domingo, 31 de julho de 2016

O bode no museu

          Excelente  título para uma crônica, não é? Faz lembrar a parábola do pobre camponês que vivia com a esposa e cinco filhos num  casebre de um único  cômodo e, enlouquecido com o constante rebuliço,  buscou a  ajuda do sábio de sua aldeia. Foi então aconselhado a colocar dentro de casa suas três galinhas, uma vaca e um bode, animais que garantiam o sustento da família. Assim o fez e logo  voltou a procurar o sábio, ainda mais desesperado. Novo conselho: retirar as galinhas. Mais um dia se passou e foi instruído a remover a vaca. E o último conselho foi tirar o bode de dentro da casa. Como a senhora bem sabe, no dia seguinte o pobre voltou a procurar o sábio, para lhe agradecer os conselhos que, finalmente, fizeram  toda a família apreciar o grande conforto que a tosca choupana lhes proporcionava. A gentil leitora acha edificante? Pois mais nos parece uma pregação obscurantista, destinada a assacar a mais ignóbil crueldade à classe do sábios.
          Malgrado o desconforto deste vosso criado com a aura de sabedoria que se costuma atribuir a tal parábola, dali surgiu a expressão “tirar o bode da sala”, a qual salienta o benefício de, simplesmente, livrar-se de inconveniências que jamais deveriam ter sido provocadas por quem  delas padece. Seria esta a razão pela qual o Moderna Museet de Estocolmo, de bom grado, concordou em emprestar à Tate Modern de Londres uma das mais, senão a mais famosa obra do artista americano Robert Rauschenberg, para ser exibida na maior retrospectiva do trabalho do artista organizada nos últimos vinte anos? Os dois museus são exemplos do que há de mais importante dentre as coleções  de arte moderna e contemporânea na Europa, e a tal obra prima de Rauschenberg vai ser exibida na Inglaterra pela primeira vez em meio século, como parte da mostra que estará aberta a partir de dezembro de 2016 por apenas cinco meses. Mas, afinal, que obra é esta, que causa tanto frisson no mundo das artes, a ponto de ser definida pelo jornal The Guardian  como “ a estrela do Moderna Museet” e “o ponto alto da exposição na Tate”? Pois chama-se Monogram, 1955-1959 e consiste, vejam vocês, de um bode empalhado, cujo tronco atravessa um pneu velho de automóvel, tudo isso montado sobre uma plataforma cheia de quinquilharias, entre as quais se destacam um salto de sapato de borracha e uma bola de tênis encardida, estrategicamente localizada na plataforma logo abaixo do...a senhora sabe…do…do…derrière do bode.
          Mas, alto lá! Não se trata de um bode qualquer. Para horror da gentil leitora que costuma saborear nossas crônicas acariciando dengosamente o dorso de seu gato Angorá, trata-se precisamente de um bode Angorá, variedade caprina das mais nobres, cuja pelagem longa e macia se transforma na lã Mohair, uma das mais apreciadas pelos felizardos que não são alérgicos ao tecido natural. Ainda assim, é notável que uma descrição como a que nossos inúmeros fãs acabaram de ler corresponda a uma obra de arte emblemática, cartão de visitas de um artista festejado pela crítica e por grande parte dos amantes da arte moderna, reconhecido como um revolucionário que, junto com Jasper Johns, sacudiu as artes plásticas nos EUA a partir da segunda metade do século XX, ao romper o paradigma do outrora inovador Expressionismo Abstrato de, entre outros, Jackson Pollock, Mark Rothko e Willem de Koonig.
          Este último, aliás, contribuiu de certa forma involuntariamente para as hostes inimigas. Conta-se que, muito a contragosto, de Koonig acabou por atender aos insistentes apelos de Rauschenberg para que lhe cedesse um de seus desenhos, a fim de  ser apagado pelo último com o intuito de testar o conceito de que o apagamento de uma obra de arte é uma forma de arte. Não se iluda, caro leitor, saiba que o quadro “Desenho apagado de de Koonig” consta da lista dos trabalhos mais importantes de Rauschenberg. Assim como seu notório “Quadro branco” que é exatamente isso, tal qual o quadro inteiramente branco que serve de fio condutor para a inesquecível peça “Arte”, da francesa Yasmina Reza, que este modesto cronista asssistiu há quase duas décadas aqui no Rio de Janeiro, interpretada de forma magistral por um trio de atores, especialmente  por Pedro Paulo Rangel. E  por aí vai. Portanto, não chega a ser surpreendente que o ápice de uma exposição histórica, como a que está em montagem na Tate Modern, seja um bode empalhado cuja reputação supera, de muito, a de  inúmeras celebridades empalhadas que frequentam as páginas dos jornais e revistas e entulham as redes sociais deste nosso planeta improvável.
          Haverá, sem dúvida, muito a debater sobre a arte de Rauschenberg, a começar pela descrença de muita gente sobre isto ser sequer um assunto. No entanto, um tema desses costuma despertar paixões tanto ou mais extremas quanto a política e o futebol, ambos  também sujeitos a sérias dúvidas sobre se realmente constituem assuntos relevantes. Daqui do telhado, embalsamados em nosso gritante primarismo em questões teóricas no âmbito das artes plásticas, resta-nos ressaltar que gostamos de ver e  rever pinturas de Van Gogh, Monet, Vermeer, Klimt, Kandinsky, Picasso, Magritte, Dali, esculturas  de Michelangelo, Bernini, Brancusi, Rodin, mas também nos intrigam as pinturas de Pollock e outros expressionistas abstratos, bem como  esculturas de Marcel Duchamp e Jean Arp. Já topamos com obras de Rauschenberg ou Jasper Johns, sem danos significativos a nossa integridade psíquica.  Nada nos impediria, portanto, de passar uma tarde na Tate para mergulhar na estudada insanidade de Rauschenberg,  apreciar o bode e toda a coleção que lá estará. E, sobretudo, esquivar-nos de aderir a esta ou aquela posição extrema, tanto dos que o endeusam com ou sem conhecimento de causa, quanto dos que o detestam sem sequer admitir visões alternativas do universo da arte. Na verdade, qualquer um que aprecie obras centenárias e até milenares deve atentar para os adjetivos antes de passar julgamento sobre o trabalho de autores que há poucos anos ainda estavam produzindo trabalhos cuja sobrevivência dificilmente se pode garantir ou descartar. Afinal, à parte uns poucos desenhos, Van Gogh só vendeu em vida um quadro, assim mesmo para uma colega de exposição, enquanto um século depois uma de suas pinturas alcançou o preço de noventa milhões de dólares.
          Ainda assim, e ao contrário de professada resistência a  opiniões definitivas sobre artes plásticas, nossa inabalável fé no valor intrínseco de uma boa pilhéria nos impele a perguntar se o diretor do  Moderna Museet não teria, por acaso, encontrado uma maneira elegante de se livrar de um bode que o incomoda desde que foi parar na sala mais visitada do circuito artístico da Suécia. Alguém aí cuidou de examinar o contrato de cessão do Monogram, para confirmar se há uma data prevista para a obra retornar a Estocolmo?


Rafael Linden

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Canção que provoca arrepio...

          Queiram perdoar mas, sem a devida vênia, nosso título de hoje é um plágio descarado – ou quase – de um verso da canção “Menino do Rio”, que Caetano Veloso compôs, a pedido de Baby Consuelo, em homenagem ao surfista Petit. Porém, como tudo que se faz aqui no blogue, esse deslize de nossa parte é por uma boa causa. Fazemo-lo para falar do arrepio que nos causam trechos marcantes de certas músicas. Isso mesmo, querida leitora, aquele frisson que lhe dá quando ouve The long and winding road, Jumpin’ Jack Flash, As rosas não falam, Cálice, a Sonata Kreutzer, a Polonaise heróica, a Quinta Sinfonia…nenhuma delas? Tudo bem, algumas dessas arrepiam alguém, a gentil senhora tem as suas e, quem sabe, até o rabugento tem lá sua lista particular. Mas nem todo mundo se arrepia ao ouvir obras musicais, mesmo suas preferidas. Se perguntarmos por aí, haverá quem diga que sente muito prazer, fica hipnotizado, enlevado, feliz, de paz com a vida, mas só uns poucos poderão garantir que ficam arrepiados, no duro, com os pelinhos do braço eriçados e aquele tremelique que sobe e desce pela nuca.
          Esse arrepio é uma manifestação emocional objetiva, uma das mais fortes que o prazer de ouvir boa música é capaz de provocar. Mas não em qualquer um. Muitos se deliciam com suas canções prediletas, porém não chegam a se arrepiar. Já outros se arrepiam ao ouvir algumas das músicas de que gostam, mas só algumas em meio à coleção de CDs que compraram a peso de ouro para desfrutá-los no sacrossanto recesso de seus lares. Curioso, não? Pois não se trata apenas de um factóide moderadamente interessante. É uma observação que atiça o espírito científico de quem se dedica a estudar a Neurociência da experiência estética. O rabugento já resmunga que o que ele quer mesmo é ouvir em paz o seu pagode sem ser incomodado com minúcias sobre o funcionamento do cérebro. Deixemo-lo em paz. Mas saibam que há motivos fortes para cientistas sérios se dedicarem a descobrir os fundamentos biológicos do prazer estético.
          E é isso que faz uma jovem cientista da Wesleyan University, nos EUA. A moça, filha de imigrantes chineses, Bacharel em Psicologia, PhD em Cognição e Comportamento Humano, ex-Instrutora de Neurologia em Harvard e hoje Professora de Psicologia, chama-se…Psyche Loui. Para evitar piadinhas com essa curiosa coerência entre nome próprio e profissão, acrescente-se que Psyche é também Bacharel em Música, exímia violinista e deu aulas de piano e violino em uma escola particular quando era aluna de graduação universitária. Um Curriculo desses explica direitinho seu interesse na Psicobiologia aplicada à estética, não é mesmo? Pois ela resolveu estudar os fundamentos neurobiológicos do tal arrepio causado por músicas em alguns seres humanos.
          Mais precisamente, ela está interessada em saber por que é tão variável a resposta emocional de seres humanos à música. Acreditem, há quem não sinta prazer algum em ouvir música, embora reaja normalmente a outras formas de arte, como a pintura. Já se sabia que o prazer estético associado à música depende de certas conexões entre áreas cerebrais relativamente bem delimitadas, uma parte delas dedicada à sensação auditiva e outra envolvida com diferentes formas de recompensa. Para entender melhor a razão da variabilidade entre pessoas distintas, Psyche e um grupo de colaboradores da Harvard University selecionaram, dentre um grande número de voluntários com reações as mais variadas à música, dois grupos: um de pessoas que se arrepiavam com suas canções prediletas - o “grupo do arrepio” - e outro que, embora tivesse suas predileções musicais, nunca se arrepiava - o “grupo sem arrepio”, é claro. O trabalho foi publicado em março de 2016 na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience.
          O estudo consistiu em apresentar aos participantes trechos de músicas identificadas pelos próprios voluntários como suas prediletas, e registrar para cada indivíduo o relato de suas sensações, bem como a ocorrência ou não de arrepios, o ritmo dos batimentos do coração e a condutância elétrica da pele, essas duas últimas respostas normalmente usadas para detectar alterações de cunho emocional. O resultado mostrou uma relação estreita entre a ocorrência de arrepios e a intensidade da resposta fisiológica à música. Além disso, os pesquisadores examinaram o cérebro dos participantes por uma técnica poderosa de imagem, chamada Ressonância Magnética Nuclear por Tensor de Difusão, detalhes da qual, acreditem, ninguém aqui quer saber. Basta acreditar que é usada para mostrar a estrutura de conexões cerebrais de indivíduos vivos. E o resultado foi interessante, porque o “grupo do arrepio” mostrou um volume muito maior de conexões entre a àrea auditiva e as áreas de recompensa do cérebro do que os “sem arrepio”. Bacaninha, né? Uma porção maior do cérebro é usada por quem apresenta respostas emocionais tão mais intensas que chegam a arrepiar o cidadão! A coincidência com os resultados do ritmo cardíaco e da condutância da pele demonstrou um engajamento fisiológico mais intenso no “grupo do arrepio”, compatível com a diferença de resposta individual à música.
          Pois taí o que a jovem Psyche faz na vida. Persegue com a Neurociência as razões pelas quais uns se emocionam mais do que outros com a música e, agora, já pergunta se uma relação análoga àquela entre a anatomia do cérebro e a experiência estética musical também se aplica a outras formas de arte. Os autores sugeriram que seus resultados podem ser importantes tanto para teorias científicas quanto filosóficas acerca da evolução da estética humana, em particular no caso da música, um elemento cultural heterogêneo porém universal.  De quebra, o trabalho pode dar pistas sobre outros mistérios do cérebro humano como, por exemplo, as causas das diferenças entre pessoas dotadas de alta empatia emocional e indivíduos portadores de distúrbios sócio-emocionais. como no autismo.
          Por fim, ainda podemos saborear a poesia embutida no nome da jovem cientista, Psyche, palavra que em grego significa “alma”, e nome da heroína de uma das mais belas narrativas da mitologia grega, a do amor verdadeiro entre Psyche e Eros. Sabe-se lá, talvez a primeira noite de amor dos protagonistas daquele mito tenha sido a inspiração para o apelido de “orgasmo da pele”, que alguns pesquisadores usam para definir o arrepio provocado pela apreciação estética da música.

Rafael Linden