sábado, 2 de abril de 2016

Ai, ai, ai, onde eu tava com a minha cabeça


          Cá pra nós, a gentil leitora nunca se esqueceu do aniversário do namorado, largou o carro no estacionamento do shopping e voltou para casa de táxi, perdeu os óculos ou comprou aquele scarpin de bico fino que lhe esmagou os dedinhos do pé e a deixou com dor nas costas durante duas semanas? Ou algo parecido? E não é numa hora dessas que lhe vem a pergunta retórica “onde eu estava com a minha cabeça”? Já outros leitores deste espaço, que é um primor de democracia e tolerância musical, reconhecerão no título a letra de uma canção, de uma dupla sertaneja que se desfez tragicamente com a morte de um dos músicos. No entanto, diferente de quem se preocupa com a própria cabeça, há os que teimam em saber onde está a dos outros. Às vezes literalmente, como os cristãos que debatem há séculos a história rocambolesca da cabeça de São João Batista, a qual atualmente acreditam ser a relíquia que se encontra na Basílica de São Silvestre Primeiro, em Roma.
          Mas hoje a cabeça que nos interessa é a de William Shakespeare. Não o personagem romântico do filme “Shakespeare Apaixonado”, e sim o poeta, dramaturgo e ator inglês, de carne e osso, apelidado “o bardo de Avon”. Mesmo se não houvesse as inúmeras razões de ordem cultural que existem para celebrá-lo, nos bastaria o saudável hábito de comemorar datas históricas, já que em abril de 2016 completam-se quatro séculos de sua morte. Eis que o leitor rabugento, mais uma vez, reclama desta mania de comemorar aniversário da morte de celebridades, coisa mais fúnebre pois, na opinião dele, o que se deve celebrar é nascimento e outras efemérides alegres. Vá lá, tem sua razão. Mas deve consolá-lo o fato de que nossa conversa não apenas se encaixa na morte de Shakespeare, como é ambientada em torno de seu túmulo. Só assim este modesto cronista tem alguma chance de escrever algo diferente dos profissionais da Literatura e das Artes Cênicas que, com toda justiça, derramarão durante o ano uma enxurrada de crônicas, depoimentos, entrevistas, teses acadêmicas, simpósios, festivais de teatro e outros eventos de alta qualidade e merecido prestígio.
          Para começar, engana-se quem pensa que escolhemos a cabeça do bardo por sua genialidade. Escolhemo-la per se, porque data de 1879 um relato de que, oitenta e cinco anos antes, ladrões de túmulos teriam roubado a cabeça do poeta. Isso a mando de um médico, motivado por um magnata que oferecera trezentos guinéus a quem lhe trouxesse o crânio de Shakespeare, a fim de saber se ele realmente se parecia com o retrato pintado que havia na igreja. Podem crer, daqui do telhado localizamos a coleção da revista The Argosy em um portal chamado Internet Archive e, na página 268 do volume XXVIII da revista, está lá esta historinha atribuida a um anônimo “homem de Warwickshire”. Com perdão da má palavra, lemo-la de cabo a rabo.
          O relato, é claro, não prova que a cabeça tenha sido roubada, afinal The Argosy se apresentava como “uma revista de contos, viagens, ensaios e poemas”. Mas Shakespeare é tão irresistível como autor quanto como lenda. Tanto assim que, no dia 26 de março de 2016, foi ao ar no Canal 4 da TV inglesa um documentário chamado “O túmulo de Shakespeare”, sobre a primeira investigação arqueológica da tumba do bardo, realizada pelo arqueólogo Kevin Colls e pela geofísica Erica Utsi. Não, senhora, não o vi porque nem TV a cabo mostra aquele canal por aqui, mas soube disso por uma matéria da Smithsonian Magazine, li a sinopse no portal da emissora - aliás muito informativa - e mal posso esperar pela liberação do vídeo.
          Antes de se horrorizarem com a presumível dessagração da última morada do poeta, saibam que o estudo foi autorizado pelo pároco da Igreja da Santíssima Trindade, onde está o túmulo, e pela Diocese de Coventry porque, ao contrário das escavações habituais, foi usado um equipamento que mostra detalhes de objetos abaixo do solo sem mexer em nada. Esse instrumento é chamado georadar, e é usado em Geofísica para medir a espessura de camadas, por exemplo do gelo no Ártico, em Engenharia para localizar estruturas subterrâneas como tubulações, tem uso militar para detecção de túneis, e policial para encontrar túmulos clandestinos. A Doutora Utsi desenvolve georadares de última geração, com os quais já fez descobertas importantes em outros locais. E desta vez, o estudo do túmulo de William reacendeu a polêmica sobre o suposto roubo de sua cabeça.
          Os cientistas relatam fortes indícios de um reparo feito na cova, compatíveis com manipulação do jazigo. O chato é que a tecnologia do georadar não permite – ainda – a identificação de ossos, impedindo uma conclusão definitiva. Mas os indícios de que aquela parte da sepultura foi violada coincidem com o relato publicado na The Argosy há quase um século e meio, no qual o autor dizia que os ladrões trouxeram argamassa adicional para tentar reconstituir o solo revolvido, que acharam os restos mortais a cerca de noventa centímetros da superfície – a cova de Shakespeare tem menos de um metro de profundidade -, e que o crânio foi encontrado a uma certa distância da extremidade da lápide – a qual, segundo as medidas do georadar, é de fato mais curta do que a cova propriamente dita. Muita coincidência, né? Seja como for, o crânio roubado nunca foi encontrado e o mais recente candidato a “cabeça de Shakespeare”, localizado na igreja de São Leonardo no vilarejo de Beoley, foi reconstruido por um antropólogo forense e pertencia a uma septuagenária.
          Ainda assim, não dá para falar em Shakespeare sem lembrar da famosa cena de Hamlet, na qual o protagonista da peça segura um crânio recém-exumado e recita uma das linhas mais emblemáticas da obra do bardo. Não, senhor, não é “…ser ou não ser…” como muitos pensam. Trata-se de outra cena, na qual o príncipe da Dinamarca lamenta “…pobre Yorick, eu o conheci…”, referindo-se ao antigo bobo da corte. Pensando  nisso, aqui vai mais um fruto do habitual delírio decorrente de nossa acrofobia em cima do telhado - uma teoria sobre o destino da cabeça do próprio William Shakespeare. Quem sabe o crânio roubado do ator não esteja sendo usado, há muitos e muitos anos, pela Royal Shakespeare Company nas encenações de Hamlet, fato esse de conhecimento apenas do contra-regra do teatro de Stratford-upon-Avon, sede da compania. Esse senhor, como todo bom inglês, descende de uma linhagem centenária de familiares com ocupação semelhante e é o único detentor vivo do segredo que, no leito de morte, revelará apenas ao seu dileto filho e herdeiro do emprego, perpetuando a situação. Afinal, nada mais britânico do que uma explicação dessas para o mistério da cabeça de seu maior símbolo cultural…


Rafael Linden


2 comentários:

Seu comentário será respondido aqui mesmo neste blog.