sábado, 14 de março de 2015

Pinto conta sim, senhora


          Depois que, em pleno domingo de Carnaval, observamos o locutor de um noticiário de televisão perder o rebolado quando foi ao ar uma reportagem sobre um concurso de beijo no Peru, a madame, ruborizada, acha que seu cronista predileto perdeu a compostura. Ledo engano. O Peru, no caso, é o país andino. O pinto em epígrafe é um filhote de galinha recém saído do ovo. E não conta por sua importância, mas porque detecta quantidades distintas. E pinto em epígrafe não é nada do que o Juquinha está pensando. Queiram, por gentileza, retomar o respeito necessário e suficiente para apreciar a crônica de hoje, que trata de Ciência séria.
          A pesquisa foi feita na Universidade de Pádua, na Itália, e publicada na respeitada revista Science pela equipe das Doutoras Rosa Rugani e Lucia Regolin. Elas vem há cerca de dez anos estudando o conceito de “linha numérica mental” (que se abrevia MNL), a qual descreve a tendência observada em humanos no Ocidente, de representar números em escala crescente ao longo de uma linha horizontal da esquerda para a direita. A MNL se manifesta, entre outras coisas, quando uma pessoa responde mais rapidamente a números pequenos quando o alvo da resposta está à sua esquerda do que quando está à direita, e mais rápido a números grandes quando o alvo da resposta está à sua direita do que quando está à esquerda.
          Esta tendência pode ser modificada por fatores culturais, como em pessoas alfabetizadas na língua árabe, que apresentam tendência de resposta espacial inversa, ou em israelenses fluentes em hebraico e inglês, que não mostram essa assimetria. No entanto, ainda não se sabia o quanto da MNL é programado biologicamente, em comparação ao que é condicionado pela cultura. Foi isso que a equipe italiana tentou esclarecer, testando a capacidade de pintos recém-nascidos responderem a quantidades pequenas ou grandes de acordo com uma “linha numérica mental”.
          Antes que os mais afoitos concluam que um bando de malucos andou obrigando aves a resolverem equações diferenciais, reitero que o estudo não apenas é sério, mas foi feito com experimentos de uma simplicidade invejável, que só surge na cabeça de cientistas inteligentes. Pois construiram uma arena na qual podiam colocar um pintinho de cada vez, e treiná-lo a procurar uma recompensa atrás de um painel de plástico branco, no qual havia desenhos de um certo número de quadradinhos pretos. A recompensa era um bicho-de-farinha, uma larva de besouro que é um verdadeiro pitéu para muitos animais de estimação. Algo assim como um bombom de chocolate Godiva para a gentil leitora. Uma vez treinados, os pintinhos eram de novo colocados na arena, agora com dois painéis idênticos, um à esquerda e outro à direita, contendo em ambos um número menor ou maior do que o número de quadradinhos usado no treino. E a pergunta era apenas para que lado o pintinho se dirigia inicialmente para procurar a recompensa que, diga-se de passagem, durante os testes não estava atrás de nenhum dos painéis.
          Os resultados foram porretas. Em mais de setenta por cento dos casos, quando havia menos quadradinhos do que no treino os pintinhos escolhiam procurar a larva do lado esquerdo, enquanto o lado direito era o escolhido quando havia mais quadradinhos do que no treino. Ou seja, as avezinhas conseguiam, sem dificuldade, diferenciar números maiores de menores. Pode sentar de novo, rabugento, porque a equipe italiana teve todo o cuidado de fazer uma série de testes para eliminar outras possibilidades, devidamente descritos num baita anexo que acompanha o trabalho publicado. Ou seja, pelo menos por enquanto, temos de admitir que pintinhos recém-saídos do ovo tem “linha numérica mental” e, apesar de todo o respeito que tenho, com perdão da má palavra, pelas galinhas que são as mães deles, custo a crer que isso possa ser atribuído a fatores culturais.
          Já se sabia que várias espécies animais são capazes de diferenciar grandezas distintas, mas esse trabalho sugere que a capacidade de mapear quantidades crescentes na dimensão horizontal do espaço, antes tida como exclusivamente humana, também existe em aves que acabaram de sair do ovo. As cientistas italianas, assim como um comentarista da revista Science que fez uma resenha do trabalho, apostam que a linha numérica mental, embora sujeita a modificações de natureza cultural, pode ser uma manifestação essencialmente biológica associada às assimetrias cerebrais. Essas são diferentes especializações entre as duas metades – direita e esquerda - do cérebro, as quais se refletem em assimetrias funcionais como, por exemplo, na destreza manual.
          Seja como for, da próxima vez que o prezadíssimo leitor for alimentar sua criação de galinhas, frangos ou pintos, lembre-se de que cada um deles pode estar perfeitamente ciente de que o senhor sempre dá mais milho para alguns, em detrimento dos demais. Eles não conhecem números exatos, mas percebem quando estão sendo roubados. O mesmo conselho vale para criaturas – algumas mais, outras menos distintas - que distribuem o que há para distribuir lá na capital federal.

Rafael Linden


sábado, 7 de março de 2015

Até barata tem personalidade

          Há poucos dias, ao circular a notícia de uma complexa operação para dedetizar o prédio de nosso instituto, ouvi uma pesquisadora contar, com indisfarçável orgulho, um episódio de que foi protagonista. Andava ela por um corredor no sentido contrário àquele de onde vinha uma estudante, quando se depararam com uma robusta barata a meio caminho entre as duas. Ato contínuo, a pesquisadora mandou o inseto desta para melhor com um pisoteio certeiro, para surpresa da outra moça que, ante o perigo iminente, só não se atirara escada abaixo porque o infausto evento ocorreu no subsolo. A jovem, mal refeita do pânico, ainda cumprimentou efusivamente a pesquisadora por sua coragem ao enfrentar inimigo tão temido por senhoras e senhoritas mundo afora.
          Sim, sim, cara leitora, eu sei que isso não é nada, a senhora também não tem medo de barata, só nojo. E, se necessário for, empunhará galhardamente as castanholas e sapateará sem dó nem piedade sobre a asquerosa criatura ao ritmo da Buleria interpretada por Paco de Lucía com sua imponente guitarra flamenca, olé! Entretanto, aqui no telhado os malfadados insetos não sobem e, por isso, nos inspiram apenas a celebrar um insólito exemplar de pesquisa científica, voltado para a personalidade das - ora vejam - baratas.
          Isso mesmo, e não se trata de notícia fajuta na seção de curiosidades mundanas de algum jornaleco, mas sim de um artigo científico legítimo, no volume de março de 2015 da revista Proceedings of the Royal Society, a qual é editada pela respeitável Academia Real de Ciências da Grã-Bretanha há mais de duzentos anos. O trabalho foi encabeçado pelo estudante de doutorado Isaac Planas, membro do grupo do cientista belga Jean-Louis Deneubourg, que vem pesquisando o comportamento social em insetos há mais de quarenta anos. Uma das proezas do Professor Deneubourg com sua equipe da Universidade Livre de Bruxelas, foi outro estudo publicado há alguns anos na icônica revista Science, relatando a incorporação de robozinhos de tres ou quatro centímetros a uma comunidade de baratas, que os aceitou e adotou como membros do grupo, compartilhando com as maquininhas decisões coletivas sobre busca de abrigo em locais escuros. Inseto na mão de profissional não é biscoito, concorda, madame?
          Voltando à vaca, ou à barata fria, como queiram, o quase-doutor Planas partiu do conceito já estabelecido entre os especialistas, de que decisões coletivas dependem de redes de interações sociais, mas ponderou que, de modo geral, os estudos da dinâmica coletiva negligenciam o papel da personalidade individual de cada membro do grupo. Por isso, formulou um modelo matemático e experimentos nos quais examinou, ao longo de uma semana, o comportamento de cerca de trezentas baratas, divididas em dezenove grupos de dezesseis indivíduos cada…e, a esta altura, metade do fã-clube feminino deste blog já saiu atrás de um comprimido para náusea. Aguardemos o retorno de todas, fiéis que são a este humilde cronista, e logo prosseguiremos.
          …pois então, dizia eu que o pesquisador examinou individualmente o comportamento das baratas. Individualmente? Como? Simples, cada uma delas tinha colado no corpo um micro-chip de identificação por radiofrequência, cujo código era registrado por um sensor. Definitivamente, barata com CPF não é coisa para amadores. A tarefa das bichinhas, no entanto, era simples. De cada vez, um grupo de dezesseis era colocado no centro de uma área circular, na qual havia dois abrigos idênticos cobertos por filmes escuros. Sabemos todos que durante o dia as baratas se escondem em locais escuros e, no caso, elas podiam escolher qualquer um dos dois abrigos.
          De modo geral, ao longo de três horas de teste, a maioria dos bichos escolhia um dos dois abrigos e lá ficava, com o chip informando o tempo todo a localização de cada um. Mas, quando o pesquisador examinou a trajetória e a velocidade com que cada barata chegava ao abrigo, e o tempo em que ela permanecia por lá, verificou que cada uma tinha um comportamento distinto, o qual se repetiu em três experimentos realizados na segunda, quarta e sexta-feira ao longo de uma semana. Esse comportamento específico, repetitivo e individual de cada barata foi interpretado como “personalidade”. Os resultados mostraram também que a “personalidade” de cada componente de um grupo influenciava o comportamento das demais, adicionando um componente que o pesquisador chamou de “amplificação social”. Porém, somente a combinação desses dois fatores foi suficiente para explicar o comportamento de cada grupo.
          Os próprios autores acharam surpreendente essa robustez de “personalidade”, porque o tipo de comportamento observado era uma resposta ao estresse do ambiente que, naquelas condições, costuma ser relativamente padronizada; os bichos eram geneticamente semelhantes; e todos eram machos de idades bem próximas. Ou seja, tudo conspirava contra a descoberta de “personalidades”, mas foi o que ocorreu. Evidentemente, “Maria” até pode ir, mas barata não “vai com as outras” com tanta facilidade…
          Superada a crise de asco provocada pelo assunto, o rabugento pergunta como sempre: e daí? E prossegue na diatribe, dizendo que todo mundo sabe da importância de características individuais na geração de um comportamento social. Mas a gentil leitora, por acaso, esperava isso de baratas? Então, se até entre esses bichos tão desprezados cada componente do grupo mantém suas características individuais, por que diabos a cada dia que passa nos aumenta a impressão de que tantos grupamentos de outra espécia animal, dita a mais inteligente, evoluída e dominante, se comportam como manadas amorfas?


Rafael Linden