domingo, 23 de fevereiro de 2014

Beleza pura


          Cá no telhado vive-se de inspirações ocasionais, efemérides significativas e associações inauditas. Hoje, de uma tacada, celebramos o centenário de um livro que propagou uma teoria controversa, a publicação de um artigo científico intrigante, a quintessência da Matemática e, sobretudo, a pura beleza. E o mistifório se dá porque o cronista, ainda que amplamente ignorante, acha isso tudo bacaninha.
          Nesta vida atribulada, as gentes correm atrás de significado, justificativas, importância, consequências e, principalmente, do que podem lucrar com o que há em volta. Poucos se dão ao desfrute de apenas apreciar a beleza. Entretanto, como mostra a própria existência deste blog, o abaixo-assinado costuma aproveitar as raras chances de se desligar do entorno e de suas obrigações e vícios profissionais, para simplesmente apreciar o que há de belo. Mas qual beleza? Qualquer uma, de um rosto, um corpo, um gesto, um momento, uma equação...e tenham paciência que lá chegaremos.
          Como se já não bastasse o tumulto vigente, neste ano de 2014 faz um século da publicação do livro Art, do crítico britânico Clive Bell. Neste livro, Bell defendeu a hipótese do que chamou de “forma significativa”, definindo-a como um conjunto de linhas, formas e cores cujas relações despertam, no observador de uma obra de arte, a denominada “emoção estética”. Esta seria um tipo específico de emoção independente de conteúdo, verossimilhança, significado, ideologia ou outra propriedade qualquer embutida na obra. A teoria tem raízes em conceitos do filósofo prussiano Immanuel Kant e, apesar do primarismo filosófico do locutor que vos fala, é fácil perceber porque a hipótese de Bell é tão controversa. Afinal, ela contraria todos os que consideram implícito na apreciação da arte o seu conteúdo ou alguma agenda oculta. Mas, o que importa aqui é a idéia da beleza ter características intrínsecas que transcendem a natureza do objeto, seja ele uma paisagem, uma pintura, uma escultura ou uma música. Em outras palavras, entre todas as coisas belas haveria algo de comum, que por si só levaria à emoção estética.
          A natureza desta emoção singular é também controversa. Mas é notório que a beleza nos causa uma emoção peculiar. É comum o nó na garganta ou mesmo lágrimas ostensivas ao exclamar “que coisa linda!”, embevecidos com algo ou alguém, mesmo que seja um desconhecido ou que não encontremos elementos ou informações suficientes para explicar nossa emoção em função do contexto. Por que? 
          A questão é complexa, mas a crônica foi salva quando o abaixo-assinado se deu conta do trabalho recente do neurocientista Samir Zeki, nascido na Turquia e radicado há muitas décadas na Inglaterra, onde trabalha no University College London. Zeki ganhou prestígio internacional por suas descobertas sobre a organização funcional do cérebro humano. Ele vem, há vários anos, se dedicando a identificar bases biológicas da apreciação estética. Coisa difícil porque, para começo de conversa, já se parte de opiniões distintas sobre o que é bonito ou feio nas várias formas de arte. Afinal, há quem goste de música barroca e pintura impressionista, enquanto outros preferem pintura abstrata e música dodecafônica. E ainda há os desvairados que se deliciam com “Ai, se eu te pego...” e suas correspondentes perversões pictóricas.
          Mas o Doutor Zeki, que nunca foi de correr de uma boa polêmica, já concentrou seu trabalho em questões cabeludas, tais como os fundamentos biológicos do amor e do ódio e tornou-se especialista na disciplina conhecida como Neuroestética. Assim, resolveu aplicar seus talentos à questão da existência ou não de um senso abstrato de beleza, que provoque no ser humano uma mesma experiência emocional seja qual for a fonte de tal beleza. Para isto, o grupo de pesquisa de Zeki usa a técnica chamada ressonância magnética funcional (abreviada fMRI), que fornece imagens das regiões do cérebro com maior ou menor atividade durante o desempenho de tarefas.
          Há alguns anos os pesquisadores coletaram as imagens de fMRI de voluntários enquanto estes atribuiam um grau de beleza a cada uma de uma série de pinturas e trechos musicais. Os sujeitos eram instados a classificar cada obra como feia, indiferente, ou bonita. Já se sabia que uma região do cérebro chamada córtex orbitofrontal medial (mOFC), que faz parte de circuitos cerebrais de recompensa e prazer, é ativado quando um indivíduo aprecia a beleza de algum objeto. O interessante, no entanto, foi a coincidência da região de ativação tanto para pinturas quanto para músicas classificadas como bonitas, mas não para as feias. E, curiosamente, não foi encontrada outra região do cérebro que reagisse de forma oposta, aumentando sua atividade para as obras classificadas como feias.
          Muita controvérsia ainda vai rolar sobre a interpretação dos resultados. Mas Zeki e seus colaboradores foram ainda mais ousados e, em meados de fevereiro, publicaram na revista Frontiers of Human Neuroscience um artigo intitulado “A experiência da beleza matemática e seus correlatos neurais”. É isso mesmo, cara leitora, enquanto a senhora escolheu uma carreira o mais distante possível dos números, eles enveredaram pela seara da beleza de...equações!
          Eles queriam saber quais áreas do cérebro reagem à beleza matemática. Para isso, recrutaram quinze matemáticos e lhes apresentaram equações formuladas por grandes vultos como Pitágoras, Gauss, Euler, Cauchy e outros. Os voluntários tinham de classificar cada fórmula como feia, indiferente ou bonita enquanto os pesquisadores registravam suas fMRI. Ao longo do estudo, foram eliminadas outras possibilidades para explicar os resultados como, por exemplo, o quanto cada profissional entendia de cada uma das equações, coisa essa que varia bastante entre eles. Ao fim da análise, foi verificado que uma área específica do cérebro foi ativada em estreita correlação com a atribuição de beleza a uma equação. E esta área, vejam só, se superpõe extensamente à mesma área do mOFC que é ativada pela beleza percebida em pinturas ou em trechos musicais.
          O artigo acabou de sair, ainda não foi objeto de críticas públicas ou de estudos especializados que contrariem os achados do grupo inglês. Certamente, alimentará debates acalorados tanto entre neurocientistas quanto entre artistas, críticos, filósofos e, se tudo correr bem, leigos que se interessem pelo tema a partir de suas implicações. Mas, embora os próprios autores admitam que o assunto precisa ser estudado em mais detalhe do que já foi obtido pela técnica de fMRI, os achados são compatíveis com a idéia de que há características comuns à atribuição de beleza em diversas circunstâncias, seja perante uma obra de arte, diante de uma equação matemática e, possivelmente, face a outros componentes do Universo. Esta beleza abstrata levaria, então, à emoção estética, pelo menos em parte através da atividade de neurônios localizados especificamente no córtex orbitofrontal medial.
          Por outro lado, ao contrário dos muitos que fogem da Matemática como o diabo da cruz, os matemáticos devem achar isso tudo muito natural, pois há dois mil e seiscentos anos a escola pitagórica já propalava a conexão entre esta Ciência e a beleza. E há quem pense que a beleza em certas fórmulas matemáticas está inextricavelmente ligada à sua universalidade, o que leva à hipótese de que, no fundo, a própria evolução do Universo segue os fundamentos que tornam a beleza uma propriedade abstrata e universal. A busca de suas bases biológicas não tira da beleza sequer uma ínfima parte de seu encanto. Ao contrário, a prática da Ciência como profissão, por mais dura, precisa e impessoal que seja, nem por um instante deixa de almejá-la, tanto quanto as artes e todas as demais aventuras humanas.


Rafael Linden


sábado, 8 de fevereiro de 2014

A mãe


          Berenice chega atrasada, oi papai, demorei por causa das crianças, um com nariz entupido, outra com dor de ouvido...não faz mal, agora não falta ninguém...para que é essa reunião de família, cadê a mamãe, oi mano, tudo bem, e como vai a...ei, Afonso, não me deixe falando sozinha, o carro continua dando aqueles solavancos, num desses eu vou acabar perdendo meu bebê...eu ouvi, Beatriz, mas nossa irmã chegou, não está vendo?...mamãe está na cozinha?...acho que sim...meu mecânico saiu de férias, quando voltar eu falo com ele sobre o seu carro, esqueci porque ando de cabeça quente, minha filha finalmente passou no vestibular, mas eu não vou pagar faculdade, ela que estudasse mais para entrar numa universidade pública...e a mamãe que não vem aqui para a sala...bem que ela podia fazer um café...é mesmo, eu saí direto do escritório e nem almocei...meus filhos, a mãe de vocês está muito doente...o que?!
          O pai explica.
          Afonso se deixa cair na poltrona de vime. Cabisbaixo, pensa que sua filha pode vir direto da faculdade, pelo menos umas duas vezes por semana para ajudar, pois vai estudar perto dali. Subitamente, até a mensalidade deixa de ser um problema. O pai precisa de apoio, parece tão envelhecido, muito mais do que da última vez. Quando foi? Há oito meses, é claro, na Páscoa. Pensando bem, o jantar foi um desastre. Aquela galinha caipira, que sua mãe fazia tão bem, estava salgada demais, o arroz meio cru e a torta de banana tinha queimado pelo menos uns dez minutos antes de sair do forno. Agora lembra. O pai estava triste, a mãe desorientada, perguntou umas quatro vezes pela neta, que tinha ficado em casa estudando para provas. Por que ele não percebeu?
          As irmãs murcham no sofá. Berenice morde o lábio inferior, contendo a lágrima solitária que, se caisse, abriria comportas. Mistério resolvido, afinal que avó perde assim o interesse nos netos se não estiver doente? E o casaco de crochê, inacabado, jogado no fundo da cesta, a netinha já nem caberá na peça de roupa se, porventura, a avó terminar de tece-la. Aos poucos volta no tempo e sucumbe à culpa, deveria ter sido uma filha melhor, menos rebelde. Não precisava, por anos a fio, ter desafiado a autoridade materna, relacionando-se ostensivamente com quem menos agradasse aos pais, largando os estudos sem terminar o segundo grau, fazendo questão de esperar até o quinto mes de gravidez para exibir a barriga e humilhar a mãe perante as amigas no casamento. Não há mais tempo para apagar a mágoa estampada no rosto dela, que aflora nas raras ocasiões em que se encontram.
          A caçula olha desconsolada para o próprio ventre, molhado de um choro sentido, pensando se o filho, que vai demorar dois meses, ainda terá alguma chance de se aninhar no colo da avó. Quem sabe, se o irmão esquecer de vez de ligar para o mecânico, um bondoso solavanco disparará o trabalho de parto mais cedo e a criança trará um dos últimos sorrisos ao rosto da avó. Aquele sorriso que ela ama, que a recebia todo dia ao acordar, que emoldurava a ida e a volta do colégio quando o ônibus abria a porta em frente à casa, que saudava suas boas notas, que foi inundado de emoção e alegria quando a ouviu dizer, no altar, um sim tão entusiástico que assustou o padre.
          Nenhum dos três vai ao quarto. Olham para o pai, encolhido na cadeira de balanço e, pela primeira vez, enxergam lágrimas num rosto desesperado, um homem ainda relativamente novo, mas derrotado, que chora mudo como todos. Ainda há pouco, em meio ao alvoroço do reencontro depois de tantos meses, cada um dos irmãos perguntou pela mãe, que demorava a aparecer. Em poucas semanas não haverá mais por que. Foi-se o som. Foi-se a fúria.
          A notícia suga toda aquela energia de poucos minutos antes. Os filhos não se conformam com o pai demorar tanto a alertá-los, deixá-los distantes por longos meses, enquanto o tempo da mãe se esvai. E o pai se arrepende de tentar protege-los da inevitável tristeza, mais uma vez da forma canhestra que a esposa contornou durante tantos anos e, agora, não pode mais consertar.
           No quarto, ela apenas repousa por não haver mais o que a Medicina lhe possa oferecer. A sala, no silêncio profundo de uma família agoniada, escurece ao por do sol.


Rafael Linden