sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mulherzinha execrável*

            A mucama abre as cortinas e traz a bandeja. A claridade me desperta. O papaia está perfeito, mas a estúpida errou de novo o ponto do ovo cozido. Nessa porcaria de país não se acha nem uma empregada decente. Cadê meu iPad? Hmm, as bolsas européias começaram bem. O noticiário – ora, ora, este bando de inúteis continua atrapalhando o trânsito; estão achando que vão conseguir alguma coisa de graça. E nosso espertalhão de sempre ainda está se virando para salvar aquela companhia de fachada. Com aquela cultura toda ele deve achar que é “faxada”, com xis. Pré-sal no litoral de Santa Catarina, pode isso? Só mesmo uma corja de sabidões mal-intencionados para cair naquela conversa mole. Isso vai atrapalhar todo mundo por um tempo. Bom, todo mundo que é todo mundo. A ralé vai pagar o prejuízo mesmo. Bem que aquele traste do meu marido dizia que o único negócio seguro era a velha e boa agiotagem, ha, ha. Pelo menos para isso ele serviu, só essa camisola francesa já vale o conselho. Já o moleque preguiçoso aqui do lado só presta da cintura para baixo. Preciso alugar uma cabeça, aliás uma boa boca já basta. Acorda aí, ô garoto, vai matar a faculdade de novo? Ontem mesmo sua mãe estava se queixando no nosso jantar beneficente. Essas obrigações sociais são um estorvo, pelo menos esse poia me trouxe de carro e ficou para uma rapidinha. Pensando bem, aquela champanha foi providencial, dormi tããão beeeem…chega de preguiça. Mais um dia de branco, tá na hora de ganhar dinheiro dos outros.

Rafael Linden

* Este texto foi um exercício que consistiu em usar a voz de um personagem execrável. Foi escrito durante a oficina de contos de Paulo Scott, na Estação das Letras, em 16 de julho de 2013. Para se ver que até a minha personagem fictícia já previa os infaustos acontecimentos empresariais do dia 30 de outubro de 2013…




sábado, 11 de janeiro de 2014

O supervulcão é a solução

          Este ano da graça de 2014 foi inaugurado com um calor de rachar no Rio de Janeiro. Não é grande novidade. Porém, cá pra nós, o ser humano não foi feito para aguentar quarenta e cinco graus à sombra com a alta umidade carioca. Nessa canícula dos infernos não adianta refresco, sorvete ou gelo na piscina. A única solução é torcer pela explosão de um supervulcão.
          Sim senhora, parece, mas o cronista não endoidou de vez. Tenha fé, que chegaremos lá como de hábito. A razão desta crônica, na verdade, foi a publicação, esta semana na revista científica Nature Geoscience, de dois artigos badaladíssimos que repercutiram muito entre os aficcionados. Para começar, o que são supervulcões e qual a razão de toda essa alegria nerd?
          Se a gentil leitora ficou impressionada com a confusão armada em 2010 pela erupção do vulcão islandês Eyjafjallajökull, cujas cinzas provocaram fechamento de aeroportos e cancelamento de centenas de voos por vários dias em toda a Europa, ou com a explosão do Monte del Ruiz, em 1985 na Colômbia, que causou a morte de vinte e cinco mil pessoas nas proximidades, saiba que um supervulcão ativo é capaz de lançar na atmosfera, literalmente, até mil vezes mais cinzas de uma única vez do que aqueles dois ou qualquer outro vulcãozinho famoso.
          Os supervulcões, no entanto, explodem muito mais raramente do que os vulcões, digamos, convencionais. O caso mais recente foi há várias centenas de milhares de anos, mas pode acontecer de novo e, dada a magnitude de seus efeitos, é assunto de muito estudo por aí afora. Já há algum tempo os cientistas desconfiavam que as erupções de vulcões comuns e de supervulcões tem causas distintas. E a razão dos festejos é exatamente porque se acredita que os dois artigos publicados agora desvendaram o mistério da diferença.
          Por que um vulcão convencional entra em erupção? Há vários fatores, principalmente um aumento relativamente rápido do volume de rocha derretida, chamada magma, debaixo de uma via de escape que corresponde à cratera do vulcão, em geral acompanhado de algum distúrbio como um terremoto. A coincidência desses fatores faz com que o magma, na alta pressão decorrente do aumento do volume, escape pela cratera lançando cinzas na atmosfera e lava que escorre pela encosta.
          Já os trabalhos de dois grupos internacionais de cientistas mostraram indícios de que os supervulcões se comportam de forma distinta. Um time liderado por Luca Caricchi, das Universidades de Bristol e Genebra, fez simulações em computador, enquanto outro liderado por Wim Malfait e Carmen Sanchez-Vale, da Universidade Tecnológica Federal (ETH) de Zurique, fez experimentos com material de origem vulcância. Ambos, de forma independente, chegaram às mesmas conclusões. Segundo eles, nos supervulcões há quantidades muito maiores de magma, que se acumulam lentamente e, com isso, a crosta terrestre por cima destas “câmaras” tende a se acomodar por longos períodos sem romper. Porém, a densidade do magma diminui progressivamente devido a vaporização e cristalização e, assim, em vez de um rápido e proporcionalmente grande incremento de volume causar o aumento de pressão que leva à ejeção em um vulcão comum, a baixa densidade do magma produz uma pressão de empuxo que pode, eventualmente, se tornar maior do que a crosta terrestre suporta e explodir violentamente. Esse processo é parecido com o que ocorre quando o calorento leitor resolve brincar com as crianças na praia, escondendo debaixo d’água uma bola de borracha cheia de ar. O empuxo faz com que a bola, em geral, acabe pulando para fora d’água, provocando gargalhadas infantis e desaforos da madame atingida em cheio nas bochechas.
          A explosão de um supervulcão é um desastre natural que só perde em violência para o choque de um asteróide contra a Terra, como aquele a que se atribui a extinção dos dinossauros. O grupo do ETH calculou que um supervulcão potencial, localizado no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, ainda está muito longe de explodir, mas tem chance de acontecer nem que leve algumas centenas de milhares de anos. Além de possíveis vítimas nas imediações, o lançamento de uma quantidade imensa de compostos sulfurosos na atmosfera é capaz de bloquear a luz solar por longos períodos até as cinzas se dissiparem. Para se ter uma idéía, a erupção do Pinatubo, em 1991 nas Filipinas, diminuiu em meio grau centígrado a temperatura da região por vários meses. A explosão de um supervulcão pode produzir um resfriamento de até dez graus centígrados por mais de uma década!
          E assim, finalmente chegamos onde queríamos. Se o prezado leitor ainda se lembra de como começou esta crônica, há de convir que uma redução de dez graus na temperatura do verão carioca seria do agrado de muita gente, pelo menos em dias úteis. É pena que estrague os fins de semana na praia, mas nem tudo são flores na vida. Afinal, se para refrescar os cariocas a explosão de um supervulcão tiver de acontecer em Yellowstone, os velhinhos que se mudam de Chicago para Miami para fugir do frio vão ter uma surpresa.

Rafael Linden