sábado, 23 de abril de 2016

Quem foi que soltou um pum?

          Perdoe-nos a gentil leitora, mas de vez em quando baixa aqui o espírito do marqueteiro e, malgrado nossa educação irretocável e pudicícia monástica, não logramos resistir ao impulso visceral – sem trocadilho – de exibir um título destes no alto da crônica. Convenhamos, a multidão que frequenta este honorável blogue já deve estar ardendo de curiosidade e, portanto, estão todos convidados a navegar pelas surpresas do mundo em que vivemos, temperadas com uma pitada de divulgação científica.
          Comecemos lembrando a lição de um insigne historiador, segundo a qual, no tempo em que predominavam as comunidades rurais a flatulência explícita era festejada por sinalizar o bom desempenho das funções orgânicas. Eca, sim senhora, mas tem lá sua lógica. O mesmo autor escreveu sobre a transição daquela época, quando o pum era bem-vindo, para a modernidade em que tal comportamento é considerado grosseiro. Daí passamos ao episódio no qual um internauta produziu uma video montagem, sugerindo que um candidato à presidência dessa nossa pitoresca república teria soltado um pum durante uma entrevista na televisão. O evento foi denunciado pelo gesto do entrevistador, ao tapar discretamente o nariz enquanto outra jornalista esforçava-se por manter uma cara de paisagem. Diz-se que o candidato – um pastor evangélico, vejam vocês – admitiu depois da entrevista que de fato soltara um pum, garantindo no entanto ter sido silencioso e…inodoro.
          Com isso chegamos ao tema de hoje: o olfato, esse nobre sentido que nos permite tanto desfrutar do “chêrinho gotôôôôso!” do cangote do bebê recém-saído do banho, quanto detectar um pum no elevador, sala de reuniões ou escritório. Esse, em geral, é obra que paira no ambiente sem que se descubra de onde veio, muito menos o autor da façanha. Alvíssaras, esse anonimato parece estar com os dias contados.
          Não perguntem a razão mas, ao garimpar assuntos para o blogue, deparamo-nos com um relato jornalístico de que cientistas chineses criaram um robô que identifica o autor de um pum. A reportagem dizia ainda que os pesquisadores receberam o “Prêmio Abacaxi”, concedido às invenções mais esdrúxulas do mundo. Muitos leitores ficaram satisfeitos e entretidos com tamanha bizarrice. Porém, sempre haverá um doido que sai atrás da origem de uma notícia dessas e acaba desvendando fatos interessantes.
          Para começar, apuramos que o texto traduzia uma reportagem de um tablóide britânico notório por seu despudorado sensacionalismo, o Daily Mirror, o qual chamava a invenção chinesa literalmente de “detetor de pum”. Como, infelizmente, dentre as incontáveis qualidades deste vosso cronista não consta a fluência em línguas orientais, não nos foi possível confirmar a atribuição da notícia original a um sítio de notícias chinês, além do que uma busca na versão em inglês daquele portal não recuperou nenhum item que incluisse “detetor de pum”, sequer “detetor de odor”. Já uma reportagem semelhante no portal The Register, especializado em novidades na área de Ciência e Tecnologia, citou a mídia oficial chinesa como fonte da declaração de que a invenção “não apenas soluciona o mistério de quem soltou um pum, mas oferece um meio de localizar a origem de qualquer odor” (sic). Ficamos aqui a imaginar o Camarada Mao Tse-Tung declarando isso, solenemente, em um discurso na Praça da Paz Celestial…
          Intrigado com tamanha ênfase no pum, prosseguimos na busca da fonte original, que é um relato publicado em 2011 na revista científica Autonomous Robot. E, embora pulando a matematicorréia desenfreada que descreve o algoritmo usado para controlar a ação do robô, foi fácil entender as conclusões dos pesquisadores quanto à função do equipamento. O que eles demostraram foi, na verdade, que sua tecnologia forneceu ao robô uma alta capacidade de localizar a fonte de um odor. Só que o cheiro era produzido pela vaporização de álcool etílico. Isso mesmo, galera, o mesmo que abrilhanta a vossa cachacinha semanal. E, apesar da equipe ser formada por quatro engenheiros chineses não consta menção à emissão de sequer um único pum por parte dos autores ou mesmo de outros colaboradores anônimos do projeto, independente da quantidade de repolho contido no chop suey servido no restaurante da Escola de Engenharia Elétrica e Automação da Universidade de Tianjin.
          O bacana dessa história toda é que o esforço para desenvolver robôs capazes de identificar e localizar odores tem aplicações importantíssimas, tais como o combate ao tráfico de drogas, a detecção de vazamentos de gases tóxicos, ou a localização de sobreviventes em sítios de desabamentos, tarefas essas hoje em dia executadas com o auxílio de cães farejadores. Recentemente, cientistas conseguiram treinar abelhas para detectar substâncias tóxicas, o que poderá, em breve, poupar os cães de certos riscos. Mas, acima de tudo, esse campo da robótica é um primor de aplicação do conhecimento biológico, pois muitas das tecnologias que vem sendo testadas são baseadas nos complexos mecanismos de detecção e localização de odores por insetos e outros animais, que os usam na Natureza para buscar alimento, localizar parceiros, trocar informações e fugir de predadores. Mecanismos estes aos quais, vez por outra, o noticiário prefere atribuir como função principal na espécie humana, dotada de tamanha “sabedoria e superioridade evolutiva”, a inglória tarefa de descobrir quem foi que soltou um pum…


Rafael Linden




sábado, 2 de abril de 2016

Ai, ai, ai, onde eu tava com a minha cabeça


          Cá pra nós, a gentil leitora nunca se esqueceu do aniversário do namorado, largou o carro no estacionamento do shopping e voltou para casa de táxi, perdeu os óculos ou comprou aquele scarpin de bico fino que lhe esmagou os dedinhos do pé e a deixou com dor nas costas durante duas semanas? Ou algo parecido? E não é numa hora dessas que lhe vem a pergunta retórica “onde eu estava com a minha cabeça”? Já outros leitores deste espaço, que é um primor de democracia e tolerância musical, reconhecerão no título a letra de uma canção, de uma dupla sertaneja que se desfez tragicamente com a morte de um dos músicos. No entanto, diferente de quem se preocupa com a própria cabeça, há os que teimam em saber onde está a dos outros. Às vezes literalmente, como os cristãos que debatem há séculos a história rocambolesca da cabeça de São João Batista, a qual atualmente acreditam ser a relíquia que se encontra na Basílica de São Silvestre Primeiro, em Roma.
          Mas hoje a cabeça que nos interessa é a de William Shakespeare. Não o personagem romântico do filme “Shakespeare Apaixonado”, e sim o poeta, dramaturgo e ator inglês, de carne e osso, apelidado “o bardo de Avon”. Mesmo se não houvesse as inúmeras razões de ordem cultural que existem para celebrá-lo, nos bastaria o saudável hábito de comemorar datas históricas, já que em abril de 2016 completam-se quatro séculos de sua morte. Eis que o leitor rabugento, mais uma vez, reclama desta mania de comemorar aniversário da morte de celebridades, coisa mais fúnebre pois, na opinião dele, o que se deve celebrar é nascimento e outras efemérides alegres. Vá lá, tem sua razão. Mas deve consolá-lo o fato de que nossa conversa não apenas se encaixa na morte de Shakespeare, como é ambientada em torno de seu túmulo. Só assim este modesto cronista tem alguma chance de escrever algo diferente dos profissionais da Literatura e das Artes Cênicas que, com toda justiça, derramarão durante o ano uma enxurrada de crônicas, depoimentos, entrevistas, teses acadêmicas, simpósios, festivais de teatro e outros eventos de alta qualidade e merecido prestígio.
          Para começar, engana-se quem pensa que escolhemos a cabeça do bardo por sua genialidade. Escolhemo-la per se, porque data de 1879 um relato de que, oitenta e cinco anos antes, ladrões de túmulos teriam roubado a cabeça do poeta. Isso a mando de um médico, motivado por um magnata que oferecera trezentos guinéus a quem lhe trouxesse o crânio de Shakespeare, a fim de saber se ele realmente se parecia com o retrato pintado que havia na igreja. Podem crer, daqui do telhado localizamos a coleção da revista The Argosy em um portal chamado Internet Archive e, na página 268 do volume XXVIII da revista, está lá esta historinha atribuida a um anônimo “homem de Warwickshire”. Com perdão da má palavra, lemo-la de cabo a rabo.
          O relato, é claro, não prova que a cabeça tenha sido roubada, afinal The Argosy se apresentava como “uma revista de contos, viagens, ensaios e poemas”. Mas Shakespeare é tão irresistível como autor quanto como lenda. Tanto assim que, no dia 26 de março de 2016, foi ao ar no Canal 4 da TV inglesa um documentário chamado “O túmulo de Shakespeare”, sobre a primeira investigação arqueológica da tumba do bardo, realizada pelo arqueólogo Kevin Colls e pela geofísica Erica Utsi. Não, senhora, não o vi porque nem TV a cabo mostra aquele canal por aqui, mas soube disso por uma matéria da Smithsonian Magazine, li a sinopse no portal da emissora - aliás muito informativa - e mal posso esperar pela liberação do vídeo.
          Antes de se horrorizarem com a presumível dessagração da última morada do poeta, saibam que o estudo foi autorizado pelo pároco da Igreja da Santíssima Trindade, onde está o túmulo, e pela Diocese de Coventry porque, ao contrário das escavações habituais, foi usado um equipamento que mostra detalhes de objetos abaixo do solo sem mexer em nada. Esse instrumento é chamado georadar, e é usado em Geofísica para medir a espessura de camadas, por exemplo do gelo no Ártico, em Engenharia para localizar estruturas subterrâneas como tubulações, tem uso militar para detecção de túneis, e policial para encontrar túmulos clandestinos. A Doutora Utsi desenvolve georadares de última geração, com os quais já fez descobertas importantes em outros locais. E desta vez, o estudo do túmulo de William reacendeu a polêmica sobre o suposto roubo de sua cabeça.
          Os cientistas relatam fortes indícios de um reparo feito na cova, compatíveis com manipulação do jazigo. O chato é que a tecnologia do georadar não permite – ainda – a identificação de ossos, impedindo uma conclusão definitiva. Mas os indícios de que aquela parte da sepultura foi violada coincidem com o relato publicado na The Argosy há quase um século e meio, no qual o autor dizia que os ladrões trouxeram argamassa adicional para tentar reconstituir o solo revolvido, que acharam os restos mortais a cerca de noventa centímetros da superfície – a cova de Shakespeare tem menos de um metro de profundidade -, e que o crânio foi encontrado a uma certa distância da extremidade da lápide – a qual, segundo as medidas do georadar, é de fato mais curta do que a cova propriamente dita. Muita coincidência, né? Seja como for, o crânio roubado nunca foi encontrado e o mais recente candidato a “cabeça de Shakespeare”, localizado na igreja de São Leonardo no vilarejo de Beoley, foi reconstruido por um antropólogo forense e pertencia a uma septuagenária.
          Ainda assim, não dá para falar em Shakespeare sem lembrar da famosa cena de Hamlet, na qual o protagonista da peça segura um crânio recém-exumado e recita uma das linhas mais emblemáticas da obra do bardo. Não, senhor, não é “…ser ou não ser…” como muitos pensam. Trata-se de outra cena, na qual o príncipe da Dinamarca lamenta “…pobre Yorick, eu o conheci…”, referindo-se ao antigo bobo da corte. Pensando  nisso, aqui vai mais um fruto do habitual delírio decorrente de nossa acrofobia em cima do telhado - uma teoria sobre o destino da cabeça do próprio William Shakespeare. Quem sabe o crânio roubado do ator não esteja sendo usado, há muitos e muitos anos, pela Royal Shakespeare Company nas encenações de Hamlet, fato esse de conhecimento apenas do contra-regra do teatro de Stratford-upon-Avon, sede da compania. Esse senhor, como todo bom inglês, descende de uma linhagem centenária de familiares com ocupação semelhante e é o único detentor vivo do segredo que, no leito de morte, revelará apenas ao seu dileto filho e herdeiro do emprego, perpetuando a situação. Afinal, nada mais britânico do que uma explicação dessas para o mistério da cabeça de seu maior símbolo cultural…


Rafael Linden