domingo, 11 de dezembro de 2016

Yes, nós tínhamos bananas...

          “Banana, menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer…”. E lá se foram décadas desde a estréia da marchinha “Yes, nós temos bananas”, de Braguinha e Alberto Ribeiro, gravada por Almirante para o Carnaval de 1937. Bons tempos, em que nem mesmo a insinuação de que a fruta lhe acrescentaria uns quilinhos, impedia a avó da gentil leitora de se esbaldar com a musiquinha no primeiro baile de gala realizado no Theatro – com “h” – Municipal do Rio de Janeiro. Naquele ano, em plena Praça Onze, a Associação Recreativista Vizinha Faladeira venceu o desfile das Escolas de Samba; quando se esgotou o horário autorizado para o evento, o Delegado de Polícia mandou desligar a corrente elétrica, retirou o policiamento do local e, com isso, impediu o desfile de metade das concorrentes; e no dia seguinte, o certame do grupo de acesso não aconteceu porque o encarregado da organização não deu as caras. Tinha disso. E tínhamos, dizia a canção, “bananas pra dar e vender…” .
          Ainda as temos. Até quando? Pois especialistas alertam que, na falta das devidas providências, dentro de pouco tempo poderá acontecer uma catástrofe com a população mundial de bananas d’água, por aqui também chamadas de bananas nanicas. Dito assim, parece mera desculpa para escrever uma crônica com piadinhas infames. Mas é assunto sério. E de nada adianta o leitor rabugento dar de ombros porque banana d’água lhe dá dor de barriga e, por isso, não a come. Sua variedade predileta, seja qual for, pode ir pelo mesmo caminho.
          A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – conhecida pela sigla FAO - informa que há no planeta por volta de mil variedades distintas de banana. Mas um único tipo responde por cerca de metade de todas as bananas colhidas, e pela quase totalidade das comercializadas por exportação no mundo inteiro. É a Cavendish, nome de família do Duque de Devonshire, em cuja propriedade o jardineiro Joseph Paxton plantou, em 1830, a primeira muda deste tipo de fruta na Inglaterra, oriunda da Maurícia, à época uma colônia britânica. Cinco anos depois, quando o jardineiro logrou colher uma centena de bananas e foi premiado pela Sociedade Horticultural, os empregados da propriedade aproveitaram a ocasião para puxar o saco do Duque, batizando a fruta com seu nome. Pois a banana d’água é uma Cavendish, descendente daquela bananeira histórica.
          O problema é que as bananas deste tipo estão em perigo, por causa de um fungo que causa a chamada “doença do Panamá”. Há muitas pragas que podem atacar bananeiras, com consequências que vão desde manchas inofensivas na casca até a devastação completa da plantação. E a doença do Panamá é um dos casos mais graves. Desde o século XIX a variedade Cavendish era resistente a este fungo, ao contrário da maioria das outras bananas comestíveis. Por isso mesmo, tornou-se a mais comercializada no mundo inteiro quando, há cinquenta anos, a então recordista Gros Michel sucumbiu ao tal fungo em escala mundial. Os produtores e, particularmente, as empresas que dominam o mercado se concentraram então na Cavendish e, agora, arrancam os cabelos para descobrir como livrar nosso planeta de mais este flagelo que se avizinha – o fim das bananas!
          Já se sabe que a Cavendish se tornou sensível à doença do Panamá porque surgiu uma nova variedade do fungo, que difere geneticamente das anteriores. Esse tipo de coisa é uma consequência natural da evolução dos microorganismos, mas nem tudo está perdido. Nos mais inusitados confins da Terra, pesquisadores vem procurando e achando bananas selvagens, que não são consumidas por essa nossa civilizaçãozinha mimada, a qual despreza tais frutos, ora vejam, só porque tem mais sementes verdadeiras do que polpa, sabor repugnante e, principalmente, não são vendidas no mercadinho da esquina. E para que essa garimpagem de bananas exóticas? Não é, felizmente, para nos educar a comer aqueles troços, e sim para estudar suas propriedades biológicas, em busca de mecanismos que tornaram algumas delas ainda resistentes à nova forma da doença do Panamá e, com sorte, a muitas outras pragas.
          Os cientistas estão também procurando os genes responsáveis pela resistência que a Cavendish tinha contra as variedades anteriores do fungo. Quando descobrirem talvez seja possível, por exemplo, produzir bananas d’água transgênicas para substituir a Cavendish tradicional. Vejo daqui nossa gentil leitora arrepiar os cabelos ao ler o adjetivo “transgênico” junto com o substantivo “banana”. Antes que este blogue perca de vez sua numerosa audiência, deixemos aqui registrado nosso amor incondicional pela Natureza e tudo que ela nos oferece, das paisagens às frutas, passando pela biodiversidade em geral e pelo ar puro. E aplaudimos o privilégio de quem tem acesso a vegetais de boa qualidade produzidos pela chamada agricultura orgânica. No entanto, a fruticultura orgânica no Brasil ainda é incipiente e inconstante, a oferta é muito limitada e a equação da banana é complicadíssima. Por exemplo, cerca de metade das seis ou sete milhões de toneladas de bananas produzidas por ano na nossa amada terrinha são de outra variedade mas, assim como a Cavendish, são sensíveis a diversas pragas comuns nas vizinhanças. No mundo inteiro, por enquanto, o controle dessas pragas é geralmente feito por uma combinação de poda seletiva com aplicação de agrotóxicos. Por outro lado, cientistas brasileiros, principalmente da EMBRAPA, vem há anos trabalhando em programas de Melhoramento Genético das bananeiras, e a cada dia surgem novas tecnologias das quais se espera sucesso progressivo. Dentre essas, ainda que controversa, a produção de alimentos transgênicos não pode ser simplesmente descartada como alternativa desde que, é claro, devidamente fundamentada em estudos científicos e avaliação de riscos à Saúde.
          Afinal, em todo o mundo, mais de cem bilhões de bananas são consumidas por ano e, em muitos lugares, a fruta é indispensável para garantir um mínimo de eficácia à alimentação local. A chave para a solução do problema, segundo especialistas, está na diversificação de variedades da fruta, que promete aumentar as chances de resistência de algumas delas à evolução inexorável das pragas, em lugar da uniformidade genética representada por bananas descendentes de um único cacho que por acaso foi parar nas mão de um jardineiro inglês no século XIX.
          Tudo indica que a descoberta de soluções para a crise da banana é mais provável através do exame criterioso e teste de múltiplas idéias e tecnologias, baseadas em métodos tradicionais ou não. Porém, o destino das simpáticas frutinhas ainda esbarra em questões cabeludas, como o choque entre o direito à propriedade da biodiversidade mundial e as práticas de conglomerados empresariais, bem como a predominância de opiniões radicais sobre benefícios e malefícios de novas tecnologias, além de disputas territoriais, interferência e intolerância política ou ideológica, roubalheira descarada e por aí vai.
          Cá para nós, mesmo o rabugento é capaz de, às vezes, tolerar outras idéias que não as próprias e chegar a um denominador comum com a gentil leitora, o humilde cronista e muitos outros cidadãos dentre a multidão que se aglomera em torno deste blogue. Mas a crescente praga de sectarismo e raiva epidêmica, que assola todos os setores da vida contemporânea, não tem oferecido soluções para coisa nenhuma. E dificilmente ajudará a salvar as prosaicas bananas, cuja redenção parece, como tantas outras coisas, depender do binômio diversidade-tolerância. Quem dera a véspera do Natal de 2006 não nos tivesse roubado o Braguinha, pois ele ainda estaria por aí cantando “Yes, nós temos bananas”. No entanto, se for inevitável mudar a letra da marchinha, que pelo menos não seja porque gente capacitada e bem intencionada desperdiçou oportunidades por sectarismo ou intolerância. Já nos basta a frequência com que tantos bons frutos da aventura humana andam a desaparecer por causa disso.


Rafael Linden


2 comentários:

  1. Vamos ter, em poucos anos, muita coisa desaparecendo desse planeta...

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    1. Certos "abacaxis" não nos fariam falta. Infelizmente são resistentes...

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