sábado, 29 de março de 2014

Um tango e um fado


Esta é uma obra de ficção.
Semelhanças com a história de
pessoas vivas ou mortas não foram
intencionais, embora inevitáveis.
          Seis soldados da Revolução que virá. Todos jovens, menos o professor que já está na meia idade. Sonhadores, enraivecidos, armados.
***
          Rita e Jair tombaram numa rua deserta, na noite escura de São Paulo. Era a primeira das ações planejadas. Foi a única, eu jamais disparei um tiro sequer. Mesmo assim estávamos todos na mira e nossa pena já fora decidida. Medo, muito medo. André sumiu. Marco Aurélio, o professor, tinha contatos. Conseguiu passaportes e planejou uma rota mirabolante que nos levou, os três remanescentes, a Santiago e aos outros que já estavam lá.
          Logo, o golpe militar no Chile nos ameaçou outra vez. O pai de Felícia, coronel reformado do Exército, arrumou um salvo conduto e resgatou a filha. Foi outro golpe para mim. Eu dera de chamá-la “Delícia”, nos poucos momentos em que ficávamos a sós. Uma paixão ardente, que reprimimos no nosso curto tempo de guerrilha urbana. Acabei na França, junto com Marco Aurélio.
          Seis longos anos de exílio, até a anistia. Tal qual o tango de Gardel, tenho a face murcha. A neve também prateou minhas têmporas. Aqui em Paris, o professor tem um bom emprego. Volto só.
***
          Fausto voltou para o Brasil. No dia da viagem não pude levá-lo ao aeroporto, tive de dar aulas. Não foi fácil conseguir este posto, não posso faltar. Quando chegamos a Paris queríamos resistir, mas a realidade é bem mais dura do que o romantismo que emoldurou as celebridades da diáspora brasileira. Ninguém nos conhecia, não tínhamos dinheiro, nem a quem recorrer. Deixaram-nos marcas profundas a fuga repentina de São Paulo, o susto do golpe no Chile e o medo de sermos apanhados na teia de colaboração militar que se instalou na América do Sul.
          Com ajuda de outros exilados, encontramos uma moradia e um pouco de paz. Arranhando mau francês, durante o dia lavamos copos, dobramos guardanapos, servimos canapés e refeições. Toda noite, na pensão barata, ansiamos pelas notícias esparsas, garimpadas pela rede de solidariedade que se formou entre os banidos.
          Para Fausto, é tudo mais difícil. Sofre por Felícia. Em pouco tempo desistiu da política e se encerrou na solidão.
***
          Paris. O frio me entorpece. O idioma é difícil. Cometo erros infantis, provoco curiosidade, espanto ou risos. Poucos se dão ao trabalho de me corrigir. O professor já está mais fluente e ensina português a um argelino e um chileno, que se aproximaram de nós na pensão.
          Vivo atormentado. Às vezes choro pelos mortos. Sinto uma certa raiva de André, que desapareceu sem dar notícias. Rita, Jair e André. Nunca soube seus nomes verdadeiros. Depois da fuga, codinomes tornaram-se desnecessários e voltei a ser Fausto. Os outros voltaram a ser Marco Aurélio e Felícia.
          Minha Delícia. De tudo que aconteceu, é a única lembrança que tenho em cores. A pele macia, os olhos vivos, a boca acolhedora que tanto beijei. Nunca deixei de amá-la. Nem quando cada dia era o último. Nem quando, com os olhos baixos, contou-me que voltaria do Chile para o Brasil graças à interferência do pai; que não tinha mais forças para resistir; que morreria se teimasse em prosseguir. Nem mesmo quando mentiu que me amaria para sempre; que me esperaria o quanto fosse preciso; que estaria onde quer que fosse o reencontro. Eu a amei ainda mais na despedida. Quando se foi tentei ser um bom soldado, esquece-la e retomar a luta. Não consegui.
***
          Fausto sempre me deu pena. Eu, pelo menos, logrei dar a volta por cima. Depois de dois anos, com meu francês já polido, procurei todos os colégios e universidades de Paris e deixei lá minhas credenciais. Não são grande coisa, mas tenho um mestrado em Português e Literatura e sabia que eles se interessavam em ministrar cursos de língua portuguesa. Ainda demorou um ano, até que recebi um convite da Universidade Diderot para substituir, temporariamente, um velho professor que se aposentara.
          Minha euforia foi amortecida pelo sofrimento perene de Fausto. Perdi todos os meus contatos e ele é meu único amigo verdadeiro. Faz o possível para se mostrar contente por mim. Eu sei que seu esforço é genuíno.
          Renovaram meu contrato duas vezes e, afinal, me ofereceram uma posição permanente. Fausto aprendeu a manejar câmeras e foi contratado por uma produtora de filmes publicitários. Saimos da pensão e alugamos um minúsculo apartamento em um bairro afastado. Com esta mudança, deixei minha história para trás. Adieu, Brasil.
          No outro quarto do pequeno apartamento, apesar da vida melhor e mesmo passados seis anos desde a chegada a Paris, Fausto é um homem vencido.  
***
          Hoje papai me telefonou. Afirmou ter recebido de um amigo a informação de que “aquele meu ex-namoradinho subversivo” estava voltando da França. E disse que eu tinha deveres para com meu marido, meus filhos pequenos e, acima de tudo, para com ele, que me salvara de um destino macabro ao me resgatar em Santiago. E que não cabia retomar contato com “aquela gente”. Sim, papai, eu sei, não se preocupe.
          Depois de tanto tempo anestesiada, não pensei que as feridas estivessem tão abertas. Mal desliguei o telefone, em poucos minutos chorei seis anos de ressentimentos. Chorei por Rita e Jair. E por André. Nunca soube seus nomes verdadeiros, mas o vapor de minhas lágrimas os encontrará mesmo assim. Chorei pelo professor. Chorei muito por Fausto. E chorei, sobretudo, por mim. Todas as lágrimas que eu tinha.
          No porta-retrato meu marido, meus filhinhos e eu mesma me olham com todo aquele amor que dividimos todos os dias. De agora em diante, meus olhos secos chorarão somente para dentro de mim. E, apenas, quando alguém pronunciar uma única palavra: delícia.
***
          Três relíquias da Revolução que não veio. Só eu volto, não sei para que, nem para onde. O avião pousa no Galeão, em um terminal que não existia quando deixei o Brasil. A música é outra. Agora, é um fado famoso lamentando que volta sempre a primavera, só não volta a mocidade.

Rafael Linden


domingo, 23 de março de 2014

Luvas de tricô

          Max soube da morte da mãe por um lacônico telegrama do irmão mais velho Richie. Caminhou pelo jardim de sua casa, num subúrbio de Dortmund, e esforçou-se para verter uma lágrima. Ainda não, quem sabe um dia. Desde que deixara os Estados Unidos, há trinta anos, ele praticamente cortara os laços com sua família.
          Richie permanecera a vida toda na cidade natal, Houlton, enquanto a irmã do meio morava em outra cidade próxima. Max trocava com eles apenas cartões de Natal. Às vezes Richie adicionava alguma notícia sobre a saúde dos pais, que residiam perto dele em uma casa de repouso desde que o pai sofrera um derrame, há onze anos. Peggy, a mãe, limitava-se a tricotar. Todos os dias, o dia inteiro, há décadas. Não tinha tempo para o marido inválido que, no entanto, era bem cuidado pela equipe do asilo.
          Situada no Maine, um dos estados mais frios dos Estados Unidos, a cidade de Houlton passa boa parte do ano com temperaturas abaixo de zero e até mesmo em pleno verão há dias gélidos. Peggy dedicara os últimos quarenta e sete anos a fazer milhares de luvas, gorros e cachecóis para as desafortunadas crianças que dependiam da caridade alheia para se aquecer.
          O passado de Max se apagara, exceto por uma tarde de setembro que ele trazia bem viva na memória. Tinha cinco anos de idade. Naquele dia, como faziam com frequência depois do almoço, Peggy levou o filho pequeno para brincar no amplo parque comunitário. O verão estava no fim e a tarde de Max começou agradável, em meio à algazarra de dezenas de meninos e meninas de todas as idades.
          Ao entardecer, o vento mudou de direção e as outras crianças foram chamadas pelos pais ou babás para vestir um agasalho a mais, um cachecol, luvas. Max olhou em volta, mas não achou a mãe. Continuou, mesmo assim, a brincar e correr enquanto a temperatura caia rapidamente. Depois de mais de uma hora no vento frio, o menino sentiu as mãos geladas. Olhou de novo em volta, inutilmente.
          Os outros se foram pouco a pouco, restando apenas mais dois meninos, bem agasalhados. O pai destes perguntou a Max se não estava com frio. Ele fez que não, mas tiritava. Sua pele já estava ficando azulada e as mãos enregeladas. O homem, preocupado, perguntou-lhe o nome de sua mãe e começou a chamá-la, gritando em todas as direções, até que Peggy surgiu corada, resfolegante, acompanhada à distância por um jovem ressabiado que logo se afastou. Ela correu para o filho e abraçou-o. Max não dizia nada. O pai dos outros meninos chamou atenção para as mãos da criança, pálidas, com um tom azulado na ponta dos dedos. Peggy aqueceu-as como pode e levou o menino embora.
          Max ficou no hospital por dois dias. Apareceram bolhas em seus dedos. Ele não chorou. Só perguntava se seus dedos iam cair, tal qual aquele mendigo que não tinha dedos nas mãos ou nos pés e morava de favor nos fundos da igreja. O pai e os irmãos mais velhos garantiam que não, evitando trair preocupação. O caçula teve de voltar com frequência ao hospital por várias semanas, para que os médicos examinassem suas mãos, tratassem das bolhas, administrassem medicamentos. Perdeu o tato nas pontas dos dedos de sua mão direita e passou a sofrer de dores que jamais o abandonaram.
          Sua mãe, ainda antes do filho ter alta, começou a tricotar luvas. Fez um par para cada membro da família. Depois, continuou a fazer luvas coloridas para crianças. Em pouco tempo encheu dois cestos e levou-os à igreja, onde pediu ao pastor que as distribuísse sem jamais revelar quem as fizera. O pastor, agradecido, prometeu que o segredo seria respeitado. Daí em diante a “Santa do Inverno”, como era chamada, passou a doar anonimamente cestos e cestos daqueles objetos.
          Ao voltarem do colégio no meio da tarde, a filha tinha de lavar a roupa e cozinhar, enquanto Richie arrumava a casa. Quando o pai chegava do trabalho, impressionava-se com o cansaço dos filhos mais velhos e o silêncio do caçula. Tentou, várias vezes, convencer a esposa de que Richie e a irmã precisavam se dedicar mais aos estudos, mas ela respondia secamente que tinha de fazer mais luvas, pois as crianças pobres passavam frio e ela tinha que ajudá-las. Max a tudo observava, inexpressivo. Não se interessava por amigos, falava pouco e mantinha-se, a maior parte do tempo, trancado em seu quarto estudando ou, simplesmente, contemplando a paisagem da janela.
          Os anos passaram e os filhos mais velhos se viram com médias insuficientes para admissão na maioria das universidades. As economias da família não bastavam para pagar as taxas escolares. Encontraram emprego na vizinhança enquanto Max, ao menos, mantinha boas notas. O pai, orgulhoso, dizia que o caçula conseguiria uma bolsa para ser o primeiro da família a estudar na Universidade do Maine. O menino ouvia calado. Assim que completou o ensino médio conseguiu de fato uma bolsa, porém para estudar na Alemanha. Despediu-se dos irmãos e do pai com afeto e disse um adeus sem emoção à mãe, que tricotava.
          Os que ficaram pareciam conformados com a negligência de Peggy. Mas Max, o último a permanecer sob seus cuidados na tenra infância, ficara marcado pelas muitas vezes em que se viu com fraldas sujas, com o joelho ralado, com fome ou sede, ou simplesmente solitário e triste, em frente à porta fechada do quarto da mãe. De onde, a custo, ela surgia afogueada, apressada, fechando rapidamente a porta atrás de si.
          Três dias depois da morte da mãe chegou outro telegrama de Houlton, dando conta da morte do pai. Desta vez, Max chorou.

Rafael Linden


sábado, 15 de março de 2014

Um gerânio

          Em um dia cinzento, navego no silêncio de uma rua tranquila. Um longo trecho de calçada é ladeado por um muro branco, alto, no topo do qual, pela primeira vez, reparo nos cacos pontudos de vidro fixados com cimento, ali dispostos para evitar invasores. Nunca pensei encontrar tais defesas em cidade tão pacata. Para atravessar o muro, há um portão largo para veículos e uma porta menor para pedestres. Ambos maciços, sempre fechados. Anseio por saber quem são os moradores daquela fortaleza, o que fazem, o que dizem, por que vivem enclausurados.
          O portão largo tem uma abertura circular a meia altura. Pouco maior que meu punho, deve servir para o caso da chave emperrar, quando é preciso alcançar a fechadura do outro lado. É o único meio de ver o que se esconde ali. Mas, desde pequeno falta-me coragem para observar, por alguns minutos que seja, a vida atrás do muro impenetrável.
          No horário habitual assisto, de longe, à saída do automóvel que leva um homem e uma criança. Eu quero chegar mais perto para, ao menos, ver os rostos com nitidez. À distância, só consigo perceber que o homem tem o cabelo grisalho e parece estar de terno, enquanto sua acompanhante é uma menina ruiva, que deve ter uns dez anos de idade. Quando o carro se vai, o silêncio volta. Enfim, tomo coragem, aproximo-me e olho para dentro da propriedade através da pequena abertura do portão.
          Luto contra a impressão de ouvir a voz de minha mãe a censurar minha bisbilhotice. Bobagem, dali já não se vê minha casa e a rua está deserta. Ainda assim, sinto-me culpado por olhar furtivamente através daquela espécie de buraco de fechadura. Dura pouco a culpa, logo sou atraído pela imagem do gramado impecável que atapeta o solo, dos dois lados do acesso pavimentado para o automóvel. Estou a ponto de mover a cabeça para ver mais daquele jardim, mas ouço vozes abafadas do outro lado e, a passos largos, sigo meu caminho. Discretamente olho para trás, pronto para correr se houver alguém no meu encalço, mas não há.
          Passam os dias e confirmo a rotina do automóvel, que sai sempre à mesma hora levando o homem grisalho e a menina ruiva. Um dia, aguardo sua saída e volto ao portão, prendendo a respiração para evitar qualquer ruido. Desta vez chego mais perto da abertura e vasculho o terreno. De um lado vejo árvores espaçadas, aquela é uma mangueira, outras não reconheço. Percorro com os olhos o amplo gramado e, do lado oposto, longe do portão, um vulto de branco conduz suavemente uma cadeira de rodas ao longo da trilha que serpenteia em meio à grama. Na cadeira há alguém que move a cabeça desordenadamente, como se procurasse encontrar quem o empurra. Tenho a impressão de que o vulto de branco me avista e, rapidamente, disparo rua acima. Chego resfolegante em casa.
          Custo a vencer, outra vez, o misto de culpa e medo. Afinal, volto a assumir diariamente meu posto de observação. Descubro bancos de ferro pintados de branco, entre as árvores. Do lado oposto, canteiros floridos. Procuro, em vão, pela cadeira de rodas. Vejo apenas o vulto de branco, que está de costas para o portão. Move-se graciosamente no gramado, colhe com delicadeza um gerânio cor de sangue, o vermelho mais vivo que já vi. De súbito, se detém e faz menção de virar-se na direção do portão. Fujo mais uma vez. Agora, porém, estou certo de que se trata de uma mulher. Anseio pela visão de seu rosto.
          Uma angústia começa a tomar conta de mim. A semana inteira de tempo ruim atrapalha-me olhar pela abertura do portão segurando o guarda-chuva. De nada adianta, pois o jardim está deserto. Tento de todas as formas imaginar o rosto daquela mulher que, diariamente, é deixada para trás cuidando de um enfermo. Um ser misterioso, que se move graciosamente num jardim oprimido por um muro branco, que só tem seus próprios pensamentos para se distrair, que pilha seus próprios canteiros, escolhendo a flor mais brilhante e colorida para sentir o calor da vida em suas mãos vazias. A que horas retornam os outros moradores? Que diferença faz?
          O jardim murado torna-se obsessão. Mal consigo dormir, esperando cada nova manhã para correr ao portão, mal o carro some na curva. Homem grisalho, menina ruiva - não me importam. Vivo atormentado por não vislumbrar os traços daquela mulher que me fascina. Ela empurra a cadeira de rodas ou colhe uma flor, nada mais, caminha devagar, traindo cansaço, desalento, solidão.
          Desconsolado, sem resposta, volto para casa. Num único vaso, pousado no parapeito da janela, um gerânio vermelho definha.



Rafael Linden