sábado, 2 de maio de 2015

Ora, orelhas...


         Por acaso, a gentil leitora já parou para pensar sobre a utilidade de suas orelhas? Caso a madame esteja operando no modo dondoca, talvez se apegue à nobre função de enfeitar ainda mais seu formoso rostinho, já elegantemente decorado com aquele brinquinho esperto que combina com o corte “joãozinho” da Sophie Charlotte. Se porventura for versada nos princípios fisiológicos da audição, talvez prefira comentar as controvérsias sobre se, afinal, as orelhas servem ou não para coletar e direcionar os sons para dentro do canal que os levará do mundo exterior ao tímpano. Entretanto, se a doce senhora apenas fez a acertada escolha de saborear o último desvario deste cronista, não há de se arrepender, pois o assunto de hoje é a utilidade arqueológica e histórica das orelhas.
          Escaldado pelas críticas furibundas do leitor rabugento, apresso-me a esclarecer que, a rigor, o objeto da crônica se restringe ao que se costuma chamar de pavilhão auricular, aquele apêndice complexo normalmente encontrado de ambos os lados da cabeça. A tal complexidade se expressa, naturalmente, na dificuldade de escolher o brinco certo dentre centenas de modelos distintos. Mas, por outro lado, poderá ajudar a esclarecer o mistério ligado a uma das descobertas arqueológicas mais impressionantes da história.
          Trata-se do exército de terracota, a formidável coleção de figuras humanas em tamanho natural, descoberta no mausoléu do imperador chinês Qin Shi Huang Di. São milhares de estátuas, com mais de dois mil e duzentos anos de idade, que representam guerreiros com suas respectivas armas, dispostos ordenadamente, como que a proteger a última morada do imperador. Além da magnitude da coleção, impressiona que, enquanto as armas são padronizadas, as feições e expressões faciais dos guerreiros são variadíssimas. Isto levou arqueólogos a supor que se trata da reprodução de rostos verdadeiros. Mas como demonstrar isso, em contraposição à idéía de que essa variedade é devida simplesmente à mistura de estátuas fabricadas por diversos artesãos, cada um responsável por algumas dezenas delas, ou ao truque de mesclar, por exemplo, uma boca, um nariz e um par de olhos escolhidos aleatoriamente de uma coleção de poucas variedades de cada um desses componentes de um rosto?
          Pois a Arqueologia moderna cada vez mais lança mão de ferramentas de Computação Gráfica, e um cientista do Instituto de Arqueologia do University College London, chamado Andrew Bevan, aplicou uma das vertentes desta tecnologia, denominada Visão Computacional, para examinar e definir de forma precisa e detalhada as características das orelhas dos guerreiros de terracota. Mas que perda de tempo, vocifera o rabugento, é para isso que aquela ilha velha gasta dinheiro, quando podia fazer coisa melhor como, por exemplo, caprichar mais na culinária local? Engana-se, no entanto, nosso feroz crítico, ao menosprezar a ciência e a arte de observar a orelha alheia.
          Que o diga o policial francês Alphonse Bertillon que, no século XIX, começou a aplicar a antropometria, emprestada da Antropologia Física, para ajudar na identificação de criminosos. Bertillon tem uma biografia conturbada. Foi um dos precursores da identificação por impressões digitais, mas diz-se que, apesar do amplo emprego deste método, ironicamente as imagens que ele usou para publicá-lo eram forjadas. E fez pior pois, como perito criminal, foi testemunha chave na condenação, por traição, do oficial de artilharia Alfred Dreyfuss, ao atribuir-lhe a autoria de uma carta através de exames grafológicos equivocados, coisa essa – conhecida como o caso Dreyfuss - que deixou a França em polvorosa por muitos anos. Apesar desses fracassos, credita-se a Bertillon a observação da individualidade das orelhas humanas, representada em sua afirmação de que “…é praticamente impossível encontrar duas orelhas que sejam idênticas em todas as suas partes…”.
          De fato, atualmente há grande interesse na anatomia da orelha como um marcador forense, capaz de confirmar a identidade de uma pessoa. O rabugento já está indócil outra vez, pensando que logo estará esfregando tinta preta na orelha para renovar a nova versão da carteira de identidade. Talvez não, mas há cientistas forenses entusiasmados, pesquisando o assunto que, no mínimo, enriquecerá futuros episódios da série C.S.I.
          E o exército de terracota, que fim levou? Pois Andrew Bevan publicou um trabalho no periódico Journal of Archaeological Science, descrevendo o método com o qual ele foi capaz de usar imagens múltiplas, obtidas por câmeras fotográficas comuns, para produzir reconstruções tridimensionais detalhadas das orelhas de trinta estátuas do mausoléu de Qin Shi. E, de fato, não encontrou duas orelhas iguais. Bevan planeja estender este estudo a todas as estátuas já escavadas em uma das seções do mausoléu – mais de mil - e, assim, verificar se há um padrão ou se cada orelha é única. Esta última possibilidade reforçaria a idéia de que as estátuas foram esculpidas a partir de modelos individuais, provavelmente guerreiros de verdade, e a História seria enriquecida com, pelo menos, a pergunta de onde foram parar estes soldados.
          Pois é, querida leitora, e a senhora pensava que bastava dar uma olhadinha rápida para decidir se as orelhas do galã do quinto andar ou da filha da vizinha eram bonitas ou feias. Pois trate de rever seus conceitos. Orelha é coisa séria, cada um tem a sua e sabe-se lá o quanto da personalidade de alguém é consequência das orelhas que tem.
          O Andrew Bevan do Instituto de Arqueologia, como bom inglês, fez questão de ressaltar que o método dele, além de suas qualidades técnicas e da precisão da análise, é de baixo custo, pois pode ser aplicado a fotografias tiradas com câmeras comuns ou telefones celulares, e as analises, embora demoradas, podem ser feitas com computadores pessoais. Isso elimina a necessidade de equipamentos complexos, os quais às vezes sequer podem ser introduzidos em sítios arqueológicos, e de supercomputadores ultrapotentes, de acesso relativamente restrito. Mas, cá para nós, eu suspeito que ele tenha um motivo oculto para se dedicar a essa pesquisa.
          Pois uma singela busca na Internet revelou mais de noventa “Andrew Bevan” só entre os entusiastas do Facebook, incluindo um badaladíssimo editor da revista Vogue, especializado em moda para adolescentes. Tenho cá para mim que o arqueólogo deve ter um certo receio de ser confundido com o editor da Vogue e, por isso, dedica-se com tanto afinco a desenvolver métodos que possam distingui-los sem sombra de dúvida. De preferência, antes que seu laboratório em Londres seja invadido por um bando de meninas ansiosas, em busca de dicas inéditas de moda, maquiagem e outras preocupações das quais os guerreiros chineses de vinte e dois séculos atrás dificilmente padeceriam.

Rafael Linden


4 comentários:

  1. Rafael, nem encontro as palavras mais adequadas para elogiar essa crônica. Você está cada vez melhor como escritor, além de tudo original e
    confiável! ( Não sendo preciso conferir no citado Journal of Archaeological Science etc)
    Me pergunto onde você acha tempo para tanto... tanta coisa boa!
    Abraços, Keyla

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    1. Keyla, querida.
      Obrigado pelo comentário! Quanto ao tempo, não é muito. Com o advento das múltiplas janelas dos sistemas operacionais de computadores, quando eu empaco na redação de um projeto ou artigo científico, uma boa válvula de escape é derivar para um hobby com um mero alt-tab. Tem a vantagem adicional de evitar pedir uma pizza online, ou ser agredido pelo noticiário cotidiano desses tempos "interessantes"...Depois de um tempinho no blog, frequentemente o bloqueio se dissolve e eu consigo continuar o que estava fazendo. Relaxa tanto quanto minha ginástica na água morna da hidroterapia. E ainda rende eventuais massagens no ego por parte dos amigos!
      :-)

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  2. Sempre achei ser somente pra segurar os óculos! =D

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    1. Com o risco de desaparecercom a evolução, por desuso causado pelo advento das lentes de contato...
      :-)

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