domingo, 23 de novembro de 2014

Nostalgia do bem

          Vejam como são as coisas. Eu, aqui, preocupado com a ansiedade da gentil leitora, a se perguntar quando voltará seu mui amado cronista; e tudo que recebo são recadinhos do leitor rabugento, regozijando-se com o que pensa ser nossa desistência da Literatura. Porém, trata-se apenas de uma enxurrada de compromissos profissionais ao longo do mês, que nos afastaram deste paraíso internáutico, ao qual retornamos com fé e desassombro.
          Isto posto, para os prezados leitores que já se dedicavam a sublimar sua imensa saudade relendo crônicas passadas e erigindo um mausoléu imaginário que, é claro, há de ter um telhado de dar inveja às grandes catedrais, a crônica de hoje é sobre nostalgia.
          Certamente o rabugento, antes de rabugir, já foi avançadinho, deve ter um filho antenado e um neto descolado e, cada qual na sua época, todos praticaram ou praticam o nobre esporte conhecido como menoscabo do passado. Debochando do prazer de seus pais em ouvir música de tempos idos, o maluco beleza Raul Seixas cantava que “tudo quanto é velho eles botam pr'eu ouvir, e tanta coisa nova jogam fora sem curtir...” e “...a nostalgia eu tô curtindo sem querer, porque está faltando alguma coisa acontecer...”. Muito pior, ainda hoje dicionários de língua portuguesa definem nostalgia como a melancolia do exilado, denotando um estado mórbido de tristeza.
          Curiosamente, a noção de que a nostalgia dos pais do Raulzito é “do mal” ecoa uma idéía muito antiga. No final do século XVII, a palavra nostalgia - literalmente a “dor do regresso” - foi inventada na Suiça para designar um estado depressivo grave e por vezes fatal, originário de saudades da terra natal. Considerada uma doença psiquiátrica, era diagnosticada em militares que permaneciam por longos períodos no campo de batalha ou deslocados em outras paragens da Europa. O tratamento consagrado foi mandar o soldado de volta para casa, pelo menos por algumas semanas. Esta concepção de nostalgia, que durou três séculos, foi aos poucos revista, moderada pela Psicanálise e pela Psicologia, e abrandada para exprimir um sentimento agridoce sobre memórias prazerosas do passado, na terra natal ou em outro lugar qualquer.
          Viver exclusivamente de memórias, por melhores que sejam, não é boa idéía e, como se diz por aí, tudo que é demais faz mal. Deixar-se tomar pela nostalgia pode, em alguns, levar a estados depressivos e, aí sim, torna-se um grave problema de saúde mental, o qual deve ser o que os antigos chamavam de nostalgia. Mas atire a primeira pedra virtual quem, vez por outra, não se põe a pensar como seria bom voltar a comer aqueles bolinhos que a vovó preparava, ir ao Maracanã apreciar o futebol brasileiro do tempo em que ganhávamos a semifinal da Copa do Mundo por 5x2, em vez de perder por 7x1, ou então passar a noite jogando conversa fora na mesa do Veloso, em Ipanema, vendo a garota passar. E, logo depois, suspira e volta aos seus afazeres sem maiores consequências. Ou seja, há muita nostalgia “do bem”. Mas será que faz mesmo bem? Ou simplesmente não faz mal?
          Pois a Neurociência já mostrou que boas lembranças do passado tem efeitos neuropsicológicos benéficos, particularmente sobre a regulação de emoções e a adaptação ao estresse. Com base nessas demonstrações, um grupo de pesquisa da Rutgers University, nos EUA, liderado por Mauricio Delgado, publicou na revista Neuron um trabalho científico no qual testaram se memórias autobiográficas podem ser valorizadas ao ponto de se sobrepor a recompensas tangíveis, tais como dinheiro vivo. Entre parênteses, o Professor Delgado nasceu em São Paulo, emigrou muito jovem para os EUA e lá fez toda sua carreira. Não duvido que tenha se interessado por este tema por conta da dificuldade de achar um botequim, em Nova Jersey, que sirva um pastel como o que era vendido na pastelaria dos chineses na esquina da São João.
          Os pesquisadores recrutaram um grupo de universitários, de ambos os sexos, que mostraram ter muitas lembranças da infância, tanto positivas (como viagens de férias) quanto neutras (como arrumar as malas para essas viagens). Os jovens inicialmente passaram por exames de Ressonância Magnética Funcional, os quais apontaram as áreas do cérebro ativadas quando eles, a pedido dos cientistas, rememoravam algumas daquelas lembranças. Neste experimento, as mesmas áreas cerebrais respondiam tanto a lembranças positivas quanto a recompensas em dinheiro, mas não a lembranças neutras. Outros testes mostraram que a atividade cerebral estava associada a um aumento em emoções positivas, e que se correlacionava, em cada voluntário, com medidas da chamada resiliência, ou resistência ao estresse.
          Mas o mais bacana do trabalho foi quando os cientistas pediram a cada voluntário para escolher rememorar uma lembrança, positiva ou neutra, ao passo que lhe era oferecida uma soma em dinheiro diferente para cada uma das lembranças. Essa recompensa podia ser maior para uma ou para outra, aleatoriamente, e a diferença era variável. Pasme o rabugento, o resultado mostrou que o grupo de participantes chegou a sacrificar quase um terço da recompensa em dinheiro em favor de rememorar lembranças positivas em vez de neutras. Assim, os cientistas demonstraram que uma boa lembrança compete favoravelmente com uma recompensa monetária e, para o bem ou para o mal, tem um valor intrínseco que pode ser simulado por dinheiro.
          Haverá, entre os inúmeros leitores deste blogue, quem esteja a esfregar as mãos na expectativa de comentários sarcásticos sobre a relação entre promessas de outrora e  roubalheiras hodiernas, ou por outro lado se ofenda com a insinuação de que os bolinhos da vovó ou – imaginem! - as madeleines de Proust possam ser reduzidas a um vulgar equivalente monetário. Mas cá do telhado afiançamos que essa história toda só tem a intenção de celebrar o bem que faz uma dose moderada de nostalgia. Por mais que a alma roqueira do cronista aprecie as canções do Raulzito, mais ainda se enleva com a canção de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que dizia “feliz o tempo que passou...tempo tão cheio de recordações...” e “...se um dia esse tempo voltar eu nem quero pensar no que vai ser até o sol raiar...”. E, para encerrar com a sempre bem-vinda ironia do destino, resta lembrar que a melodia na qual Raul Seixas pôs aquela letra que zombava da nostalgia é um plágio absoluto da música "My Baby Left Me”, composta e gravada por Arthur Crudup um quarto de século antes – isso sim, um primor de nostalgia...

Rafael Linden