sábado, 19 de dezembro de 2015

A Ciência Brasileira precisa de apoio

Prezados leitores

Excepcionalmente, este blog abre as portas para um apelo, em nome da comunidade científica do Estado do Rio de Janeiro.

Peço que leiam o texto abaixo e compartilhem com todos que almejam o progresso do país. A aprovação da proposta de emenda à Constituição do RJ, mencionada a seguir, ou outra semelhante em qualquer Estado da Federação, poderá se tornar o estopim para uma longa jornada nacional rumo ao obscurantismo.

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A comunidade científica do Estado do Rio de Janeiro está em alerta, em defesa da Educação, Ciência e Tecnologia no Estado:

Manifesto à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) contra a PEC que reduz o orçamento para educação e pesquisa no RJ:

     Em qualquer país desenvolvido, ciência, tecnologia e educação não são considerados gastos, e sim investimentos. De fato, não existe país que tenha progredido econômica e socialmente sem um forte investimento nestas áreas. O Brasil, embora tenha feito progressos nos últimos anos, ainda investe pouco em comparação com países desenvolvidos ou que estejam passando por rápido desenvolvimento.

     São de domínio público os grandes progressos feitos nos últimos anos na área de Ciência e Tecnologia no Rio de Janeiro, para os quais foi essencial a existência de um dispositivo constitucional que determina a destinação à Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ) de um percentual mínimo de 2% da receita estadual.

    Porém, tramita atualmente na Assembleia Legislativa uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Deputado Edson Albertassi que reduz de 2% para 1% o percentual destinado à FAPERJ. A PEC propõe também a redução de 35% para 25% da receita do estado destinada à educação, além de extinguir o percentual obrigatório de 6% da receita destinado à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) .

     Não se trata de um contingenciamento temporário de recursos, mas da destruição permanente do que já foi conquistado. Essa proposta constituiria um golpe fatal na educação, na ciência e na capacidade tecnológica instalada no Rio de Janeiro, comprometendo de forma irreparável as esperanças de desenvolvimento e de superação da crise.

     Conclamamos os deputados estaduais do Rio de Janeiro a se posicionarem de forma firme contra esse assalto às esperanças de um futuro melhor para o povo fluminense.

https://secure.avaaz.org/po/petition/Assembleia_Legislativa_do_Rio_de_Janeiro_ALERJ_Vete_a_PEC_que_reduz_o_orcamento_para_educacao_e_pesquisa_no_RJ/?tGWqVab


Rafael Linden

domingo, 22 de novembro de 2015

Alice no Mundo das Desmaravilhas

          Do jeito que as coisas andam aqui e alhures, sabe-se lá por quanto tempo ainda haverá o que comemorar, ou oportunidade para tal. Portanto urge celebrar tudo que há de bom, como bem apetece a este humilde cronista. Aniversário de criança, da sogra ou de formatura, prêmio da loteria ou distinção profissional de amigos, gol de placa no último minuto ou cesta do meio da quadra, sol de verão ou aquele friozinho ameno que emoldura um vinho esperto, vale tudo antes que banhos de sangue, de lama ou de cinismo acabem de vez com nossa combalida espécie.
          Então, ainda é tempo de comemorar o aniversário da Alice. Qual delas, minha senhora? Aquela que, um belo dia há cento e cinquenta anos, deu de escorregar por um buraco atrás de um coelho branco que, às carreiras, consultava um relógio de algibeira e confirmava estar atrasado. Criada pelo matemático Charles Dodgson, foi resultado de um passeio de barco com o reverendo Robinson Duckworth, quando ambos trouxeram de volta de um piquenique as filhas do Decano de um dos Colleges de Oxford. Ao longo do passeio uma delas, Alice, ficou encantada com uma história contada por Dodgson e lhe pediu que a escrevesse. O autor, que adotou o pseudônimo literário “Lewis Carroll”, publicou a história com ilustrações do artista John Tenniell, pela primeira vez, em Julho de 1865.
          Quem não leu não sabe o que está perdendo. Obras primas de nonsense, “As aventuras de Alice no país das maravilhas” e a sequela “Alice através do espelho e o que ela encontrou lá” vem desde então encantando crianças e adultos, particularmente os bem-humorados. Prova é que o leitor rabugento não gostou na infância, continua não gostando e, ora essa, não é ranheta à toa. Muitos continuam a reler, descobrindo pitadas de humor antes despercebidas entremeadas no texto e, volta e meia, revendo a escolha de sua passagem predileta.
          Há os que adoram o “desaniversário”, data adequada para ganhar um presente em qualquer dos trezentos e sessenta e quatro dias do ano em que não se comemora o aniversário propriamente dito; outros se identificam com a passagem em que Alice diz não querer andar com loucos, o gato de Cheshire responde que é inevitável pois todos somos loucos, a menina pergunta como ele sabe que ela o é, ao que o gato retruca que, se não fosse, não estaria ali. Cá no telhado este que vos dedica esta crônica, depois de repetidas leituras ao longo de décadas, ainda prefere o diálogo:

            “-Não posso acreditar nisso!” - disse Alice.
            -“Não pode?” - disse a Rainha com tom de voz penalizado. “-Tente outra vez:
            respire profundamente e feche os olhos.”
            Alice riu. “-Não adianta fazer isso.” - disse ela - “Ninguém pode acreditar em
            coisas impossíveis.”
             “-Eu diria que você nunca praticou bastante.” - disse a Rainha - “-Quando eu
            tinha a sua idade praticava sempre meia hora por dia. Às vezes me acontecia
            acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

          Quem tem na memória outra passagem predileta é bem-vindo a escreve-la na seção de comentários. Não, senhora, não é uma enquete nem haverá prêmios, infelizmente a crise impede que este espaço distribua outras benesses que não nossas mal-traçadas linhas.
          A triste ironia deste aniversário é que o passeio de barco do genial Lewis Carroll com o Reverendo e as crianças foi feito ao longo do trecho do rio Tâmisa que passa pela cidade de Oxford e que, naquele lugar, é chamado de Isis. É consternador o contraste entre homônimos tão distintos.
          Mas, entre as coisas impossíveis em que cada um de nós deve acreditar antes do desjejum, quem sabe não cabe uma ou outra utopia, como bom senso na capital federal, respeito pelo entorno e pelos outros em tantas partes do país e do planeta, e paz por aí afora…
          Feliz Aniversário. E felizes todos os Desaniversários, Alice.


Rafael Linden


sábado, 14 de novembro de 2015

A crônica de ontem


sábado, 7 de novembro de 2015

Ouro em tela



          A viagem teria sido em vão, não fosse pela imagem de um beijo apaixonado numa tarde de outono na Áustria.
***
          Fiz de tudo para superar o abandono. Tentei o álcool, mas não bebia há anos e sucumbi à náusea sem aliviar a tristeza. Os amigos me empurravam belas solteiras, mas em cada uma delas havia Milena. Mergulhei no trabalho, porém minha obsessão atrapalhou os resultados, a ponto de me valer uma repreensão do diretor. Sugeriu-me tirar férias. De nada adiantou argumentar, era mera formalidade. Eu que saísse por um tempo, até esfriar a cabeça e voltar ao normal. Ou rua.
          Vi-me disponível em tempo integral para a saudade, a depressão, o luto pelo amor perdido. Tudo na casa me lembra Milena. Resolvo viajar, mas os destinos mais óbvios estão fora de questão, pois lá estivemos juntos nos nossos melhores momentos. Para onde?
          Viena. A amplidão dos espaços me faz bem, sinto-me menos oprimido pela memória, respiro o ar fresco do início de outono. Minha primeira noite termina no lendário Fledermaus, mas em pouco tempo deixo o cabaret e volto ao hotel.
          Acho que não vai adiantar, voltarei no estado exato em que me encontrava.
***
          No dia seguinte passeio pela cidade e, à tarde, um ônibus me leva ao Belvedere. Os belos prédios impressionam pelo significado e pela placidez. Caminho pelos jardins, sento-me por pouco tempo à beira do lago em frente ao Palácio Superior. Entro no prédio para visitar os salões e as galerias de arte.
          Deslumbro-me com a arquitetura, as colunas esculpidas do saguão, a ornamentação, a vista da varanda do segundo andar, a capela. É minha primeira chance de ver de perto as obras da Secessão Vienense. Chego à sala que abriga os quadros de Klimt. Ao fundo está “O beijo”, sua tela mais conhecida, um casal prestes a unir-se em um beijo apaixonado. Jamais encontrei quem sugerisse que os amantes se afastam. Todos querem que o beijo esteja por acontecer e não pertença apenas ao passado. Quase nada se vê de seus corpos, apoiados sobre um leito de flores e envoltos em mantos, que dominam a pintura com seu brilho fúlvido. As figuras humanas traem uma sensualidade latente, enigmática.
          Meu olhar se desvia para uma jovem de pé, com os olhos fixos na obra. Tem pouco mais de vinte anos, veste jeans e camiseta, o corpo esguio sobressai no despojamento. Linda, cabelos avermelhados, olhos azuis, mas o semblante é triste. De repente, volta-se para mim e percebo o brilho úmido de uma lágrima entre as sardas de sua face. Ela baixa os olhos e sai depressa.
          Volto ao quadro. Tantas vezes o vi em cartões postais, revistas, jornais, pela Internet, mas nada se compara ao impacto ao vivo, numa sala dedicada ao autor, no país de origem. Cedo à hipnose, troco de lugar com o homem na tela, afago com ardor o rosto da mulher que, lânguida, cerra os olhos e me oferece seus lábios pintados de um vermelho suave, amoroso. Somos dois corpos envoltos em ouro.
          Aos poucos, a imagem se liquefaz em um painel desfocado, trêmulo. Choro em silêncio. Afasto-me, enxugo os olhos na manga da camisa e, apressado, retorno ao hotel. Mal toco no jantar. Não consigo deixar de pensar no quadro, mas sobretudo na moça e na lágrima solitária que decorou sua face. Sei que só a fuga rápida evitou que sua visão embaçasse com mais do que uma lágrima. Cismo que trocou de lugar com a mulher e se perdeu no manto dourado, imaginando-se beijada pelo amante que a terá abandonado. Somos os dois lados da imagem. Preciso voltar ao Belvedere.
***
          Na manhã seguinte, mal se abrem as galerias vou direto ao salão das obras de Klimt. Sequer me surpreende ver a silhueta da jovem. Lá está ela, mirando o quadro. Aproximo-me com cuidado. Ela não parece notar e permanece diante do beijo dourado, até que se volta momentaneamente para mim e sai. Desta vez, porém, o brilho das lágrimas é mais intenso e toma-lhe ambas as faces. Ela também dissolveu o ouro.
          Agora só, volto à tela. Hoje a vejo mais clara, não mais do que uma lágrima rola de meus olhos. Continuo fascinado e intriga-me a jovem ruiva, a coincidência de nossas visitas à galeria, a semelhança de nossas reações.
          Na minha mente o homem sou eu e a mulher se parece com ela, mas seu rosto não tem a nitidez do restante da pintura. Outra noite em claro, ansioso por mais um momento na companhia daquela moça.
***
          Desta vez chego ao meio dia e lá está ela, olhos fixos na pintura. Já não faço questão de ser discreto e aproximo-me sem evitar que ouça meus passos. Ela não se importa. Mal presto atenção à imagem, ansioso por ver seu rosto, contar suas lágrimas, compará-las com as que derramarei ao fundir minha vida com a dos personagens do beijo.
          A jovem, afinal, volta-se para mim. Seu semblante é sereno. O azul de seus olhos aos poucos se ilumina, como numa epifania, e um discreto sorriso se insinua no canto da boca. Tenso, espero. Ela rodopia com graça, anda devagar remexendo na bolsa, pega um telefone celular e sai discando nervosamente um número no aparelho.
          Desconcertado, volto-me para o quadro. Novamente o homem sou eu, mas a mulher é indistinta. Desço as escadas correndo. Ao longe vejo a jovem ruiva, sentada à beira do lago, falando ao celular. Advinho suas palavras.
***
          Ansioso, peço para o motorista do taxi levar-me ao hotel o mais rápido possível, é uma emergência! Abro a porta do quarto, ainda de pé inclino a cabeça e pego o telefone com as duas mãos, assim como o homem envolve o rosto de sua amada no beijo dourado.
          Ligo para Milena.

Rafael Linden




sábado, 17 de outubro de 2015

Ovos coloridos

          Cultura pouca é bobagem, não é mesmo? E é por isso que a querida leitora sempre dedica alguns minutos de seu preciosíssimo tempo a deleitar-se com a falsa sabedoria deste delirante cronista. Pois hoje nosso cantinho de alumbramento se volta para um assunto palpitante: a cor dos ovos. E, antes que nos atirem o chiste às fuças, saibam que não se trata “daquilo”, embora um ovo de galinha vez por outra se apresente roxo.
          Ah, o Botequim do Seu Antenor lá em Sorocaba, não é mesmo? Como, minha senhora, nunca foi? Nem eu, mas tem até uma página na internet. Só não sei se lá tem ovo colorido. Se não tiver é bistrô, porque botequim de macho tem mesmo é pastel que matou o guarda, sardinha frita e ovo colorido. Em geral cor-de-rosa, cozido num caldo de beterraba ou, sei lá, minha mãe temia que a cozinheira do boteco pintasse a casca com anilinas tóxicas e, desde cedo, alertou-me para o risco dos ovos cozidos por outrem.
          E tome polêmica sobre ovos brancos e amarronzados à venda na quitanda do Seu Alfredo, outrora instalada na Rua Real Grandeza, num casario que já há muito foi abaixo para dar lugar à expansão do quartel do segundo batalhão da Polícia Militar. Esse ou aquele ovo é mais nutritivo, diziam alguns; que nada, são postos por galinhas de cores diferentes, retrucavam outros. Inquirido sobre o assunto, Seu Alfredo, sempre de mau humor, perguntava se algum de nós viera a comprar ovos, caso contrário que parassem de encher a paciência e fossem todos para o raio que os parta!
          Pois trata-se de genética. Cada cepa de galinha produz ovos de cor característica, embora algumas ponham ovos de cores variadas. Não, minha senhora, não tem “Costa Chic”, nem “Pink Nouveau”, nem “Ruby Woo”, porque ovo não é batom da MAC. Mas tem várias tonalidades entre branco e amarronzado, e até ovo azul. Especialistas explicam que certos pigmentos são secretados no oviduto das galinhas e dão cor aos ovos. Há até uma empresa no Rio Grande do Sul que, há mais de vinte anos, se dedica a selecionar poedeiras e conseguiu que quase todos os ovos saiam azulados.  Mas, acredite, os ovos cor-de-rosa de botequim não foram postos por galinhas sofisticadas, frequentadoras de clínicas estéticas, cabeleireiros chiques e academias de ginástica de alto padrão. Foram coloridos na marra mesmo.
          E para que serve ovo colorido? Na indústria alimentícia, a explicação é a mesma que serve para qualquer produto: cor é chamariz para venda. Já em blogues pouco recomendáveis, diz-se que ovo colorido serve para os frequentadores contumazes dos botequins diferenciarem a casca do resto, quando estiverem bêbados no fim da noite. Mas há outras utilidades. O rabugento achou que não chegaríamos lá? Enganou-se, pois aí vai um pouquinho de Ciência.
          Acontece que entomologistas também se interessam por cores de ovos, em especial ovos de insetos. E Paul Abram, estudante de doutorado da Universidade de Montréal, junto com uma equipe de pesquisadores liderada por seu orientador Jacques Brodeur, fizeram uma descoberta inédita - que as fêmeas de um percevejo fedorento, comum na América do Norte e chamado oficialmente Podisus maculiventris, são capazes de regular a cor dos ovos que põem, dependendo do lado da folha escolhido para a oviposição. Quando os ovos são postos na face da folha voltada para a luz solar, eles são marrons ou pretos, já quando na face inferior, na sombra, os ovos são amarelinhos. Os percevejos ainda reproduziram, no laboratório, esse padrão de coloração nos ovos postos em placas de plástico pintadas de preto ou de branco. Uma série de testes revelou que, embora os ovos escuros sejam mais resistentes à radiação ultravioleta, as percevejas reagem à iluminação relativa dos locais de oviposição. Bacaninha, né? Um comportamento complexo, que envolve reconhecimento da distribuição relativa de luz e controle da pigmentação dos ovos, tudo isso da parte de um inseto que, cá pelas nossas bandas, é às vezes chamado de “percevejo fede-fede predador”. Imaginem se o bicho fosse cheiroso, seria capaz de botar ovos Fabergé…
          Então, embora alguns de nossos amáveis leitores estejam à espera de alguma consideração sobre a milenar arte da pintura de ovos de Páscoa, ficamos por aqui mesmo. Afinal, a crônica já passeou por culinária de botequim, histórias da infância do cronista, genética de galinhas, estratégias industriais e, finalmente, desembocou na Biologia de percevejos. Tá de bom tamanho, né?

Rafael Linden