sábado, 31 de dezembro de 2016

A todos os leitores, leitoras, famílias e amigos...


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A misteriosa ave natalina

          É chegada a véspera do Natal e a gentil leitora dá os últimos retoques na decoração do pinheirinho, antevendo a alegria das crianças ansiosas pela visita de Papai Noel. Vez por outra, nossa fã dá uma olhadinha no forno para ver a quantas anda a deliciosa ave natalina que, em poucas horas, se desmanchará nas bocas ávidas da família reunida. E é aí que lhe vem à mente a dúvida cruel: afinal, que ave é essa que eu estou assando?
          Pois ainda ontem, num supermercado da cidade, uma simpática reporter de TV entrevistou uma freguesa que se queixava da carestia. A aflita senhora se dizia assustada com os preparativos da ceia tradicional, pois o preço do peru está pela hora da morte e, você sabe, com essa crise e coisa e tal... Ato contínuo, a zelosa jornalista passou a palavra para o responsável pelo setor de carnes congeladas do estabelecimento. Este, esbanjando autoridade, ofereceu à freguesa a alternativa de assar uma “ave temperada congelada”, de excelente qualidade, com gosto quase idêntico ao do peru, a um custo bem menor. Malgrado a alegria que tomou conta da telinha, o que de fato nos impressionou foi constatar que, assim como nossa leitora, jamais nos perguntamos que diabo de ave seria aquela, de tamanha importância para as festas natalinas. Se não um peru, o que é?
          Numa hora dessas, o que faz um cronista? Não, senhora, não é o caso de alertar as autoridades sanitárias. O escritor recorre à Internet, digitando “ave temperada congelada” no buscador. Em fração de segundo, chega-nos aos olhos a bagatela de setenta mil verbetes, o primeiro dos quais oferece a explicação de que se trata de “uma ave com maior concentração de carnes nobres, como peito e coxas”. Não fosse a foto da embalagem, poder-se-ia desconfiar de pornografia. O segundo verbete informa que a ave congelada de outra marca está indisponível. Uma corrida às compras pelos telespectadores do noticiário matutino? Prosseguindo na busca, finalmente descobrimos que ao menos algumas das aves temperadas são…frangos. Mas não é qualquer frango. Um deles é “uma linhagem especial que veio das terras altas da Escócia”. Só um especialista pode explicar aos caros leitores a razão de sair mundo afora para escolher um galináceo entre, pelo menos, as variedades Light Sussex, Jubilee Orpington, Cuckoo Maran, Anaconda, Salmon Faveolle, Welsummer, Buff Orpinton e muitas outras, e trazer a eleita para nossa terrinha, que produz mais de doze milhões de toneladas por ano e exporta frangos para mais de cento e quarenta países. Mas, são coisas da indústria, que pouco nos importam se a tal ave, quando assada, é saborosa, nutritiva e mais barata que um peru.
          Então, respiram aliviados nosso inúmeros seguidores, trata-se de frangos como, por exemplo, o “chester” que, enfim aprendemos, é uma marca registrada por uma empresa para designar frangos tão peitudos e coxudos quanto vários outros de outras marcas. É claro, resmunga o rabugento, esse cronista metido a besta, por acaso, achava que a ave temperada congelada era urubu? Não chegamos a esse extremo, mas, entre as pérolas com que a Internet nos brinda, encontramos o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Aves Temperadas, expedido pelo Ministério da Agricultura, o qual, a folhas tantas define que “…entende-se por Aves Temperadas o produto cárneo industrializado, obtido de aves domésticas como Frango, Galinha, Peru, Marreco, Galinha d'Angola e outros…”. Outros? Que outros??!! Consola-nos saber que urubu não é propriamente uma ave doméstica, e que também estamos livres das galinhas selvagens da ilha de Kauai, no Havaí, descendentes de galinhas domésticas que escaparam dos quintais de casas na ilha e foram morar na floresta vizinha. Mas, acreditem, o insuspeito IBAMA considera oficialmente domésticas para fins de operacionalização – seja lá o que isso for -, aves como canários, periquitos, pombos e até cisnes negros. Esperneie quanto quiser, rabugento, porém nada impede que o seu vizinho rotule como “ave temperada congelada” qualquer exemplar de sua ruidosa criação de periquitos que ele porventura roube e guarde no freezer.
          Confessamos, então, que mesmo depois de tanta busca na Internet, infelizmente, persiste uma pulga atrás de nossa orelha. Entre outras coisas, por conta de uma historinha que nos chegou a partir do testemunho de um ilustre ex-aluno de respeitabilíssima Universidade brasileira. Vizinhos ao prédio onde nosso informante estudou, há uma praça cheia do que a modernidade chamaria de food trucks, ou seja, na verdade uns trailers mal-ajambrados, entre os quais se destaca uma pastelaria muito popular. Um professor costumava encomendar, para entrega em sua unidade de ensino, pombos vadios para demonstrações nas aulas práticas de Anatomia de Aves. Um belo dia, na falta de animais, o professor saiu à pracinha, onde sempre se via uma infinidade de pombos. Desajeitado, o mestre tentava de tudo, mas não conseguia capturar nenhum. Lá pelas tantas, o dono da pastelaria saiu de seu trailer e ofereceu ajuda. Aproximou-se lentamente de um pombo que ciscava no chão e logo a ave se deixou pegar, sem resistência, ao som da melodiosa voz do Sr. Wang, que cantarolava mansamente “fango…fango...”.
          Feliz Natal!
         
Rafael Linden



domingo, 11 de dezembro de 2016

Yes, nós tínhamos bananas...

          “Banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer…”. E lá se foram décadas desde a estréia da marchinha “Yes, nós temos bananas”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, gravada por Almirante para o Carnaval de 1937. Bons tempos, em que nem mesmo a insinuação de que a fruta lhe acrescentaria uns quilinhos, impedia a avó da gentil leitora de se esbaldar com a musiquinha no primeiro baile de gala realizado no Theatro – com “h” – Municipal do Rio de Janeiro. Naquele ano, em plena Praça Onze, a Associação Recreativista Vizinha Faladeira venceu o desfile das Escolas de Samba; quando se esgotou o horário autorizado para o evento, o Delegado de Polícia mandou desligar a corrente elétrica, retirou o policiamento do local e, com isso, impediu o desfile de metade das concorrentes; e no dia seguinte, o certame do grupo de acesso não aconteceu porque o encarregado da organização não deu as caras. Tinha disso. E tínhamos, dizia a canção, “bananas pra dar e vender…” .
          Ainda as temos. Até quando? Pois especialistas alertam que, na falta das devidas providências, dentro de pouco tempo poderá acontecer uma catástrofe com a população mundial de bananas d’água, por aqui também chamadas de bananas nanicas. Dito assim, parece mera desculpa para escrever uma crônica com piadinhas infames. Mas é assunto sério. E de nada adianta o leitor rabugento dar de ombros porque banana d’água lhe dá dor de barriga e, por isso, não a come. Sua variedade predileta, seja qual for, pode ir pelo mesmo caminho.
          A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – conhecida pela sigla FAO - informa que há no planeta por volta de mil variedades distintas de banana. Mas um único tipo responde por cerca de metade de todas as bananas colhidas, e pela quase totalidade das comercializadas por exportação no mundo inteiro. É a Cavendish, nome de família do Duque de Devonshire, em cuja propriedade o jardineiro Joseph Paxton plantou, em 1830, a primeira muda deste tipo de fruta na Inglaterra, oriunda da Maurícia, à época uma colônia britânica. Cinco anos depois, quando o jardineiro logrou colher uma centena de bananas e foi premiado pela Sociedade Horticultural, os empregados da propriedade aproveitaram a ocasião para puxar o saco do Duque, batizando a fruta com seu nome. Pois a banana d’água é uma Cavendish, descendente daquela bananeira histórica.
          O problema é que as bananas deste tipo estão em perigo, por causa de um fungo que causa a chamada “doença do Panamá”. Há muitas pragas que podem atacar bananeiras, com consequências que vão desde manchas inofensivas na casca até a devastação completa da plantação. E a doença do Panamá é um dos casos mais graves. Desde o século XIX a variedade Cavendish era resistente a este fungo, ao contrário da maioria das outras bananas comestíveis. Por isso mesmo, tornou-se a mais comercializada no mundo inteiro quando, há cinquenta anos, a então recordista Gros Michel sucumbiu ao tal fungo em escala mundial. Os produtores e, particularmente, as empresas que dominam o mercado se concentraram então na Cavendish e, agora, arrancam os cabelos para descobrir como livrar nosso planeta de mais este flagelo que se avizinha – o fim das bananas!
          Já se sabe que a Cavendish se tornou sensível à doença do Panamá porque surgiu uma nova variedade do fungo, que difere geneticamente das anteriores. Esse tipo de coisa é uma consequência natural da evolução dos microorganismos, mas nem tudo está perdido. Nos mais inusitados confins da Terra, pesquisadores vem procurando e achando bananas selvagens, que não são consumidas por essa nossa civilizaçãozinha mimada, a qual despreza tais frutos, ora vejam, só porque tem mais sementes verdadeiras do que polpa, sabor repugnante e, principalmente, não são vendidas no mercadinho da esquina. E para que essa garimpagem de bananas exóticas? Não é, felizmente, para nos educar a comer aqueles troços, e sim para estudar suas propriedades biológicas, em busca de mecanismos que tornaram algumas delas ainda resistentes à nova forma da doença do Panamá e, com sorte, a muitas outras pragas.
          Os cientistas estão também procurando os genes responsáveis pela resistência que a Cavendish tinha contra as variedades anteriores do fungo. Quando descobrirem talvez seja possível, por exemplo, produzir bananas d’água transgênicas para substituir a Cavendish tradicional. Vejo daqui nossa gentil leitora arrepiar os cabelos ao ler o adjetivo “transgênico” junto com o substantivo “banana”. Antes que este blogue perca de vez sua numerosa audiência, deixemos aqui registrado nosso amor incondicional pela Natureza e tudo que ela nos oferece, das paisagens às frutas, passando pela biodiversidade em geral e pelo ar puro. E aplaudimos o privilégio de quem tem acesso a vegetais de boa qualidade produzidos pela chamada agricultura orgânica. No entanto, a fruticultura orgânica no Brasil ainda é incipiente e inconstante, a oferta é muito limitada e a equação da banana é complicadíssima. Por exemplo, cerca de metade das seis ou sete milhões de toneladas de bananas produzidas por ano na nossa amada terrinha são de outra variedade mas, assim como a Cavendish, são sensíveis a diversas pragas comuns nas vizinhanças. No mundo inteiro, por enquanto, o controle dessas pragas é geralmente feito por uma combinação de poda seletiva com aplicação de agrotóxicos. Por outro lado, cientistas brasileiros, principalmente da EMBRAPA, vem há anos trabalhando em programas de Melhoramento Genético das bananeiras, e a cada dia surgem novas tecnologias das quais se espera sucesso progressivo. Dentre essas, ainda que controversa, a produção de alimentos transgênicos não pode ser simplesmente descartada como alternativa desde que, é claro, devidamente fundamentada em estudos científicos e avaliação de riscos à Saúde.
          Afinal, em todo o mundo, mais de cem bilhões de bananas são consumidas por ano e, em muitos lugares, a fruta é indispensável para garantir um mínimo de eficácia à alimentação local. A chave para a solução do problema, segundo especialistas, está na diversificação de variedades da fruta, que promete aumentar as chances de resistência de algumas delas à evolução inexorável das pragas, em lugar da uniformidade genética representada por bananas descendentes de um único cacho que por acaso foi parar nas mão de um jardineiro inglês no século XIX.
          Tudo indica que a descoberta de soluções para a crise da banana é mais provável através do exame criterioso e teste de múltiplas idéias e tecnologias, baseadas em métodos tradicionais ou não. Porém, o destino das simpáticas frutinhas ainda esbarra em questões cabeludas, como o choque entre o direito à propriedade da biodiversidade mundial e as práticas de conglomerados empresariais, bem como a predominância de opiniões radicais sobre benefícios e malefícios de novas tecnologias, além de disputas territoriais, interferência e intolerância política ou ideológica, roubalheira descarada e por aí vai.
          Cá para nós, mesmo o rabugento é capaz de, às vezes, tolerar outras idéias que não as próprias e chegar a um denominador comum com a gentil leitora, o humilde cronista e muitos outros cidadãos dentre a multidão que se aglomera em torno deste blogue. Mas a crescente praga de sectarismo e raiva epidêmica, que assola todos os setores da vida contemporânea, não tem oferecido soluções para coisa nenhuma. E dificilmente ajudará a salvar as prosaicas bananas, cuja redenção parece, como tantas outras coisas, depender do binômio diversidade-tolerância. Quem dera a véspera do Natal de 2006 não nos tivesse roubado o Braguinha, pois ele ainda estaria por aí cantando “Yes, nós temos bananas”. No entanto, se for inevitável mudar a letra da marchinha, que pelo menos não seja porque gente capacitada e bem intencionada desperdiçou oportunidades por sectarismo ou intolerância. Já nos basta a frequência com que tantos bons frutos da aventura humana andam a desaparecer por causa disso.


Rafael Linden


sábado, 26 de novembro de 2016

Latrinas do poder

          Já uma vez, ao escrever sobre um pouquinho de Ciência, este humilde cronista trilhou o perigoso caminho da escatologia quando discorreu sobre a descoberta, na Argentina, de um local reservado onde defecavam animais pré-históricos. Eis que novamente o destino nos reserva assunto semelhante o qual, no entanto, será tratado com nossa indefectível elegância. Como sempre.
          O ano da graça de 2016 está acabando e, com ele, o quarto centenário da morte de Shakespeare. Aproveitemos pois para render mais uma homenagem ao bardo, lembrando uma célebre frase do primeiro ato da peça Hamlet, que muita gente acha ser dita pelo protagonista mas, na verdade, sai da boca de Marcellus, um dos sentinelas do Palácio Real. Esse personagem se refere à derrocada moral de seu país com a expressão “…há algo de podre no Reino da Dinamarca”. E não é que, justo agora, vem da Dinamarca a notícia de que um punhado de fezes petrificadas, encontrado num recipiente quebrado no depósito de um museu, foi produzido entre o final do século XVII e o início do século XVIII, e “pertenceu” a um certo bispo? Durma-se com um barulho - ou um cheiro - desses…
          Pois é isso mesmo. A descoberta foi feita pela arqueóloga Jette Linaa junto com seu colega Christian Vraengmose, ambos cientistas do Museu Moesgaard, localizado na cidade dinamarquesa de Aarhus. Esse museu é especializado em Pré-História e Etnografia, e o tal recipiente tinha sido esquecido no depósito desde 1937, quando foi encontrado no local em que ficava o palácio do bispo Jens Bircherod. O clérigo exerceu sua função na cidade de Aalborg entre 1694 e 1708, e o material tinha sido recolhido de uma latrina do seu palácio. A doutora Linaa deu de cara com aquilo quando garimpava indícios de migrações de populações dinamarquesas para centros urbanos entre os séculos XV e XVII.
          A pesquisadora levou o espécime para exame por um arqueobotânico que, tadinho, para começar teve de reidratar o tolete ressecado, com previsíveis consequências odoríficas. Mas o pesquisador foi recompensado com a constatação de que ali havia restos de uma dieta saudável, incluindo sementes, oleaginosas, frutas vermelhas e trigo sarraceno, esse último comum na ilha em que o bispo Bircherod passou a infância e juventude. Tais alimentos correspondiam à dieta das classes privilegiadas da época, enquanto os servos comiam habitualmente carnes de porco e boi, repolho e pão de centeio. Além disso, a latrina que abrigava a preciosidade era usada apenas pelo bispo e sua esposa, portanto um dos dois tinha de ser responsável por aquela m…, perdão, pelo achado. Ainda assim, apesar desta história toda parecer uma paródia dos filmes de Indiana Jones, é a primeira vez que se consegue atribuir um excremento fossilizado a um determinado indivíduo. Ou a um casal, afinal, entre várias reportagens sobre o assunto, incluindo uma entrevista ao vivo que a doutora Linaa concedeu à jornalista Helen Mann para a Radio Canada, este perplexo cronista não conseguiu descobrir a razão pela qual quase todo mundo desconsiderou a hipótese de que a emissora do artefato fosse a esposa. De qualquer modo, a identificação do autor da façanha seiscentista repousa sobre a diferença de dietas entre poderosos e seus servos, um prato cheio – queiram perdoar - para quem frequentemente se entristece com este mundo em que vivemos.
          Como é de se esperar, cá do telhado não podemos deixar de assinalar a coincidência cósmica entre a descoberta arqueológica dos pesquisadores dinamarqueses e uma outra latrina européia, essa contemporânea, fabricada na Polônia e descrita no portal da empresa Xime como um “assento-bidê eletrônico”. Essa tampa de privada pós-moderna também pertence a poderosos, e foi revelada em páginas políticas ou policiais dos jornais – qual é mesmo a diferença entre essas duas? -, a partir do trabalho de uma classe distinta de investigadores, os quais costumam apresentar seus achados a magistrados de varas criminais, ao contrário dos simpáticos cientistas dinamarqueses que frequentam simpósios científicos e eventos culturais.
          Isto posto, a gentil leitora não perde por esperar pois, assim como lá na Dinamarca há outras duas latrinas encontradas em Aalborg à espera do escrutínio da doutora Linaa, certamente há muitas outras privadas modernas a investigar por aqui mesmo. Afinal, sempre existe o que desvendar nos diversos tipos de mobiliário que ornamentam aposentos imperiais, como diria o oficial Marcellus, em reinos nos quais há muito de podre.

Rafael Linden


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Trinta e um e meio quatrilhões de trilhões de zeptossegundos

          Daqui do telhado ouve-se a melodiosa voz da leitora consternada, a lamentar a insanidade que assola a confusa mente deste modesto escriba. Que raio de título é esse? Mal sabe ela que o abantesma no topo do texto significa quase um ano, faltando meras dez horas. Sim, sim, sabemos que a explicação não mitigou sua estupefação. Quem sabe nos próximos parágrafos? Afinal, do que se trata? Pois lá vai, aos pouquinhos como de hábito.
          Há duas décadas estreava na Broadway o musical Rent (“aluguel” no idioma de Shakespeare), criado pelo dramaturgo Jonathan Larson. A peça remete à ópera La Bohème, de Puccini, por sua vez inspirada no livro Scènes de la vie de bohème (“Cenas da vida boêmia” no idioma de Molière), de autoria de um certo Henri Murger com base em sua vida de escritor pobre em Paris no século XIX. Rent conta a história de sete artistas que lutam para sobreviver e perseguir seus sonhos na Nova Iorque dos anos 1980, num cenário de desemprego, drogas, liberação sexual e AIDS. A peça é considerada um divisor de águas neste estilo de musical, foi laureada não apenas com o Tony Award, mas também com o prêmio Pulitzer de Teatro, que colocou o autor na companhia de grandes dramaturgos norteamericanos, como Tennessee Williams, Arthur Miller, Edward Albee e outros. As tragédias fictícias dos personagens, no entanto, carregam a amarga ironia de que, aos trinta e cinco anos de idade, Larson foi vítima de um aparente erro médico em dois hospitais de Nova Iorque e morreu quatro dias antes da estréia consagradora da peça em um dos principais teatros da cidade.
          Uma das canções emblemáticas de Rent chama-se “Temporadas de amor” (Seasons of love). Nela se pergunta como mensurar um ano na vida de alguém, para concluir que, entre várias opções, pode-se – ou deve-se – usar como unidade de medida o amor. A letra começa com o verso “quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos”, correspondente a um ano - faça a conta, rabugento, e não atrapalhe a poesia com bissextos ou relógios atômicos. Ah, agora sim, vislumbra-se uma razão para aquele título esquisito, não é mesmo? Só nos falta explicar o que são os tais zeptosegundos. É simples, basta lembrar que uma hora tem sessenta minutos, e cada minuto tem sessenta segundos. Quem tem alguma simpatia por Matemática chama de milissegundo um milésimo de segundo, enquanto um milionésimo de segundo é chamado de microssegundo. A senhora acha que um microssegundo passa rapidinho? Pois um zeptossegundo dura exatamente um trilionésimo de bilionésimo de segundo. “Trilionésimo de bilionésimo” parece doença do fígado, mas na verdade é uma fração muito, muito, muuuuuuuito pequena de um segundo.
          Hoje em dia a cronometragem das corridas de velocidade, como os cem metros rasos, exige câmeras e equipamentos eletrônicos sofisticados para registrar com precisão o tempo de um recordista. Diferenças entre medalhistas de ouro, prata e bronze com frequência são da ordem de alguns centésimos de segundo, um tempo curto demais até para a platéia ter certeza de quem venceu a prova até sair o resultado oficial. Imagine então a petulância de alguém que pretendesse medir um intervalo de tempo de, digamos, uns oitocentos ou novecentos zeptossegundos. Pois não é que cientistas da Alemanha, Áustria e Espanha, deixaram de lado um caloroso debate sobre a supremacia gastronômica de bratwurst, Wiener schnitzel ou paella Valenciana e quebraram o recorde? Isso mesmo, o time liderado pelo cientista Martin Schultze, do Instituto de Óptica Quântica de Garching, na Alemanha, conseguiu medir o tempo necessário para um fóton arrancar um elétron da órbita de um átomo do gás Hélio. Não se assustem com a aparente complexidade, essa coisa se traduz como o tempo necessário para uma quantidade mínima de energia expulsar um componente minúsculo de um átomo. O tempo para ejeção do elétron foi calculado em cerca de dez mil zeptossegundos, com uma precisão de mais ou menos oitocentos e cinquenta zeptossegundos. Não se amofinem com detalhes, basta acreditar que se trata de um evento muito, muito, mas muuuuuuuito rápido mesmo. Tanto que o trabalho destes cientistas, publicado na prestigiosa revista Nature Physics, vem sendo festejado como uma façanha respeitável no ramo da Mecânica Quântica, porque deve abrir oportunidades para novas descobertas sobre as propriedades fundamentais de tudo o que existe no Universo.
          Para chegar ao resultado o grupo se valeu de tecnologia de ponta, incluindo lasers sofisticadíssimos, uma câmera que faz o que profissionais chamam de “fotoluminescência resolvida no tempo”, e um monte de equações e estatísticas. Acabaram conseguindo a medida mais precisa de um fenômeno físico feita até hoje no contexto do chamado “efeito fotoelétrico”, a descoberta que deu a Albert Einstein o prêmio Nobel de Física em 1921. Pois é, caros leitores, na nossa santa ingenuidade, em geral achamos que o linguarudo foi premiado por desenvolver a célebre teoria da relatividade, da qual até o rabugento já ouviu falar. Ledo engano. A Academia Sueca fez questão de enfatizar que o que consideravam a mais importante contribuição de Einstein era “a lei do efeito fotoelétrico”. Fazer o que, né? Se houver uma enquete entre os leitores para descobrir qual é a mais bela composição de Tom Jobim, muitos discordarão do resultado, seja qual for. Melhor deixar de lado as batalhas acadêmicas e aceitar que, mesmo que apareça coisa ainda mais espetacular ainda essa semana, a medida feita pelo grupo do Schultze foi porreta.
          E assim, sem sofrimento, a gentil leitora percebe que seu cronista predileto não está completamente gagá. O título lá de cima é inusitado, mas foi por uma boa causa. Serviu para prender a atenção de quem chegou até esse último parágrafo e, como bonus, ainda terá a oportunidade de degustar mais um de nossos devaneios. Desta vez sobre o tempo, que permeou esta crônica desde os zilhões do título, passando pelos vinte anos de Rent, dezenove séculos de Cristo a Murger, trinta e cinco anos de Larson, quatro dias entre sua morte e a estréia da peça, meio milhão de minutos na canção, mili, micro e zeptossegundos. Como dizem os franceses, tout passe, tout lasse, tout casse et tout remplace...Na velocidade do efeito fotoelétrico, no ritmo dos anos ou ao longo das eras geológicas, com o tempo tudo passa. Até as agruras que andamos sofrendo, aqui ou alhures, cada um na sua medida. Às vezes a persistência deste sofrimento parece durar quatrilhões de trilhões de séculos. Mas sempre se pode usar outras unidades de medida.

Rafael Linden