sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A misteriosa ave natalina

          É chegada a véspera do Natal e a gentil leitora dá os últimos retoques na decoração do pinheirinho, antevendo a alegria das crianças ansiosas pela visita de Papai Noel. Vez por outra, nossa fã dá uma olhadinha no forno para ver a quantas anda a deliciosa ave natalina que, em poucas horas, se desmanchará nas bocas ávidas da família reunida. E é aí que lhe vem à mente a dúvida cruel: afinal, que ave é essa que eu estou assando?
          Pois ainda ontem, num supermercado da cidade, uma simpática reporter de TV entrevistou uma freguesa que se queixava da carestia. A aflita senhora se dizia assustada com os preparativos da ceia tradicional, pois o preço do peru está pela hora da morte e, você sabe, com essa crise e coisa e tal... Ato contínuo, a zelosa jornalista passou a palavra para o responsável pelo setor de carnes congeladas do estabelecimento. Este, esbanjando autoridade, ofereceu à freguesa a alternativa de assar uma “ave temperada congelada”, de excelente qualidade, com gosto quase idêntico ao do peru, a um custo bem menor. Malgrado a alegria que tomou conta da telinha, o que de fato nos impressionou foi constatar que, assim como nossa leitora, jamais nos perguntamos que diabo de ave seria aquela, de tamanha importância para as festas natalinas. Se não um peru, o que é?
          Numa hora dessas, o que faz um cronista? Não, senhora, não é o caso de alertar as autoridades sanitárias. O escritor recorre à Internet, digitando “ave temperada congelada” no buscador. Em fração de segundo, chega-nos aos olhos a bagatela de setenta mil verbetes, o primeiro dos quais oferece a explicação de que se trata de “uma ave com maior concentração de carnes nobres, como peito e coxas”. Não fosse a foto da embalagem, poder-se-ia desconfiar de pornografia. O segundo verbete informa que a ave congelada de outra marca está indisponível. Uma corrida às compras pelos telespectadores do noticiário matutino? Prosseguindo na busca, finalmente descobrimos que ao menos algumas das aves temperadas são…frangos. Mas não é qualquer frango. Um deles é “uma linhagem especial que veio das terras altas da Escócia”. Só um especialista pode explicar aos caros leitores a razão de sair mundo afora para escolher um galináceo entre, pelo menos, as variedades Light Sussex, Jubilee Orpington, Cuckoo Maran, Anaconda, Salmon Faveolle, Welsummer, Buff Orpinton e muitas outras, e trazer a eleita para nossa terrinha, que produz mais de doze milhões de toneladas por ano e exporta frangos para mais de cento e quarenta países. Mas, são coisas da indústria, que pouco nos importam se a tal ave, quando assada, é saborosa, nutritiva e mais barata que um peru.
          Então, respiram aliviados nosso inúmeros seguidores, trata-se de frangos como, por exemplo, o “chester” que, enfim aprendemos, é uma marca registrada por uma empresa para designar frangos tão peitudos e coxudos quanto vários outros de outras marcas. É claro, resmunga o rabugento, esse cronista metido a besta, por acaso, achava que a ave temperada congelada era urubu? Não chegamos a esse extremo, mas, entre as pérolas com que a Internet nos brinda, encontramos o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Aves Temperadas, expedido pelo Ministério da Agricultura, o qual, a folhas tantas define que “…entende-se por Aves Temperadas o produto cárneo industrializado, obtido de aves domésticas como Frango, Galinha, Peru, Marreco, Galinha d'Angola e outros…”. Outros? Que outros??!! Consola-nos saber que urubu não é propriamente uma ave doméstica, e que também estamos livres das galinhas selvagens da ilha de Kauai, no Havaí, descendentes de galinhas domésticas que escaparam dos quintais de casas na ilha e foram morar na floresta vizinha. Mas, acreditem, o insuspeito IBAMA considera oficialmente domésticas para fins de operacionalização – seja lá o que isso for -, aves como canários, periquitos, pombos e até cisnes negros. Esperneie quanto quiser, rabugento, porém nada impede que o seu vizinho rotule como “ave temperada congelada” qualquer exemplar de sua ruidosa criação de periquitos que ele porventura roube e guarde no freezer.
          Confessamos, então, que mesmo depois de tanta busca na Internet, infelizmente, persiste uma pulga atrás de nossa orelha. Entre outras coisas, por conta de uma historinha que nos chegou a partir do testemunho de um ilustre ex-aluno de respeitabilíssima Universidade brasileira. Vizinhos ao prédio onde nosso informante estudou, há uma praça cheia do que a modernidade chamaria de food trucks, ou seja, na verdade uns trailers mal-ajambrados, entre os quais se destaca uma pastelaria muito popular. Um professor costumava encomendar, para entrega em sua unidade de ensino, pombos vadios para demonstrações nas aulas práticas de Anatomia de Aves. Um belo dia, na falta de animais, o professor saiu à pracinha, onde sempre se via uma infinidade de pombos. Desajeitado, o mestre tentava de tudo, mas não conseguia capturar nenhum. Lá pelas tantas, o dono da pastelaria saiu de seu trailer e ofereceu ajuda. Aproximou-se lentamente de um pombo que ciscava no chão e logo a ave se deixou pegar, sem resistência, ao som da melodiosa voz do Sr. Wang, que cantarolava mansamente “fango…fango...”.
          Feliz Natal!
         
Rafael Linden



4 comentários:

  1. Legal Rafael! Feliz natal para você também!!! Seja com peru, frango ou outros...

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    1. Obrigado, Luiza. Tudo de bom, sucesso e sorte para você e todos os seus.

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