terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2015


sábado, 20 de dezembro de 2014

A dieta do verão e o aquecimento global


          Estamos a pouco dias do verão no Rio de Janeiro. Aproxima-se a estação da alegria, criançada em férias, muito sol, suor e cerveja estupidamente gelada, gente sarada com roupas exíguas, pele bronzeada, tatuagens fresquinhas, exibindo aquela saúde toda na praia, com o único e edificante propósito de entabular uma parceria para o fim da noite. Vez por outra, fazer o que, tropeça-se no rotundo tio Pelópidas, para nos lembrar que “corpo definido” tem definições mais amplas que se pode imaginar.
          Encontro a gentil leitora no meio termo que separa Pelópidas e sua esposa, igualmente robusta, do galã da novela e, ai ai, daquela formosura que trafega num biquini feito de, ao todo, doze centímetros de um único fio de fibra sintética. Eis que nossa fã incondicional se encontra em pânico. Pois não é que o verão bate à porta e ela ainda está três quilos acima do peso cientificamente indicado para si, de acordo com o último exemplar da revista Marie Claire? Ah, o horror! Para piorar as coisas, o recesso de Natal e Ano Novo, que poderia ser passado na academia de malhação, coincide - vejam que coincidência - com o Natal e o Ano Novo...
          Nestas datas festivas, cônscios de suas tradições eclesiásticas ou culturais, a galera se dedica apropriadamente a entupir o bucho de aves e presuntos, farofas, guloseimas, tudo isso regado a bebidas altamente calóricas. Agora danou-se. As amigas da nossa leitora vão se fartar de, na sua ausência, demonstrar o quanto a amam, às gargalhadas, saboreando as mais cruéis piadas sobre pneuzinhos e outros acessórios automobilísticos que costumam decorar as vizinhanças dos escassos biquinis. Urge uma dieta radical, acompanhada de abundantes orações a Santa Rosa de Lima, pedindo-lhe inspiração para, se possível, jejuar até meados de janeiro. E é neste exato momento que o leitor rabugento, tomado por um misto de desprezo pelas preocupações mundanas e curiosidade científica, pergunta: - E, se essa maluquice der certo, para onde vai a gordura perdida quando a leitora emagrece?
          Arrá! A frase que agora se lhe descortina aos olhos é o intervalo de poucos segundos que o cronista lhe oferece para que pense na resposta. Enquanto isso, informo que o respeitável periódico científico British Medical Journal publicou há poucos dias um interessante artigo dos australianos Ruben Meerman e Andrew Brown, com o título da pergunta que aquele chato fez ainda agorinha.
          Para começar, os pesquisadores fizeram uma enquete, perguntando isso a um grupo de médicos, nutricionistas e preparadores físicos – que nossa sofisticada platéía costuma chamar de personal trainers -. Dentre as várias opções, que incluiam as fezes, suor, urina, músculo e outras, a mais popular entre todos estes profissionais foi que a gordura perdida se transformava em energia ou calor.
          Os autores do trabalho apontaram para a improbabilidade desta resposta, que viola a chamada lei da conservação das massas, a qual é essencialmente respeitada no nível de reações químicas como as que acontecem no emagrecimento, baseadas na metabolização de triglicerídeos, uma classe de gorduras armazenadas nos chamados adipócitos. Então, apesar da teoria da relatividade oferecer o conceito de  transformação de massa em energia, o simples desaparecimento da gordura e aparecimento de calor não é convincente.
          Os cientistas estudaram as reações químicas e calcularam as quantidades dos derivados formados no emagrecimento. Chegaram a duas conclusões: primeiro, que a gordura perdida acaba, por força da oxidação dos triglicerídeos, se transformando em dióxido de carbono – o conhecido CO2 - e água, nas quantidades previstas pela lei da conservação das massas; e segundo, que esse CO2 que vem da gordura “queimada” é expelido pelos pulmões, na respiração, enquanto a água sai pelos caminhos habituais como o suor ou a urina. Ou seja, a gordura que a escultural leitora perdeu ontem, depois de duas horas na esteira e um monte de pulinhos, virou mero CO2.
          O rabugento se contorce de raiva, achando que o cronista, num arroubo de sandice, vai enveredar pela teoria de que quando alguém se exercita na Mata Atlântica não está se beneficiando do ar puro, e sim contribuindo com seu CO2 para a fotossíntese e, por isso, para a saúde das plantas. Longe de nós semelhante isso. E também não cairemos no pagode do cientista doido ao afirmar que mais do que o desmatamento, o escapamento dos automóveis, a poluição industrial ou a flatulência do gado, quem realmente está provocando o aquecimento global é o CO2 produzido pelos seres humanos que se esfalfam diariamente nas academias de ginástica. Também isso não faremos.
          Mas, não fossem a obrigações que nos afligem, seria divertido tomar os resultados quantitativos do trabalho dos australianos e testar a hipótese de que o calor insano que, estejam certos, vai fazer nos próximos meses na Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro recebe uma contribuição significativa do efeito estufa criado por uma infinidade de cariocas aflitos por, todos ao mesmo tempo, entrarem nas sungas e biquinis com as quais pretendem desfilar nas extensas e tristemente poluídas praias desta comarca, exibindo suas formas apolíneas recentemente ajustadas por horas a fio malhando desesperadamente. Quem sabe, né?

Rafael Linden


sábado, 13 de dezembro de 2014

O esqueleto no armário da coroa

          Não é nada disso, madame. Este blogue não publica histórias de terror. É apenas um chamariz adequado para a crônica de hoje, que trata de uma novidade meio desagradável para uma certa realeza. E a coroa do título, com todo o respeito, não é a gentil leitora, nem a vovó, nem a dona Mariquinhas do sexto andar. A coroa, no caso, é a britânica. E o tal esqueleto é, nada mais nada menos, do que a estarrecedora revelação de um adultério.
          Como disse, senhora? Hoje em dia revelação de adultério dificilmente é estarrecedora? Pois, pasme, trata-se de um chifre de setecentos anos. Mas só agora a Ciência traz a público a prova material de que um membro da linhagem da monarquia britânica era um bastardo, não apenas metafórico, mas genético mesmo.
          Há algum tempo foi descoberto um esqueleto enterrado debaixo de um estacionamento na cidade inglesa de Leicester, e identificado como pertencente ao rei Ricardo III. Este monarca reinou por apenas dois anos, de 1483 a 1485, durante os quais construiu uma fama diabólica, e foi morto em batalha por seu inimigo Henry Tudor, o qual com isso abiscoitou o trono. Quando da descoberta arqueológica, foi noticiado que os cientistas tinham confirmado a identidade de Ricardo III pelo exame do DNA extraído das mitocôndrias dos restos mortais, comparado ao DNA das mitocôdrias de uma descendente de Anne de York, irmã do rei Ricardo.
          Então, há poucos dias a revista Nature Communications publicou um artigo assinado por cientistas de vários países além dos pesquisadores da Universidade de Leicester, contendo a descrição do estudo feito com todo o DNA recuperado do esqueleto, a análise genética e os cálculos dos cientistas de que a chance daquele esqueleto não ser de Ricardo III é menor do que seis em um milhão. Ou seja, é praticamente impossível que a identificação seja falsa. Vosso amado cronista não é versado em Genética, mas tem um punhado de amigos gaúchos com os quais vem aos poucos aprendendo alguma coisa e adorou a leitura, principalmente pela forma como a pesquisa foi relacionada à genealogia da família real da Inglaterra.
          Na verdade, a história daquela ilha velha não é das mais edificantes, recheada de  fratricídios e outras tragédias movidas pela ânsia de poder típica da aristocracia. Mas ninguém que passe algum tempo por lá consegue ficar indiferente às curiosidades daquele povo excêntrico. E, ora vejam, nesse mesmo artigo a Genética, além de bater um recorde ao confirmar a identidade de uma pessoa que se encontrava desaparecida há 527 anos – nem os roteiristas de C.S.I. tinham até agora inventado uma história assim - , ainda nos brindou com a revelação de um adultério.
          Não, senhora, não é gozação. Aqui no telhado de fato mentimos um pouquinho, afinal esse blogue foi criado para escrever ficção. Mas hoje trata-se de pura verdade. A respeitável publicação científica resvalou para o estilo mundano da revista Caras e anunciou para o mundo que houve um bastardo na linhagem real descendente do monarca Eduardo III, que reinou no século XIV e é o trisavô de Ricardo III.
          Os cientistas se valeram de certas regras da Genética. Da mesma forma que a linhagem materna pode ser confirmada pelo exame do DNA das mitocôndrias, que são herdadas sempre da mãe, a linhagem paterna pode ser confirmada pelo exame de uma porção invariante do cromossomo Y, a qual passa sempre de pai para filho homem. Pois não é que, ao comparar as características do DNA de Ricardo III com o DNA correspondente de descendentes da família real, os pesquisadores descobriram que um desses descendentes tem o cromossomo Y diferente dos demais? Pela análise genealógica, os cientistas concluiram que essa alteração é consequência de um evento de falsa paternidade, ocorrido em algum momento ao longo das dezenove gerações que sucederam o rei Eduardo III desde o século XIV.
          Nosso leitor rabugento, sempre alerta, dá de ombros e comenta com seus botões que isso também não é nenhuma novidade, porque a história britânica já registrava que dois outros filhos nascidos fora dos sagrados laços do matrimônio foram legitimados entre os séculos XIV e XVIII. Mas no caso da descoberta atual, o rabo da proverbial porca torce um pouco além do habitual. Pois o já sobejamente celebrado rei Eduardo III teve vários filhos, um dos quais, Edmundo, foi o bisavô de Ricardo III. Mas a fofoca da época era de que Eduardo III sequer estivera presente ao nascimento de outro rebento, chamado John, porque esse não seria seu filho e sim, quem diria, de um açougueiro belga…
          Ah, agora tenho a atenção de todos, né? Pois saibam que, se de fato John não era filho de Eduardo III, então seus descendentes, que constituiram a dinastia Tudor, não teriam direito ao trono britânico! Por mera sorte Elizabeth II, hoje rainha da Inglaterra, é descendente de outro dos filhos de Eduardo III e não do pobre John que, dizem, se enfurecia toda vez que alguém insinuava ser ele um bastardo.
          Isso tudo para mostrar para nossos fiéis leitores que a Genética não só é interessante e útil para a Biologia e a Medicina, mas também pode transformar uma revista com a marca da poderosa Nature em sucedânea de um dos maiores sucessos da imprensa brasileira, os “Mexericos da Candinha”, coluna de fofocas da década de 1950, escrita semanalmente para a Revista do Rádio pelo jornalista Borelli Filho, e que revelou inúmeros esqueletos dos armários das celebridades da época.

Rafael Linden



sábado, 6 de dezembro de 2014

Tom Jobim e a Era da Banalização

          Esta semana completa-se duas décadas da morte de Tom Jobim. O grande compositor criou melodias inesquecíveis, ao aliar sua formação clássica com uma inspiração permanente, inquieta, original, coroada com letras arrebatadoras de parceiros como Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Dolores Duran e outros. Na sua ausência, a música brasileira empobreceu, incapaz de substituir um gênio criativo como o mestre Tom.
          De seu legado impressionam a riqueza melódica, a originalidade e a delicadeza das harmonias. Sua ausência é tanto mais sentida quanto mais nos agride a indigência sonora que por aí anda. O leitor rabugento tem razão quando se tranca na companhia de bem preservadas bolachas pretas e CDs cuidadosamente escolhidos, componentes de sua coleção raramente renovada com lançamentos recentes.
          Estará vosso cronista não cronologicamente, mas também, e pior, metaforicamente velho e intolerante? Esquece-se de que não se pode comparar a contemporaneidade com tempos idos, já depurados do lixo que sempre polui a cultura do presente? Ou haverá, de fato, alguma tendência macabra de banalização da música popular?
          Pois foi isso que um grupo de cientistas de Barcelona, liderados por Joan Serrà resolveu investigar, com ferramentas de processamento de dados e a neutralidade possível. Os pesquisadores usaram uma base de dados de acesso público chamada The million song dataset - “conjunto de dados de um milhão de canções” -, criada por Dan Ellis, da Columbia University. Ellis é um engenheiro e professor, que se dedica a desenvolver métodos de extração automática da informação contida em sons. Nesta base de dados, ele e seus colegas vem codificando informação sobre características do som organizado na forma das melodias de um número enorme de canções populares.
          O grupo catalão publicou na revista Scientific Reports sua análise de mais de quatrocentas mil canções compostas nos últimos cinquenta anos, pela qual concluiu que, embora muitas características musicais tenham permanecido estáveis ao longo de meio século, os dados demonstram matematicamente uma tendência progressiva de rarefação de transições de tons, homogeneização de timbres e aumento da proporção de trechos com volume alto, com o passar do tempo. Em resumo, a música popular ao longo dos últimos cinquenta anos se tornou progressivamente mais simplória e barulhenta. O rabugento já se levanta da poltrona, reclinado na qual ouvia placidamente uma sonata de Mozart interpretada por Claudio Arrau, e vocifera contra a platitude deste achado, ora, pipocas, e precisa de cientista para descobrir o que é óbvio para qualquer um que não seja surdo? Calma, senhor, perceba que não se trata de comparar Beethoven com Michel Teló: foram analisadas quatrocentas mil cancões classificadas como música popular. E não é uma opinião – da qual compartilho com nosso irritadiço e crítico leitor -, e sim uma demonstração isenta, obtida por critérios estatísticos de absoluta neutralidade. Se, ainda assim, o rabugento acha pouco, convido-o a procurar na internet fotos do espanhol Serrà e do inglês Ellis, com o que constatará que não se trata de vetustos anciãos de cara amarrada. Ao contrário, são mancebos que parecem perfeitamente capazes de se esbaldar no fim de semana ao som dos similares locais de beijinhos no ombro…
          Então, tudo indica que há, de fato, um empobrecimento progressivo do conteúdo musical no cancioneiro popular. Mas, pensando bem, essa trivialização não parece ser restrita à música popular. É bem possível que estudos semelhantes ao do grupo de Barcelona encontrem, em outros campos da cultura como a Literatura, Arte Plásticas e até as Ciências, padrões semelhantes de simplificação acompanhados por aumento do volume com que os autores apregoam suas próprias obras. Cada vez se faz mais barulho por menos criatividade e inovação. A cada dia menos se valoriza um Tom Jobim, e mais o objeto de consumo fácil e imediato. Não há (ainda?) provas científicas de que esta tendência seja generalizada, muito menos que esta progressão seja intrinsecamente danosa à história da humanidade. Mas não resta dúvida de que assim se banaliza a cultura, possivelmente a única das criações humanas que não tem contraindicação.   
          Talvez por razões semelhantes, outras coisas também vem se tornando progressivamente triviais. Falta de educação, desonestidades de todos os tamanhos e matizes, agressões verbais ou físicas, assassinatos por motivos fúteis. Entre muitas outras obras, o historiador Eric Hobsbawn publicou livros famosos que retratam períodos sucessivos da história desde a Revolução Francesa, com os títulos padronizados “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos impérios” e “A era dos extremos”. Hobsbawn faleceu em 2012, caso contrário poderia se inspirar na falta que nos faz o Tom Jobim e escrever a continuação da série, agora com o título “A era da banalização”.

Rafael Linden