sábado, 31 de janeiro de 2015

De volta para o futuro

          Padecendo de uma certa azia que nos dá ao assistir ao noticiário, costumamos relaxar pensando besteira e, ocasionalmente, ruminando informações insólitas. Não nos falta assunto, já que os próprios jornalistas se aborrecem de tanto propalar a violência e a canalhice que se alternam nos dias de hoje, e encaram acontecimentos mais amenos. É o caso das cápsulas do tempo.
          São recipientes que cidadãos das mais variadas estirpes resolvem encher do que consideram representativo de seu tempo, fechá-los hermeticamente e entrerrá-los em algum lugar. Pretendem assim comunicar-se com as gerações futuras, antevendo que, na data marcada para o descerramento, quem as abrir terá o privilégio, ou desgosto, de observar lembranças da época de fabricação das cápsulas. Pretendem contribuir para a História ou, meramente, exercitar uma certa futilidade – um tipo de selfie temporal.
          Volta e meia há um certo frisson neste campo. Recentemente, foi aberta uma cápsula datada de 1795, originalmente produzida em chumbo por dois personagens da guerra da independência norte-americana. O recipiente já tinha sido aberto e sofrido uma reforma sessenta anos depois de construído, quando foi substituído por outro de bronze, e no qual foram adicionados alguns itens. A abertura solene foi no Museu de Arte de Boston, depois que um especialista em conservação levou, ao que se diz, cinco horas apenas para desatarrachar os parafusos da tampa.
          Lá dentro estavam jornais, moedas, documentos diversos e até uma placa comemorativa da inauguração do palácio do governo de Massachusetts. Não deixa de ser um adendo às coleções de artefatos históricos que se encontra nos museus mundo afora, mas alguns historiadores torcem o nariz para a trivialidade do conteúdo destas coisas. É mesmo uma lástima que os primeiros hominídeos não tivessem se dado conta da importância de produzir cápsulas do tempo, que nos permitissem apreciar exemplares dos utensílios, jornais e revistas da época…
          Outro método curioso de comunicação, de que a gentil leitora certamente já terá ouvido falar, é a mensagem na garrafa. Da mesa de bar às histórias em quadrinhos, é frequente topar com piadinhas sobre náufragos solitários que, em desespero, atiram ao mar garrafas convenientemente arrolhadas com um bilhete no seu interior, na esperança de se comunicar com a civilização, em geral para serem resgatados. Não acredito que jamais tenha funcionado de fato e, cá pra nós, quantos náufragos solitários perdidos em ilhas desertas terão à mão uma garrafa, papel, lápis e, acima de tudo, uma rolha?
          Ainda assim, volta e meia se acha garrafas com mensagens. Ainda há pouco foram encontradas duas lançadas ao mar há cerca de cem anos. Uma delas continha um bilhete pedindo devolução à agência de correios mais próxima, pois tratava-se de um dos quase dois mil artefatos iguais despejados em 1914 pela Marinha escocesa, com o intuito de mapear correntes marítimas com base nos locais e datas de encontro das garrafas.
          Menos nerd e mais poética foi a outra, lançada em 1913 no mar Báltico por um andarilho alemão de férias na Dinamarca. Esta continha uma cartinha pedindo devolução a um endereço em Berlim, a partir do qual investigadores conseguiram localizar a neta do turista e confirmar a autoria, comparando a escrita na mensagem com cartas arquivadas pela família. Agora tentam decifrar o resto do bilhete, que deteriorou com o tempo.
          Não duvido que cápsulas do tempo venham a se tornar respeitadas pelos historiadores. Afinal, consta que algumas estão programadas para abertura daqui a vários milênios, antes de mais nada uma demonstração impressionante de fé. Pois os encapsuladores confiam que o conteúdo resistirá a este tempo todo em meio ao apodrecimento progressivo de nosso sofrido planeta. E que gravações, DVDs e outra mídias ainda serão decodificadas pelos equipamentos do futuro, quando hoje em dia já é preciso comprar um computador novo para atualizar o editor de texto. Mas o cúmulo do otimismo é acreditar que as gerações futuras ainda terão algum interesse na nossa época.
          Enquanto isso, cá no telhado procuramos apreciar cápsulas do tempo que se nos aparecem espontaneamente. Basta prestar atenção. Um canal de TV a cabo acaba de passar toda a coleção dos filmes do 007, desde Sean Connery até Daniel Craig. É uma delícia apreciar a evolução das concepções de elegância, humor, suprema bandidagem e alta tecnologia, esta última estampada nas engenhocas criadas por “Q”, interpretado ao longo dos anos pelo incomparável Desmond Llewelyn, pelo hilariante John Cleese e pelo novato Ben Whishaw. Coisa do tempo em que “licença para matar” era prerrogativa dos agentes “00”, e não hábito de celerados que acertam ou erram tiros por aí afora.
          Também passou uma reprise de “A última sessão de cinema”, um dos filmes que marcaram minha geração, com a saga de jovens que testemunham a decadência de sua pequena cidade e, aos poucos, vão perdendo a confiança no futuro. Uma alegoria para tempos modernos que, de vez em quando, parecem bater à nossa porta. Sem falar, é claro, na estréia avassaladora – queiram perdoar – da estonteante Cybill Shepherd que, na época do filme, celebrava junto com o cronista os mesmos vinte anos de idade.
          Ou então, graças às infalíveis ferramentas de busca da Internet, pode-se assistir ao lançamento espetacular de umas das canções icônicas da banda inglesa The Police, em 1979, na Escola Politécnica que veio a se tornar a Universidade de Hertfordshire. Na voz de Sting, ouve-se no vídeo a letra “…vou enviar um S.O.S. ao mundo…espero que alguém encontre minha…”, ora vejam, “…mensagem numa garrafa…”. Quem precisa de cápsulas do tempo?


Rafael Linden



sábado, 24 de janeiro de 2015

Herança maldita

          Ah, o calor do verão que chega junto com as festas de fim de ano, desespero, dieta braba, malhação, a última rabanada que sai pelo lado do biquini, e o pior é aquela sirigaita que vemos entrando na churrascaria, magra feito um varapau, e do jeito que ela saracoteia não é doença, é praga que nos rogaram no segundo grau e pegou para a vida toda, ora, minha senhora, essa lenga-lenga por causa de um quilinho a mais ofende quem calcula perda de peso em arrobas. Será o Benedito? Ou será a Genética? Afinal, muita gente na família da querida leitora vive de dieta. Isso sim é herança maldita.
          Pois saiu, na prestigiosa revisa da Academia Americana de Ciências, um artigo interessantíssimo publicado pelo cientista James Rosenquist, do Massachusetts General Hospital, sobre um gene conhecido por sua associação com obesidade. O gene é chamado FTO, abreviatura no inglês para “associado com obesidade e massa de gordura”. Quem herda dos pais uma variante específica deste gene em geral é mais gordo do que os outros e tem cinquenta por cento a mais de chance de se tornar obeso. Boa desculpa, né? – É por causa do FTO, garçom, traz mais uma porção de linguiça!
          Mas isso não é novidade, são vários os estudos que demonstram a correlação entre a tal variante e o chamado índice de massa corporal, o qual indica o quanto o cidadão vem exagerando no torresmo, no joelho de porco e no quindim. A grande sacada do Rosenquist foi desenvolver um método estatístico para estudar a influência do gene FTO sobre esse índice ao longo da história recente. Não em função da idade de cada indivíduo, coisa já sabida, mas ao longo dos últimos trinta anos. O cálculo estatístico é bem mais cabeludo do que temos competência para analisar, mas damo-nos provisoriamente como satisfeitos porque o método foi examinado e chancelado por um dos mais importantes especialistas americanos em estatística demográfica, chamado Kenneth Wachter que, a julgar pelos cinco meses decorridos entre a submissão e a aceitação do texto, exigiu um trabalhão adicional dos autores, até se dar por satisfeito e recomendar a publicação do artigo.
          A equipe do Doutor Rosenquist examinou a base de dados de um projeto chamado Framingham Heart Study que vem, desde 1948, coletando dados de sucessivas gerações de moradores da cidade de Framingham, nos Estados Unidos, e cuja análise já resultou em várias descobertas importantes sobre fatores de risco para doenças do coração e outras moléstias. Com o novo método, verificou-se que a associação do gene FTO com a obesidade só começou a aparecer em pessoas nascidas a partir de 1942. De alguma forma, gerações anteriores escaparam da maldição e, mesmo tendo no seu genoma a tal variante perigosa, não apresentaram risco de obesidade maior do que os outros. E mais, o efeito do FTO vem aumentando progressivamente nas gerações mais novas.
          O rabugento parou de mastigar seus salgadinhos e grita que qualquer um sabe que a epidemia mundial de obesidade está aumentando por culpa do maldito sedentarismo causado pelas engenhocas modernas que poupam a atividade física, acompanhado das comidas industrializadas gordurosas, da correria que nos obriga a se deslocar de carro, de taxi ou de metrô em vez de caminhar uns poucos quarteirões, da falta de chuva, do capeta e do Felipão, nesta ordem. Terminado o discurso, retoma a mastigação. Constatando que ele se acalmou, atrevemo-nos a acrescentar que a questão não é se a obesidade está mais comum, e sim o papel da Genética neste aspecto particular da saúde humana. E, depois de mais alguns salgadinhos, talvez o chato nos permita observar que tudo o que ele disse é provável, mas não está cientificamente provado.
          O fato é que as relações entre a obesidade e seus presumíveis fatores de risco fazem parte de um universo complexo da Medicina, que lida com a interação dos genes e dos fatores ambientais, interação essa que, diga-se de passagem, está presente em tudo. Exemplos extremos, como certas doenças que são causadas por mutações em um único gene, são contrabalançados pela chamada penetrância, uma espécie de medida do quanto um determinado gene manifesta seus efeitos na população, como ocorreu com o efeito do FTO sobre a obesidade ao longo das últimas décadas. Mas há mais sobre o assunto.
          Por exemplo, é senso comum que a inatividade leva à obesidade. Todos concordam que quanto menos um indivíduo se mexe, caminha, faz exercício, corre, pula, rebola ou sapateia, mais engorda, certo? É, eu também tinha essa certeza até ler trabalhos de cientistas sérios que resolveram testar empiricamente, afinal, quem é a galinha e quem é o ovo, e mostraram evidências, tanto em crianças quanto em adultos, de que a correlação entre inatividade e obesidade parece ser ao contrário do que se pensa. Ou seja, de acordo com estas análises a obesidade definitivamente leva à inatividade, mas os resultados não corroboram o senso comum de que a inatividade seja o fator determinante da obesidade. Agora sim, o rabugento gostou e refestelou-se na chaise longue, achando-se isento da culpa que o atormentava por não fazer exercício.
          Mas, alto lá, não nos acusem de inculcar idéias de jerico na cabeça de ninguém! Dieta balanceada, variada e saudável e exercício físico regular e moderado fazem bem à saúde de mais formas que se pode imaginar à primeira vista e, se bem calculados, ajudam a emagrecer sem efeitos colaterais. A crônica de hoje serve apenas para alertar todos os que desperdiçam seu precioso tempo lendo estas mal traçadas linhas, que não faz bem à saúde de ninguém aderir cegamente a dogmas empolados, muito menos a conselhos genéricos espalhados pela midia sensacionalista ou pela fofoqueira do prédio da esquina, porque saúde e seus desvios são assuntos pra lá de complexos. Vosso cronista predileto, embora já – e tardiamente – tenha se tornado adepto de refeições cada vez mais magras e exercícios regulares moderados declara-se, oficialmente e com firma reconhecida, ainda gordo e cada vez mais confuso. Pois desde a obesidade mórbida até aquele minúsculo pneuzinho de bicicleta infantil, que tanto incomoda a formosa senhorita ávida por selfies com os bonitões da praia, a coisa é mais complicada do que parece. É assunto para profissionais.

Rafael Linden



sábado, 10 de janeiro de 2015

O espertofone, o dedão e a evolução

          Assustar-se-á a gentil leitora que, embevecida, nos lê na tela do espertofone enquanto come uma saudável salada de frutas antes de voltar para seu escritório. Não carece, mesmo porque nada há a fazer. Mas convém dar-se conta de que seu cérebro está, literalmente, se deformando pelo hábito de usar o celular para interagir com seus oitocentos e quarenta amigos do fêice e responder de imediato às dezenas de uótisápes que outros tantos lhe enviam diariamente.
          Na verdade, sabe-se há tempos que movimentos treinados repetidamente, como os que fazem músicos ou atletas, modificam o mapa de representação corporal no cérebro. Se já não sabia, caro leitor, fique sabendo que existem tais mapas das diversas partes do corpo humano – sim, sim, daquelas também - em várias áreas do córtex cerebral. Muitíssimos neurônios cerebrais tem sua atividade associada a sensações ou movimentos de partes específicas, como o braço direito, a perna esquerda, ou o dedo mindinho. Além disso, há mais de vinte anos, pesquisadores de vários países mostraram, por exemplo, que violinistas tem um volume maior do cérebro ocupado pela representação de sensações na ponta dos dedos, enquanto jogadores de futebol americano e de tenis tem uma parcela maior do cérebro dedicada a representar, respectivamente, pernas e braços, quando comparados a quem não pratica música ou esportes.
          Não apenas o rabugento, mas os próprios pesquisadores pensaram na alternativa de que são as pessoas que se tornam músicos ou atletas como consequência de facilidades oferecidas desde a infância por essa proporção extra de cérebro adequada para aquelas atividades. Porém, experimentos controlados, assim como evidências de que os sucessivos anos de treinamento contribuem diretamente para as mudanças, indicam que o cérebro humano se adapta às exigências de atividades sofisticadas altamente treinadas.
          Sabendo disso e, possivelmente, enfurecido com o tempo que sua namorada gastava batucando na tela do espertofone em vez de retribuir sua insana paixão, o jovem pesquisador indiano Arko Gosh, do Instituto de Tecnologia de Zurich, na Suiça, resolveu testar se a mania de sua amada teria consequências para a organização funcional do cérebro. Para evitar bronca de Ministro dispenso o anglicismo spoiler e peço vênia pelo “estraga-prazeres”: tem consequências, sim.
          Gosh e seus colaboradores usaram técnicas de eletroencefalografia para registrar sinais cerebrais provocados por leve estimulação mecânica do polegar, do indicador e do dedo médio da mão direita de voluntários que pertenciam a dois grupos distintos: um de usuários contumazes de espertofones com tela sensível ao toque (touchscreen), e outro de donos de celulares “mais ou menos espertos”, com teclado de verdade (chamado teclado QWERTY, ou teclado físico). A idéia foi comparar entre esses grupos o mapa, na superfície do cérebro, da região que responde ao toque sutil de cada um daqueles dedos.
          Os resultados foram bacaninhas. Bastam dez dias de uso intenso de touchscreen para o cérebro reagir com um aumento da atividade e do volume de tecido nervoso ativado pelos toques no polegar, no indicador e, bem menos, no dedo médio, quando comparados aos usuários de celulares com teclas de verdade. E o aumento do volume cerebral que responde ao polegar era tanto maior quanto maior o uso, o qual foi estimado através de um aplicativo de carga da bateria do aparelho. Em outras palavras, escrever mensagens de texto no celular é uma verdadeira mistura de “arte” e “atletismo” do dedão, inclusive no que se refere ao cérebro. A diferença com os teclados verdadeiros provavelmente reside na sutileza dos toques na tela, que exigem mais habilidade do que tamborilar nas teclas de plástico. E o dedo indicador entra na parada por conta de movimentos compensadores para manter o celular firme na mão enquanto se tecla com o dedão.
          Sei lá se é bom ou ruim. Caso o leitor acredite que caminhamos inexoravelmente para uma era na qual nossas atividades serão totalmente mediadas por espertofones, essa reorganização funcional do cérebro deve ajudar. Por outro lado, mudanças produzidas por atividades repetitivas podem driblar os benefícios e, além das conhecidas lesões de esforço repetitivo, podem eventualmente interferir em outras funções motoras. Por exemplo, um virtuoso do violão não pode se dar ao luxo de beneficiar o polegar em detrimento de áreas do cérebro dedicadas aos demais dedos das mãos.
          Mas, cá pra nós, um dos maiores encantos da crônica é a licença oficial para a pilhéria. É consensual o reconhecimento do bem que a oposição do polegar aos outros dedos da mão ofereceu aos hominídeos, facilitando o uso de ferramentas com vantagens evolutivas principalmente para nós, humanos. Pois estou certo de que, ao final de uma ceia pantagruélica, não haverá quem resista à idéia de que a oposição do polegar foi, na verdade, invenção de um primata primitivo, precursor de nossa espécie, cujo nome científico era Steve Jobs.

Rafael Linden