domingo, 27 de março de 2016

O batizado

          "Aquela sua tia chata vem?" pergunta Elias. Mas Fiorella está ocupada e a questão fica no ar até que o pequeno Vitor se encontre devidamente vestido de marinheiro. Em prantos, é claro. A calça curta por cima da fralda incomoda o pobrezinho, que nunca usou roupa de verdade. Uma camiseta com golas listradas de azul marinho complementa a tortura. A mãe olha enternecida para a criança e reprime a culpa pelo desconforto do garoto, imaginando a fieira de guarda che bel bambino, parece um homenzinho, tesoro della nonna, “dêcha” titia pegar e outras banalidades carregadas do sotaque napolitano de sua família ou do chiado carioca dos parentes do Elias.
          O marido aguarda pacientemente a resposta até ouvir "claro que vem, ela não perde uma festa". Suspira "a velha é um porre, para ela nada serve, a comida é uma droga, minha família é cafona, fulaninha usa saia muito curta, sicraninho tem mania de bermuda, que saco!". Ela retruca "pois é, agora imagina se eu não convido minha tia para o batizado. Mas não há de ser o pior da festa...".
          Rumam para a igreja. Até aí tudo certo, todos conhecem o Padre Felício, colecionam os santinhos, lêem os livros, ouvem os discos pois, ora essa, se aquele outro pode gravar por que não o Felício? A cerimônia corre bem, o infante se esgoela a ponto de arrancar do Zio Giacomo sua frase predileta ma che la salute ha quel bambino! Cumprimentos, beijinhos, tapinhas nas costas e saem para o lanche no Museu Metropolitano. "A cozinha de lá é ótima, tem um bolo de laranja do outro mundo" explica Elias, enquanto Zia Concetta, aquela, resmunga porca miseria, per me serve solo un buon spaghetti. Os pais de Fiorella apenas sorriem, seguros de que Vitinho será para sempre um bom cristão.
          Para o pai e a mãe do Elias, gente humilde do subúrbio, está tudo ótimo. Têm lá suas preferências, gostam de comemorar casamentos e batizados com uma bela picanha preparada pelo outro filho, mais velho, comandante de um batalhão de falsos gaúchos no braseiro da melhor churrascaria da cidade. Mas o que lhes interessa mesmo é estar perto do Vitor, o primeiro varão depois das duas preciosas netinhas, filhas do churrasqueiro. O diabo é aquela gente esquisita falando língua de novela e reclamando de tudo: “esse pessoal trata o Elias como se fosse o periquito da princesinha”.
          O Museu Metropolitano é uma beleza. Entrada franca, estacionamento gratuito, exposições de pintura, escultura, fotografia, mais uns badulaques cultuados por rapazes de roupas esgarçadas e barbas tortas e moças deselegantes com cabelos multicoloridos. Mas o jardim é o melhor da propriedade, que um banqueiro já falecido doou para o Estado. A área verde foi projetada por um grande paisagista. Em torno de um laguinho habitado por carpas e presidido por uma garça solitária, há um belo mural do mesmo autor do jardim. O ar é puro, refrescante.
          A placidez do lugar só é perturbada por bandos de estudantes que chegam em passeios organizados por escolas da região. Mas nada se compara ao fuzuê armado pela fauna que lá se aboleta para comemorar o batizado do Vitinho. Pois além de pais, tios e avós, o museu recebe mais uns trinta ou quarenta primos, sobrinhos, cunhados e agregados binacionais, cada um mais cada um do que os outros. Os que não foram à cerimônia chegam para o lanche e, depois de saudar os próprios familiares, seguem o ritual de cumprimentos, beijinhos e tapinhas nas costas de desconhecidos.
          O dia está lindo e há muita gente no museu. Alguns almoçam no salão refrigerado do restaurante; lá fora um grupo de jovens escritores conversa e lê seus novos contos, namorados se comem com os olhos nos bancos do jardim. Um casal tenta fotografar a filha pequena entre as árvores: um dos cônjuges aponta a câmera enquanto o outro grita, se descabela, faz polichinelos na vã tentativa de atrair um sorriso da criança entediada. Todos tentam sem sucesso ignorar a festa, que ocupa as cadeiras externas protegidas por barracas de praia fixadas no centro das mesas.
          Há pouco mais de um mês, quando Elias atentou para o tamanho da enrascada, tudo já estava reservado e pago. Por azar, o batizado coincide com a final do torneio internacional de voleibol entre Brasil e Itália e com o Fla-Flu decisivo do campeonato carioca. O primeiro jogo começa junto com o rega-bofe no Museu. O segundo, como se sabe, arma os espíritos com pelo menos uma semana de antecedência. Daí sucede que, cumprindo a profecia de Fiorella, a chatice de Concetta não é o pior da festa.
          Os convidados mais afoitos procuram e não acham aparelhos de televisão. Telefones celulares são acionados para acompanhar pela Internet a final do vôlei. Euforia e desespero se alternam nas mesas das duas nações, entre as quais faíscam olhares inimigáveis. A partida duríssima é decidida no tiebreaker e o fosso se alarga entre as famílias do inocente Vitinho que, diplomaticamente, esgoelou-se com absoluta neutralidade durante o jogo inteiro, provocando incontáveis ma che la salute ha quel bambino!
          A paz só reina na mesa em que estão Elias, Fiorella, Vitor e os avós do menino, Seu Arnaldo e Dona Aparecida, o Comendador Lorenzo e Signora Annunciata. Esses últimos elogiam o lugar, o bom gosto e até a comida ainda que, a conselho de Concetta, evitem as massas.
          Subitamente, um primo do comendador grita è il momento! e tira da mochila uma rabeca. Giacomo, as bochechas vermelhas de tanto vinho, solta o brado de guerra ô Carabitchêvi, prendi la criniera del violino che cantiamo! A seguir, encarna o finado tenor Enrico Caruso com amigdalite e agride meia dúzia de árias com afinação pra lá de troncha.
          Depois do espasmo lírico a comitiva se acalma até o início do Fla-Flu. Seu Arnaldo criou Elias e o irmão estritamente rubro-negros, mas o resto da família se divide entre os times rivais. Imagine-se a algazarra, as provocações, a linguagem e, na metade do segundo tempo, a pancadaria que começou com a marcação de um pênalti suspeito e acabou com a festa. Cumprimentos, beijinhos e tapinhas nas costas distribuídos a toda velocidade, mães desesperadas para arrancar dali filhos a ponto de se engalfinhar de novo com primos, cunhados e agregados. De saldo sete copos, onze pratos, três cadeiras e dois narizes quebrados. Enquanto isso os italianos se esbaldam na tarantella, acompanhada por um acordeão saído sabe-se lá de onde, e Zia Concetta esbraveja ma la quiche era aglio e io sono allergica all'aglio!
          Visitantes do museu, adultos, crianças, namorados e ripongas esquecem seus afazeres e observam a cena boquiabertos. Indagam uns aos outros se é uma performance ou o ensaio de uma chanchada. Os escritores tomam notas e debatem se a cena é dantesca ou felliniana.
            Tudo isso para o Vitinho, dezoito anos depois, raspar a cabeça e virar Hare Krishna.


Rafael Linden


sábado, 19 de março de 2016

Três atrizes, camarão e borboleta

          No filme “O diabo veste Prada”, de 2006, Anne Hathaway aparece como a personagem Andy, uma jovem recém-formada que consegue um emprego como secretária da personagem Miranda Priestley, poderosa editora de uma revista de moda interpretada por ninguém menos do que Meryl Streep. Numa de suas primeiras contracenas, a secretária não vê diferença entre as cores de dois cintos, provocando em Miranda um monólogo antológico sobre a cor do suéter da moça, a criatividade de estilistas famosos e a indústria da moda, iniciado pelo comentário “…o que você não sabe é que esse seu suéter não é simplesmente azul, não é turquesa, não tem cor de lápis-lazuli, na verdade é cerúleo…”. Ao fundo outra personagem, interpretada por Emily Blunt, rouba parte da cena com um simples balançar da cabeça, reprovando a incapacidade de Andy distinguir cores. É um de vários momentos em que as três atrizes, em particular Meryl, justificam seus salários com abundantes recursos artísticos.
          Pois, aqui do telhado, vosso cronista predileto reviu a cena várias vezes em uma base de dados de monólogos de cinema ou teatro que – juro pelo que há de mais sagrado – existe na internet e, confesso, continuo não vendo diferença de cor entre os dois cintos. Sacumé, né? Hômi com “ó” maiúsculo só reconhece branco, preto, vermelho, amarelo, verde e azul, em combinações de duas ou três, as quais correspondem às camisas de seu time de futebol predileto, é ou não é, rapeize? Mas, à parte esse surto de machismo psicótico, como é que os “hômi” e as mulheres distinguem uma cor da outra?
          Eis uma das muitas questões sobre a Natureza cuja solução envolve a Física, a Química e a Biologia, um pouco de cada. Para simplificar basta acreditar que, lá no fundo dos lindos olhos da gentil leitora, existem células de um tipo particular, chamadas cones. Esses cones são receptores de cor, ou seja, funcionam como detectores seletivos para as múltiplas cores que fazem parte de imagens que a óptica do olho forma sobre a retina. No Homo sapiens, essa nossa espécie que, ora vejam, é a mesma tanto para homens quanto para mulheres, a retina possui três tipos distintos de cones. Cada um é sensível a uma faixa limitada de cores do chamado espectro visível, que é o conjunto de todas as cores daquele belíssimo arco iris que surge em lugares bucólicos ao final de uma chuva refrescante. A percepção das diferentes cores depende de quais dos três tipos são ativados por cada imagem, e o quanto cada tipo é ativado. A partir da combinação da atividade dos cones, a informação é transmitida para o cérebro e leva à percepção da cor de um objeto.
          A visão pode ser objeto de anomalias como o daltonismo, no qual um indivíduo tem reduzida sua capacidade de distinguir cores, por carência ou inativação de um dos três tipos de cones. Mas mesmo em condições normais, nem sempre é possível distinguir duas cores muito parecidas apenas com os três tipos de detectores que a retina humana possui. Esta capacidade pode melhorar com muito treino, coisa que faltava na inexperiente secretária e sobrava na editora da revista caricaturada naquele filme. Ainda assim, animais que possuem uma variedade maior de receptores de cor são capazes de detectar diferenças mais sutis. E, por mais que o leitor rabugento se ache melhor, mais evoluído e mais importante do que meros camarões ou borboletas, muitos desses bichos são bem melhores do que ele para diferenciar cores. De passagem, esclareço que isso não tem nada a ver com o chamado “camarão borboleta”, um jeito peculiar de cortar e limpar o crustáceo para o preparo de camarão empanado. Trata-se de Fisiologia mesmo.
          Tanto camarões quanto borboletas tem olhos muito diferentes dos nossos, mas os princípios da visão de cores são muito parecidos. Vários exemplares possuem mais receptores do que seres humanos e, francamente, alguns exageram. Por exemplo, um camarão conhecido como estomatópode, lacraia-do-mar ou lagosta-boxeadora possui quinze tipos distintos de receptores de cor, e uma borboleta chamada bluebottle tem dezesseis. Essas descobertas foram divulgadas em artigos científicos, um deles publicado pelo cientista norte-americano Thomas Cronin na revista Current Biology em 2006 – mesmo ano do lançamento de ”O diabo veste Prada” -, e outro por um consórcio de pesquisadores do Japão e de Taiwan, na revista Frontiers in Ecology and Evolution em março de 2016. Naqueles dois animais há muito mais receptores sensíveis às cores que os humanos enxergam, além de alguns tipos também sensíveis a ultravioleta, que nós não enxergamos. Essa grande variedade de células, com sensibilidade diferencial para cores bem próximas, aumenta muito a capacidade dos bichinhos distinguirem colorações que nós achamos idênticas.
          Neste exato momento pergunta o rabugento se não seria suficiente uma notinha de pé de página dizendo que há bichos que enxergam cores muito melhor do que os humanos. Precisava de toda essa xaropada cinematográfica lá do início? Ora, respondemos em coro, é claro que sim. Pois assim podemos encerrar apoteoticamente, arredondando o texto com o esperado delírio deste vosso criado, que vislumbra camarões e borboletas debatendo febrilmente as novas tendências de cores da coleção Primavera-Verão 2016 da Maison Chanel ou da grife Oscar de la Renta, deixando boquiaberta a editora da revista Vogue.

Rafael Linden



domingo, 13 de março de 2016

Planetas gasosos na capital federal

          Muitas vezes fui à cidade imperial de Brasilia, a trabalho. E voltei incólume, creiam. Com frequência, em espera nos aeroportos e durante a viagem de avião, avistei políticos que se deslocavam para lá ou cá. Como não sou do ramo, raros nomes me ocorrem para um número bem maior de fisionomias mais ou menos conhecidas. É, no entanto, fácil perceber quem, dentre os passageiros das pontes aéreas da capital federal, possui algum poder. Trata-se daqueles cujas insossas piadas são recebidas, invariavelmente, com sonoras gargalhadas dos que gravitam em torno deles. Quanto mais altas as risadas, mais poder existe no centro das atenções. Há, é claro, os que apenas acham ou fingem que têm poder mas, em torno desses, aquela alegria toda não costuma durar muito.
          Pois, numa destas viagens, li uma das muitas reportagens que tem sido publicadas sobre descobertas de sinais da presença de água em planetas extrasolares, também chamados de exoplanetas. Esses corpos celestes giram em torno de estrelas outras que não o Sol, a muitos trilhões de quilômetros de distância da Terra. Suas características físicas estão em estudo, por exemplo, através do telescópio espacial Hubble, um megatelescópio acoplado a um satélite que há vinte e seis anos circula na órbita terrestre a mais de quinhentos quilômetros de altura. Esse equipamento tem tecnologia suficiente para detectar sinais eletromagnéticos a longas distâncias. E alguns destes sinais correspondem à presença de água.
          Há alguns anos, um estudo publicado na revista científica Astrophysical Journal deu conta de sinais robustos e convincentes da presença de água em exoplanetas. Água fora da Mãe-Terra é sempre uma boa notícia em Astrofísica e Astrobiologia. Infelizmente, não se trata de lugares com um mínimo de condições de abrigar nossas frágeis e exigentes vidinhas humanas. E por que estes planetas não nos serviriam pelo menos para passar as férias de verão, se alguns aventureiros obstinados são capazes até de acampar na praia de Marobá? Porque são insuportavelmente quentes e não dá sequer para fincar as estacas da barraca, já que são gasosos. É isso mesmo, em lugar dos solos arenosos, calcáreos e outros a que estamos acostumados, há no Universo uma infinidade de planetas gasosos.
          Nada demais, pois há mais coisas entre o céu e a Terra do que sonhava o príncipe da Dinamarca – aquele -, não é mesmo? Mas isso não é tudo: imaginem que há exoplanetas em cuja superfície se encontram oceanos de gelo quente. Não é mentira, gelo quente mesmo, que congelou não pelo frio, mas pela pressão. A Natureza é cheia de truques incomuns, porém hoje o que nos interessa mesmo são os planetas gasosos.
          E interessa porque nos permite exercitar o saudável hábito de associar disparidades. Pois a notícia sobre os planetas gasosos imediatamente se funde com os seres que giram em torno dos políticos. Vez por outra se encontra um destes puxassacos – respeitemos o acordo ortográfico - dotados de algo a dizer. Mas esse tipo de frequentador de rodas palacianas anda em dolorosa falta, nesses tempos bicudos nos quais, como disse outro dia um colunista de jornal, o debate político produz muito calor e pouquíssima luz. A maior parte dessa turminha que fica rodeando os poderosos, feito moscas de padaria, não tem nada de sólido. Assim como os gases, dispersam-se ao menor sinal de queda na fatia do poder que sua estrela venha a sofrer, para se reagruparem em torno de outra, suficientemente próximos para suas gargalhadas serem ouvidas e atribuídas à boca que as emite, mas não tão perto que não possam escapar da força da gravidade do centro de seu minúsculo universo, pouco antes da estrela apagar e se transformar em um buraco negro, de onde nada sai.


Rafael Linden

sábado, 5 de março de 2016

Ah, Coração Gelado...

          A gentil leitora certamente lembra com saudade dos anos noventa quando, ainda criança, não perdia as aventuras dos Ursinhos Carinhosos, não é mesmo? Não? Nem sabe do que se trata? Eram personagens de desenhos animados, exibidos no programa de TV da apresentadora infantil Mara Maravilha. As histórias giravam em torno de uma família de ursinhos sorridentes, de vários tamanhos e cores, e mais uma fieira de outros bichos simpáticos, cujas aventuras eram sempre resolvidas pelos bons sentimentos dos heróis. O grande vilão daqueles filminhos era um ser tonitruante, vestido de roxo, com um capuz que revelava apenas um par de assustadores olhos vermelhos. Chamava-se “Coração Gelado”, e sua função nas historinhas era sabotar os bons sentimentos dos inocentes ursinhos. Lembrou agora?
          Daí as maiúsculas no título que servem para, entre outras coisas, diferenciá-lo do forró do grupo pernambucano Limão com Mel, ou de melôs românticas de artistas célebres, como José Augusto ou Lucas Dutra…quem? E também para distingui-lo do trêmulo “coração alado” do compositor cearense Raimundo Fagner. E daí, pergunta o leitor rabugento? Tudo isso para, ao fim e ao cabo, o humilde cronista confessar que, novamente, tergiversa? É claro, pois o que nos interessa aqui não é o vilão do desenho animado, nem os lamentos de poetas e cantores. É coração gelado mesmo, literalmente. O coração de um esquilo.
          Apesar da Disney nos empurrar goela abaixo a idéia de que esquilinhos são do bem, nossos fãs que moram no hemisfério Norte os consideram uma praga mesmo. Porém, hoje, esses animaizinhos se tornam personagens de uma crônica neste sagrado espaço que…bom, vamos ao que interessa. Muitos esquilos hibernam durante o inverno. Um deles é um bichinho que pesa cerca de duzentas gramas e ostenta treze listras no dorso. Esse tipo de esquilo é encontrado no meio oeste norte-americano, região em que o inverno costuma ser rigoroso. No verão o bichinho saltita pelas matas, come de tudo sem culpa, acumula gordura corpórea, estoca sementes e outros alimentos na sua toca, e tem uma temperatura corporal parecida com a nossa. Já durante os meses frios, que naquela região vão de novembro a março, o esquilinho entra em hibernação. Sua temperatura corporal cai a cinco graus centígrados, mais ou menos aquela em que mantemos nossa aguinha gelada dentro do refrigerador. Nesta temperatura o bicho fica em torpor, gastando as energias acumuladas nos meses quentes, e sonha com comida quentinha e bem temperada acompanhada por um bom vinho, de preferência um Clos Fourtet St.-Emilion.
          Mais impressionante é que, durante a hibernação, a cada uma ou duas semanas o esquilo acorda por algumas horas, eventualmente mastiga um lanchinho do estoque e volta a dormir por mais uma ou duas semanas. No curto período acordado sua temperatura volta aos trinta e tantos graus e, depois, retorna aos cinco, passando pelos vinte graus, uma temperatura na qual animais que não hibernam sofrem invariavelmente parada cardíaca. Ou seja, o coraçãozinho do esquilo sofre choques térmicos repetidos, um dos quais apenas bastaria para liquidar o leitor rabugento e nos deixar em paz. Essa resistência intriga os cientistas, tanto pelo mistério biológico, quanto pela possibilidade de que o conhecimento dos mecanismos de defesa do coração do esquilo permita, no futuro, desenvolver novos tratamentos para doenças cardíacas.
          Por isso, uma equipe da Universidade de Minnesota, nos EUA, estudou a fundo a expressão de genes e o conteúdo de proteínas do coração destes esquilos em diferentes meses do ano, para comparar espécimes em atividade no verão com aqueles em hibernação, tanto durante o torpor quanto no curto período em que eles acordam temporariamente. O estudo, publicado em outubro de 2015 na revista Journal of Proteome Research, é interessante não apenas pela pergunta biológica, mas também pelo método de análise desenvolvido pelo grupo liderado pelo biólogo Matthew Andrews, e que contou com bioquímicos e especialistas em computação de alto desempenho. Trata-se de programas utilizados no supercomputador da Universidade, capazes de processar uma quantidade enorme de informação sobre os genes e as proteinas. Por uma série de razões técnicas, essa metodologia representa um avanço importante, fornecendo dados novos e abundantes que aumentam muito a compreensão das respostas das células a eventos externos, nesse caso a hibernação.
          Os pesquisadores identificaram um grande número de proteínas que é afetado pelo resfriamento, e agora estão buscando, dentre elas, quais, ou que combinações, são responsáveis pela resistência do coração dos esquilos hibernantes. A enorme quantidade de dados significa que, provavelmente, levará um bom tempo até que as respostas definitivas sejam encontradas. Mas há uma grande expectativa de que estudos desta natureza contribuam para iluminar questões complexas, e os métodos desenvolvidos pela equipe do Doutor Andrews poderão ser muito importantes para avançar o conhecimento biológico e médico.
          Aqui do telhado vejo que a gentil leitora, ainda assim, parece triste. Penso que, malgrado sua estonteante beleza, profunda inteligência e cativante doçura, já terá, em algum momento, sido vítima de um coração gelado. Talvez esteja a suspirar, atormentada pela lembrança do vilão cruel que feriu seus sentimentos e destruiu seus sonhos, ou pelas musiquinhas bregas que teimam em torturá-la com recordações indesejáveis. Que dizer, numa hora dessas? Receio que, em contraposição ao coração do esquilo hibernante, ainda que proliferem os cientistas mais brilhantes e os supercomputadores mais poderosos, os mistérios do coração metafórico sejam impenetráveis…

Rafael Linden