sábado, 13 de junho de 2015

Dói até quando eu Rio

          Senhor Eustáquio de Sá, pode entrar, mas o que é isso?!! Sente-se aqui, que já vou tratar do seu olho... Doutor, não vos afobeis, só não me faças rir... Mas é urgente... Doutor, acredite, isto cá não me apoquenta, o que vai me matar é o que foi feito de minha obra... Do que o senhor está falando?
          Ora pois, para começar tentarei livrar-me de meu sotaque materno, já que mais carioca não há do que a criatura que cá plantou este povoado. Estive a caminhar pela Cidade Maravilhosa, como a chamam as cartas psicografadas que recebo através de uma médium que mora no Catumbi. Comecei por visitar o istmo onde fundei a gloriosa São Sebastião e assustou-me a desordem urbana, pois mal se pode passear pela margem da baía, coisa que nos levaria do forte de São João às vizinhanças da Praia Vermelha. E houve tempo em que se achava aquilo lá um lugar ermo. Lá isso é, Seu Eustáquio...
          Deixe-me prosseguir. De tanto andar acabei por tomar o rumo de um morro, onde um tio meu alega ter fundado esta cidade quando, ora bolas, fui eu que o fiz n’outro lugar. Pois a colina sumiu. E, no caminho, ainda fui abordado por dois meninos com uma faca, que levaram-me as roupas, deram-me socos e pontapés e deixaram-me de ceroulas. Vaguei por horas até encontrar um guarda, que só largou do apito para resmungar algo em língua tupinambá, que parecia “nécomígunhón”, até que uma boa alma levou-me a um abrigo, onde jantei coisas que não conheço e ganhei umas roupas esquisitas. São estas que veste agora?
          Pouco importa. Depois desta recepção, fiz de tudo para encontrar a médium do Catumbi, pelo endereço do remetente que constava nas cartas. Uma senhora me explicou como chegar lá, mas creio que enganou-se pois, depois de quase sufocar num buraco com nome de santa, vi-me no topo de uma ponte que não tinha um rio embaixo, e onde passavam carroças estranhas e velozes, porém nenhuma gente a pé. Era tarde da noite e lá não havia casas, e sim um teatro a céu aberto, todo iluminado e coberto de cartazes com pinturas de mulheres quase nuas e copos de cerveja, onde uma multidão cantava e parecia gritar meu nome ao som de tambores. Achei que seria minha salvação mas, quando logrei descer da ponte e entrar no edifício, fui corrido de lá a cacetadas por uns gajos enormes fardados. Levei tanta bordoada que nem sei quanto tempo passou até me acertarem essa lança nas fuças. Mas que horror, Seu Eustáquio. Temos de cuidar logo do seu olho, mas precisamos também providenciar um boletim de ocorrência...
         Doutor, pelo amor do rei Dom Sebastião que, valha-nos Deus, um dia regressará, faça-me só um curativo e deixe-me voltar para casa. E, ouça-me bem, depois da idéia de jerico de viajar através de quatro séculos e meio, só para ter esse desgosto pelo que fizeram do meu povoado, e da dor lancinante que me dá quando acho certa graça nas minhas desventuras, queira perdoar, mas Eustáquio é o raio que o parta!

Rafael Linden