quarta-feira, 23 de abril de 2014

O diretor

          Não discuta, faça o que eu digo! Quem você pensa que é? Não vê que eu estou sentado aqui na poltrona, enquanto você está de pé do outro lado da mesa? Quem é que manda aqui?
          Eu já estive aí do seu lado, ouviu? Nasci e cresci sem pai nem mãe, no meio do lixo, vivendo do resto daquele pão que o diabo amassou e não quis comer. Passei fome, sede, frio. Sabe Deus como sobrevivi, sabe o cão como me defendi. Fui moleque de recado, carreguei compra em supermercado, lavei vidro de automóvel, revirei lixo de restaurante, roubei comida, fui esparro de grandalhão, afanei bolsa de velha distraída, fui mula de traficante. Apanhei a vida inteira de todo mundo que era maior que eu.
          Eu cuspia na cara de quem dizia que a esperança é a última que morre, porque ela morreu quando eu nasci. Só estou aqui porque toda noite o vigário distribuía uma sopa para as crianças que se aglomeravam na porta da igreja. Ensinou a gente a ler, deu guarida e botou todos no colégio da paróquia. Mas não pense que foi de graça, a gente pagava aquele filho da puta no fim da noite. O velho tarado não dispensava ninguém. Eu cheguei a ouvir que, no meio da gente, tinha até um filho que ele fez numa daquelas beatas que viviam por lá.
          Eu pelo menos consegui um trabalho na firma de um paroquiano e terminei o secundário. Mesmo assim continuei por baixo até que, um dia, um vereador foi com a minha cara e me arrumou um emprego público. Em troca pixei parede, colei cartaz, distribuí panfleto, aplaudi nos comícios, corri da polícia, fui preso, apanhei de novo. Trabalhei feito um corno, ouvindo ordem, desaforo, humilhação e aguentei calado, fingindo lealdade. Mas valeu. O vereador se deu bem e me levou com ele. Foi por isso que cheguei aqui e agora quem manda sou eu, ouviu? Está me entendendo? Está pensando que é mais malandro do que eu? Acha que me leva na conversa? Faça o que eu digo e não discuta!

***

          - Vou pedir mais duas caipirinhas pra nós. Já ia me esquecendo, aquele cabra que saiu no jornal, que foi preso lá na secretaria da fazenda onde você trabalha, não é o teu chefe?
          - É o meu diretor, sim.
          - Caraca, diz lá que teve uma denúncia anônima de que ele tá há mais de cinco anos malocando um esquema de propina, falsificando documentos de autuação de empresas em troca de vinte por cento do valor das multas. Os federais descobriram que o cara desviou, na maciota, mais de vinte milhões. Você tinha idéia disso?
          - Não, muita gente desconfiava, mas ninguém tinha certeza.
          - Tá escrito que o cara já abriu o bico, entregou as empresas e meteu até um político graúdo no rolo, contando que ele era o cabeça.
          - É, eu vi. O senador volta e meia estava lá, no fim do expediente, tomando uísque, fumando charuto e rindo à toa.
          - Que filho da mãe. E teu chefe botava a maior banca, dizia que era um sobrevivente, que tinha sido um combatente da liberdade, que arriscou a vida pela democracia...
          - Boa merda de combatente, isso sim. Aquilo, a vida toda foi um mentiroso, puxa-saco, que subiu na vida à custa da cara de pau.
          - É mesmo? Como é que você sabe?
          - Sabendo.
          Se sabia. Passara os últimos anos trabalhando feito um corno, ouvindo ordem, desaforo, humilhação e aguentou calado, fingindo lealdade. Acompanhou de perto a ascensão e a queda do truculento diretor que, pelo menos uma vez por semana, descompunha cada um dos funcionários, sempre aboletado na confortável poltrona de couro, exercendo toda sua autoridade sem sequer saber os nomes, que dirá olhar nos olhos dos subalternos. Não foi denunciado à toa...
          Quando a conversa no bar resvalou para o rebolado da garçonete, o filho do padre engoliu o último gole da caipirinha e se despediu. Tinha de dormir cedo, acordar esperto e se arrumar direito. Amanhã sai o nome do novo diretor.


Rafael Linden



domingo, 13 de abril de 2014

Duas xícaras


         A carta chegou por via aérea num envelope branco abarrotado de selos coloridos. Deixo-a sobre a mesinha de centro da sala. Há trinta anos, as duas xícaras do café da despedida ficaram esquecidas naquela mesa por alguns dias. Antes de ser aberta, a carta precisa descansar da viagem.
***
        Nosso encontro se dá com um aceno protocolar de cabeças durante uma festa de convidados desinteressantes, incluindo nossas próprias companhias. Disfarçadamente, trocamos telefones. Dias depois sequer nos lembramos de antes. Por quase dois anos somos um só corpo.
          Ela é a mais encantadora, a mais espirituosa, a mais brilhante de todas as criaturas. Bela, sensual, um jardim de felicidades diversas, do qual eu colho a qualquer hora uma nova alegria, um carinho inédito, um prazer distinto. Ao fim do episódio uma sensação indelével, mistura de exaustão física com um desejo latejante de recomeçar. Ela retribui cada gesto, cada carinho, cada movimento com arrebatamento e, ao menor descuido de minha parte, oferece espontaneamente o primeiro gesto, o primeiro carinho, o primeiro movimento a iniciar mais um doce festival de carícias.
          A intimidade cresce como incêndio na mata seca. Crescem também a insegurança e o ciúme. Eu a vejo como a mulher mais cobiçada, o mesmo que ela nutre por mim. Em meio à obsessão receamos que tudo acabe, que o fogo se divida com outros. Nossa entrega ganha pitadas de ódio preventivo, sem razão que não a de nos ferir mutuamente.
          Quando nos damos conta tentamos entender, abafar, pulverizar o ovo da serpente. Quem sabe – ela sugere - uma mudança de ares? Mas eu resisto, antecipadamente nostálgico e saudoso de minha cidade. No meu provincianismo não enxergo, e estou convicto de que jamais enxergarei em outro lugar qualquer, um mundo aceitável e conhecido. Ela, ao contrário, é universal, sabe línguas, admira culturas, anseia por ver coisas novas e se espalhar como o ar pelo planeta. Aqui estou em casa, ela assim estará em qualquer canto.
          A dor lancinante da perda súbita não é nada, comparada ao distanciamento inexorável, à sucessão de sinais inequívocos de que a luz está se apagando. Confinados em um pequeno apartamento, parece que um de nós já se foi.
          A notícia cai suavemente, amortecida pelo arrefecimento da paixão. Mesmo assim, soa como a sentença da morte afetiva, prelúdio da melancolia que me invadirá para sempre. Ela conseguiu a tão sonhada transferência para a matriz da empresa na França. Tem todas as qualificações necessárias, é a mais encantadora, a mais espirituosa, a mais brilhante de todas as criaturas. Foi escolhida com sobras entre os candidatos.
          Nos últimos dias procuramos nos convencer de que é provisório, fará bem darmos um tempo, usar o afastamento para recalibrar nossa relação, aliviar o ciúme. Qual nada, sequer ouvimos nossos próprios argumentos. Sonho que sou eu o viajante. Eu fico, não é ela quem vai. Afinal, que diferença faz? A distância é igual nos dois sentidos, ainda que um único movimento nos separe um do outro. A viagem é única - uma jornada para bem longe de tudo o que tínhamos em comum.
          Chega o dia da partida, da nossa partida. Combinamos não nos corresponder, para sepultar a sensação de nossos erros. Antes de chamar o taxi ela faz um café, como todas as tardes. Olhamo-nos sem palavras, com ternura, a serpente domada, paralisada pela iminência da perda. Esvaziadas as xícaras, despedimo-nos com o mesmo aceno protocolar de cabeças que nos aproximou da primeira vez. É preciso não chorar, imprescindível não sentir.
          Partimos, cada um para seu lado. Ela para longe, eu para onde sempre estive.
***
          Trinta anos se passaram. Em uma esquina do centro de Paris, a poucos passos da estação do metrô de Saint-Germain-des Prés, a mão delicada, pálida, gélida, carente da luva recém removida, ficou no ar, hesitante, por alguns segundos antes de deixar o envelope branco, abarrotado de selos coloridos, deslizar suavemente pela abertura da caixa de correio.
          Logo adiante fica a brasserie Lipp, com suas paredes em cerâmica da Belle Époque e grandes espelhos decorados, mesinhas elegantes e atendimento acolhedor. No frio daquela tarde de inverno, ela entrou para se aquecer. Tomou um café e, pensativa, pediu outro ao garçom. Quando ele fez menção de retirar a xícara usada, ela pediu que a deixasse também na mesa.

Rafael Linden


domingo, 6 de abril de 2014

O encontro

          Eu a vejo pela primeira vez na fila do caixa. Tão linda que se abre espaço ao redor, como em torno de uma escultura. Move-se com toda a graça que há, nada sobra para outras. Exibe a forma que, no roteiro original do Universo, foi registrada como corpo perfeito de mulher.
          Cabelos ondulados acariciam os ombros nus. Ao mover-se, o vestido tomara-que-caia, quase transparente, desliza sobre suas curvas e acentua os seios, as coxas. Tem pernas divinas, pés graciosos emoldurados por sandálias de tiras finíssimas. Ninguém fica indiferente. Cabeças masculinas, em todos os cantos do banco, balançam ao ritmo de seus passos, olhos ávidos deslizam junto com o tecido que mal separa o ar daquela pele.
          Esqueço o que vim fazer aqui, na outra fila. Seguro com força o maço de contas, como se me agarrase à concretude para escapar da libido delirante. A lerdeza do atendimento nos caixas jamais foi tão bem-vinda, prolonga o prazer de olhá-la da cabeça aos pés, de onde retorno devagar pela contramão para recomeçar a viagem. No caminho, advinho tudo o que mal se esconde dos olhos. Uma cliente atrás de mim sussura, irritada – enciumada?: “a fila andou...”.
          Estou com sorte, tanto ela como eu precisamos resolver pequenos problemas na gerência. Aguardamos lado a lado em um sofá desconfortável. Sequer me incomoda, porque a todo momento nossas pernas se tocam. Percebo que ela sorri discretamente e desvia o olhar. Conversamos, aprecio sua voz instigante. Ela conta que é cliente há pouco tempo e, assim, me permite exibir domínio da agência ao apregoar minha intimidade bancária com os funcionários. Aprendemos nossos nomes, profissões, bairros em que moramos. Comentamos brevemente os livros que temos nas mãos e descobrimos uma afinidade que reforça a atração.
          Hoje o serviço na plataforma está mais eficiente do que o costume e, infelizmente, logo chega sua vez. Senta-se à mesa da gerência e eu me perco outra vez no contorno de suas pernas. Depois de atendida, retira da bolsa dois cartões de visitas. Dá um ao gerente e anota algo no verso do outro cartão. Levanta-se, agradece e, ao passar por mim, deixa o outro cartão no qual leio o número de um celular e o recado: “Quero te encontrar. Liga para mim?”. Os pingos nos “is” são dois coraçõezinhos juvenis, que me fazem morder os lábios.
          O gerente me chama. Ele retribui meu largo sorriso, sem entender tanta alegria. Mas recebe-me com a gentileza habitual: “Boa tarde, Dona Flávia, em que lhe posso ser útil?”.

Rafael Linden