sábado, 17 de outubro de 2015

Ovos coloridos

          Cultura pouca é bobagem, não é mesmo? E é por isso que a querida leitora sempre dedica alguns minutos de seu preciosíssimo tempo a deleitar-se com a falsa sabedoria deste delirante cronista. Pois hoje nosso cantinho de alumbramento se volta para um assunto palpitante: a cor dos ovos. E, antes que nos atirem o chiste às fuças, saibam que não se trata “daquilo”, embora um ovo de galinha vez por outra se apresente roxo.
          Ah, o Botequim do Seu Antenor lá em Sorocaba, não é mesmo? Como, minha senhora, nunca foi? Nem eu, mas tem até uma página na internet. Só não sei se lá tem ovo colorido. Se não tiver é bistrô, porque botequim de macho tem mesmo é pastel que matou o guarda, sardinha frita e ovo colorido. Em geral cor-de-rosa, cozido num caldo de beterraba ou, sei lá, minha mãe temia que a cozinheira do boteco pintasse a casca com anilinas tóxicas e, desde cedo, alertou-me para o risco dos ovos cozidos por outrem.
          E tome polêmica sobre ovos brancos e amarronzados à venda na quitanda do Seu Alfredo, outrora instalada na Rua Real Grandeza, num casario que já há muito foi abaixo para dar lugar à expansão do quartel do segundo batalhão da Polícia Militar. Esse ou aquele ovo é mais nutritivo, diziam alguns; que nada, são postos por galinhas de cores diferentes, retrucavam outros. Inquirido sobre o assunto, Seu Alfredo, sempre de mau humor, perguntava se algum de nós viera a comprar ovos, caso contrário que parassem de encher a paciência e fossem todos para o raio que os parta!
          Pois trata-se de genética. Cada cepa de galinha produz ovos de cor característica, embora algumas ponham ovos de cores variadas. Não, minha senhora, não tem “Costa Chic”, nem “Pink Nouveau”, nem “Ruby Woo”, porque ovo não é batom da MAC. Mas tem várias tonalidades entre branco e amarronzado, e até ovo azul. Especialistas explicam que certos pigmentos são secretados no oviduto das galinhas e dão cor aos ovos. Há até uma empresa no Rio Grande do Sul que, há mais de vinte anos, se dedica a selecionar poedeiras e conseguiu que quase todos os ovos saiam azulados.  Mas, acredite, os ovos cor-de-rosa de botequim não foram postos por galinhas sofisticadas, frequentadoras de clínicas estéticas, cabeleireiros chiques e academias de ginástica de alto padrão. Foram coloridos na marra mesmo.
          E para que serve ovo colorido? Na indústria alimentícia, a explicação é a mesma que serve para qualquer produto: cor é chamariz para venda. Já em blogues pouco recomendáveis, diz-se que ovo colorido serve para os frequentadores contumazes dos botequins diferenciarem a casca do resto, quando estiverem bêbados no fim da noite. Mas há outras utilidades. O rabugento achou que não chegaríamos lá? Enganou-se, pois aí vai um pouquinho de Ciência.
          Acontece que entomologistas também se interessam por cores de ovos, em especial ovos de insetos. E Paul Abram, estudante de doutorado da Universidade de Montréal, junto com uma equipe de pesquisadores liderada por seu orientador Jacques Brodeur, fizeram uma descoberta inédita - que as fêmeas de um percevejo fedorento, comum na América do Norte e chamado oficialmente Podisus maculiventris, são capazes de regular a cor dos ovos que põem, dependendo do lado da folha escolhido para a oviposição. Quando os ovos são postos na face da folha voltada para a luz solar, eles são marrons ou pretos, já quando na face inferior, na sombra, os ovos são amarelinhos. Os percevejos ainda reproduziram, no laboratório, esse padrão de coloração nos ovos postos em placas de plástico pintadas de preto ou de branco. Uma série de testes revelou que, embora os ovos escuros sejam mais resistentes à radiação ultravioleta, as percevejas reagem à iluminação relativa dos locais de oviposição. Bacaninha, né? Um comportamento complexo, que envolve reconhecimento da distribuição relativa de luz e controle da pigmentação dos ovos, tudo isso da parte de um inseto que, cá pelas nossas bandas, é às vezes chamado de “percevejo fede-fede predador”. Imaginem se o bicho fosse cheiroso, seria capaz de botar ovos Fabergé…
          Então, embora alguns de nossos amáveis leitores estejam à espera de alguma consideração sobre a milenar arte da pintura de ovos de Páscoa, ficamos por aqui mesmo. Afinal, a crônica já passeou por culinária de botequim, histórias da infância do cronista, genética de galinhas, estratégias industriais e, finalmente, desembocou na Biologia de percevejos. Tá de bom tamanho, né?

Rafael Linden



sábado, 10 de outubro de 2015

Sorriso maroto

          Em 1995, na sexta temporada da série “Os Simpsons”, Homer arrumou um jeito de animar festas infantis como substituto de um palhaço endividado com a Máfia. Nesse enredo rocambolesco o autor do episódio, John Swartzwelder, colocou na boca de Simpson a frase “quando eu vejo o sorriso naquelas carinhas pequeninas, sei que eles vão me aprontar alguma…”.  Mundo afora, milhares de mamães, papais, vovós e vovôs estão convictos de que uma frase dessas só poderia sair de um personagem abjeto, típico de uma família disfuncional. Essa não, quem duvidaria da pureza do sorriso de uma criança? E que dizer de um bebê de dois ou três meses de idade que, pela primeira vez, sorri genuinamente para a mãe, ah, tem coisa no mundo mais inocente, mais desinteressada, mais bela, maich-cutchi-cutchi-du-qui-iiischooo??? Não, não tem. Porém…
          De início comunicamos ao distinto público que este cronista se derrete todo quando a neta lhe sorri. Ainda que pareça, o abaixo assinado não é um ogro, tá bom? Mas a Ciência é implacável e um artigo científico, publicado na revista PloS One, trouxe evidências de que o sorriso do bebê está longe de ser inocente. O trabalho é assinado por três pesquisadores que combinaram suas respectivas proficiências em Psicologia, Engenharia e Robótica. Não, minha senhora, não sei se eles tem filhos e netos. Não vem ao caso e, a propósito, reiteramos que este blogue jamais se prestaria a desmoralizar bebês indefesos, muito menos a refutar as opiniões totalmente isentas de seus progenitores e demais familiares, afinal nossos filhos e filhas, netos e netas sempre serão, indubitavelmente, os bebês mais lindos, mais inteligentes, maich-cutchi-cutchi…
          Bem o sabemos. Mas vamos aos fatos.
          O estudo foi liderado por Javier Movellan, da Universidade da California em San Diego, um especialista em máquinas “inteligentes”, engenhocas capazes de decodificar sinais do ambiente de forma análoga aos seres humanos. Entre outras façanhas, aquele cientista foi responsável por orientar a construção de um robô com cara de criança, chamado “Diego-San”, capaz de responder a ações humanas com expressões faciais variadas. Isso mesmo, madame, inclusive com um doce e inocente sorriso. O Doutor Movellan recrutou seu ex-aluno Paul Ruvolo e o psicólogo Daniel Messinger, da Universidade de Miami, e juntos testaram hipóteses sobre a meta, ou propósito, da interação entre o sorriso de bebês de um a quatro meses de idade e suas respectivas mães.
          Novamente, o leitor rabugento larga seu picolé no cinzeiro e bufa “lá vem esse…querendo atribuir maldades a um bebezinho…”. Esclarecemos, porém, que “meta”, no caso, se refere ao conceito de goal na chamada Teoria de Controle, uma interdisciplina de bases matemáticas destinada a definir o que é necessário para um sistema dinâmico (por exemplo, uma máquina complexa) reagir a condições externas para sempre produzir um resultado pré-fixado. Por exemplo, pergunte-se “o que é necessário para controlar a órbita de um satélite de comunicações?”. A meta é manter o satelite em órbita estável e para isso é preciso um conjunto de engenhocas e procedimentos, que constituem o chamado “controlador” do sistema. O mais importante é que a Teoria de Controle não atribui uma “intenção” ou uma “consciência” ao controlador, pelo contrário, serve para abstrair do problema concreto sua base teórica. Por isso esta teoria é aplicada não apenas na Engenharia, mas em Ciências Sociais, Psicologia e outras áreas do conhecimento.
          Na origem o comportamento esperado do sistema sob análise era pré-determinado (por exemplo, transmitir a malfadada Copa do Mundo do Brasil para outros países), coisa essa que determinava a meta do controlador (por exemplo, codificar sinais de televisão e encaminhá-los sem ruídos ao satélite, chova ou faça sol). Mas a Teoria de Controle pode ser invertida, visando entender o controlador a partir do comportamento observado quando o sistema está funcionando - por exemplo, inferir o que acontece no centro de midia a partir da observação de que países receberam imagens distorcidas.
          Então, os cientistas usaram essa teoria para identificar a meta da mãe ao sorrir para o seu bebê e, vice-versa, a meta do bebê ao sorrir para a mãe. Vixe, daqui dá para ver o leitor rabugento espumando de raiva e atirando sua caipirinha na tela do computador, que só não quebrou porque o copo era de plástico. Componha-se, homem, que ainda não acabamos! Eles analisaram detalhadamente os momentos em que o bebê e sua mãe começavam a sorrir e a duração de cada sorriso, e compararam os resultados com hipóteses acerca da meta do sistema em cada caso. Concluiram que, no caso da mãe sorrir primeiro, a meta mais provável era levá-los ambos (mãe e bebê) a sorrirem. Já no caso do bebê sorrir primeiro, a meta mais provável foi apenas da mãe sorrir. De modo geral, quando o bebê iniciava a interação, desmanchava o sorriso assim que a mãe respondia com outro sorriso.
          Durma-se com um barulho desses! Pois não é que o sorriso puro e inocente do bebê tem uma agenda? Mas vejam bem, nunca é demais repetir que a Teoria de Controle não atribui intenção, apenas concatena fragmentos de um sistema em uma lógica funcional. Assim também Javier Movellan e seus colegas, embora considerem a possibilidade do bebê estar ajustado a sorrir para obter um sinal de afiliação, abstiveram-se de lhe atribuir qualquer intenção consciente. Por outro lado, o estudo sugere que sorriso puro e inocente mesmo é o da mãe, essa sim, operadora de um controlador que tem como meta compartilhar o sorriso com seu bebê.
          E é aí que entra Diego-San – lembram do robozinho? Pois os pesquisadores recrutaram estudantes da Universidade da California para avaliar suas interações com o robô, quando este e a estudante sorriam juntos ou separados. Constataram que sorrisos simultâneos levaram as estudantes a avaliarem a interação de forma mais positiva do que quando apenas um dos dois sorria. Exatamente o que foi previsto pelos resultados da interação entre mãe e bebê de verdade, no caso da mãe sorrir primeiro.
          E agora, gente? Como fica nossa crença na inocência do sorriso de um bebezinho nos braços da mãe? Se os pequeninos, ainda que inconscientemente, já exploram a boa fé da própria mãe, o que dizer dos sorrisos marotos dirigidos ao pai, avó e avô, ao tio, tia, primo, ai, ai, ai, então Homer Simpson tinha razão?
          Querem saber? Desliguem o computador e olhem bem para a carinha dos bebês mais próximos. Se eles sorrirem, aproveitem o momento. Antes que alguém demonstre cientificamente que, além de tudo, eles sabem perfeitamente o que estão a fazer conosco…

Rafael Linden



sábado, 3 de outubro de 2015

Transplante de cabeça dinossauro

          Em dias meio mornos, até mesmo este seriíssimo cronista é dado a devaneios. Assim, hoje notamos que se aproxima o trigésimo aniversário do terceiro disco da banda Titãs, chamado “Cabeça Dinossauro”. Sim, madame, eu sei que é só no ano que vem, mas a senhora já imaginou a enxurrada de reportagens e crônicas comemorativas que saudarão a efeméride imprensa afora? Que chance tem um praticante de Literatura marginal, frente aos luminares que então se manifestarão, do alto de suas colunas cativas nos mais poderosos veículos de comunicação? A nós, amadores, resta sair na frente a fim de provocar nos leitores antecipada nostalgia. Antevejo cinquentões e sessentões aos borbotões – queiram perdoar…-  recordando, sorridentes, os sacolejos no Circo Voador, o frenesi nos teatros e estádios, o alegre chafurdar no atoleiro do Rock in Rio e, lástibatinotiliste, modorrentos sábados chuvosos assistindo, pela televisão, ao lendário “Perdidos na noite”, apresentado por Fausto Silva antes desse último ser pasteurizado.
          “Cabeça Dinossauro! Pança de Mamute! Espírito de Porco!” urravam os guris enlameados, num filmete muito doido, gravado pela câmera do Branco Mello apoiada numa pedra, em frente a uma cachoeira situada na chapada dita a dos Guimarães no clipe, ou a dos Veadeiros pelo Sergio Britto na histórica entrevista concedida pelo grupo à jornalista Lorena Calábria. Mas seja qual chapada for, depois do primeiro disco - um sucesso - e do segundo - um fracasso -, o álbum “Cabeça Dinossauro” catapultou os músicos ao rol dos monstros sagrados do roque brasileiro. As três únicas frases que formam a letra concretista da faixa-título, inventada de brincadeira dentro de um ônibus que os carregava em uma turnê, significam…significam…sei lá o que significam, talvez um diagnóstico da condição humana, ou uma porralouquice qualquer, afinal isso aí é rock’n roll.
          Ainda estão aí? Então chegou a hora de perguntar qual é a agenda oculta do insidioso cronista. Nada demais, como de hábito uma livre associação de palavras, que nos trouxe a outro assunto relacionado a cabeças: a insólita promessa do neurologista italiano Sergio Canavero, acompanhado pelo neurocirurgião chinês Xiaoping Ren, de transplantar a cabeça de um cientista da computação russo para um corpo retirado de um cadáver fesquinho, com o intuito de curar o russo de uma forma de atrofia muscular espinhal, doença neurodegenerativa gravíssima e progressiva.
          O Doutor Canavero tornou-se uma celebridade ao se dizer preparado para realizar o transplante dentro de uns dois anos. Mas trata-se de uma empreitada que, embora possa vir a funcionar algum dia, é altamente improvável em futuro próximo. Canavero, em suas palestras, descreve a proposta de reconectar as complexas conexões neurais entre o cérebro e a medula espinhal através do uso de um composto que amolece as membranas celulares e, candidamente, ilustra o método com um punhado de espaguete. Alega que as tecnologias hoje disponíveis já permitem planejar uma cirurgia como esta. Nisso ele está certo, assim como as informações disponíveis numa consulta ao Google me permitiriam facilmente planejar uma travessia do Oceano Atlântico a nado, apesar do sobrepeso, falta de treinamento e lesões crônicas de tendões nos ombros.
          Mas fique tranquila, cara leitora, pois ao contrário do Doutor Canavero, ainda nos sobra um mínimo de bom senso, com o qual temos o saudável hábito de abortar ocasionais e espetaculares idéias de jerico. Não creio estar sozinho na modesta opinião de que a promessa do Doutor Canavero é um embuste, pois vários especialistas acham que, das duas uma, ou o prazo para executar tal façanha foi grosseiramente subestimado, ou o italiano é simplesmente doido varrido. E não, meu ilustre e iracundo leitor rabugento, não se trata de mais um visionário brilhante refutado por criaturas medíocres e invejosas. Outros tiveram esta visão muito antes do Doutor Canavero e, pelo menos, testaram a viabilidade de sua visão através de experimentos que, até hoje, nunca deram certo. Por exemplo há algumas décadas um neurocirurgião americano transplantou uma cabeça de macaco para o corpo de outro e as duas partes "funcionaram" independentemente por pouco tempo, sem nenhum sinal de conexão. O próprio Doutor Xiaoping Ren vem, há anos, repetindo experimentos em que transplanta a cabeça de um camundongo para o corpo de outro e jamais conseguiu manter o corpinho do doador “vivo” – ou seja, com o coração batendo - por mais do que alguns minutos, coisa que aconteceria de qualquer forma com o bichinho decapitado largado em cima da mesa. Nesse aspecto, o neurocirurgião chinês se revela pouco mais do que a reencarnação da velha Rainha de Copas, de Alice no País das Maravilhas.
          Não se pode, é claro, negar a possibilidade desse tipo de procedimento vir a se tornar factível no futuro. Mas esse furdunço midiático é apenas mais uma demonstração de uma incansável busca por holofotes, na qual o valor real do avanço científico e tecnológico é substituído pela exploração da expectativa popular, aprofundada pelo sensacionalismo de parte da midia e agravada pelo efeito multiplicador das redes sociais. Seria, é claro, injusto condenar quem se alimenta de esperança, como o russo que se ofereceu como cobaia da cirurgia, desesperado pela perspectiva de piora progressiva da sua terrível doença. Pelo contrário, é revoltante ve-lo iludido, assim como tantos que se apressam a celebrar a visão e a audácia do médico italiano, as quais não passam de auto-promoção à custa da boa fé alheia.
          E pior, está chovendo dinheiro, proveniente das doações de um monte de gente que se mobilizou para ajudar a financiar este projeto. O Doutor Canavero precisa de recursos vultosos para recrutar uma equipe de cento e cinquenta profissionais de saúde, que ele estima necessários para a cirurgia. Um gaiato que lê o rascunho desta crônica sobre meu ombro lembra a piada da pergunta sobre quantas pessoas são necessárias para trocar uma lâmpada, incluindo a que vai subir na escada e as que vão girá-la para desatarrachar a lâmpada. Também ouvi de um amigo um comentário sobre a torturante dúvida do italiano, se é tecnicamente mais correto levar a cabeça do paciente para a mesa na qual está o cadáver degolado, ou vice-versa. Cá para nós, pensando na poesia concretista dos Titãs, a chance de sucesso desse espírito de porco seria maior se ele transplantasse a cabeça de um dinossauro para a pança de um mamute e contratasse a escritora Mary Shelley para escrever sua biografia e o cineasta Mel Brooks para filmar uma sequela.


Rafael Linden