sexta-feira, 22 de maio de 2015

De quatro era melhor

     Além da infinita sabedoria oriunda de uma experiência de vida exemplar, a idade costuma nos brindar com um rico cardápio de achaques, entre os quais a dor nas costas. Quem já dobrou a curva dos sessenta e nunca passou por isso, que atire a primeira pedra. Haverá, naturalmente, alguma dificuldade em pegar a pedra no chão, por causa de…dor nas costas.
     Muitos acham normal uma dorzinha de vez em quando, ao se levantarem das respectivas cadeiras com as mãos nos quadris, o pescoço espichado, uma careta e um grunhido. Mas há os que se sabem portadores de uma das maiores pragas da modernidade – a hérnia de disco. As vértebras da nossa coluna são separadas umas das outras por colchõezinhos chamados discos intervertebrais, que amortecem o impacto sobre aqueles ossos. Tais discos podem espichar para os lados ou na vertical - essas deformações são as hérnias. Isso pode resultar em compressão de raizes nervosas e, entre outras consequências desagradáveis, causar uma dor lancinante. Vosso amado cronista que o diga, com seu histórico de três crises na última década.
     Essa maravilha é uma daquelas coisas que nem o leitor rabugento consegue desprezar, pois hérnias de disco são muito comuns e podem afetar até oitenta por cento de certas populações. Dor intensa e outros sinais neurológicos são menos frequentes, mas é bom que a galera saiba que tem muita hérnia de disco silenciosa por aí, só esperando uma boa oportunidade para derrubar o cidadão. Há controvérsias sobre a contribuição da dor nas costas para os índices de deficiência física no mundo, mas pelo menos um grupo de médicos australianos estimou recentemente que se trata da causa mais frequente de incapacidade para o trabalho em escala mundial.
     Veterinários contam histórias tristes de cães com hérnia de disco, mas quem frequenta zoológicos ou assiste o Discovery Channel vê a macacada se contorcendo alegremente, sem queixas. Macaco com hérnia de disco deve ser coisa muito rara. Então por que nós, particularmente a gentil senhora que nos lê, merecemos esta distinção? Em boa parte é consequência de mazelas típicas da modernidade, como maus hábitos posturais ou atividades físicas inadequadas. Mas uma predisposição à hérnia de disco, infelizmente, parece estar associada a uma das principais conquistas evolutivas do homem – o bipedalismo.
     Bipedalismo é a forma de locomoção sobre duas pernas. Sim, madame, eu sei que sua Shih Tzu fica bonitinha pedindo biscoito equilibrada nas patinhas traseiras, mas nosso assunto é o chamado bipedalismo habitual, aquele que, com exceção dos cangurus, é característico dos hominínios, ou seja, os humanos modernos e seus ancestrais bípedes. As descobertas arqueológicas indicam que a capacidade de se locomover em duas pernas surgiu há pelo menos quatro, e talvez, sete milhões de anos, quando os hominínios começaram a divergir evolutivamente dos ancestrais dos modernos chimpanzés.
     A adaptação à locomoção bípede é associada a pressões evolutivas, por exemplo mudanças no ambiente, e ofereceu vantagens tais como a facilidade de carregar armas ou ferramentas durante a locomoção. Como nem mesmo aquele velho chato, que fica reclamando de nossas crônicas o tempo todo, esteve presente aos acontecimentos dos últimos milhões de anos, os cientistas precisam deduzir a forma de locomoção de espécies ancestrais a partir de características do esqueleto de fósseis, tais como os detalhes do crânio, curvatura da coluna vertebral, tamanho, formato e posição relativa de ossos dos braços, pernas e pés. A chamada osteologia é, portanto, um ramo da anatomia importantíssimo para estudar a evolução do homem.
     E a hérnia de disco, por acaso foi esquecida nos devaneios do texto? De forma alguma, porque esta crônica foi motivada pela publicação, na revista BMC Evolutionary Biology, de um artigo capitaneado pela Doutora Kimberly Plomp, do grupo de Mark Collard, da Simon Fraser University, que fica no sudoeste do Canadá. Já havia indícios de que o formato das vértebras influencia a chance de desenvolver hérnia de disco. Os cientistas se perguntavam, no entanto, qual a causa dessa influência. A hipótese que Collard e seus colegas queriam examinar era de que o bipedalismo estaria por trás disso.
     Resolveram, então, comparar detalhadamente as vértebras de humanos com ou sem hérnia de disco, com as vértebras de chimpanzés, que andam habitualmente de quatro, e de orangotangos, que se locomovem preferencialmente pendurados em galhos de árvores. Por conta da divergência progressiva na evolução de diferentes espécies de primatas, humanos modernos estão mais próximos dos chimpanzés do que dos orangotangos modernos. A idéia foi de que, se o bipedalismo está por trás do efeito do formato das vértebras, duas coisas deviam ocorrer. Primeiro, as vértebras das três espécies deviam ser diferentes, com as humanas mais parecidas com as de chimpanzés. Segundo, os detalhes das vértebras de humanos portadores de hérnias de disco deveriam ser ainda mais semelhantes às vértebras dos chimpanzés do que no caso das vértebras de humanos sadios, livres de hérnias.
     Os cientistas escolheram para o estudo coleções de vértebras da Universidade de Durham, na Inglaterra, e dos Museus de História Natural de Washington e de Nova Iorque, nos EUA. As humanas eram de coleções arqueológicas do período medieval, portanto livres dos vícios posturais e motores do mundo moderno. Cerca de metade das cento e quatorze vértebras humanas mostravam um sinal chamado “nódulo de Schmorl", que é indicativo de hérnia de disco. Do exame detalhado de mais de duzentas vértebras, usando as técnicas da chamada morfometria geométrica, os pesquisadores chegaram a duas conclusões. Primeiro, de fato os detalhes anatômicos das vértebras são distintos entre humanos, chimpanzés e orangotangos. Segundo, assim como previsto, as vértebras humanas com sinal de hérnia de disco tem formato mais assemelhado às vértebras dos chimpanzés do que as vértebras humanas sem sinal de hérnia.
     Visto de outro ângulo, as hérnias ocorreram em humanos bípedes cujas vértebras são parecidas com macacos quadrúpedes, enquanto humanos com vértebras diferentes parecem menos propensos a sofrer hérnias de disco! A interpretação dos cientistas foi de que, apesar de milhões de anos de evolução, uma parte da população humana ainda mantém vértebras com formato bom para quadrúpedes, porém inadequado para a locomoção bípede. Para esses, coitados, teria sido melhor continuar de quatro…Presumivelmente, os felizardos livres de hérnias de disco já tem vértebras, digamos, mais evoluídas e, por isso, mais adequadas ao bipedalismo.
     Os cientistas não cabem em si de felicidade, brandindo esse trabalho como uma prova adicional da importância da Antropologia Evolutiva como ferramenta para entender condições médicas. Também arriscaram a idéia de que a aplicação, em tomografias computadorizadas, da morfometria geométrica das vértebras pode servir para o ortopedista prever a chance de hérnia de disco e, assim, prescrever medidas preventivas ao paciente. Já nossa mente pervertida, cá no telhado, sugere que, daqui para diante, a galera que usa as redes sociais para se exibir em rituais de sedução pré-acasalamento semelhantes à abertura da cauda do pavão macho, passe a exibir as tomografias computadorizadas das suas vértebras lombares, a fim de conseguir parceiros com vértebras semelhantes que reduzam as chances de hérnias de disco na prole…

Rafael Linden

     

sábado, 2 de maio de 2015

Ora, orelhas...


         Por acaso, a gentil leitora já parou para pensar sobre a utilidade de suas orelhas? Caso a madame esteja operando no modo dondoca, talvez se apegue à nobre função de enfeitar ainda mais seu formoso rostinho, já elegantemente decorado com aquele brinquinho esperto que combina com o corte “joãozinho” da Sophie Charlotte. Se porventura for versada nos princípios fisiológicos da audição, talvez prefira comentar as controvérsias sobre se, afinal, as orelhas servem ou não para coletar e direcionar os sons para dentro do canal que os levará do mundo exterior ao tímpano. Entretanto, se a doce senhora apenas fez a acertada escolha de saborear o último desvario deste cronista, não há de se arrepender, pois o assunto de hoje é a utilidade arqueológica e histórica das orelhas.
          Escaldado pelas críticas furibundas do leitor rabugento, apresso-me a esclarecer que, a rigor, o objeto da crônica se restringe ao que se costuma chamar de pavilhão auricular, aquele apêndice complexo normalmente encontrado de ambos os lados da cabeça. A tal complexidade se expressa, naturalmente, na dificuldade de escolher o brinco certo dentre centenas de modelos distintos. Mas, por outro lado, poderá ajudar a esclarecer o mistério ligado a uma das descobertas arqueológicas mais impressionantes da história.
          Trata-se do exército de terracota, a formidável coleção de figuras humanas em tamanho natural, descoberta no mausoléu do imperador chinês Qin Shi Huang Di. São milhares de estátuas, com mais de dois mil e duzentos anos de idade, que representam guerreiros com suas respectivas armas, dispostos ordenadamente, como que a proteger a última morada do imperador. Além da magnitude da coleção, impressiona que, enquanto as armas são padronizadas, as feições e expressões faciais dos guerreiros são variadíssimas. Isto levou arqueólogos a supor que se trata da reprodução de rostos verdadeiros. Mas como demonstrar isso, em contraposição à idéía de que essa variedade é devida simplesmente à mistura de estátuas fabricadas por diversos artesãos, cada um responsável por algumas dezenas delas, ou ao truque de mesclar, por exemplo, uma boca, um nariz e um par de olhos escolhidos aleatoriamente de uma coleção de poucas variedades de cada um desses componentes de um rosto?
          Pois a Arqueologia moderna cada vez mais lança mão de ferramentas de Computação Gráfica, e um cientista do Instituto de Arqueologia do University College London, chamado Andrew Bevan, aplicou uma das vertentes desta tecnologia, denominada Visão Computacional, para examinar e definir de forma precisa e detalhada as características das orelhas dos guerreiros de terracota. Mas que perda de tempo, vocifera o rabugento, é para isso que aquela ilha velha gasta dinheiro, quando podia fazer coisa melhor como, por exemplo, caprichar mais na culinária local? Engana-se, no entanto, nosso feroz crítico, ao menosprezar a ciência e a arte de observar a orelha alheia.
          Que o diga o policial francês Alphonse Bertillon que, no século XIX, começou a aplicar a antropometria, emprestada da Antropologia Física, para ajudar na identificação de criminosos. Bertillon tem uma biografia conturbada. Foi um dos precursores da identificação por impressões digitais, mas diz-se que, apesar do amplo emprego deste método, ironicamente as imagens que ele usou para publicá-lo eram forjadas. E fez pior pois, como perito criminal, foi testemunha chave na condenação, por traição, do oficial de artilharia Alfred Dreyfuss, ao atribuir-lhe a autoria de uma carta através de exames grafológicos equivocados, coisa essa – conhecida como o caso Dreyfuss - que deixou a França em polvorosa por muitos anos. Apesar desses fracassos, credita-se a Bertillon a observação da individualidade das orelhas humanas, representada em sua afirmação de que “…é praticamente impossível encontrar duas orelhas que sejam idênticas em todas as suas partes…”.
          De fato, atualmente há grande interesse na anatomia da orelha como um marcador forense, capaz de confirmar a identidade de uma pessoa. O rabugento já está indócil outra vez, pensando que logo estará esfregando tinta preta na orelha para renovar a nova versão da carteira de identidade. Talvez não, mas há cientistas forenses entusiasmados, pesquisando o assunto que, no mínimo, enriquecerá futuros episódios da série C.S.I.
          E o exército de terracota, que fim levou? Pois Andrew Bevan publicou um trabalho no periódico Journal of Archaeological Science, descrevendo o método com o qual ele foi capaz de usar imagens múltiplas, obtidas por câmeras fotográficas comuns, para produzir reconstruções tridimensionais detalhadas das orelhas de trinta estátuas do mausoléu de Qin Shi. E, de fato, não encontrou duas orelhas iguais. Bevan planeja estender este estudo a todas as estátuas já escavadas em uma das seções do mausoléu – mais de mil - e, assim, verificar se há um padrão ou se cada orelha é única. Esta última possibilidade reforçaria a idéia de que as estátuas foram esculpidas a partir de modelos individuais, provavelmente guerreiros de verdade, e a História seria enriquecida com, pelo menos, a pergunta de onde foram parar estes soldados.
          Pois é, querida leitora, e a senhora pensava que bastava dar uma olhadinha rápida para decidir se as orelhas do galã do quinto andar ou da filha da vizinha eram bonitas ou feias. Pois trate de rever seus conceitos. Orelha é coisa séria, cada um tem a sua e sabe-se lá o quanto da personalidade de alguém é consequência das orelhas que tem.
          O Andrew Bevan do Instituto de Arqueologia, como bom inglês, fez questão de ressaltar que o método dele, além de suas qualidades técnicas e da precisão da análise, é de baixo custo, pois pode ser aplicado a fotografias tiradas com câmeras comuns ou telefones celulares, e as analises, embora demoradas, podem ser feitas com computadores pessoais. Isso elimina a necessidade de equipamentos complexos, os quais às vezes sequer podem ser introduzidos em sítios arqueológicos, e de supercomputadores ultrapotentes, de acesso relativamente restrito. Mas, cá para nós, eu suspeito que ele tenha um motivo oculto para se dedicar a essa pesquisa.
          Pois uma singela busca na Internet revelou mais de noventa “Andrew Bevan” só entre os entusiastas do Facebook, incluindo um badaladíssimo editor da revista Vogue, especializado em moda para adolescentes. Tenho cá para mim que o arqueólogo deve ter um certo receio de ser confundido com o editor da Vogue e, por isso, dedica-se com tanto afinco a desenvolver métodos que possam distingui-los sem sombra de dúvida. De preferência, antes que seu laboratório em Londres seja invadido por um bando de meninas ansiosas, em busca de dicas inéditas de moda, maquiagem e outras preocupações das quais os guerreiros chineses de vinte e dois séculos atrás dificilmente padeceriam.

Rafael Linden