sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Liberdade é uma calça velha

          Parece incrível, mas a alma jovial e pueril deste modesto cronista pertence a alguém do tempo em que se garimpava ferros de passar aquecidos a carvão, máquinas de costura obsoletas e pilões enormes de madeira maciça, vendidos baratinho em bazares no interior de Minas Gerais, para decorar a sala com o que considerávamos “antiguidades”, enquanto nossas avós chamavam aquelas tralhas de “velharias”. Isso depois de dois dias acampados, pela primeira vez nas nossas jovens vidas, em pleno Parque Nacional da Serra dos Órgãos no qual, para montar a barraca emprestada por um desavisado, a proverbial mistura de inexperiência e imprevidência nos fez escolher exatamente o lado vazio da clareira, oposto ao que já estava coalhado de outros aventureiros. Obviamente, nossa tenda foi inundada pela chuva torrencial que escorreu para o lado mais baixo do terreno, precedendo a épica invasão de um exército de formigas atraidas pelas migalhas dos biscoitos que as descuidadas meninas da turma saborearam enquanto os intrépidos varões levaram pelo menos uma hora para prender a barraca no chão, a golpes de caneca de metal, esquecidas que foram as ferramentas apropriadas. Ah, o frescor da juventude…primeira e única aventura campestre deste vosso criado, dali por diante camping só em hotel com várias estrelas no Guia Michelin.
          Naqueles tempos, no entanto, qualquer prazer nos divertia. E todos usávamos jeans, também conhecida como “calça americana”. Uniforme obrigatório, democraticamente distribuido ao longo do espectro ideológico, variava na marca e na origem – importada para alguns, já para outros comprada a preço de banana num depósito de roupas em um subúrbio distante. Também se usava, é bom lembrar, o termo “calça Lee”, indiscriminadamente para roupas daquela marca ou de qualquer outra, nacional ou importada, o que causava frouxos de riso quando alguém dizia que ganhou de presente “uma calça Lee da Levi’s”. A vestimenta era símbolo da juventude “descolada”, meio século antes do adjetivo “descolado” ser incorporado à versão coloquial da última flor do Lácio.
          Jeans eram sempre azuis e, de preferência, desbotadas pelo uso constante ou, antes do advento do stone washing, com água sanitária mesmo, para horror das mães e escárnio das mesmas avós que volta e meia oravam pela saúde mental de seus netos tresloucados. A moda garantia o sucesso de comerciais de TV, como a campanha criada pela agência JW Thompson para  as calças USTOP fabricadas pela São Paulo Alpargatas. O produto era propagado por uma historinha de amor estrelada por uma Sandra Annenberg adolescente e, principalmente, por um filmete embalado pela canção composta por Renato Teixeira, Sérgio Mineiro e Betto Ruschel, que dizia “Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar do jeito que quiser…não usa quem não quer…”. E o jingle continuava com um verso antológico, destinado a enfatizar a diferença entre as calças elegantes usadas por nossos pais e a vestimenta informal que  “…desbota e perde o vinco…denim indigo blue…”.
          Pois nossa conversa de hoje versa exatamente sobre o corante usado na fabricação daquelas calças, o tal indigo blue. Atualmente usa-se jeans vermelho, preto, verde, alaranjado, listradinho ou, como dizia minha mãe, “cor de burro quando foge”. Mas o indigo ainda é o clássico. Também pudera, pois engana-se a gentil leitora se pensa que esse corante começou a ser usado a partir do século XIX, quando o alemão Levi Strauss e o americano Henry David Lee fabricaram pela primeira vez calças e macacões super resistentes, a princípio de lona, depois de denim os quais, pouco tempo depois de inventados, passaram a ser tingidos com indigo blue. Para quem não sabe, não só aquele Levi Strauss não tem nenhuma relação com o antropólogo belga Claude Lévi-Strauss, mas o indigo é usado para colorir tecidos há milênios!
          A mais recente notícia sobre esse assunto veio de um artigo publicado na revista Science Advances de setembro de 2016, por um grupo de cientistas dos EUA, Inglaterra e Portugal. Até então pensava-se que o primeiro uso do indigo como corante tinha sido há cerca de quatro mil e quinhentos anos, no Egito. Mas o time liderado pelo antropólogo Jeffrey Splitstoser, da George Washington University, descobriu que indigo blue já era usado há mais de seis mil anos. Fragmentos de um tecido de algodão, que tinham sido coletados em um sítio arqueológico chamado Huaca Prieta, no norte do Peru, foram examinados pelos estudiosos, que desconfiaram da decoração azul detectada nos fios do tecido. Com o uso de uma técnica química chamada Cromatografia Líquida de Alto Desempenho, os pesquisadores identificaram o corante azul como uma mistura de indigotina e indirubina, componentes do indigo.
          Antes que alguém se anime a acusar os inventores da “calça americana” de espionagem industrial, os tecidos encontrados em Huaca Prieta dificilmente pertenceram a um modelito milenar de jeans. Mas o Doutor Splitstoser enfatizou, em uma entrevista ao portal Live Science, que povos das Américas já vinham fazendo contribuições científicas e tecnológicas tão cedo quanto ou, nesse caso, mais cedo do que povos em outras partes do mundo. Esse comentário lembra o livro “O homem que amava a China”, no qual o jornalista e escritor Simon Winchester retratou a vida de Joseph Needham, eminente cientista e autor da coleção de livros “Ciência e Civilização na China”. Nessa coleção, Needham descreveu suas descobertas de que muitos artefatos surgidos no Ocidente a partir da Revolução Industrial já tinham precedentes antiquíssimos inventados na China, frequentemente de forma artesanal, por exemplo por lavradores em lugares remotos do país.
          Pois é, minha senhora, pode parecer que não existe nada como um blogue para regurgitar idéias desconexas. Mas há algum sentido oculto na nossa salada mista. Talvez pela ironia contida no contrassenso de tornar símbolo da juventude rebelde dos anos cinquenta e sessenta do século passado, um produto industrial oriundo do gigante imperialista que era, e para muitos ainda é, alvo preferencial da revolta dessa mesma juventude. Ou pela sensação de que, malgrado o sistema internacional de patentes que assegura direitos a quem desenvolve novas tecnologias, de vez em quando basta cavucar para descobrir que nem sempre o novo é original. Ou, convenhamos, porque todo esse esforço para escrever uma crônica, no fundo, não passa de uma desculpa para sublimar uma certa nostalgia. Afinal, teclado de computador também é algo que…não usa quem não quer…

Rafael Linden



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Formigas atômicas

          “Lá vai a triônica, Formiga Atômica!!!”, era o grito de guerra do personagem de um desenho animado produzido na década de 1960 no lendário estúdio de William Hanna e Joseph Barbera, criadores de clássicos do cinema de animação como Tom e Jerry, Zé Colmeia, Flintstones, Manda-Chuva, Jetsons e, é claro, das duas dúzias de filmetes estrelados pela intrépida formiguinha alada, que volta e meia era convocada pela polícia para ajudar no combate ao crime. A Formiga Atômica usava um capacete, tinha em seu laboratório um formidável computador, suas antenas captavam chamados radiofônicos, ela voava a velocidades alucinantes e preparava-se para o combate à custa de exercícios com um par de halteres pesadíssimos. Como consequência dessa malhação, era capaz de erguer “50 vezes o seu próprio peso”, como se a estimada leitora pudesse, depois de ouvir todo o repertório da banda brega que polui o ambiente sonoro da churrascaria, tirar do chão uma van lotada com cinco casais de amigos chatos do seu marido e atirá-la ao mar.
          Cá para nós, duvido que o falecido dublador Rodney Gomes, que fazia a voz da formiga na versão brasileira, soubesse o que significa a inédita palavra “triônica” do retumbante brado do herói – que, no desenho animado, era um macho. Curiosamente, nunca se soube a razão pela qual o atlético himenóptero adquiriu tais superpoderes, embora especule-se que seja porque há cinquenta anos “atômico” era usado coloquialmente como sinônimo de forte, poderoso, ou tudo o mais que se aplicasse à formidável formiguinha. Ainda assim, o desenho animado serve-nos como uma luva para a crônica de hoje. En passant, nota o rabugento que “servir como uma luva” é um contrassenso, dada a imensa variação de tamanho da mão humana, na qual só serve luva de tamanho adequado. Voltando à vaca fria – e, a muito custo, evitando piadinhas pecuárias - o que nos interessa hoje é aquela premonitória mistura de “formiga” com “atômico”. Pois nosso assunto é exatamente uma colônia peculiar de formigas, descoberta num antigo depósito de armas nucleares dos tempos da Guerra Fria.
          O depósito fazia parte de uma base nuclear soviética localizada no obscuro vilarejo de Templewo, na Polônia, a cerca de cinquenta quilômetros da fronteira com a Alemanha. O vilarejo é difícil de encontrar até via Google, e apenas a versão em francês da Wikipedia dá um número para a população local, que seria de…sete habitantes em 2006. Também pudera, já que está nas proximidades de uma base nuclear secreta que existiu por mais de vinte e cinco anos e só foi desmantelada totalmente há menos de duas décadas. Apesar desta infausta origem, os restos do complexo militar ficam em meio a um rico ecossistema, devido aos numerosos pinheiros plantados estrategicamente para disfarçar a instalação bélica. Nessa floresta há naturalmente uma profusão de formigas disponíveis para fazer a felicidade de qualquer tamanduá que, porventura, emigrasse clandestinamente para a Europa. Na falta dos nobres mamíferos da família Myrmecophagidae – que quer dizer “comedores de formigas” – a vidinha dos insetos só vem sendo perturbada pela atividade científica de biólogos como o polonês Wojciech Czechowski e o finlandês Kari Vepsalainen, especialistas em comportamento e ecologia de formigas.
          Os dois lideraram o grupo de pesquisadores que descobriu a tal colônia da espécie Formica polyctena, e os achados foram publicados na revista Journal of Hymenoptera Research em agosto de 2016. Tudo começou quando os biólogos desrespeitaram os sábios ensinamentos de suas respectivas mãezinhas, e entraram por um buraco escavado clandestinamente através das grossas paredes de isolamento do depósito subterrâneo. Não, senhora, não sei qual o nível de radiação que sobrou e também estimo sinceramente que todos os que lá estiveram continuem com saúde. Dentro do bunker, em um cômodo estreito com dois metros e meio de altura, encontraram um formigueiro com centenas de milhares de formigas vivas e cerca de dois milhões de cadáveres de formigas mortas. Examinando detalhadamente o ambiente e comparando com o lado de fora, os pesquisadores descobriram que há um enorme ninho dessa mesma espécie de formiga, habitado por milhões de insetos, bem em cima de uma tampa metálica, a qual deveria servir para vedar um tubo de ventilação localizado exatamente no teto do quartinho, mas que estava toda corroída por ferrugem. Durante as expedições, eles flagraram formigas subindo pelas paredes e caindo do teto, e concluiram que as que caiam do ninho de superfície através da tampa de ventilação não conseguiam retornar à superfície e acabavam por se juntar à colônia que, na ausência das lanternas dos pesquisadores, permanecia na escuridão, ao contrário das formigas normais que pegam um solzinho maneiro quando saem para passear fora dos ninhos.
          E o mais estranho foi que, por mais que procurassem, os pesquisadores não encontraram no depósito desativado nenhum sinal de larvas nem de uma rainha, indicando que ali não há procriação, apenas repopulação por formigas que caem do grande ninho de superfície e compensam a morte de muitas das habitantes da colônia subterrânea. Ainda assim, os insetos, todas fêmeas trabalhadoras, se comportavam como previsto na célebre fábula de La Fontaine, incessantemente em ação construindo e reconstruindo partes do ninho e buscando alimento, como se fosse uma colônia normal que não morasse num buraco escuro, com um histórico macabro, sabe-se lá com que nível de radioatividade residual e a poucos metros da nababesca colônia da superfície. Qualquer semelhança com a organização social de inúmeras cidades por aí é mera coincidência, não acha, minha senhora?...
          O rabugento, que beberica um refrigerante geladinho, confortavelmente instalado em sua chaise longue, está a matutar sobre esse trabalhão todo que formigas sem futuro encaram sem parar, abstraídas da inutilidade de todo seu esforço. E entre um gole e outro pensa “mas que bicho estúpido”. Porém, o sabidinho ignora que essa mesma espécie de inseto foi, em 1996, protagonista de outro artigo científico, dos cientistas russos Zhanna Rezhikova e Boris Ryabko, da Universidad de Novosibirsk, na Sibéria, e que foi traduzido para o inglês na revista Neuroscience and Behavioral Physiology. Nesse estudo os pesquisadores, que são especialistas consagrados, respectivamente, em comportamento de insetos sociais e em matemática aplicada, relataram indícios de que formigas desta espécie são capazes de estimar números de objetos e transmitir essa informação para outras da mesma colônia, coisa essa que pode ajudar o exército de trabalhadoras a encontrar o necessário para manutenção do ninho e alimentação da colônia. Durma-se com um barulho desses!
          Ou seja, perto da Formica polyctena, a Formiga Atômica de Hanna e Barbera é fichinha…
         
Rafael Linden