sábado, 20 de fevereiro de 2016

Planeta 9 do espaço sideral

          Os inúmeros cinéfilos que, regularmente, se acotovelam para degustar os escritos deste modestíssimo cronista já rangem os dentes, ante a heresia de conspurcar o título de um afamado exemplar do cinema cult. Pensam tratar-se de “Plano 9 do espaço sideral” - Plan 9 from outer space -, oficialmente descrito como o pior filme jamais produzido, e que foi escrito e dirigido por Ed Wood, agraciado com o “Troféu Peru de Ouro” como o pior cineasta de todos os tempos. A reputação daquele filme, hoje, se divide entre aqueles que o consideram mera curiosidade histórica e os que o cultuam como “tão mal feito que se tornou, involuntariamente, uma comédia hilariante”. O roteiro narra a história de alienígenas que recrutam zumbis para punir preventivamente a humanidade, a qual está prestes a desenvolver a “solobonita”, um artefato explosivo capaz de destruir todo o Universo. Como se pode depreender, uma missão humanitária como tantas que há por aí.
          Poderíamos, cá no telhado, argumentar que é uma boa oportunidade para comemorar os 60 anos da produção deste filme, rodado em 1956. Foi esse tembém o ano da morte de Bela Lugosi, um ator que se tornou conhecido por seus papéis em filmes de horror, como Drácula. A última aparição de Lugosi foi justamente em “Plano 9”, através do aproveitamento, pelo diretor, de tomadas feitas para outros filmes antes da morte do ator. Pois é, assim classificaríamos esta crônica como mais uma de nossas celebrações culturais, hoje dirigida à sétima arte. Mas não é nada disso. Trata-se de mais uma historinha bacana das hostes da oitava arte, a Ciência.
          Daí o título. “Planeta 9” foi o apelido sarcástico que dois cientistas da Caltech deram à descoberta de fortes indícios da existência de um novo planeta do sistema solar. Um destes cientistas é Michael Brown, renomado especialista em corpos celestes localizados na periferia do sistema solar. Brown é celebrado, entre outras façanhas, pela descoberta de um planeta-anão chamado Eris e, particularmente, por este achado ter levado a um intenso debate sobre a natureza de Plutão, que culminou no rebaixamento deste último à categoria de planeta-anão. Essa coisa toda reduziu de nove para oito o número de planetas do sistema solar e, ora vejam, enfureceu Sheldon Cooper, um dos heróis da comédia The Big Bang Theory.
          Mike Brown e seu colega Konstantin Batygin publicaram em janeiro de 2016 um artigo na revista Astronomical Journal, descrevendo seus estudos que sugerem a existência de um planeta com uma massa dez vezes maior que a nossa Terra, lá longe, a uma distância de cerca de cem bilhões de quilômetros do sol, e que ainda não foi visto por ninguém. Para se ter uma idéia, a Terra está a apenas uns cento e cinquenta milhões de quilômetros de distância do Sol. Os autores analisaram uma infinidade de dados sobre o comportamento de vários corpos celestes e fizeram uma extensa modelagem computacional, que levou à conclusão de que a existência deste novo planeta – o novo “planeta número nove” -, é a explicação mais provável para a forma como corpos celestes se movem na fronteira do sistema solar. Agora, diversos astrônomos já estão usando os mais potentes telescópios existentes no mundo para procurar o tal planeta que, se confirmado, será um novo marco na pesquisa sobre o campo de influência do Sol, com todo o respeito, nossa cálida e brilhante estrelinha.
          Tal como acontece ao final dos campeonatos de futebol ou apurações dos desfiles de escolas de samba, os órfãos de Plutão jamais se conformarão com seu rebaixamento. E para sempre guardarão no coração uma ponta de rancor. Que se há de fazer? É assim a Ciência. Vez por outra uma idéia, conclusão ou descoberta pode perder o lugar para outra. Cientistas de verdade se rendem aos fatos. Mas, cá para nós, não obstante o culto à bizarrice, aquele filme do Ed Wood era mesmo uma porcaria…

Rafael Linden



11 comentários:

  1. Ainda muito a descobrir... Obrigada pelas gotas culturais...

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    1. Concordo plenamente com Anahertz : Ler seus escritos = "gotas culturais" !!!!

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  2. Muito bom, mas Ed Wood é o santo padroeiro do trash. Como amante do gênero, deixo aqui minha indignação! 😃

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    1. Eu sabia que essa crônica ia mexer em vespeiros...
      :-)

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  3. Espetacular... só digo isso!

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  4. Muito bom, já estou mandando para uma doutora socióloga, cinéfila e aderida a astronomia.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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