segunda-feira, 7 de novembro de 2016

De livro fechado não sai letrado

          Cá entre nós, gentil leitora, não é um luxo que o título de nossa crônica de hoje seja um antigo provérbio citado na versão corrente em Portugal? Tamanha “internacionalização” nos eleva a um patamar jamais imaginado por nossos detratores, não é mesmo? Tá, tá, basta de cabotinismo, mas convenhamos que o dito popular fica especialmente saboroso quando regado a um bom Cabeço das Nogueiras Premium, campeão dos azeites d’além-mar. Nesses tristes tempos em que editoras e livrarias penam para sobreviver, quando não desaparecem de todo, há que se falar de livros. Não foi à toa que Machado de Assis fez o personagem Brás Cubas, nosso favorito em toda sua obra, confessar o temor de que suas memórias póstumas se limitassem a um único exemplar, o qual talvez acabasse nas mãos de um bibliômano que “…fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar único!...”. Vez por outra, queiram perdoar, deve-se citar um mestre ipsis literis.
          E para que fim? Por acaso o humilde autor deste singelo blogue pretende agora se tornar mais um exegeta de Machado? A audácia! Tranquilizai-vos, longe de nós semelhante isso. Apenas nos aflige a sensação de que a cada dia mais livros permanecem fechados por aí, mesmo quando comprados ou recebidos de presente. Fosse apenas o preço a pagar pela migração do livro em papel para as telas de computadores, tabletes ou espertofones, não seria de todo mau. Mas parece que a memória das engenhocas também anda cheia de literatura virgem. Seja como for, é certo que para ler um livro, no papel ou nas entranhas das máquinas, é preciso abri-lo. Mas, ora vejam, não é que a Ciência está agora a ponto de demolir mais essa nossa certeza? E isso graças a pesquisadores que trabalham no Massachussetts Institute of Technology e no Georgia Institute of Technology, nos EUA, entidades mais conhecidas por suas alcunhas MIT e Georgia Tech.
          O grupo foi liderado por um jovem cientista iraniano, chamado Barmak Heshmat. Ele vem se destacando em sua trajetória acadêmica desde sua admissão como estudante universitário no Iran, há cerca de quinze anos, e agora é uma das estrelas do famoso MIT Media Lab, de onde já sairam inúmeras inovações, entre outras, no campo das imagens. Seu objetivo é desenvolver tecnologias para extrair, de forma não-invasiva, informação de estruturas organizadas em camadas superpostas. Esse tipo de trabalho se aplica, por exemplo, à inspeção industrial ou ao exame de objetos pintados e repintados várias vezes, como certas obras de arte. Mas Heshmat focalizou seu trabalho na possibilidade de ler o conteúdo de livros fechados. O leitor rabugento, preguiçoso como ele só, já se interessou pela idéia de desfrutar da literatura sem precisar largar o copo, que segura na mão esquerda, nem os croquetes que besuntam a direita. Mas há propósitos mais nobres nesta tecnologia, a qual poderá, por exemplo, permitir o exame do conteúdo de livros raros, muito antigos, cujo manuseio seria destrutivo por causa do ressecamento que os fragiliza a ponto de impedir que sejam sequer folheados.
          Os sete pesquisadores, liderados por Heshmat, publicaram seu trabalho na revista Nature Communications em setembro de 2016. Lá descrevem uma nova técnica para identificar letras escritas em uma pilha de folhas de papel, sem separar as folhas. Para isso, usaram feixes da chamada “radiação Tera-hertz” ou “raios T”. Essa radiação faz parte da família das ‘radiações eletromagnéticas”, ou seja, tem natureza semelhante à luz visível. Mas as características dos raios T são intermediárias entre o calor, com o qual a gentil leitora se delicia nas praias cariocas, e as micro-ondas que o rabugento usa diariamente para requentar seu jantar. Física da melhor qualidade foi usada pelos pesquisadores para isolar o conteúdo das páginas individuais empilhadas, enquanto Informática super moderna permitiu processar as imagens para detectar as letras escritas. Tudo isso por causa do comportamento dos raios T refletidos pela finíssima camada de ar entre as folhas empilhadas, ou perturbados por materiais distintos, como o papel em branco ou a tinta usada para escrever as letras. O procedimento mostrou claramente, uma por uma, as letras escritas em cada uma das nove folhas de papel empilhadas no experimento publicado pelos cientistas.
          E é agora que o rabugento insulta pelo menos seis gerações da família deste que vos escreve, queixando-se de ler isso tudo aí de cima por causa de meras nove páginas, quando ele esperava a Enciclopédia Britânica ao seu alcance sem esforço nenhum. Pois essas nove páginas são apenas o primeiro passo de um trabalho que promete refinar a nova tecnologia, para aumentar o número de páginas e melhorar as imagens. Afinal, a primeira transmissão de rádio ou televisão, o primeiro computador pessoal e, não duvidem, o primeiro croquete, padeciam do que hoje se considera um primitivismo inaceitável. Toda tecnologia nova começa assim. Mas não se enganem com o número relativamente pequeno de páginas, porque trata-se de um salto respeitável de qualidade tecnológica. Provavelmente, em um futuro não muito distante, seremos capazes de ler um livro raríssimo, um exemplar único como imaginado por Brás Cubas, bastando frequentar um museu ou biblioteca.
          Há uma ironia gratuita nesta tecnologia, que faz uso de uma radiação com características intermediárias entre o calor das micro-ondas e o do sol, quando a comparamos com o mesmo sol ao qual o único exemplar das Memórias Póstumas de Brás Cubas teria sido exposto por um bibliômano em êxtase. E, já que começamos com um provérbio, não custa assinalar que, em breve, o aforismo “não se deve julgar um livro pela capa” poderá perder seu significado literal para permanecer apenas como o sábio conselho de conhecer profundamente aquilo que, na superfície, aparenta algo que não é.


Rafael Linden


3 comentários:

  1. Ia dizer que para livros velhos e valiosos, tudo bem. Mas que para os novos, seria nos privar do cheiro, ah o cheiro deles, por primeiro... Não tem mais, não como era. Era do quê, cientista-escritor-escritor-cientista?

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