sábado, 14 de maio de 2016

Vive la différence!


          De uns tempos para cá tornou-se lugar comum celebrar a diversidade. Nada mais justo, afinal preconceito é o que não falta por aí, das mais variadas categorias: étnicas, religiosas, ideológicas, políticas, eleitorais, estúpidas ou cínicas. Ainda assim, nosso habitual garimpo internáutico fracassou na tentativa de encontrar a mais antiga menção ao termo “celebração da diversidade”. O máximo que conseguimos, num portal de etimologia meio suspeito, foi uma referência ao ano de 1963 como data de origem da expressão estampada no topo da crônica com a qual a gentil leitora se delicia neste exato momento. E saibam que, em que pese os esforços de uma tenaz professora de francês dos tempos do ginásio, cujo nome nos escapa, a busca na rede foi indispensável para ajudar vosso amado cronista a escrever o título acima com todos os éfes, érres e biquinhos.
          O rabugento apressa-se a nos criticar, sob a alegação de que “Vive la différence!” é preconceituoso por ser usado em geral para exaltar as diferenças entre homens e mulheres. Nesse caso, só resta enfatizar que nem mesmo uma versão revista e ampliada da Constituição Federal nos impedirá de apreciar na gentil leitora atributos que não nos cabe possuir. E basta de sem-vergonhice, pois aqui se esgota o espaço tradicionalmente dedicado a circunlóquios e é hora do busílis. Hoje falamos de micróbios. Ou microorganismos, como se diz no ambiente acadêmico.
          Micróbios, sim senhora, no plural. E que plural! Não são uma dúzia ou uma centena. Trata-se de um trilhão de espécies distintas de micróbios. Não, senhor, também não é apenas um trilhão de indivíduos. Para se ter uma idéia, o American Kennel Club registra oficialmente pouco menos de duzentas raças de cães, e a Federação Cinológica Internacional reconhece mais de trezentas, mas todas são classificadas como variantes de uma única espécie, Canis familiaris. Agora feche os olhos e imagine um trilhão de espécies de cães, com uma média de, digamos, mil auaus para cada espécie, todos latindo ao mesmo tempo. Sem falar nos sete e meio bilhões de seres humanos que, nunca é demais repetir, são todos e todas da mesma espécie Homo sapiens.
          Acontece que, salvo melhor juizo de especialistas, um trilhão é a nova estimativa do número de espécies de micróbios suficientemente distintas umas das outras para merecer classificação diferencial. A novidade veio de um artigo, publicado em maio de 2016 por Kenneth Locey e Jay Lennon, da Universidade de Indiana nos EUA, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Ken & Jay não são uma marca de sorvete nem uma dupla caipira. São dois especialistas em biodiversidade, que andavam cismados com as estimativas mais recentes da diversidade da fauna e da flora do planeta. De tanto matutar, desenvolveram modelos matemáticos mais robustos para analisar populações compostas por grandes números de espécies de seres vivos. E aplicaram estes modelos aos dados disponíveis sobre mais de trinta e cinco mil comunidades de mamíferos, aves, plantas, bactérias e fungos. Com isso eles esperavam calcular melhor os números de seres vivos, inclusive das espécies mais raras de micróbios, as quais tem sido muito menos estudadas do que plantas e animais corriqueiros. E chegaram a um trilhão de espécies distintas de microorganismos, uma multidão microscópica que se distribui pelos ambientes mais diversos no planeta, inclusive no corpo humano. O complexo envelope de nossos melhores sonhos e piores angústias é, ora vejam,  habitado por algumas dezenas de trilhões de bactérias de várias espécies, a maioria do bem. Isso mesmo, bactérias residentes e domiciliadas no corpo da gentil leitora, no corpo do rabugento, de todos nós. Mesmo depois do banho.
          Por si só, a diversidade dos microorganismos impressiona. Mas os pesquisadores também examinaram outras características da biodiversidade, entre as quais uma propriedade conhecida pelo termo “raridade”. Para simplificar, há espécies ditas “dominantes”, das quais existem grandes números de indivíduos como certos insetos, e espécies raras, das quais há poucos exemplares como a lula gigante. Dez anos antes de Ken & Jay, o cientista Mitchell Sogin, do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole, nos EUA, estudou microorganismos encontrados em águas profundas do Atlântico Norte, e classificou as  espécies com base em diferenças genéticas. Embora a maioria das amostras fosse dominada por um punhado de espécies abundantes, Sogin identificou milhares de outras, cada uma representada por um número pequeno de bactérias individuais, e inventou o termo “biosfera rara” para designar esse conjunto de espécies raras.
          Poder-se-ia pensar que se trata de espécies em extinção, que não deverão resistir na presença de espécies muito mais abundantes – e bota muito mais nisso. Mas não é o caso. As espécies raras parecem bem adaptadas aos seus nichos e o doutor Sogin especulava que as espécies raras podem ter exercido um grande impacto sobre processos globais em diferentes momentos ao longo da história do planeta. Ken & Jay acrescentaram outras idéias para tentar explicar a persistência destes grupos minoritários, incluindo características dos seus estágios de vida, tendência a se dispersar e colonizar novos habitats, capacidade de repartir nichos ecológicos e habilidade em manter populações reduzidas. Assim, os grupos minoritários teriam o potencial de se tornar dominantes no caso de mudanças do ambiente e, por conseguinte, passar a – ou voltar a - influenciar processos globais.
          O escritor irlandês Oscar Wilde dizia que a Vida imita a Arte. Esse nosso mundo tem dado voltas frequentes e estonteantes, e muita coisa tem incomodado qualquer um que tenha um mínimo de preocupação com o futuro. Por essas e outras, não deixa de ser reconfortante aprender - e reaprender, quantas vezes forem necessárias - que a diversidade é natural, resiliente e dinâmica. E que – Vive la différence! - sempre haverá uma reserva de raridades, até mesmo dentre os membros de nossa espécie, que poderão, em outras circunstâncias, tomar um rumo melhor do que se vê no nosso sofrido planeta. Basta que, tautologicamente, a Vida imite a Biologia.

Rafael Linden


domingo, 1 de maio de 2016

Os deuses e o clima


          Aqui no Rio de Janeiro, há poucos dias padecíamos de um calor insuportável quando, subitamente, nos atingiu o que os meteorologistas chamam de uma grande e forte massa de ar polar com ventos moderados, coisa essa que no dialeto carioca é conhecida como tá-frio-pácash. A gentil leitora assustou-se com a incômoda perspectiva de não dar praia no fim de semana. Já o rabugento festejou com meia garrafa daquele conhaque que matou o guarda, enquanto nós aqui degustamos uma reconfortante chávena do melhor Earl Grey disponível na praça. Numa hora dessas, inevitavelmente, nossa mente promíscua desliza para as mudanças climáticas.
          Não, senhora, pode guardar o biquini, que lhe será útil ainda por muito tempo. Esse rápido soluço da temperatura não é sinal de que, justo aqui na Cidade Maravilhosa, o aquecimento global deu lugar a uma nova era glacial, pois mudanças climáticas ocorrem aos poucos, mesmo contando com a inestimável colaboração do desvario ambiental e das emissões descontroladas de carbono. Já o tempo que nos resta antes da extinção da vida no planeta é outra questão, porque ainda se debate qual é a contribuição relativa dos muitos fatores que afetam o clima, dentre eles ciclos naturais, condições locais como crescimento populacional, manejo da terra e das florestas e gerenciamento de recursos hídricos, bem como as práticas industriais. E também há quem acredite que mudanças climáticas acontecem simplesmente porque, dependendo da denominação religiosa, uma única ou várias entidades sobrenaturais assim o querem.
          Por isso tudo, deleita-nos o trabalho publicado na revista Scientific Reports, feito por uma equipe multinacional de cientistas, coordenada pelos limnologistas Sapna Sharma, da Universidade de York, no Canadá, e John Magnuson, da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. O grupo revelou novos indícios a favor da relação entre a atividade industrial, o aquecimento global e a perturbação de ecossistemas em rios e lagos. Na verdade, evidências desta interação já vem se acumulando ao longo de muitos anos, mas o dados de antes da metade do século XIX eram sempre inferidos a partir de achados paleontológicos. Já neste trabalho, a novidade foi a identificação e o uso de informações objetivas colhidas ao longo de quase seiscentos anos.
          Essas informações vieram do Rio Torne que, em grande parte, corre ao longo da fronteira entre a Finlândia e a Suécia na direção do Mar Báltico, e do Lago Suwa, situado na região de Nagano, no Japão. Ambos congelam durante o inverno e degelam no início da primavera e, por razões distintas, a data do início do degelo do Rio Torne vem sendo objeto de registro desde 1693, enquanto o congelamento completo do Lago Suwa vem sendo registrado desde 1443. Esse lago, aliás, fica a menos de cem quilômetros do Monte Fuji, e foi imortalizado em uma das célebres gravuras da maravilhosa coleção produzida pelo artista japonês Katsushika Hokusai no século XIX.
          O Rio Torne é muito badalado na Escandinávia, porque é o local onde a criatividade nórdica inventou o Hotel de Gelo, uma construção de gelo moldado da água do rio. O hotel, que derrete na primavera e é reconstruído a cada ano próximo à cidade sueca de Jukkasjärvi, serve de pousada e local de atividades artísticas. Mas o Torne também é a principal fonte de salmão naquela região, e há séculos serve como via de escoamento de produtos comerciais. Por esse motivo, a partir do fim do século XVII um mercador começou a registrar as datas do início do degelo do rio. Depois, a prática se tornou rotineira, e atualmente há até um insólito concurso anual de advinhação do horário do evento. Deve haver muito pouca coisa para se fazer na beira desse rio… Mas assim se tornaram disponíveis dados confiáveis sobre as datas de início do degelo do rio ao longo de mais de trezentos anos.
          Existe também uma coleção semelhante de dados sobre a data de congelamento total do Lago Suwa, mas por outra razão. Esse registro é feito há mais de quinhentos anos por kannushi, sacerdotes da religião Shinto, em honra da lenda segundo a qual o congelamento do lago permite ao deus Takeminakata atravessá-lo para visitar sua esposa, a deusa Yasakatome, do lado oposto do lago. O Suwa contém, abaixo da superfície, uma fonte de água quente que, por ocasião do congelamento, caprichosamente produz uma trilha elevada e sinuosa na superfície do lago, chamada de omiwatari. Reza a tradição que se trata das pegadas de Takeminakata em sua jornada rumo ao santuário da esposa. O congelamento é seguido de uma cerimônia de purificação celebrada pelos kannushi, a qual é devidamente registrada em papel de arroz e vem sendo preservada por uma sucessão de quinze gerações de sacerdotes. Na prática, o ponto de partida e a direção da elevação eram ainda usados como indicadores para previsão das colheitas, temperatura e chuvas naquela região.
          A análise dos registros revelou alterações substanciais ao longo de séculos nos cronogramas tanto do degelo do Rio Torne quanto do congelamento do Lago Suwa. Tais alterações passaram a ser mais acentuadas a partir de meados do século XIX, coincidindo com a época da Revolução Industrial. A aplicação de métodos estatísticos indicou que estas mudanças, em locais tão distantes um do outro, se relacionam estreitamente com a quantidade de gás carbônico na atmosfera e a temperatura do ar. Foi também notado que a partir da Revolução Industrial aumentou a frequência com que o Lago Suwa deixou de congelar completamente durante o inverno. Os cientistas comentam que, além de efeitos sobre taxas de evaporação e precipitação pluvial, bem como sobre processos biológicos relevantes para a subsistência dos povos que vivem em regiões mais frias, mudanças nos ciclos de congelamento e degelo de lagos e rios afetam atividades esportivas e recreativas e impactam a própria identidade cultural destas populações.
          A Climatologia é fascinante. Mas, não bastasse tudo isso, nós aqui ainda ficamos preocupados com a possibilidade de que falhas do congelamento anual possam abalar irreparavelmente a felicidade conjugal do casal de deuses do Suwa. Já imaginaram a frustração de Takeminakata, ao se ver impedido de atravessar o lago todos os anos para aproveitar aquele friozinho ao encontrar sua doce Yasakatome? Além de todo o estrago concreto que a progressão do aquecimento global possa produzir, só nos faltava que até os romances dos deuses se tornem vítimas das mudanças climáticas…

Rafael Linden