domingo, 29 de junho de 2014

O vampiro de Lagoa Nova

          O cronista escreve em plena Copa do Mundo e, naturalmente, os leitores pensam que o personagem do título só pode ser um uruguaio, praticante do nobre esporte bretão que, na década de sessenta, o patriótico professor Hernani, do Curso Pré-Vestibular Miguel Couto, gostava de chamar de ludopédio ou, pior ainda, balípodo. O jogador, severamente punido por agressão pela entidade organizadora do torneio, declarou-se inocente e garantiu que, no calor da partida, desequilibrou-se e, por mero acaso, caiu de boca no ombro de um zagueiro italiano, deixando neste uma profunda impressão dentária. Aliás, foi a terceira vez em sua carreira que o atacante, em pleno jogo, aterrissou nas suculentas carnes de um adversário. Um recorde entre profissionais, embora amplamente difundido no jardim de infância. E para quem ainda não está careca de saber, Lagoa Nova é o bairro de Natal, no Rio Grande do Norte, onde fica o estádio no qual ocorreu o infausto acontecimento.
          Acima adverti, porém, que os leitores pensam ser o protagonista um jogador de futebol. Ledo engano. O personagem principal é a borboleta de Lorenz. Quem? Ora, no clima atual de fervor patriótico generalizado que só mesmo uma boa prorrogação com disputa em pênaltis consegue arrancar das entranhas deste povo sofrido, é compreensível que o atleta Luisito Suárez se torne muito mais famoso do que o meteorologista e matemático norte-americano Edward Lorenz. Esse último, ao que parece, não mordeu ninguém e é conhecido pelo chamado “efeito borboleta”.
          Há cinquenta anos Lorenz, que desenvolvia modelos matemáticos para usar em meteorologia, estudava os efeitos que uma pequena diferença em uma única variável poderia causar no resultado de sistemas de equações usadas para previsão do tempo. Isso se traduz, mais ou menos, como o efeito que uma alteração, digamos, de um décimo de grau de temperatura na floresta amazônica pode causar no volume de chuva no sul do país. Os estudos de Lorenz foram incorporados na chamada teoria do caos, que trata de sistemas complexos e dinâmicos, ou seja coisas muito complicadas e que, às vezes, mudam muito por causa de uma variação aparentemente irrisória em um dos fatores que contribuem para o comportamento do sistema. Mal comparando e aproveitando o centenário da primeira guerra mundial, trata-se de algo semelhante ao efeito que um único tiro, que acertou um arquiduque, causou na taxa de mortalidade e na geografia de toda a Europa.
          E a borboleta? O digníssimo lepidóptero entrou na história por causa de uma piadinha. Conta-se que Lorenz, ocupado com outros afazeres, deixou de responder aos apelos dos organizadores de uma conferência para enviar o título de sua palestra. Na última hora um deles, para representar aquela coisa toda que o matemático descobriu, inventou o título “Será o bater das asas de uma borboleta no Brasil capaz de disparar um tornado no Texas?”. Daí surgiu o apelido “efeito borboleta”. Bonitinho, né? Cientistas são mesmo umas gracinhas…
          E o que tem Lorenz a ver com o vampiro de Lagoa Nova? Ignora-se a razão do hábito esdrúxulo do atacante uruguaio, aos 25 anos de idade e ganhando aquele salário astronômico. Sem dúvida, depois de sapecar um ósculo cinematográfico na careca do fisioterapeuta que o colocou em campo, em plena forma, apenas quatro semanas depois de uma cirurgia no joelho, Luisito deve reservar várias beijocas para o psicólogo ou psiquiatra que, eventualmente, venha a livrá-lo deste insólito canibalismo. Mas talvez nunca se esclareça a causa propriamente dita do evento recente. Por isso, aqui fica a hipótese, firmemente baseada no efeito borboleta, que ouvi de um barbeiro do salão onde minha definhante cabeleira é, de tempos em tempos, recauchutada com tesouradas certeiras. Ponderou o fígaro, embora em outras palavras, que o artilheiro da seleção uruguaia é deficiente auditivo e, ao ouvir mal um celebrado atentado musical cometido pela portadora de um nome destinado a exaltar seus próprios dotes calipígios, concluiu que, no país do futebol, mordidinha no ombro faz sucesso e dá prestígio.
          Ou seja, mais uma dessas musiquinhas infames, com que somos regularmente torturados por compositores irresponsáveis e pseudoartistas de meia tigela, provocou um incidente de grandes proporções, assistido ao vivo e em cores por dois bilhões de pessoas, encerrado com uma punição draconiana ao dentuço e, entre outras pérolas, ainda levou uma centenária publicação britânica de centro-esquerda a deixar de lado seu tradicional conteúdo político para relatar que é cerca de duas mil vezes maior o risco de um cidadão ser mordido por um jogador uruguaio do que por um tubarão.


Rafael Linden


sábado, 21 de junho de 2014

Noites

          Preciso comprar um aparelho de ar condicionado. Está um calor insano, já me livrei de quase tudo que havia sobre a cama. Sobramos apenas três itens: o corpo inerte num calção frouxo, o travesseiro molhado de suor e a angústia. Já amanhece e não preguei o olho, tomado pela exaustão que alimenta essa vigília delirante.
          O juiz indeferiu minha petição e o cliente vai pagar uma fortuna em indenizações. Minha mãe está no CTI há dois meses e meu pai, que era só esperança, pressente o fim. Assim que cheguei em casa, minha irmã telefonou para contar que o namorado foi novamente internado para desintoxicar. E Sônia saiu de casa dizendo que era definitivo.
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É a terceira vez este ano. Ela sempre volta, não sei porque ainda perco o sono com suas fugas impulsivas. Estamos juntos há cinco anos, desde uma quarta-feira no McDonald’s da Rua Uruguaiana. Costumávamos nos ver por ali, mastigando com pressa. Dois advogados recém-formados, sempre em trânsito do escritório para o Forum, dali para o cartório ou voltando rápido para ouvir um cliente. Cabeças cheias, bocas ocupadas demais para sorrir, apenas olhares trocados de longe, até o dia em que entramos na fila ao mesmo tempo. Tenho a noite inteira para lembrar de cada frase da nossa primeira conversa.
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          O dono da firma é um daqueles juristas celebrados, amigo do prefeito, do senador, do ministro, do bispo, do patrono da escola de samba, da puta que o pariu. Cria jurisprudência nos salões da burguesia. Enquanto isso a base da pirâmide, solidamente pousada sobre meus ombros e de duas dúzias de colegas, redige, refuta, replica e rebola feito minhocas, distorcendo cada fibra do tecido legal para ajudar o medalhão a ganhar as causas. Aberratio ictus, Ad judicia, Concilium fraudis, Meritum causae, uma enxurrada de termos jurídicos, em Latim, inunda meus olhos arregalados.
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          Antes de voltar para casa estive no hospital. No começo da semana o médico me disse que os remédios de minha mãe já não fazem mais efeito. A pressão cai progressivamente, os rins enfraquecem, é uma questão de dias. Não tenho coragem de contar para meu pai, que lá está confiante, velando pela esposa. Isso me atormenta, alguma hora ele tem que saber.
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          Não sei o que fazer pelo moleque. Dezessete anos e já está na quinta internação. Minha irmã diz que ele precisa de apoio, senão vai voltar a usar. O infeliz já levou uma surra por dívida com traficante, ela vive apavorada que o garoto seja assassinado. E eu temo por ela. Não preciso de nada do que ele usa para ficar acordado, com os olhos esbugalhados.
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          Quando Sônia me aprovou no vestibular para namorado, logo percebemos que praticamos o sexo mais intenso, trocamos os beijos mais quentes e dizemos as mais belas frases de paixão. Depois de uns seis meses, entabulamos planos conjugais. Casamento nem pensar, somos advogados e sabemos no que dá quando a linha tênue que une um casal se rompe com estardalhaço. Basta-nos uma união reconhecidamente instável desde que, ao fim do dia, possamos nos entrelaçar sobre um colchão confortável, testemunha muda e macia de nosso vigor erótico. “Como foi o seu dia” não passa de dez minutos, eu falo de empresas em apuros, ela de investigações de paternidade. Tudo, é claro, protegido pelo sigilo profissional: até os vetustos presidentes das corporações são descritos com tarja preta nos olhos. Nos primeiros anos funcionou muito bem, não fazia esse calor no quarto. De uns tempos para cá, com frequência me acontece de suar em bicas enquanto decido qual de dois qualificativos, do mais baixo calão, melhor se encaixa na personalidade de minha companheira. Dilema difícil, deve ser por isso que não consigo relaxar.
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          Mamãe ficou doente há um ano, justo quando eu estava para ser promovido. No começo não parecia grave, não se preocupe, uma dorzinha aqui, outra ali, não é nada, vai passar. Foi ao médico emburrada, exames, consultas, inoperável, só radioterapia, segunda opinião, outro médico, exames, radioterapia, agora um médico recomendadíssimo, radioterapia. Melhorou bastante, sim. Tem que voltar para consulta daqui a três meses, quimioterapia, os cabelos eram lindos, meu pai se entristece. Eles precisam de mim, o velho não dirige. Os colegas são compreensivos, cobrem as ausências, mas minha promoção foi para as calendas. Sinto falta do olhar interessado, daquela mulher alegre, outrora tão forte. Minha irmã não se abala com o declínio da própria mãe, só tem olhos para o namorado - um garoto muito esquisito, foi internado, agredido, internado de novo, saiu, internado, saiu, de cada vez ele jurou que nunca mais. Mãe vai para o hospital pela sexta vez. A última. Meu velho implora, em silêncio, que eu diga está tudo bem, ela está estável, os médicos estão confiantes, ela vai reagir dentro de poucos dias e sairá do coma, logo estará em casa. Cozinhar, só para o Natal, mas isso se dá um jeito, não é, filho? É, pai. Ele sorri. Minha mãe dorme. Eu, não.
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          Sônia reclama o tempo todo que eu só penso no trabalho, que só me preocupo com a saúde de minha mãe, enquanto ignoro que ela mesmo tem um caroço no seio e vai ter de operar, que não ligo para o problema do irmão dela, que é o mesmo do namorado de minha irmã. E se ela não voltar, desta vez?
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Trabalho feito mouro para o elegantíssimo causídico ajeitar tudo entre um magret de canard e um Bordeaux e, logo, celebrar as sentenças com talagadas de Courvoisier L’Esprit e baforadas de Cohiba, sempre acompanhadas de alguma piadinha infame sobre o Fidel. Se a causa envolve uma grande empreiteira, a comemoração se eleva ao nível de um Remy Martin Louis XIII, edição limitada, o conhaque mais caro que existe, e que só existe para me sacanear enquanto eu tomo uma cerveja comum, caso tenha ouvido algum comentário de que contribuí para o sucesso do chefão. Hoje nem isso, pisei na bola e posso receber, amanhã cedo, um discreto chamado à sala do diretor da minha divisão, de onde sairei diretamente para o ostracismo jurídico, no qual nunca mais conseguirei dormir.
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          O garoto foi esfaqueado dentro da clínica e tive de levá-lo para o pronto socorro. Ele não resisitiu. Enquanto tentava consolar minha irmã, o diretor da divisão passou a tarde me procurando para saber o que diabo tinha acontecido na véspera. Fui informado, agora à noite, de que não preciso mais voltar ao escritório, a não ser que queira pegar uns poucos pertences que eu mantinha sobre a escrivaninha. O relógio marca quatro da madrugada e meus olhos estão bem abertos. O calor está insuportável. O telefone toca. Do outro lado da linha, meu pai balbucia palavras ininteligíveis.
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          Sônia pode voltar a qualquer momento e esse calor não me deixa dormir. Preciso comprar um aparelho de ar condicionado.

Rafael Linden

domingo, 8 de junho de 2014

Ao pé da letra

          Em décadas de docência universitária, este humilde cronista já alternou mais altos e baixos do que as montanhas russas da Disneylândia. Um dos baixos que nos assombra é a avaliação de provas. Corrigir dezenas de respostas à mesma pergunta, tarefa que se repete por várias questões a cada prova, é capaz de provocar uma lesão cerebral de esforço repetitivo. Desgosto adicional é a crescente ameaça à integridade da língua pátria, pelos atentados cometidos por alguns dos estudantes que teriam sido selecionados, vejam só, pela proficiência nas lições aprendidas ao longo de sua educação pré-universitária.
          Alguns colegas da egrégia Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil já murmuram entre dentes “Fez carreira acadêmica porque quis...”. Contenham-se doutores pois, como diria Bento Carneiro - o vampiro brasileiro, personagem do humorista Chico Anísio -, “minha vingança será maligna!”. Pois outro motivo de calafrios é a caligrafia. É um martírio decifrar a letra de muitos estudantes, vários dos quais, por casualidade, são de Medicina. Ainda assim podem sossegar, pois o tema desta crônica não é a “letra de médico”, e sim, a escrita à mão em geral.
          Antigamente, cadernos de caligrafia eram obrigatórios na escola, até que foram condenados por novas correntes pedagógicas, mesmo porque, no futuro, tudo será escrito nos teclados de computadores. Até entre os que defendem seu uso, há controvérsia sobre quando devem ser introduzidos e por quanto tempo os professores devem zelar pela qualidade estética da escrita dos alunos. E daí?
          Não apenas um calígrafo japonês, mas muita gente por aí deve apreciar uma letra desenhada com apuro. Com frequência, tecnófilos contumazes decoram seus textos ou diapositivos com fontes como Brush Script, Lucida Handwriting, Snell Roundabout e outras belezinhas desenvolvidas por designers gráficos para simular escrita manual. Mas é improvável que a mecanização de letras cursivas reproduza a infinita variedade de caligrafias. Assim espero, ecoando a professora Ermelina Tomacheski, da PUC do Paraná, que teria dito “...a letra também é um reflexo da personalidade e da liberdade de expressão, ou seja, cada um desenvolve seu próprio estilo...” (sic). Tempos atrás, ouvia-se muito “fulano tem uma letra muito bonita”, isso antes da letra do fulano se tornar Arial 12pt. E exames grafoscópicos – que não se deve confundir com a Grafologia pseudocientífica – são úteis para detectar rasuras e falsificações de textos manuscritos.
          Entretanto, o busílis – olha o busílis aí de novo, gente! - é se, afinal, escrever à mão se justifica perante a difusão dos computadores, tabletes e espertofones. Sobrou alguma utilidade, além da estética e da piedade para com os leitores de manuscritos manuscritos? Pois este foi o assunto de uma reportagem do New York Times, cujo logotipo ostenta uma elegantíssima fonte derivada de letras góticas a qual, reza o Google, corresponde a Old English ou Temporal. O texto de Maria Konnikova, intitulado “O que se perde com o desaparecimento da escrita manual”, indica que se perde muito.
          Senão, vejamos. Há alguns anos, a professora Karin James, da Universidade de Indiana, recrutou para um teste quinze crianças de quatro a cinco anos de idade, ainda não alfabetizadas. Não, Meritíssimo, não foram sequestradas, os pais concordaram em levar filhos e filhas ao laboratório e ficaram felizes em contribuir para entender mecanismos de aprendizado da leitura. Tudo bem?  Então, tá. A pesquisadora pediu a cada criança para olhar a imagem de uma letra do alfabeto e copiá-la, várias vezes, de três formas distintas: à mão livre, traçando por cima de um modelo, ou apertando uma tecla com o desenho da letra. Fez o mesmo para formas neutras como círculos ou quadrados. Depois do treinamento, registrou imagens de atividade do cérebro das crianças, por uma técnica chamada Ressonância Magnética Funcional. Sim, Meritíssimo, as crianças toparam tudo de livre e espontânea vontade, e adoraram a brincadeira.
          As imagens cerebrais foram feitas enquanto as crianças olhavam para letras treinadas, letras não treinadas ou formas neutras. Não foi surpresa ver que a prática de desenhar letras provocou atividade mais intensa que as formas neutras em regiões cerebrais sabidamente envolvidas na leitura. Mas, o mais interessante foi que estas partes do cérebro foram ainda mais ativadas pela observação das letras que a criança tinha desenhado à mão livre, do que das letras traçadas sobre um modelo ou tecladas num computador.
          A interpretação da doutora James se baseou em estudos do norte-americano Michael Posner, segundo os quais a percepção de variações na forma com que uma letra aparece para uma criança facilitaria seu reconhecimento independente dos detalhes da caligrafia. Ao escrever repetidamente uma letra, uma criança ainda não alfabetizada certamente produz múltiplas variações. Isso seria vantajoso para fixar o aprendizado daquela letra, quando comparado ao traçado sobre um modelo ou, ainda mais, o apertar de uma tecla no computador.
          A esta altura, não é necessário ser um renomado especialista ou adepto fervoroso da chamada Escola Construtivista para reconhecer que a antiga prática de obrigar crianças a treinar caligrafia padronizada não ajuda e poderia até atrapalhar o aprendizado, por reduzir a margem de variação na escrita manual. Mas é só isso? Não, tem mais.
          A professora Virginia Berninger, da Universidade de Washington, vem há anos mostrando que escrever à mão com letras cursivas ou letras de imprensa, ou ainda usar teclados de computador, ativam regiões distintas do cérebro; que crianças que escrevem à mão expressam mais idéias do que as que usam os outros meios; e que, quando pediu a crianças em torno dos 10 anos de idade sugestões de idéias para uma redação, as que escreviam melhor mostraram, na Ressonância Funcional, ativação mais intensa nas áreas cerebrais associadas a memória, leitura e escrita. Ponto para a boa escrita manual.
          E mais, a revista Psychological Science publicou um artigo dos pesquisadores Pam Mueller e Daniel Oppenheimer, os quais compararam, em adultos jovens, os benefícios de anotações feitas à mão ou em um computador. Sessenta e cinco estudantes da Universidade de Princeton, de ambos os sexos, assistiram a palestras gravadas e tomaram suas notas como estão habituados a faze-lo em aula. Depois, responderam a dois tipos de perguntas - factuais ou conceituais - que diferem por testar a memorização de fatos relatados nas palestras ou sua concatenação em idéias abrangentes.
          Os estudantes que usaram computadores tomaram notas mais extensas, geralmente limitadas à reprodução ipsis literis de frases ou dados, enquanto as anotações à mão livre, embora menos extensas, foram mais variadas e menos coincidentes com a transcrição exata das palavras do palestrante. Curiosamente, essa diferença persistiu quando eles foram instruídos a não fazer anotações ipsis literis! Nos testes, os anotadores à mão livre obtiveram resultados melhores dos que os tecladistas nas perguntas conceituais e, quando o exame foi feito depois de um tempo para estudar as anotações, ainda assim os anotadores à mão livre se sairam melhor tanto nos testes conceituais quanto, surpreendentemente, nos factuais. Ou seja, anotações à mão livre favoreceram o aprendizado dos conceitos, quando comparados ao uso dos computadores. Neste estudo não havia correio eletrônico, mensagens de texto ou qualquer outra interferência internáutica que pudesse explicar o relativo fracasso dos tecladistas. Tudo parece indicar a superioridade das anotações à mão livre para aprofundamento do aprendizado.
          É possível que quem faz anotações mais concisas e conceituais no computador tenha desempenho tão bom quanto, ou ainda melhor do que os que escrevem à mão. Mas, a julgar pela manutenção de anotações ipsis literis mesmo quando instruídos a não faze-lo, a mecanização da escrita é acompanhada por vícios prejudiciais. Estão todos convencidos? Não? Nem eu por completo, ainda. Mas a gentil leitora há de convir que os resultados de estudos científicos estão na contramão da idéia, muito difundida, de que não há mal em deixar a escrita à mão desaparecer no turbilhão da eletrônica. Há fortes indícios de que lápis e papel ainda são úteis pelo menos até a adolescência tardia e, provavelmente, muito além dos bancos universitários.
          Mas, perguntará o nosso conhecido leitor rabugento, o que tem isso a ver com a caligrafia? Pois saibam que, há cerca de dois anos, um inquérito encomendado por uma empresa britânica constatou que o tempo decorrido desde a última vez que um ingles escreveu à mão livre foi, em média, de seis semanas, e um terço dos entrevistados não precisou escrever nada de forma “adequada” por mais de seis meses. Pior, um em cada três entrevistados confessou que não entende suas próprias anotações à mão livre. Agora, imaginem o bom humor de um professor a avaliar várias dezenas de provas manuscritas...
          A computorréia chegou para ficar e a tendência de trocar a escrita manual pela eletrônica é inexorável. A não ser, é claro, quando falta luz e a bateria reserva se esgota. Antes que o rabugento pondere que na falta de luz não se escreve nem à mão, lembro que também falta luz durante o dia. Mas isso não é tudo. O cérebro humano vem evoluindo há mais de dois milhões de anos, a chamada proto-escrita já tem uns dez mil de idade e a escrita propriamente dita, uns cinco a seis mil. Alguma pressão evolutiva há de ter tornado essas três histórias congruentes, e muitas gerações ainda passarão antes que desapareçam os benefícios neurológicos da escrita manual. Se há de fato vantagens em escrever à mão, há também vantagem em conseguir ler, pelo menos, as próprias anotações.
          Vosso cronista predileto ainda acha que se deve cuidar com carinho da qualidade da caligrafia das crianças e jovens, no mínimo de sua legibilidade sem, naturalmente, retornar aos métodos draconianos da velha escola. Recentemente uma amiga, preocupada com o desprezo do filho de seis anos e meio por melhorar a qualidade da própria letra, escreveu uma mesma palavra de duas formas, com letra caprichada e em garranchos ilegíveis e surpreendeu a criança ao lhe mostrar que era a mesma coisa escrita das duas formas. Ainda é cedo para saber o quanto isso vai influenciar o guri, mas pode ser uma boa estratégia.

Rafael Linden


P.S.: Sim, senhora, tudo isso foi escrito no teclado de um computador. Mas, como os leitores deste blog bem o sabem, o autor não tem mais jeito.