sábado, 24 de janeiro de 2015

Herança maldita

          Ah, o calor do verão que chega junto com as festas de fim de ano, desespero, dieta braba, malhação, a última rabanada que sai pelo lado do biquini, e o pior é aquela sirigaita que vemos entrando na churrascaria, magra feito um varapau, e do jeito que ela saracoteia não é doença, é praga que nos rogaram no segundo grau e pegou para a vida toda, ora, minha senhora, essa lenga-lenga por causa de um quilinho a mais ofende quem calcula perda de peso em arrobas. Será o Benedito? Ou será a Genética? Afinal, muita gente na família da querida leitora vive de dieta. Isso sim é herança maldita.
          Pois saiu, na prestigiosa revisa da Academia Americana de Ciências, um artigo interessantíssimo publicado pelo cientista James Rosenquist, do Massachusetts General Hospital, sobre um gene conhecido por sua associação com obesidade. O gene é chamado FTO, abreviatura no inglês para “associado com obesidade e massa de gordura”. Quem herda dos pais uma variante específica deste gene em geral é mais gordo do que os outros e tem cinquenta por cento a mais de chance de se tornar obeso. Boa desculpa, né? – É por causa do FTO, garçom, traz mais uma porção de linguiça!
          Mas isso não é novidade, são vários os estudos que demonstram a correlação entre a tal variante e o chamado índice de massa corporal, o qual indica o quanto o cidadão vem exagerando no torresmo, no joelho de porco e no quindim. A grande sacada do Rosenquist foi desenvolver um método estatístico para estudar a influência do gene FTO sobre esse índice ao longo da história recente. Não em função da idade de cada indivíduo, coisa já sabida, mas ao longo dos últimos trinta anos. O cálculo estatístico é bem mais cabeludo do que temos competência para analisar, mas damo-nos provisoriamente como satisfeitos porque o método foi examinado e chancelado por um dos mais importantes especialistas americanos em estatística demográfica, chamado Kenneth Wachter que, a julgar pelos cinco meses decorridos entre a submissão e a aceitação do texto, exigiu um trabalhão adicional dos autores, até se dar por satisfeito e recomendar a publicação do artigo.
          A equipe do Doutor Rosenquist examinou a base de dados de um projeto chamado Framingham Heart Study que vem, desde 1948, coletando dados de sucessivas gerações de moradores da cidade de Framingham, nos Estados Unidos, e cuja análise já resultou em várias descobertas importantes sobre fatores de risco para doenças do coração e outras moléstias. Com o novo método, verificou-se que a associação do gene FTO com a obesidade só começou a aparecer em pessoas nascidas a partir de 1942. De alguma forma, gerações anteriores escaparam da maldição e, mesmo tendo no seu genoma a tal variante perigosa, não apresentaram risco de obesidade maior do que os outros. E mais, o efeito do FTO vem aumentando progressivamente nas gerações mais novas.
          O rabugento parou de mastigar seus salgadinhos e grita que qualquer um sabe que a epidemia mundial de obesidade está aumentando por culpa do maldito sedentarismo causado pelas engenhocas modernas que poupam a atividade física, acompanhado das comidas industrializadas gordurosas, da correria que nos obriga a se deslocar de carro, de taxi ou de metrô em vez de caminhar uns poucos quarteirões, da falta de chuva, do capeta e do Felipão, nesta ordem. Terminado o discurso, retoma a mastigação. Constatando que ele se acalmou, atrevemo-nos a acrescentar que a questão não é se a obesidade está mais comum, e sim o papel da Genética neste aspecto particular da saúde humana. E, depois de mais alguns salgadinhos, talvez o chato nos permita observar que tudo o que ele disse é provável, mas não está cientificamente provado.
          O fato é que as relações entre a obesidade e seus presumíveis fatores de risco fazem parte de um universo complexo da Medicina, que lida com a interação dos genes e dos fatores ambientais, interação essa que, diga-se de passagem, está presente em tudo. Exemplos extremos, como certas doenças que são causadas por mutações em um único gene, são contrabalançados pela chamada penetrância, uma espécie de medida do quanto um determinado gene manifesta seus efeitos na população, como ocorreu com o efeito do FTO sobre a obesidade ao longo das últimas décadas. Mas há mais sobre o assunto.
          Por exemplo, é senso comum que a inatividade leva à obesidade. Todos concordam que quanto menos um indivíduo se mexe, caminha, faz exercício, corre, pula, rebola ou sapateia, mais engorda, certo? É, eu também tinha essa certeza até ler trabalhos de cientistas sérios que resolveram testar empiricamente, afinal, quem é a galinha e quem é o ovo, e mostraram evidências, tanto em crianças quanto em adultos, de que a correlação entre inatividade e obesidade parece ser ao contrário do que se pensa. Ou seja, de acordo com estas análises a obesidade definitivamente leva à inatividade, mas os resultados não corroboram o senso comum de que a inatividade seja o fator determinante da obesidade. Agora sim, o rabugento gostou e refestelou-se na chaise longue, achando-se isento da culpa que o atormentava por não fazer exercício.
          Mas, alto lá, não nos acusem de inculcar idéias de jerico na cabeça de ninguém! Dieta balanceada, variada e saudável e exercício físico regular e moderado fazem bem à saúde de mais formas que se pode imaginar à primeira vista e, se bem calculados, ajudam a emagrecer sem efeitos colaterais. A crônica de hoje serve apenas para alertar todos os que desperdiçam seu precioso tempo lendo estas mal traçadas linhas, que não faz bem à saúde de ninguém aderir cegamente a dogmas empolados, muito menos a conselhos genéricos espalhados pela midia sensacionalista ou pela fofoqueira do prédio da esquina, porque saúde e seus desvios são assuntos pra lá de complexos. Vosso cronista predileto, embora já – e tardiamente – tenha se tornado adepto de refeições cada vez mais magras e exercícios regulares moderados declara-se, oficialmente e com firma reconhecida, ainda gordo e cada vez mais confuso. Pois desde a obesidade mórbida até aquele minúsculo pneuzinho de bicicleta infantil, que tanto incomoda a formosa senhorita ávida por selfies com os bonitões da praia, a coisa é mais complicada do que parece. É assunto para profissionais.

Rafael Linden



13 comentários:

  1. Eu concordo... muito complicada.. e com a idade fica mais complicada ainda.

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  2. Ufa! Que alívio Rafa. Finalmente uma explicação para meus pneusinhos.....bjs, Nora

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  3. A coisa é bem mais complexa do que imaginava...

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  4. vou clicar no seu banner pra vc ganhar uns dolares :D

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  5. Ótima crônica! Simplesmente fantástica. De fato o senso comum é um lugar perigoso para ficar. Qualquer questão que envolva interação gene/ambiente é realmente complexa.
    Gostaria de aproveitar para divulgar meu blog: mitocondriasnomingau.blogspot.com . Adoraria te ver por lá Rafael!!

    Obrigado!
    Eduardo Padilha

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  6. Oi como está? só estou passando para lembrar que seu blog ainda é muito bem vindo lá no Turbonauta , o novo agregador de links do Portal Teia​, te espero lá hem!!! Até mais

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