sábado, 25 de outubro de 2014

Uma crônica implícita

Para não dizer que o cronista não se pronunciou sobre o andar da carruagem neste país tropical, hoje não tem crônica. Mas, para bom entendedor...
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O CARTUM DO SÉCULO.

Em memória do Cabo Nathan Cirillo, guarda de honra do National War Memorial em Ottawa, Canadá, monumento nacional aos soldados canadenses que lutaram na Primeira Guerra Mundial, morto a tiros por um fanático em 23 de outubro de 2014.

Na primeira foto, detalhe do monumento. Na segunda, o cartum de Bruce MacKinnon publicado como editorial do jornal The Chronicle Herald, de Halifax, Nova Scotia, Canadá.

Uma imagem. Todas as palavras.

Rafael Linden


sábado, 18 de outubro de 2014

Pílulas de caca

     Ainda que vosso cronista predileto tenha lá suas opiniões, crenças e mitos políticos prediletos e não se furte ao dever cívico de manifestá-los em horas e locais apropriados, a cláusula pétrea, de que tal coisa não se faz no sacrossanto espaço deste blogue, continua a ser plenamente justificada pela disenteria verbal de que somos vítimas nestes tempos de campanha eleitoral. No entanto, tudo que se passa no mundo serve de inspiração e, a propósito, a vida lá fora sempre nos enseja uma boa oportunidade de apelar para outros eventos entre o quais, como se diz por aí, até mesmo a escatologia “dá uma crônica”.
     Pois não é que o conhecimento científico da humanidade foi, há poucos dias, enriquecido com o trabalho de um grupo de cientistas que preconiza o uso de pílulas de fezes congeladas para tratamento de um tipo particular de infecção intestinal? Volte aqui, cara leitora, porque é coisa séria. Ou melhor, seriíssima. Para começar, saibam todos que o trabalho foi publicado no JAMA, a revista de alta qualidade da Associação Médica Americana, por pesquisadores das Faculdades de Medicina de Harvard e Tel-Aviv, os quais trabalham em dois dos melhores hospitais do mundo, localizados - sem trocadilho – na cidade de Boston. Sim, nada disso garante que o trabalho seja bom, mas continue a ler e verá que tem lógica e é importantíssimo.
     A tal infecção intestinal é causada por um microorganismo que, de cara, já ostenta o ameaçador nome de Clostridium difficile. Seu pacote de maldades causa uma disenteria gravíssima, que leva os pacientes a usar o banheiro até 30 vezes por dia e pode ser fatal. É bom que nossa multidão de ávidos leitores saiba que essa infecção é mais comum quando a flora intestinal normal – ou seja, as bactérias do bem que todos temos em nossas respeitáveis tripas - é dizimada por mau uso de antibióticos. Pois é, minha senhora. As bactérias vivem a competir umas com as outras por sobrevivência e quando as bactérias do bem morrem, bactérias do mal podem ocupar facilmente os ambientes em que a natureza lhes oferece alimento e abrigo. Esta é uma das principais razões pelas quais ninguém deve tomar antibióticos sem orientação médica, muito menos quando são desnecessários.
     Antes de prosseguir, advirto que faço o possível, mas trata-se de uma matéria difícil de abordar com nossa delicadeza habitual. Voltando ao assunto, como a tal bactéria do mal é muito resistente aos antibióticos disponíveis, há alguns anos existe um tratamento baseado na competição pela sobrevivência. Consiste em introduzir fezes de uma pessoa saudável no tubo digestivo do paciente, para que bactérias do bem colonizem maciçamente o intestino e, com isso, derrotem as bactérias do mal. Mas até agora esse tratamento tinha de ser feito com – tenham paciência – fezes frescas, em geral de um parente da pessoa doente e, para injetar a poção mágica, era necessária a introdução de um tubinho vindo, digamos, de lá ou de cá, no tubo digestivo do paciente. Crianças, por favor não tentem fazer isso em casa.
     Então, como este procedimento, além de difícil de descrever com um mínimo de boa educação, é sujeito a efeitos adversos e requer ambiente hospitalar, os cientistas inventaram o que só pode ser descrito como pílulas de cocô. É isso mesmo, cápsulas feitas com o mesmo material que envolve muitos outros medicamentos, contendo no interior fezes congeladas de doadores saudáveis, selecionados por critérios rigorosos e submetidos a diversos exames para garantir que o material seja de primeira, ou seja, contenha uma flora bacteriana todinha do bem. As cápsulas ficam congeladas até o uso e, com isso, o tratamento pode ser feito em consultório médico ou na casa do paciente. Simples assim.
     A boa notícia foi que as cápsulas funcionaram em noventa por cento dos casos testados, mais ou menos a mesma proporção de pacientes nos quais funciona aquele tratamento complicado! E nenhum paciente vomitou, apesar de engolir 30 daquelas cápsulas em dois dias. O leitor rabugento já nos telefonou pelo menos quatro vezes, dizendo que este blogue está ficando cada dia mais nojento, mas o fato é que se trata de um avanço no tratamento de uma infecção grave e potencialmente fatal. E antes que o Juquinha comece a guardar o que não deve em sacos plásticos no congelador da geladeira da avó, deve-se notar que os pesquisadores foram cautelosos e advertiram que será necessário confirmar os resultados em estudos mais amplos, além de verificar se não haverá efeitos adversos a longo prazo.
     Ufa, diz a nossa querida leitora, aliviada porque pensa que acabou a tortura. Mas ainda resta o momento nostalgia. Há uns cinquenta anos, o músico e comediante Juca Chaves tinha, entre suas máximas, uma pérola de sabedoria que dizia ser “melhor dividir com os amigos um prato de morangos do que comer sozinho um prato de me*!@”. Se tudo correr bem, haverá pelo menos uma circunstância em que os morangos ficarão em segundo lugar.



Rafael Linden