sábado, 27 de fevereiro de 2016

A pequena plantinha dos horrores

          E lá se vão trinta anos do lançamento do filme “A pequena loja dos horrores”, uma hilariante comédia musical estrelada por Rick Moranis no papel de um florista que cultiva em casa uma plantinha carnívora, chamada “Audrey 2”. O nome era uma homenagem a outra funcionária da loja, por quem o personagem nutre uma secreta paixão e que, por sua vez, namora um dentista sádico magistralmente interpretado por Steve Martin. Um dia, o humilde florista propõe ao dono da floricultura levar a planta para o estabelecimento, com a intenção de atrair fregueses. Logo, “Audrey 2” se revela apreciadora de sangue humano e torna-se uma devoradora de personagens, entre os quais o dentista, o proprietário da loja, e por aí vai. A película é uma adaptação do musical homônimo, que estreou em 1982 em um teatro de Nova Iorque, e cuja trilha sonora foi em grande parte aproveitada no filme. Já a peça tinha sido inspirada num filme de horror, de 1960, dirigido por Roger Corman, considerado um dos grandes realizadores de “filmes B”.
          Celebremos pois o trigésimo aniversário da terceira versão da pequena loja dos horrores, e os que não a viram não sabem o que perdem. Entrementes, a gentil leitora já intuiu que, como de hábito, o assunto da crônica não é o que parece. De fato, não é Cinema. É Ciência. Mas, em nossa defesa, é a Ciência das plantas carnívoras.
          Esses espécimes representam a vingança dos vegetais. “Ah, animais comem plantas? Pagarão caro por isso!”, bradavam as múltiplas ancestrais de centenas de espécies de plantas carnívoras conhecidas. Reunidas há mais ou menos uns cem milhões de anos, decidiram proliferar e se expandir por Gaia, quiçá sonhando com um mundo no qual frigoríficos industriais, alguns aliás de má fama, eventualmente fornecerão a saborosa proteína animal para sua insaciável glutonaria. Combinaram começar com protozoários, depois insetos, anfíbios de pequeno porte, roedores inocentes, na expectativa de que um dia – ah, esse dia há de chegar, exultavam as pioneiras – deliciar-se-ão em banquetes pantagruélicos com as mais macias carnes de veganos incautos. Tá bom, tá bom, talvez o cronista tenha se excedido um pouquinho mas, do jeito que as coisas andam, é melhor tomar certos cuidados para não nos surpreendermos com a materialização do pesadelo de Roger Corman e seus sucessores.
          O fato é que plantas carnívoras existem por aí aos montes e usufruem do valor alimentício de suas presas por meio da secreção de enzimas digestivas poderosas, em câmaras nas quais animais caem ou são capturados. Uma das mais conhecidas atende pelo nome científico Dionaea muscipula, seu apelido em inglês é Venus flytrap, e o equivalente nacional é Papa-mosca. É muito parecida com a “Audrey 2”, tem o jeitão de uma boca aberta com “dentes” nas extremidades. No interior há pelinhos delicados, que servem como sensores da presença da vítima, em geral um inseto. Quando tocados, esses pelinhos transmitem informações que disparam o fechamento rápido da “boca”, como numa ratoeira – daí o nome científico muscipula -, seguido pela secreção interna das enzimas digestivas. A planta pode repetir várias vezes a sequência de se abrir, capturar e digerir nova presa, e sobreviver por alguns anos até envelhecer e perder a mobilidade necessária para suas refeições.
          Mas esse ritual precisa estar bem ajustado, pois elas crescem ao relento e vez por outra chove. Entretanto, a planta raramente se fecha na chuva, coisa que, convenhamos, seria um desperdício na ausência de um suculento inseto. Como é que o vegetal distingue o contato acidental com uma gota de chuva da captura de uma mosca distraída? Essa questão foi respondida há cento e quarenta anos, por um cientista britânico chamado John Scott Burdon-Sanderson. Em 1876 Sanderson e um colega publicaram um artigo na revista Proceedings of the Royal Society, demonstrando que cada toque num pelinho da face interna da papa-mosca dispara um fenômeno bioelétrico chamado potencial de ação, que se espalha pela planta. E que dois ou mais toques são necessários para provocar o fechamento da planta. Um inseto em movimento tem chance de tocar dois ou mais pelinhos em rápida sucessão, o que leva ao fechamento, enquanto é muito menos frequente o toque rápido de duas gotas de chuva sobre dois pelinhos, a não ser sob um temporal torrencial. Além disso, o inseto cada vez se move mais, em agonia, à medida que a planta se fecha com ele dentro, reforçando o mecanismo que tranca a vítima na Dionaea. Bacaninha, né?
          Pois tem mais. O cientista alemão Rainer Hedrich liderou um grupo que esmiuçou o ritual gastronômico da papa-mosca. Usando tecnologia ultramoderna, os pesquisadores demonstraram vários mecanismos que ainda não eram conhecidos, publicando seus resultados na revista Current Biology. O mais intrigante foi a descoberta de que a planta “conta” os toques nos pelinhos sensores. As aspas são um sinal de respeito por nós, humanos, que muito nos orgulhamos de nossa capacidade de contar e nos regozijamos quando uma criança de um ano e meio aprende a contar 1, 2, 3…Mas não é que o diabo da planta tem habilidades matemáticas? Hedrich e seus colegas testaram quantos toques eram necessários para disparar cada etapa do processo de captura e digestão, e concluiram que são necessários apenas dois toques consecutivos para promover o fechamento da Dionaea, mas são necessários três ou mais toques consecutivos para disparar a secreção das enzimas digestivas! Há pouco tempo, um grupo de cientistas surpreendeu o mundo acadêmico com uma demonstração de que pintos conseguem “contar” objetos para tomar decisões em uma tarefa. Agora vem esse cidadão nos dizer que pinto é…pinto perto da papa-mosca? Sei não mas, por via das dúvidas, acho que devemos nos preocupar com a proliferação dessas plantas carnívoras por aí. Vai que começam a fazer contas um pouquinho mais complexas e resolvem dar palpite na Economia, já não nos bastam os horrores atuais?

Rafael Linden



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Planeta 9 do espaço sideral

          Os inúmeros cinéfilos que, regularmente, se acotovelam para degustar os escritos deste modestíssimo cronista já rangem os dentes, ante a heresia de conspurcar o título de um afamado exemplar do cinema cult. Pensam tratar-se de “Plano 9 do espaço sideral” - Plan 9 from outer space -, oficialmente descrito como o pior filme jamais produzido, e que foi escrito e dirigido por Ed Wood, agraciado com o “Troféu Peru de Ouro” como o pior cineasta de todos os tempos. A reputação daquele filme, hoje, se divide entre aqueles que o consideram mera curiosidade histórica e os que o cultuam como “tão mal feito que se tornou, involuntariamente, uma comédia hilariante”. O roteiro narra a história de alienígenas que recrutam zumbis para punir preventivamente a humanidade, a qual está prestes a desenvolver a “solobonita”, um artefato explosivo capaz de destruir todo o Universo. Como se pode depreender, uma missão humanitária como tantas que há por aí.
          Poderíamos, cá no telhado, argumentar que é uma boa oportunidade para comemorar os 60 anos da produção deste filme, rodado em 1956. Foi esse tembém o ano da morte de Bela Lugosi, um ator que se tornou conhecido por seus papéis em filmes de horror, como Drácula. A última aparição de Lugosi foi justamente em “Plano 9”, através do aproveitamento, pelo diretor, de tomadas feitas para outros filmes antes da morte do ator. Pois é, assim classificaríamos esta crônica como mais uma de nossas celebrações culturais, hoje dirigida à sétima arte. Mas não é nada disso. Trata-se de mais uma historinha bacana das hostes da oitava arte, a Ciência.
          Daí o título. “Planeta 9” foi o apelido sarcástico que dois cientistas da Caltech deram à descoberta de fortes indícios da existência de um novo planeta do sistema solar. Um destes cientistas é Michael Brown, renomado especialista em corpos celestes localizados na periferia do sistema solar. Brown é celebrado, entre outras façanhas, pela descoberta de um planeta-anão chamado Eris e, particularmente, por este achado ter levado a um intenso debate sobre a natureza de Plutão, que culminou no rebaixamento deste último à categoria de planeta-anão. Essa coisa toda reduziu de nove para oito o número de planetas do sistema solar e, ora vejam, enfureceu Sheldon Cooper, um dos heróis da comédia The Big Bang Theory.
          Mike Brown e seu colega Konstantin Batygin publicaram em janeiro de 2016 um artigo na revista Astronomical Journal, descrevendo seus estudos que sugerem a existência de um planeta com uma massa dez vezes maior que a nossa Terra, lá longe, a uma distância de cerca de cem bilhões de quilômetros do sol, e que ainda não foi visto por ninguém. Para se ter uma idéia, a Terra está a apenas uns cento e cinquenta milhões de quilômetros de distância do Sol. Os autores analisaram uma infinidade de dados sobre o comportamento de vários corpos celestes e fizeram uma extensa modelagem computacional, que levou à conclusão de que a existência deste novo planeta – o novo “planeta número nove” -, é a explicação mais provável para a forma como corpos celestes se movem na fronteira do sistema solar. Agora, diversos astrônomos já estão usando os mais potentes telescópios existentes no mundo para procurar o tal planeta que, se confirmado, será um novo marco na pesquisa sobre o campo de influência do Sol, com todo o respeito, nossa cálida e brilhante estrelinha.
          Tal como acontece ao final dos campeonatos de futebol ou apurações dos desfiles de escolas de samba, os órfãos de Plutão jamais se conformarão com seu rebaixamento. E para sempre guardarão no coração uma ponta de rancor. Que se há de fazer? É assim a Ciência. Vez por outra uma idéia, conclusão ou descoberta pode perder o lugar para outra. Cientistas de verdade se rendem aos fatos. Mas, cá para nós, não obstante o culto à bizarrice, aquele filme do Ed Wood era mesmo uma porcaria…

Rafael Linden



sábado, 13 de fevereiro de 2016

O caminho das pedras

          O Novo Testamento contém uma passagem em que Jesus é visto caminhando sobre as águas do Mar da Galiléia. Se, por um lado, a doutrina cristã se refere a este episódio como um milagre que atesta a importância da fé, por outro a rapaziada, com seu inefável espírito de porco, inventou a piada em que Cristo exorta São Pedro a ensinar o caminho das pedras para um incauto que se afogava ao tentar semelhante aventura.
          À parte tanto a religião quanto a pilhéria, certos insetos não apenas caminham sobre a água, como conseguem escapar de predadores aos pulos como se tomassem impulso sobre um chão de pedras. Tal proeza é típica da família dos Gerrídeos, dos quais faz parte um simpático frequentador de rios e poças, conhecido pelo nome de aranha d’água ou, por motivos óbvios, inseto-Jesus. Para caminhar sobre a água, esses bichinhos se valem de uma propriedade da interface entre água e ar, chamada tensão superficial. Isso se deve à atração mais intensa entre moléculas no estado líquido do que entre essas e o ar, assim criando na superfície da água um comportamento semelhante a uma membrana elástica. Em consequência, os minúsculos e relativamente leves Gerrídeos podem flutuar e se movimentar na superfície da água sem muito esforço.
          Ao longe ouvimos o rabugento vociferar contra a dedicação de nosso precioso tempo às proezas malabarísticas de insetos quando, em se tratando de água doce, nossa única preocupação deveria ser o mosquito transmissor de dengue, chikungunya e zika. Para aquele leitor, só nos resta asseverar que, ainda agorinha, confirmamos não haver uma só gota de água parada exposta ao ambiente em nossa residência, a qual pudesse servir de criadouro para larvas de Aedes. Outrossim, a presença dos Gerrídeos na crônica se deve tão-somente à inspiração que ofereceram para o desenvolvimento de uma nova ferramenta de robótica.
          Engenhocas inteligentes não são novidade, e volta e meia aparece na televisão um robozinho capaz de coisas surpreendentes. A idéia de usar a tensão superficial para ajudar maquininhas a caminhar sobre a água também não é nova, e já foi materializada há mais de uma década. Mas nenhum microrobô era capaz de pular na água. Pois cientistas dos departamentos de robótica e de mecânica de fluidos da Universidade Nacional de Seul, na Coréia do Sul, lideraram uma equipe internacional que conseguiu produzir um microrobô muito parecido com uma aranha d’água, o qual foi capaz de pular a partir da superfície de água, usando a tensão superficial como base principal desta habilidade. Um trabalho relatando esta história foi publicado em julho de 2015 na prestigiosa revista Science.
          A Física envolvida no estudo não é para amadores, e este vosso criado não se atreve a tentar explicá-la, bastando-lhe o trabalho que teve para entender o conteúdo do trabalho de forma superficial – sem trocadilho. Mas o bacana é que os cientistas, antes de mais nada, usaram câmeras de alta velocidade para registrar detalhadamente os movimentos das patinhas deste tipo de inseto ao pular na água, depois mediram e calcularam um monte de parâmetros mecânicos e, com isso tudo, construíram insetos artificiais, que conseguem pular na água de forma quase indistinguível de um inseto de verdade. Finalmente, encontraram uma solução para um problema complicado na área de robótica, que era uma barreira para o desenvolvimento de novas máquinas móveis mais eficientes.
          Aquele leitor – lembram? - continua ranheta e, desdenhoso, pergunta para que serve uma engenhoca dessas. Já não nos basta insetos que transmitem doenças, agora teremos de conviver com insetos artificiais “Made in Korea”, à venda nas boas casas do ramo, para que desocupados nos apoquentem com mais essa praga? Pois, com toda a pachorra que nos é característica, em respeito à gentil leitora que nos acompanha há tanto tempo, apressamo-nos a concluir que a aplicação da biologia como fundamento de engenharia avançada é um dos caminhos mais promissores para o desenvolvimento futuro de máquinas mais úteis. De fato, quando a robótica começou, pouca gente acreditava que, hoje em dia, tantos destes equipamentos já estariam em uso rotineiro na prospecção de petróleo, na montagem de artefatos industriais, na mecanização de experimentos de laboratório, no controle de cirurgias de difícil acesso, e até nos robôs aspiradores de pó que, tenho certeza, o rabugento bem gostaria de ter em casa para poupar-lhe a incômoda tarefa de levantar de sua poltrona reclinável, a fim de coletar as migalhas dos biscoitinhos que consome enquanto lê nossa coisinhas.


Rafael Linden