezenove gerações que sucederam o rei Eduardo III desde o século XIV.
          Nosso leitor rabugento, sempre alerta, dá de ombros e comenta com seus botões que isso também não é nenhuma novidade, porque a história britânica já registrava que dois outros filhos nascidos fora dos sagrados laços do matrimônio foram legitimados entre os séculos XIV e XVIII. Mas no caso da descoberta atual, o rabo da proverbial porca torce um pouco além do habitual. Pois o já sobejamente celebrado rei Eduardo III teve vários filhos, um dos quais, Edmundo, foi o bisavô de Ricardo III. Mas a fofoca da época era de que Eduardo III sequer estivera presente ao nascimento de outro rebento, chamado John, porque esse não seria seu filho e sim, quem diria, de um açougueiro belga…
          Ah, agora tenho a atenção de todos, né? Pois saibam que, se de fato John não era filho de Eduardo III, então seus descendentes, que constituiram a dinastia Tudor, não teriam direito ao trono britânico! Por mera sorte Elizabeth II, hoje rainha da Inglaterra, é descendente de outro dos filhos de Eduardo III e não do pobre John que, dizem, se enfurecia toda vez que alguém insinuava ser ele um bastardo.
          Isso tudo para mostrar para nossos fiéis leitores que a Genética não só é interessante e útil para a Biologia e a Medicina, mas também pode transformar uma revista com a marca da poderosa Nature em sucedânea de um dos maiores sucessos da imprensa brasileira, os “Mexericos da Candinha”, coluna de fofocas da década de 1950, escrita semanalmente para a Revista do Rádio pelo jornalista Borelli Filho, e que revelou inúmeros esqueletos dos armários das celebridades da época.

Rafael Linden



sábado, 6 de dezembro de 2014

Tom Jobim e a Era da Banalização

          Esta semana completa-se duas décadas da morte de Tom Jobim. O grande compositor criou melodias inesquecíveis, ao aliar sua formação clássica com uma inspiração permanente, inquieta, original, coroada com letras arrebatadoras de parceiros como Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Dolores Duran e outros. Na sua ausência, a música brasileira empobreceu, incapaz de substituir um gênio criativo como o mestre Tom.
          De seu legado impressionam a riqueza melódica, a originalidade e a delicadeza das harmonias. Sua ausência é tanto mais sentida quanto mais nos agride a indigência sonora que por aí anda. O leitor rabugento tem razão quando se tranca na companhia de bem preservadas bolachas pretas e CDs cuidadosamente escolhidos, componentes de sua coleção raramente renovada com lançamentos recentes.
          Estará vosso cronista não cronologicamente, mas também, e pior, metaforicamente velho e intolerante? Esquece-se de que não se pode comparar a contemporaneidade com tempos idos, já depurados do lixo que sempre polui a cultura do presente? Ou haverá, de fato, alguma tendência macabra de banalização da música popular?
          Pois foi isso que um grupo de cientistas de Barcelona, liderados por Joan Serrà resolveu investigar, com ferramentas de processamento de dados e a neutralidade possível. Os pesquisadores usaram uma base de dados de acesso público chamada The million song dataset - “conjunto de dados de um milhão de canções” -, criada por Dan Ellis, da Columbia University. Ellis é um engenheiro e professor, que se dedica a desenvolver métodos de extração automática da informação contida em sons. Nesta base de dados, ele e seus colegas vem codificando informação sobre características do som organizado na forma das melodias de um número enorme de canções populares.
          O grupo catalão publicou na revista Scientific Reports sua análise de mais de quatrocentas mil canções compostas nos últimos cinquenta anos, pela qual concluiu que, embora muitas características musicais tenham permanecido estáveis ao longo de meio século, os dados demonstram matematicamente uma tendência progressiva de rarefação de transições de tons, homogeneização de timbres e aumento da proporção de trechos com volume alto, com o passar do tempo. Em resumo, a música popular ao longo dos últimos cinquenta anos se tornou progressivamente mais simplória e barulhenta. O rabugento já se levanta da poltrona, reclinado na qual ouvia placidamente uma sonata de Mozart interpretada por Claudio Arrau, e vocifera contra a platitude deste achado, ora, pipocas, e precisa de cientista para descobrir o que é óbvio para qualquer um que não seja surdo? Calma, senhor, perceba que não se trata de comparar Beethoven com Michel Teló: foram analisadas quatrocentas mil cancões classificadas como música popular. E não é uma opinião – da qual compartilho com nosso irritadiço e crítico leitor -, e sim uma demonstração isenta, obtida por critérios estatísticos de absoluta neutralidade. Se, ainda assim, o rabugento acha pouco, convido-o a procurar na internet fotos do espanhol Serrà e do inglês Ellis, com o que constatará que não se trata de vetustos anciãos de cara amarrada. Ao contrário, são mancebos que parecem perfeitamente capazes de se esbaldar no fim de semana ao som dos similares locais de beijinhos no ombro…
          Então, tudo indica que há, de fato, um empobrecimento progressivo do conteúdo musical no cancioneiro popular. Mas, pensando bem, essa trivialização não parece ser restrita à música popular. É bem possível que estudos semelhantes ao do grupo de Barcelona encontrem, em outros campos da cultura como a Literatura, Arte Plásticas e até as Ciências, padrões semelhantes de simplificação acompanhados por aumento do volume com que os autores apregoam suas próprias obras. Cada vez se faz mais barulho por menos criatividade e inovação. A cada dia menos se valoriza um Tom Jobim, e mais o objeto de consumo fácil e imediato. Não há (ainda?) provas científicas de que esta tendência seja generalizada, muito menos que esta progressão seja intrinsecamente danosa à história da humanidade. Mas não resta dúvida de que assim se banaliza a cultura, possivelmente a única das criações humanas que não tem contraindicação.   
          Talvez por razões semelhantes, outras coisas também vem se tornando progressivamente triviais. Falta de educação, desonestidades de todos os tamanhos e matizes, agressões verbais ou físicas, assassinatos por motivos fúteis. Entre muitas outras obras, o historiador Eric Hobsbawn publicou livros famosos que retratam períodos sucessivos da história desde a Revolução Francesa, com os títulos padronizados “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos impérios” e “A era dos extremos”. Hobsbawn faleceu em 2012, caso contrário poderia se inspirar na falta que nos faz o Tom Jobim e escrever a continuação da série, agora com o título “A era da banalização”.

Rafael Linden



domingo, 23 de novembro de 2014

Nostalgia do bem

          Vejam como são as coisas. Eu, aqui, preocupado com a ansiedade da gentil leitora, a se perguntar quando voltará seu mui amado cronista; e tudo que recebo são recadinhos do leitor rabugento, regozijando-se com o que pensa ser nossa desistência da Literatura. Porém, trata-se apenas de uma enxurrada de compromissos profissionais ao longo do mês, que nos afastaram deste paraíso internáutico, ao qual retornamos com fé e desassombro.
          Isto posto, para os prezados leitores que já se dedicavam a sublimar sua imensa saudade relendo crônicas passadas e erigindo um mausoléu imaginário que, é claro, há de ter um telhado de dar inveja às grandes catedrais, a crônica de hoje é sobre nostalgia.
          Certamente o rabugento, antes de rabugir, já foi avançadinho, deve ter um filho antenado e um neto descolado e, cada qual na sua época, todos praticaram ou praticam o nobre esporte conhecido como menoscabo do passado. Debochando do prazer de seus pais em ouvir música de tempos idos, o maluco beleza Raul Seixas cantava que “tudo quanto é velho eles botam pr'eu ouvir, e tanta coisa nova jogam fora sem curtir...” e “...a nostalgia eu tô curtindo sem querer, porque está faltando alguma coisa acontecer...”. Muito pior, ainda hoje dicionários de língua portuguesa definem nostalgia como a melancolia do exilado, denotando um estado mórbido de tristeza.
          Curiosamente, a noção de que a nostalgia dos pais do Raulzito é “do mal” ecoa uma idéía muito antiga. No final do século XVII, a palavra nostalgia - literalmente a “dor do regresso” - foi inventada na Suiça para designar um estado depressivo grave e por vezes fatal, originário de saudades da terra natal. Considerada uma doença psiquiátrica, era diagnosticada em militares que permaneciam por longos períodos no campo de batalha ou deslocados em outras paragens da Europa. O tratamento consagrado foi mandar o soldado de volta para casa, pelo menos por algumas semanas. Esta concepção de nostalgia, que durou três séculos, foi aos poucos revista, moderada pela Psicanálise e pela Psicologia, e abrandada para exprimir um sentimento agridoce sobre memórias prazerosas do passado, na terra natal ou em outro lugar qualquer.
          Viver exclusivamente de memórias, por melhores que sejam, não é boa idéía e, como se diz por aí, tudo que é demais faz mal. Deixar-se tomar pela nostalgia pode, em alguns, levar a estados depressivos e, aí sim, torna-se um grave problema de saúde mental, o qual deve ser o que os antigos chamavam de nostalgia. Mas atire a primeira pedra virtual quem, vez por outra, não se põe a pensar como seria bom voltar a comer aqueles bolinhos que a vovó preparava, ir ao Maracanã apreciar o futebol brasileiro do tempo em que ganhávamos a semifinal da Copa do Mundo por 5x2, em vez de perder por 7x1, ou então passar a noite jogando conversa fora na mesa do Veloso, em Ipanema, vendo a garota passar. E, logo depois, suspira e volta aos seus afazeres sem maiores consequências. Ou seja, há muita nostalgia “do bem”. Mas será que faz mesmo bem? Ou simplesmente não faz mal?
          Pois a Neurociência já mostrou que boas lembranças do passado tem efeitos neuropsicológicos benéficos, particularmente sobre a regulação de emoções e a adaptação ao estresse. Com base nessas demonstrações, um grupo de pesquisa da Rutgers University, nos EUA, liderado por Mauricio Delgado, publicou na revista Neuron um trabalho científico no qual testaram se memórias autobiográficas podem ser valorizadas ao ponto de se sobrepor a recompensas tangíveis, tais como dinheiro vivo. Entre parênteses, o Professor Delgado nasceu em São Paulo, emigrou muito jovem para os EUA e lá fez toda sua carreira. Não duvido que tenha se interessado por este tema por conta da dificuldade de achar um botequim, em Nova Jersey, que sirva um pastel como o que era vendido na pastelaria dos chineses na esquina da São João.
          Os pesquisadores recrutaram um grupo de universitários, de ambos os sexos, que mostraram ter muitas lembranças da infância, tanto positivas (como viagens de férias) quanto neutras (como arrumar as malas para essas viagens). Os jovens inicialmente passaram por exames de Ressonância Magnética Funcional, os quais apontaram as áreas do cérebro ativadas quando eles, a pedido dos cientistas, rememoravam algumas daquelas lembranças. Neste experimento, as mesmas áreas cerebrais respondiam tanto a lembranças positivas quanto a recompensas em dinheiro, mas não a lembranças neutras. Outros testes mostraram que a atividade cerebral estava associada a um aumento em emoções positivas, e que se correlacionava, em cada voluntário, com medidas da chamada resiliência, ou resistência ao estresse.
          Mas o mais bacana do trabalho foi quando os cientistas pediram a cada voluntário para escolher rememorar uma lembrança, positiva ou neutra, ao passo que lhe era oferecida uma soma em dinheiro diferente para cada uma das lembranças. Essa recompensa podia ser maior para uma ou para outra, aleatoriamente, e a diferença era variável. Pasme o rabugento, o resultado mostrou que o grupo de participantes chegou a sacrificar quase um terço da recompensa em dinheiro em favor de rememorar lembranças positivas em vez de neutras. Assim, os cientistas demonstraram que uma boa lembrança compete favoravelmente com uma recompensa monetária e, para o bem ou para o mal, tem um valor intrínseco que pode ser simulado por dinheiro.
          Haverá, entre os inúmeros leitores deste blogue, quem esteja a esfregar as mãos na expectativa de comentários sarcásticos sobre a relação entre promessas de outrora e  roubalheiras hodiernas, ou por outro lado se ofenda com a insinuação de que os bolinhos da vovó ou – imaginem! - as madeleines de Proust possam ser reduzidas a um vulgar equivalente monetário. Mas cá do telhado afiançamos que essa história toda só tem a intenção de celebrar o bem que faz uma dose moderada de nostalgia. Por mais que a alma roqueira do cronista aprecie as canções do Raulzito, mais ainda se enleva com a canção de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que dizia “feliz o tempo que passou...tempo tão cheio de recordações...” e “...se um dia esse tempo voltar eu nem quero pensar no que vai ser até o sol raiar...”. E, para encerrar com a sempre bem-vinda ironia do destino, resta lembrar que a melodia na qual Raul Seixas pôs aquela letra que zombava da nostalgia é um plágio absoluto da música "My Baby Left Me”, composta e gravada por Arthur Crudup um quarto de século antes – isso sim, um primor de nostalgia...

Rafael Linden


sábado, 25 de outubro de 2014

Uma crônica implícita

Para não dizer que o cronista não se pronunciou sobre o andar da carruagem neste país tropical, hoje não tem crônica. Mas, para bom entendedor...
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O CARTUM DO SÉCULO.

Em memória do Cabo Nathan Cirillo, guarda de honra do National War Memorial em Ottawa, Canadá, monumento nacional aos soldados canadenses que lutaram na Primeira Guerra Mundial, morto a tiros por um fanático em 23 de outubro de 2014.

Na primeira foto, detalhe do monumento. Na segunda, o cartum de Bruce MacKinnon publicado como editorial do jornal The Chronicle Herald, de Halifax, Nova Scotia, Canadá.

Uma imagem. Todas as palavras.

Rafael Linden


sábado, 18 de outubro de 2014

Pílulas de caca

     Ainda que vosso cronista predileto tenha lá suas opiniões, crenças e mitos políticos prediletos e não se furte ao dever cívico de manifestá-los em horas e locais apropriados, a cláusula pétrea, de que tal coisa não se faz no sacrossanto espaço deste blogue, continua a ser plenamente justificada pela disenteria verbal de que somos vítimas nestes tempos de campanha eleitoral. No entanto, tudo que se passa no mundo serve de inspiração e, a propósito, a vida lá fora sempre nos enseja uma boa oportunidade de apelar para outros eventos entre o quais, como se diz por aí, até mesmo a escatologia “dá uma crônica”.
     Pois não é que o conhecimento científico da humanidade foi, há poucos dias, enriquecido com o trabalho de um grupo de cientistas que preconiza o uso de pílulas de fezes congeladas para tratamento de um tipo particular de infecção intestinal? Volte aqui, cara leitora, porque é coisa séria. Ou melhor, seriíssima. Para começar, saibam todos que o trabalho foi publicado no JAMA, a revista de alta qualidade da Associação Médica Americana, por pesquisadores das Faculdades de Medicina de Harvard e Tel-Aviv, os quais trabalham em dois dos melhores hospitais do mundo, localizados - sem trocadilho – na cidade de Boston. Sim, nada disso garante que o trabalho seja bom, mas continue a ler e verá que tem lógica e é importantíssimo.
     A tal infecção intestinal é causada por um microorganismo que, de cara, já ostenta o ameaçador nome de Clostridium difficile. Seu pacote de maldades causa uma disenteria gravíssima, que leva os pacientes a usar o banheiro até 30 vezes por dia e pode ser fatal. É bom que nossa multidão de ávidos leitores saiba que essa infecção é mais comum quando a flora intestinal normal – ou seja, as bactérias do bem que todos temos em nossas respeitáveis tripas - é dizimada por mau uso de antibióticos. Pois é, minha senhora. As bactérias vivem a competir umas com as outras por sobrevivência e quando as bactérias do bem morrem, bactérias do mal podem ocupar facilmente os ambientes em que a natureza lhes oferece alimento e abrigo. Esta é uma das principais razões pelas quais ninguém deve tomar antibióticos sem orientação médica, muito menos quando são desnecessários.
     Antes de prosseguir, advirto que faço o possível, mas trata-se de uma matéria difícil de abordar com nossa delicadeza habitual. Voltando ao assunto, como a tal bactéria do mal é muito resistente aos antibióticos disponíveis, há alguns anos existe um tratamento baseado na competição pela sobrevivência. Consiste em introduzir fezes de uma pessoa saudável no tubo digestivo do paciente, para que bactérias do bem colonizem maciçamente o intestino e, com isso, derrotem as bactérias do mal. Mas até agora esse tratamento tinha de ser feito com – tenham paciência – fezes frescas, em geral de um parente da pessoa doente e, para injetar a poção mágica, era necessária a introdução de um tubinho vindo, digamos, de lá ou de cá, no tubo digestivo do paciente. Crianças, por favor não tentem fazer isso em casa.
     Então, como este procedimento, além de difícil de descrever com um mínimo de boa educação, é sujeito a efeitos adversos e requer ambiente hospitalar, os cientistas inventaram o que só pode ser descrito como pílulas de cocô. É isso mesmo, cápsulas feitas com o mesmo material que envolve muitos outros medicamentos, contendo no interior fezes congeladas de doadores saudáveis, selecionados por critérios rigorosos e submetidos a diversos exames para garantir que o material seja de primeira, ou seja, contenha uma flora bacteriana todinha do bem. As cápsulas ficam congeladas até o uso e, com isso, o tratamento pode ser feito em consultório médico ou na casa do paciente. Simples assim.
     A boa notícia foi que as cápsulas funcionaram em noventa por cento dos casos testados, mais ou menos a mesma proporção de pacientes nos quais funciona aquele tratamento complicado! E nenhum paciente vomitou, apesar de engolir 30 daquelas cápsulas em dois dias. O leitor rabugento já nos telefonou pelo menos quatro vezes, dizendo que este blogue está ficando cada dia mais nojento, mas o fato é que se trata de um avanço no tratamento de uma infecção grave e potencialmente fatal. E antes que o Juquinha comece a guardar o que não deve em sacos plásticos no congelador da geladeira da avó, deve-se notar que os pesquisadores foram cautelosos e advertiram que será necessário confirmar os resultados em estudos mais amplos, além de verificar se não haverá efeitos adversos a longo prazo.
     Ufa, diz a nossa querida leitora, aliviada porque pensa que acabou a tortura. Mas ainda resta o momento nostalgia. Há uns cinquenta anos, o músico e comediante Juca Chaves tinha, entre suas máximas, uma pérola de sabedoria que dizia ser “melhor dividir com os amigos um prato de morangos do que comer sozinho um prato de me*!@”. Se tudo correr bem, haverá pelo menos uma circunstância em que os morangos ficarão em segundo lugar.



Rafael Linden


domingo, 21 de setembro de 2014

Sim, senhora, daqui a cem anos

     Vejo nos olhos marejados da gentil leitora a emoção de reencontrar este humilde cronista, depois de quatro interminávei semanas. Vossa fênix ressurge incólume das cinzas de um mês atulhado de compromissos inadiáveis, para deleite dos fãs e, é claro, para o inevitável muxoxo do notório resmungão que nos persegue desde sempre. Estavam com saudades? Aguardavam ansiosos a última insanidade a ganhar a nuvem, diretamente do borbulhante e desconexo cérebro deste que vos escreve? Podia ser pior, acreditem. Imaginem-se a descobrir que o próximo livro de seu escritor predileto – escritor mesmo, não eu – estará à sua disposição apenas em 2114. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     Ha, ha, coisa nenhuma. Pois em agosto de 2014, Katie Paterson, uma artista escocesa residente em Berlim, deu a largada para seu projeto que consiste em, a cada ano, encomendar um livro inédito a um escritor de renome, até um total de cem escritores. Parece uma mera proposta editorial que, eventualmente, será assumida sucessivamente por empresários mais jovens ou pelos descendentes da moça. Mas não, isso seria trivial. O busílis – lembram do busílis? - é que esses livros serão trancafiados num espaço especialmente reservado em uma biblioteca pública na Noruega, onde ficarão expostos, fechadinhos e proibidos para leitura até 2114, quando finalmente serão liberados para os leitores. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     Livros que só serão lidos daqui a cem anos, artista nascida na Escócia, residente na Alemanha, projeto na Noruega. Viram no que deu a União Européia? Coisa de doido, né? De cara, há quem diga que em pouco tempo os espertofones, tabletes, realidades virtuais e o escambau eletrônico tornarão obsoletos não só o livro, mas qualquer coisa escrita em papel. Já outros lamentam o crescente desinteresse da galera pela respectiva língua pátria a começar pelas vogais, ao que parece condenadas ao ostracismo – por falar nisso, vcs td blz? Sem falar numa frase que não existia há algumas décadas e se tornou comum na mudernidade – pô, cara, não tenho tempo pra nada, não leio um livro desde que entrei na faculdade! Apresso-me a esclarecer que os compromissos inadiáveis que mantiveram o cronista nas sombras por um mês incluiam, principalmente, escrever projetos. Na língua pátria. E, raios me partam, com versão em inglês também.
     Mas, voltando ao que interessa: sim, senhora, daqui a cem anos. Coisa de doido. Ou não?
     Pois a escocesa, que é muito conceituada por seus projetos visuais meio esquisitos para o meu gosto pessoal, conquistou como primeira escritora de seu ambicioso projeto nada menos do que Margaret Atwood, uma canadense que, aos 75 anos de idade, já escreveu dezenas de livros, ganhou mais de 55 prêmios - entre os quais o Booker Prize, um dos mais prestigiosos da literatura mundial - e foi homenageada por dezenas de universidades, incluindo Harvard. Como se não bastasse, Margaret inventou uma engenhoca robótica para que um autor possa autografar livros e conversar via tabletes com leitores à distância. Há controvérsias sobre essa invenção, mas não se pode acusar a escritora de saudosismo ou tecnofobia. Ainda assim, em lugar de arquivar seu livro na nuvem, ela fez questão de comprar papel especial de arquivo para que seus originais não deteriorem com o tempo.
     A esta altura, o leitor rabugento resmunga que não apenas é coisa de doido, mas a loucura atravessou o Oceano Atlântico. Será?
     Aqui no telhado, por princípio não posso me dar ao luxo de estigmatizar coisa alguma. Então, pensando bem, esse projeto é muito simpático. Minha própria carreira como cientista sempre foi voltada para pesquisa fundamental, aquela que contribui para o conhecimento e não tem prazo para virar um produto. Na história da Ciência, dessa categoria de pesquisa saiu muito que não valia nada ou foi provado falso ao longo do tempo. Mas também inúmeros conceitos formulados há décadas, séculos, são válidos ainda hoje e o serão até prova em contrário. Da mesma forma, ao contrário do festival de porcarias de consumo imediato que empesteia as livrarias modernas e mal dá espaço para a literatura verdadeira, obras escritas há décadas, séculos e milênios ainda hoje são lidas, admiradas ou veneradas. Portanto, não há nada estranho na previsão de um público para os exemplares do projeto, que ganhou o título de “biblioteca do futuro”.
     O filósofo George Santayana dizia que “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”. De fato, depois de tanto tempo de civilização, é cada dia mais difícil inventar algo de novo e quem aspira à originalidade precisa conhecer o legado de seus antecessores. De outra forma, como saber se o que sai de sua cabeça ou de suas mãos é de fato original? Ainda cética, pergunta-se então a gentil leitora, se não é um contrasenso encomendar e guardar livros em papel, sem saber se serão lidos, em plena era da proteção das árvores do planeta. Nisso a escocesa pensou, e para produzir o papel a ser usado na antologia estão sendo plantadas mil árvores em um bosque nas cercanias de Oslo. O resmungão pergunta “e a tinta?”. Não sei.
     E se de fato até lá se concretizar a profecia do fim dos livros em papel – na qual, entristecido e preventivamente nostálgico, lamento acreditar -, o que será do projeto? Há pouco tempo, a voz de Thomas Edison, gravada no fonógrafo que ele inventou em 1878 foi recuperada por cientistas norte-americanos. Não resta dúvida de que, em 2114, haverá tecnologia suficiente para transpor os textos deste projeto para qualquer meio que venha a substituir o que será então “aquela tralha obsoleta de espertofones, tabletes e computadores de outrora, que estão expostos no museu que fica perto da casa do Zé naquele asteróidezinho”. Sim, senhora, daqui a cem anos.
     O mais interessante neste projeto é exatamente o mistério insondável. Por mais que autores como Margaret Atwood e outros luminares que venham a ser convidados para escrever seus livros tenham seguidores fiéis, gente que leu todos os seus livros, é intrigante imaginar o conteúdo desta coleção. Esse mistério é muito peculiar, porque é provável que nenhum de nós, escritor e leitores deste blogue, leremos esta antologia. Bem, sabe-se lá...Seja como for, isso já justifica que se chame a “biblioteca do futuro” de um projeto de arte, e não apenas uma empreitada editorial.
     No filme que Margaret Atwood gravou sobre o projeto, e justificando que o contrato obviamente impede a divulgação de qualquer informação sobre o conteúdo de sua obra, a escritora comentou, candidamente: “É muito otimismo acreditar que, daqui a cem anos, haverá pessoas, que estas pessoas ainda lerão, que estas pessoas estarão interessadas em abrir as caixas e ler os livros, e que nós escritores serermos capazes de nos comunicar com estas pessoas”.
     Sim, senhora, daqui a cem anos. A pergunta que não quer calar é se, do jeito que andam as coisas, ainda haverá pessoas. Mas, cá para nós, a aventura humana e as habilidades que nossa espécie desenvolve ao longo de sua história só tem valor quando miram o futuro.

Rafael Linden



domingo, 24 de agosto de 2014

Amarelinha O da jogo

QUADRO DE ORIENTAÇÃO

     Hoje, a querida leitora e o estimado, embora rabugento, leitor, que nunca perdem este blogue, estão convidados a brincar. O acúmulo de trabalho, imposto pelo batente que remunera este humilde cronista, nos impede de tamborilar idéias insanas e correlações esdrúxulas. No entanto, para não deixá-los a ver navios, aí vai a notícia da semana, a qual deve ser lida respeitando religiosamente a ordem indicada para ler as linhas numeradas.

Ordem de leitura:
11, 21, 7, 1, 12, 17, 24, 29, 9, 5, 14, 33, 27, 8, 30, 36, 18, 28, 39, 10, 23, 13, 31, 25, 6, 4, 19, 34, 37, 2, 3, 26, 22, 15, 35, 32, 20, 16, 38

  1. Feira,
  2. de
  3. Cronópios
  4. Cortázar,
  5. mais
  6. Julio
  7. Terça-
  8. para
  9. celebramos
10. anos
11. Parabéns, 
12. dia
13. nascimento
14. uma
15. Famas
16. da
17. 26
18. latino-
19. autor
20. Jogo
21. Hermanos!
22. de
23. do
24. de
25. escritor
26. e
27. histórica
28. americana: 
29. Agosto
30. a
31. do
32. do
33. data
34. de
35. e
36. Literatura
37. Histórias
38. Amarelinha.
39. 100


E até breve, pois não há mal que sempre dure, nem bem que nunca chegue.


Rafael Linden


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estão roubando outro planeta

          Uma piada, contada num programa de televisão pelos humoristas do Casseta e Planeta, mostrava um assaltante armado rendendo um cidadão e gritando “Anda, diz aí o nome de todos os afluentes da margem direita do Rio Amazonas, senão eu atiro!”. A vítima, suando frio, “Javari, Jutaí, Juruá, Madeira, Purus, Tefé, Coari”. O bandido “Tá certo, então pode ir!”. E o cidadão, aliviado, “Eu sabia que um dia isso ia ser útil…”.
          Quando eu era garoto, não havia nerd. Quero dizer, não tinha essa palavra no vocabulário da época. Mas havia outro nome para os que insistiam em aprender coisas que pareciam (ou eram) inúteis. Chamava-se, ou melhor, abreviava-se “cedeéfe”. Só esses conseguiam recitar de memória os dias da semana em francês – lundi, mardi, mercredi, jeudi, vendredi, samedi e dimanche –, as capitais e as cores da bandeira de todos os países da Europa e os planetas do sistema solar – Mercúrio, Venus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão –. Para decorar essas coisas, o melhor era repetir a lista várias vezes, em ritmo marcial e quase cantando, como se fosse uma musiquinha.
          Falando nisso, creio que, há algum tempo, todo mundo acompanhou comovido a saga do pobre Plutão, que foi rebaixado de planeta a “planeta anão”, denominação politicamente incorreta e astronomicamente desmoralizante. Mas garanto que a gentil senhora, que nos honra com sua presença constante neste blogue, ficará surpresa ao saber que corre o risco de perder mais um adorável planetinha.
          Este mes comemora-se o décimo aniversário do lançamento da sonda espacial Messenger, cuja missão é coletar dados sobre Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Sete anos depois do lançamento, a engenhoca entrou na órbita adequada e começou a mandar informações e fotografias. Recentemente, pesquisadores do Instituto Carnegie de Ciência, dos EUA, liderados pelo cientista Paul Byrne, examinaram imagens de toda a superfície de Mercúrio e ficaram estarrecidos, ao concluir que o planeta tinha encolhido cerca de sete quilômetros ao longo de sua história de quase quatro bilhões de anos.
          Como assim, minha senhora, encolher tão pouquinho em tanto tempo não é nada demais? Sete quilômetros são uma ninharia perante as distâncias astronômicas entre corpos celestes e, afinal, o que são meros quatro bilhõezinhos de anos na história do Universo? Muito bem, gostei de ver, tem lido com atenção nossas divagações. Mas não se trata de uma dieta de emagrecimento urgente em vista da proximidade do verão. No caso em questão, trata-se de um planeta bem pequeno, uma esferinha com um raio de apenas dois mil e quinhentos quilômetros. Então, os sete quilômetros perdidos seriam, mal comparando, como se nossa Terra encolhesse o equivalente a mais de duas vezes a altura do Monte Everest.
          Se continuar desse jeito, em menos de um trilhão e meio de anos Mercúrio vai desaparecer e nossa listinha de planetas do sistema solar começará com Venus e terminará com Netuno. Só sobrarão sete dos nove planetas cujos nomes, recitados com estilo, compunham uma suave musiquinha na infância deste humilde cronista. Sei não, tem muita coisa desaparecendo por aí. Deve ser alguma maracutaia cósmica, de fazer inveja na capital federal.
  

Rafael Linden



quarta-feira, 30 de julho de 2014

Noturno de Acari


          O último freguês se despede do dono da birosca, que fecha o caixa. A porta sanfonada já está quase toda arriada. São dez horas da noite, rua deserta, raramente se ouve um ônibus ao longe. Rivaldo anota a féria, recolhe o dinheiro e pensa que sua mulher nem desconfia quando volta para casa de madrugada dizendo que o boteco estava cheio. Aliás, hoje mesmo mais cedo, na hora em que ela passou para deixar a marmita, havia vários fregueses. Então, há tempo para uma visitinha ao boudoir da Marialva. Dá um rápido telefonema, arruma as mesas e cadeiras e vai ao lavatório. Limpa as mãos, o rosto e os sovacos, corta as unhas no capricho, troca de camisa, olha-se no espelho e, apesar da azia e de uma leve tonteira, dá-se por satisfeito. Ao sair do banheiro percebe que tem companhia.
***
          O investigador de terceira classe Gervásio Ornelas está de plantão na delegacia quando o telefone toca. O detetive já passou dos cinquenta anos, está prestes a se aposentar e nunca foi promovido, desde que saiu direto do artigo noventa e nove para a Polícia Civil através de um concurso meio maroto. Vem rodando pelo interior do estado, atuando na solução dos mais diversos crimes, invariavelmente a reboque de um superior. Queixa-se de discriminação por ser gordo, mas nem por isso se priva da sardinha frita, que devora aos cardumes, lubrificados com volumes industriais de cerveja preta.
          Quem leva os louros quando se pega o malfeitor é sempre mais graduado, porém nem sempre mais antigo, coisa que o incomoda mais do que unha encravada. Acaba lotado na minúscula delegacia de Acari, um dos bairros mais pobres do Rio de Janeiro e, é claro, só pega o que sobra da escala, fins de semana, feriados, expedientes noturnos. Ainda assim espera tornar-se uma celebridade ao resolver um mistério espetacular que ocupará as páginas policiais por várias semanas.
          Será hoje? Respira fundo, fecha os olhos antecipando as letras garrafais “DETETIVE ORNELAS DESVENDA O CRIME DA DÉCADA!”, pigarreia e atende o telefone com voz de locutor de baile de debutantes:
          - Delegacia de Acari, em que lhe posso ser útil?
          - Aê, ô cara, a birosca do Rivaldo, na Travessa Piracambu, tá com a porta meio levantada, luz acesa e o melado escorrendo pra calçada. Tem um presunto lá dentro, morou?
          - Quem está falando?
          - Né ninguém não. Vai lá.
          - Alô! alô! Fiadaputa, desligou.
          E lá vai ele, depois de acordar o escrivão que dormia numa sala dos fundos “Fica de olho, Jurandir”, e de deixar um bilhete na porta da delegacia com os dizeres “Antonio, saí numa diligência. Quando terminar passo aí de volta. Tem café na garrafa, mas está com gosto de Neocid”.
          Chega em menos de dez minutos ao local indicado e confirma a ocorrência. Não há mais ninguém na rua àquela hora. De repente, uma patrulhinha da Polícia Militar passa em marcha lenta. Ornelas acena para o veículo, identifica-se e explica a situação.
          Saltam do carro dois meganhas corpulentos, o primeiro sargento Bezerra e o soldado Aragão, impecavelmente fardados – apesar da hora - e comportando-se com deferência um tanto excessiva. O detetive, no entanto, acha tudo muito natural e saboreia o momento antes de iniciar os trabalhos. Ergue um pouco mais a porta sanfonada para entrar e examina o cadáver. É de um homem alto, forte, um pouco menor que o sargento, e a esta altura completamente defunto. O “melado” encharcou a camisa da vítima e se espalhou até pingar na calçada. Ornelas telefona para o legista.
          O velho doutor chega meia hora depois, dirigindo um fusca velho e vestindo sobre a blusa do pijama um paletó ainda mais rodado do que o automóvel. Traz na mão uma pasta de couro puído e na cara um ar entendiado e cínico. Depois de um rápido exame, o médico se levanta das cócoras com grande dificuldade em meio a gemidos e imprecações.
          - O felizardo levou sete facadas. Pelo menos três fatais, uma no coração, mais uma no pescoço e outra que vazou a aorta. Levou também uma porrada na cabeça que fez um baita estrago. E tem uma gosma suspeita saindo do canto da boca. Ah, antes que eu me esqueça, o morto é fresquinho, menos de duas horas.
          Ele ainda acrescenta um comentário irônico sobre a elegância da camisa que o falecido veste, comparando-a com sua coleção comprada na Ducal, uma loja há muito extinta. Missão cumprida, retira-se com uma risadinha, zombando da perícia:
          - Agora tá na hora de chamar o “ciéssái”, detetive...
          Na terceira tentativa consegue dar partida no fusca e se vai.
          Os policiais militares se oferecem gentilmente para proteger a cena do crime e manter afastados os curiosos que já se aglomeram. Ornelas anota o nome dos populares e pergunta se viram ou ouviram alguma coisa...não, ninguém, nada...conhecem o morto?...claro, é do bairro...tem família?...tem, casado, dois filhos...a esposa já sabe? O Jorjão, um malandro forte, perfumado e vestido com esmero, cabelo engomado, diz que Rivaldo morava bem pertinho e ele pode avisar a viúva. O sargento Bezerra, solícito, oferece-se para ir junto. O soldado fica por lá mesmo, paquerando a Marialva, que acaba de se juntar aos circunstantes.
          Gervásio consulta o relógio. Meia noite e meia. O Antonio Fernandes, investigador de primeira classe, chega na delegacia sempre por volta das dez da manhã e o delegado só depois do meio-dia. Até lá Ornelas já terá dominado a situação e o caso será seu. Está tudo dando certo, pensa.
          O perito chega pouco depois, num furgão mal-ajambrado, portando uma mochila que em nada lembra a imponente maleta dos personagens do programa de televisão que ele assiste, religiosamente, na versão dublada exibida por um canal de TV aberta. Ouve do detetive as informações do legista, examina o cadáver, fotografa a cena do crime de vários ângulos, coleta uma amostra da baba espumante, “parece veneno”, e em menos de quinze minutos pede ajuda para enfiar o Rivaldo num saco impermeável e botá-lo no furgão, a fim de transportá-lo para o Instituto Médico-Legal.
          Gervásio intervém:
          - E as impressões digitais?
          - Num lugar desses? Olha que merda de limpeza esse cara faz...fazia aqui. Tem poeira acumulada de uns três anos. Você quer interrogar todos os fregueses que já pisaram nessa birosca?
          O detetive se exalta:
          - Pelo menos na porta, no entorno do cadáver, em algum lugar deve ter o dedo do assassino, porra! Deixe os interrogatórios comigo! E veja se tem resíduo de briga nas unhas do cadáver!
          O perito resmunga entre dentes “merda, deviam proibir a TV de passar aquele programa...” e sai espalhando pozinho preto, coletando digitais por todo o estabelecimento. Tenta, mas não consegue encontrar nada nas unhas do morto, cortadas muito rente. Meia hora depois dá o trabalho por terminado e ainda ridiculariza o legista, que não percebeu uma fratura no tornozelo do morto, compatível com um rabo-de-arraia o qual, prossegue triunfante, provavelmente causou a queda que levou à fratura do crânio.
          O tempo passa e nada do Jorjão e do sargento voltarem com a esposa do falecido. Finalmente, aparecem quando já passa das cinco. Os homens amparam a mulher, que chora baldes, grita que quer morrer, o meu Rivaldo, o que foi que fizeram com ele, eu quero meu marido...lamento minha senhora, mas vocês demoraram tanto que o corpo teve de ser removido para o IML, a senhora vai lá para reconhecer...eu quero meu Rivaldo...pode deixar, detetive, que o Aragão leva ela na patrulhinha, eu fico aqui para qualquer coisa. Então tá. E lá vai o soldado, contrariado, levando a viúva no carro. Os circunstantes resolvem ir para casa dormir.
          O sargento Bezerra pendura uma fita para isolar o local e parte na patrulhinha assim que o Aragão volta do IML. Pouco antes das seis horas o detetive volta à delegacia e fica surpreso ao encontrar Antonio, aboletado na cadeira do delegado com os pés em cima da mesa.
          - E aí, Gervásio, onde você se meteu?
          - Ué, você já chegou? Nunca te vi aqui antes das dez! Caiu da cama?
          - É, insônia. O Jurandir me disse que você saiu apressado de madrugada.
          - Pois é, apagaram o dono de uma birosca e alguém denunciou por telefone.
          - Quem morreu?
          - Rivaldo das Luzes.
          - Foi roubo?
          - Não parece, o cara tinha uma boa grana no bolso.
          - Quem denunciou?
          - Não deu nome, desligou na minha cara.
          - Quem matou?
          - Ainda não sei, mas tenho fortes suspeitas. De manhã vou começar a chamar todo mundo para interrogar.
          - Eu ajudo.
          - Escuta, Antonio, esse presunto é meu, tá certo? Se você quiser acompanhe, mas eu preciso ter uns bons casos na minha conta senão vou ficar na terceira classe a vida inteira.
          - Tá bom, tá bom, não precisa ficar nervoso. A ocorrência é sua, só vou acompanhar porque minha agenda está livre. Agora vá dormir, que o dia já clareou.
          - Eu volto daqui a pouco. Tem café...
          - Já sei, eu li o bilhete. Pode ir que eu me viro.
          Dormir, coisa nenhuma. Antes das nove o intrépido Gervásio Ornelas já está de volta, barba feita, banho tomado, com sua melhor roupa, pronto para o trabalho. Manda chamar a viúva. Conceição Agostiniano das Luzes vem, toda de preto, acompanhada pelo sargento Bezerra, à paisana. A roupa dele parece apertada.
          - Que merda é essa, tá fazendo o que aqui?
          - Dona Conceição pediu escolta. Está com medo.
          - Medo? Por que?
          - Ela não sabe quem matou o marido, nem se querem exterminar a família toda.
          - E os filhos?
          - Com a vizinha.
          - Certo, mas você espera aqui fora que eu vou conversar a sós com a viúva.
          Gervásio leva Conceição para a sala ao lado. Dispensa-a uma hora depois e, enquanto ela se retira com o sargento, vai falar com Antonio.
          - Quase desmaiou de tanto chorar, não sabe quem, não sabe o motivo, o marido não tinha inimigos, blá, blá, blá. Mas pra mim esse presunto tá com cara de obra de viúva negra. E quem foi que chamou aquele foca?
          Ele agora se refere ao jovem repórter policial Claudino da Fonseca, do jornal “Notícias populares” que, nauseado, acaba de jogar no lixo o copinho de plástico com café e tudo. Gervásio se apruma e cumprimenta o rapaz, que prepara um relato do homicídio para a segunda edição do jornal. Tudo nos conformes, pensa nosso herói, agora vou ficar conhecido. Solícito, conversa com Claudino, que anota tudo e fica fascinado pela teoria da viúva. Gervásio, naturalmente, diz que é cedo para divulgar sua suspeita porque pode atrapalhar as investigações, e pede sigilo. Claudino concorda plenamente e, ao sair, garante que o assunto dará uma manchete e tanto debaixo da fotografia do cadáver in loco, que ele recebeu por correio eletrônico do perito, seu amigo de infância. Aproveita para tirar com o celular uma foto do detetive.
          Gervásio tenta se concentrar na investigação porém, pouco tempo depois, a edição online do jornal estampa a manchete em letras garrafais: “BIROSQUEIRO ASSASSINADO - DETETIVE SUSPEITA DE VIÚVA!”. O detetive gela, porra, eu disse que não era pra publicar.
          Não deu outra. Dona Conceição logo aparece, histérica, junto com um sujeito elegante, de terno de linho e gravata italiana, empunhando uma pasta de couro impecável. A mulher grita que o advogado dela vai acabar com a raça desse detetive de merda...desculpe, foi um mal-entendido, amanhã haverá um desmentido formal...ainda bem que o Antonio consegue botar panos quentes. Os dois filhos que, desta vez, acompanham a mãe possessa, confirmam que ela estava em casa quando o Jorjão acordou todo mundo dando a notícia da morte do Rivaldo, às quatro e meia da manhã. Eles viram a hora no despertador, sim senhor.
          Claudino reaparece acabrunhado e culpa o editor a quem confidenciara a hipótese da viúva e que, sem seu conhecimento, mexeu no texto e mandou aquela manchete para o ar. Pede todos os perdões, que ele não tem intenção de desmoralizar um detetive tão competente, o escambau. Feitas as pazes Gervásio, novamente com o ego inflado por ser ele, e não o Antonio, o centro das atenções, prossegue com a investigação. Na falta de pistas, concentra-se nas pessoas que conheceu na Travessa Piracambu. Chama o Jorjão para saber onde ele estava até aparecer entre os curiosos. No baile funk de uma favela próxima. Bezerra e Aragão confirmam que vigiaram o evento, resgataram o malandro de uma briga e tinham acabado de deixá-lo em casa quando passaram pela travessa e encontraram o detetive chegando ao local do assassinato. Isto não impede que, após nova entrevista com Claudino, o jornal troque a reportagem por outra que incrimina o Jorjão, sob a manchete “DETETIVE ORNELAS IDENTIFICA NOVO SUSPEITO DO CRIME DE ACARI” apresentando, ao lado do texto, a foto de Gervásio que o repórter tirou com o celular. O detetive murcha mais um pouco.
          Ele ainda interroga umas duas ou três pessoas, todas inocentes, inclusive a Marialva, cujo álibi é confirmado por ninguém menos do que o investigador Antonio, sob sigilo porque ele é casado. Outras versões aparecem, sucessivamente, na edição online das “Notícias populares”, sempre seguidas por turbulentas visitas do novo suspeito na companhia de um advogado. E Antonio a botar panos quentes. Finalmente, o editor se satisfaz com o título “Beco sem saída na apuração do crime de Acari”, assim mesmo em minúsculas num canto de página. O detetive, coitado, é severamente repreendido pelo delegado, que cansou de acompanhar aquele circo dentro da delegacia.
***
          O crime acaba esquecido em meio a tantos outros no bairro. Depois de uma demorada reforma, a “Birosca das Luzes” reabre sob a improvável gerência do Jorjão. Dona Conceição se amanceba de vez com o sargento Bezerra. O casal, curiosamente, se dá muito com o investigador de primeira classe Antonio Fernandes, o qual continua frequentando a Marialva, regularmente, pelo menos duas vezes por semana.
          Quanto ao Ornelas, aposenta-se com uma pensão mixuruca e volta para a cidadezinha onde nasceu. Passa meses tentando esquecer o fiasco midiático, fundo do poço de sua lamentável carreira na terceira classe da Polícia Civil. Certa noite, depois de muita sardinha frita com cerveja preta, um pesadelo o atormenta com a cena da viúva entrando feito louca na delegacia, depois de ver a primeira manchete desmoralizante sobre o crime de Acari. No sonho, os filhos do falecido relatam a noite em que foram avisados da morte do pai e um eco inusitado repete as palavras “...quando o Jorjão acordou todo mundo às quatro e meia da manhã...às quatro e meia...às...”. O detetive desperta suando em bicas.
          Quatro e meia?!

Rafael Linden